1. Introdução: Mateus, a Porta de Acesso à Pessoa de Cristo
O Evangelho de Mateus é frequentemente descrito como a grande porta de entrada para o Novo Testamento e, mais especificamente, para uma compreensão robusta da pessoa de Jesus Cristo. Não se trata de uma afirmação superficial; teólogos e historiadores ao longo dos séculos têm reforçado essa percepção. O teólogo D.A. Carson, por exemplo, argumenta que ignorar a leitura de Mateus é resignar-se a conhecer apenas uma faceta da complexa identidade de Cristo. Outros estudiosos destacam que este evangelho revela a manifestação de um "Deus que tem história", sublinhando a importância fundamental da historicidade na fé cristã.
Essa valorização não é recente. Desde os primeiros séculos, os Pais da Igreja — período conhecido como a era patrística, que se estende do século I ao VII — como Agostinho de Hipona, Irineu de Lião e Eusébio de Cesareia, já incentivavam a leitura aprofundada de Mateus. Indo ainda mais longe, o Didaquê, um dos mais antigos escritos cristãos (datado por volta de 130 d.C.) e utilizado como manual de instrução apostólica, descrevia a mensagem contida no livro como a revelação da "beleza do Deus todo-poderoso".
É fundamental, contudo, fazer uma distinção terminológica precisa: não se trata do "Evangelho de Mateus", mas do "Evangelho segundo Mateus". A nuance é crucial, pois o Evangelho — a boa-nova — pertence unicamente a Jesus Cristo. Os quatro evangelistas são os cronistas inspirados que registraram essa mensagem sob perspectivas únicas e complementares.
Nesse conjunto, os três primeiros evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) são classificados como sinóticos. O termo indica que eles compartilham uma "mesma ótica" ou perspectiva, narrando muitos dos mesmos eventos e ensinamentos, de forma que se complementam mutuamente na construção do retrato de Jesus. O Evangelho de João, por sua vez, segue uma estrutura e um propósito distintos. Seu foco não recai sobre a mesma quantidade de parábolas ou ensinamentos pedagógicos. A preocupação central de João é apresentar o Deus encarnado, como declara majestosamente em seu prólogo:
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. [...] E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade." (João 1:1, 14)
Enquanto João se aprofunda na divindade pré-existente de Cristo, os sinóticos, com Mateus à frente, constroem a ponte entre as promessas do Antigo Testamento e a sua realização histórica na pessoa do Messias.
2. As Quatro Faces do Messias: A Visão de Ezequiel e a Apresentação de Jesus
Para compreender a singularidade de cada Evangelho, a tradição teológica frequentemente recorre a uma visão grandiosa descrita no Antigo Testamento. Cerca de seis séculos antes de Cristo, durante o quinto ano do cativeiro babilônico, o profeta Ezequiel teve uma revelação extraordinária à beira do rio Quebar. Ele descreve seres angelicais, identificados como querubins, de aparência gloriosa e complexa. O detalhe mais significativo para a nossa análise está na descrição de suas faces.
Conforme narrado no livro de Ezequiel, cada um desses seres possuía uma única cabeça com quatro faces distintas, apontando para as quatro direções cardeais.
"Quanto à semelhança dos seus rostos, todos os quatro tinham rosto de homem; à direita, rosto de leão; à esquerda, rosto de boi; e todos os quatro tinham também rosto de águia." (Ezequiel 1:10)
Essa imagem profética é amplamente interpretada como um símbolo poderoso que antecipa a maneira multifacetada como Jesus Cristo seria apresentado ao mundo através dos quatro Evangelhos. Não se trata de quatro visões contraditórias, mas de quatro perspectivas complementares que, juntas, formam um retrato completo e coeso da pessoa e obra do Messias. Cada face do querubim corresponde à ênfase principal de um dos evangelistas:
- A Face de Leão (Mateus): O leão é o rei dos animais, um símbolo de realeza, poder e autoridade. Mateus apresenta Jesus primariamente como o Leão da Tribo de Judá, o Messias prometido, o Rei que veio para cumprir a lei e as profecias e estabelecer Seu Reino. Sua genealogia, seus discursos de autoridade e seus títulos régios reforçam essa imagem.
- A Face de Boi (Marcos): O boi (ou novilho) é um animal de serviço e sacrifício. O Evangelho de Marcos retrata Jesus como o servo sofredor, que veio "não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Marcos 10:45). A narrativa é dinâmica, focada nas ações e no serviço incansável de Cristo.
- A Face de Homem (Lucas): Lucas, o médico e historiador detalhista, enfatiza a perfeita humanidade de Jesus. Ele O apresenta como o Filho do Homem, cheio de compaixão, acessível a pecadores, mulheres e marginalizados. Sua genealogia remonta até Adão, conectando-O a toda a humanidade.
- A Face de Águia (João): A águia voa nas alturas e possui uma visão penetrante. Esta face simboliza a perspectiva celestial e divina do Evangelho de João, que apresenta Jesus como o Verbo eterno, o Filho de Deus, focando em Sua divindade, glória e natureza pré-existente.
Assim, os quatro Evangelhos, juntos, revelam as múltiplas facetas do caráter e da missão de Cristo. Eles são o desdobramento daquela visão profética, mostrando que a revelação completa de quem Jesus é exige a contemplação de todas as suas dimensões: a realeza, o serviço, a humanidade e a divindade. Cada evangelista nos ajuda a ver um ângulo diferente da única e gloriosa "Face de Cristo".
3. O Cristo Histórico: A Importância da Genealogia para o Público Hebreu
A posição de Mateus como o primeiro livro do Novo Testamento não é acidental. Sua estrutura e conteúdo formam uma ponte magistral entre a Antiga e a Nova Aliança, tornando-o o ponto de partida ideal para a revelação cristã. A chave para entender essa função está em sua audiência primária — o povo hebreu — e na forma como o evangelho se inicia.
O livro começa de forma impactante e, para uma mente não familiarizada com a cultura judaica, até paradoxal:
"Livro da genealogia [em grego, geneseos] de Jesus Cristo, Filho de Davi, Filho de Abraão." (Mateus 1:1)
A palavra grega geneseos pode ser traduzida como "gênesis", "origem" ou "genealogia". É a mesma raiz usada na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento) para o título do primeiro livro da Bíblia, Gênesis (Bereishit em hebraico, que significa "no princípio"). Mateus está, deliberadamente, declarando que está apresentando a "Gênesis de Cristo". Mas como Aquele que é eterno, sem começo e sem fim, pode ter um "início"?
A resposta reside no profundo respeito que a cultura judaica nutre pela história. Para a mentalidade hebraica, a história não é apenas um registro do passado; ela confere identidade, legitimidade e autoridade. Um famoso rabino e exegeta do século XI, conhecido como Rashi, sintetizou esse pensamento ao afirmar que "quem não tem história, não tem autoridade". Manifestações espirituais momentâneas eram menos valorizadas do que uma linhagem comprovada e um histórico consistente com as promessas de Deus.
Portanto, a tarefa de Mateus era apresentar Jesus não como uma figura divina que surgiu subitamente, mas como o Cristo histórico, aquele cuja vinda era o clímax de séculos de história e profecia. Jesus não veio para inventar algo novo, mas para cumprir tudo o que havia sido dito a seu respeito. Das mais de 300 profecias messiânicas encontradas de Gênesis a Malaquias, cerca de 60 são registradas como cumpridas apenas no Evangelho de Mateus, que frequentemente utiliza a fórmula: "para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta".
Um dos títulos mais potentes que Mateus utiliza para sublinhar essa conexão histórica é "Filho de Davi". Este não era um mero apelido, mas uma declaração messiânica que ecoava a promessa de um rei eterno do trono de Davi. É significativo que, na narrativa de Mateus, pessoas em desespero reconhecem Jesus por este título. A mulher cananeia clama: "Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!" (Mateus 15:22). O cego de Jericó grita: "Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!" (Mateus 20:30). Eles não O veem apenas como um curandeiro, mas como o herdeiro do trono, o Messias com uma história.
Ao iniciar com a genealogia, Mateus estabelece, desde a primeira linha, as credenciais irrefutáveis de Jesus como o Messias prometido a Israel, enraizado em sua história e cumprimento de suas profecias.
4. A Genealogia da Graça: Inclusão e Redenção na Linhagem do Rei
Uma genealogia real geralmente evoca imagens de uma linhagem pura, nobre e imaculada. No entanto, um olhar atento à lista apresentada por Mateus no capítulo 1 revela uma narrativa surpreendente e radicalmente inclusiva. Em vez de ocultar as complexidades e os escândalos do passado de Israel, Mateus os destaca, mostrando que a linhagem do Messias é tecida com os fios da graça divina, e não da perfeição humana.
De forma intencional e contrária aos costumes patriarcais da época, Mateus inclui quatro mulheres com histórias marcadas por irregularidades sociais, morais e étnicas, além de Maria:
- Tamar: Sua história, registrada em Gênesis 38, é complexa e envolve engano para garantir a continuidade da linhagem de Judá. Sua inclusão desafia noções simplistas de retidão.
- Raabe: Descrita como uma prostituta de Jericó (Josué 2), ela não era apenas uma mulher com um passado socialmente condenável, mas também uma gentia, ou seja, não pertencia ao povo de Israel por nascimento.
- Rute: O livro que leva seu nome a identifica claramente como "a moabita". Os moabitas eram um povo estrangeiro e, por vezes, inimigo de Israel, cuja entrada na assembleia do Senhor era restrita pela Lei (Deuteronômio 23:3).
- Bate-Seba: Mateus a identifica de forma sutil, mas poderosa, como "a que fora mulher de Urias" (Mateus 1:6). Essa referência invoca diretamente um dos episódios mais sombrios da história de Israel: o adultério de Davi e o assassinato de um homem fiel para encobrir o pecado.
Por que incluir essas figuras em uma linhagem sagrada? A mensagem é profunda e transformadora: a linhagem do Messias não é definida pela perfeição humana, mas pela soberana graça de Deus, que age através de pessoas imperfeitas e improváveis para cumprir Seus propósitos redentores.
O Evangelho, como Mateus o apresenta desde o início, não é uma história para pessoas perfeitas. É uma boa-nova para os que se reconhecem falhos e necessitados de "recuperação". A presença dessas mulheres na genealogia de Jesus é a prova de que, na economia de Deus, não há barreiras de etnia, passado ou pecado que a graça não possa superar. A genealogia de Cristo é, portanto, a genealogia da graça, onde o sangue dEle não apenas corre através de uma linhagem, mas a purifica, convidando todos — independentemente de sua história — a fazerem parte dela.
5. O Mestre por Excelência: O Sermão do Monte e o Ensino por Parábolas
Além de apresentar Jesus como o Rei messiânico, o Evangelho de Mateus O exalta como o Mestre por excelência, o legislador supremo cuja autoridade para ensinar o caminho da salvação é inquestionável. Este evangelho não está primariamente focado em evocar emoções momentâneas, mas em construir um fundamento sólido de doutrina e prática de vida.
Uma evidência clara desse foco está na proeminência que Mateus concede ao ensino por parábolas. Embora haja um debate acadêmico sobre o número exato de parábolas proferidas por Jesus — com estimativas variando entre 40 e 42 —, é notável que Mateus registre 25 delas. Essa concentração substancial demonstra a intenção do evangelista de preservar o rico conteúdo didático do ministério de Cristo.
Contudo, a joia da coroa do ensino em Mateus é, sem dúvida, o Sermão do Monte. Registrado de forma ordeira e detalhada ao longo de três capítulos (Mateus 5 a 7), este discurso é a mais extensa e completa compilação dos ensinamentos éticos de Jesus. Nenhum outro evangelista o apresenta com tal clareza e profundidade. A profundidade e o poder transformador deste sermão são tão universais que até mesmo figuras de fora da fé cristã, como Mahatma Gandhi, reconheceram seu valor incomparável. Gandhi chegou a afirmar que, se todos os textos sagrados de todas as religiões se perdessem e restasse apenas o Sermão do Monte, nada teria sido perdido, pois seu conteúdo seria suficiente para mudar a sociedade.
Essa mudança, como ressalta a lógica do evangelista, não se concentra em estruturas físicas, mas em pessoas. A preocupação de Mateus não é com o Templo de Salomão ou a tenda de Davi, mas com a "linhagem dos homens", as vidas que compõem a família de Deus. O Sermão do Monte visa transformar o indivíduo de dentro para fora.
A estrutura do livro reforça magistralmente essa ênfase. Mateus inicia seu evangelho estabelecendo a autoridade histórica do Mestre (a genealogia) e o conclui com um mandamento direto para perpetuar Sua obra de ensino (a Grande Comissão). Do início ao fim, a mensagem é clara: fazer parte da linhagem de Cristo implica em aprender com Ele e submeter-se aos Seus ensinamentos.
6. Quebrando o Silêncio: O Contexto Político-Religioso do Nascimento de Jesus
A folha em branco que separa o Antigo do Novo Testamento em muitas Bíblias é mais do que um espaço de diagramação; ela representa um silêncio profético de aproximadamente 400 anos. Este período, conhecido como interbíblico, foi uma era de profundas transformações políticas e sociais para o povo de Israel, mas sem a voz direta de um profeta de Deus.
Após a última profecia de Malaquias, sob o domínio do Império Medo-Persa, a história testemunhou uma sucessão de potências mundiais. Primeiro, a ascensão do Império Greco-Macedônio sob Alexandre, o Grande, que helenizou o mundo conhecido. Após sua morte prematura, seu império foi dividido, e a Judeia se tornou um palco de disputas. Finalmente, o poder avassalador de Roma se impôs, e foi sob o governo do imperador César Augusto que o cenário para o Novo Testamento foi estabelecido.
É nesse contexto de dominação romana que surge a figura de Herodes, o Grande, o rei vassalo da Judeia na época do nascimento de Jesus. Herodes era uma figura de dualidades extremas. Por um lado, foi um construtor visionário, responsável por obras monumentais como a magnífica ampliação do Templo de Jerusalém, a construção do estratégico porto de Cesareia Marítima e a imponente fortaleza de Massada.
Por outro lado, sua grandiosidade arquitetônica era ofuscada por uma personalidade paranoica, cruel e sedenta por poder. Casado com dez mulheres, Herodes não hesitava em eliminar qualquer um que considerasse uma ameaça ao seu trono, chegando a executar a própria sogra e um cunhado. Seu reinado também foi marcado por uma profunda corrupção religiosa. A linhagem sacerdotal de Arão foi posta de lado, e o cargo de sumo sacerdote passou a ser um peão em seu jogo político, concedido por manipulação e favorecimento.
É precisamente neste cenário de opressão política e decadência espiritual que Mateus situa o nascimento do verdadeiro Rei, numa declaração de contraste intencional e poderosa:
"Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes..." (Mateus 2:1)
A menção a Herodes não é um mero detalhe cronológico. Mateus está fazendo uma afirmação teológica: enquanto um homem que se autoproclamava "grande" governava com medo e tirania, o Deus Todo-Poderoso encarnava em humildade para mostrar quem é o verdadeiro Rei dos reis e Senhor dos senhores. O silêncio de 400 anos foi quebrado não por uma nova palavra profética, mas pela chegada da própria Palavra viva, o Rei cujo reino não terá fim e cuja autoridade transcende a de todos os tiranos da história.
7. A Revelação Central: "Tu És o Cristo, o Filho do Deus Vivo"
Se o Evangelho de Mateus fosse uma escalada, o capítulo 16 representaria o seu cume teológico, o ponto em que a identidade de Jesus é revelada de forma explícita e inequívoca. Este momento crucial não acontece em Jerusalém, o centro religioso, mas em Cesareia de Filipe, uma região onde o imperador romano, César, era aclamado como uma divindade. A escolha do local é, por si só, uma declaração poderosa.
Nesse cenário de adoração a um deus humano, Jesus faz uma pergunta em duas etapas a seus discípulos. Primeiro, Ele questiona a percepção popular: "Quem os outros dizem que o Filho do homem é?". As respostas variam, identificando-o com grandes profetas do passado: João Batista, Elias ou Jeremias. Então, Jesus torna a questão intensamente pessoal: "E vocês, quem dizem que eu sou?".
É Simão Pedro quem, movido por uma inspiração divina, articula a confissão que se tornaria o alicerce da fé cristã:
"Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo." (Mateus 16:16)
A resposta de Jesus a Pedro revela a origem dessa verdade. Ele afirma que tal entendimento não foi fruto de pesquisa, mérito humano ou dedução lógica — "porque não foi carne e sangue quem te revelou, mas meu Pai, que está nos céus" (Mateus 16:17). Este episódio revela uma dinâmica fundamental da Trindade: o Pai revela o Filho, e o Filho revela o Pai. É uma verdade recíproca que o próprio Mateus já havia registrado em um capítulo anterior:
"Ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar." (Mateus 11:27)
Essa revelação solidifica a doutrina central da Cristologia: Jesus não é 50% homem e 50% Deus, mas plenamente homem e plenamente Deus em uma única pessoa. Como 100% homem, ele sentiu fome, sede e cansaço. Como 100% Deus, ele é o Pão da Vida, a Água Viva e o descanso para os sobrecarregados. Ele é a encarnação perfeita da divindade, um mistério que define o cristianismo. A confissão de Pedro, revelada pelo Pai, ecoa a verdade que o apóstolo Paulo mais tarde expressaria de forma definitiva:
"Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade." (Colossenses 2:9)
8. De Coletor de Impostos a Cronista do Rei: A Transformação Pessoal de Mateus
Quem foi o homem divinamente inspirado para redigir este evangelho fundamental, que apresenta Jesus como o Rei Messias? A resposta é, em si mesma, uma poderosa lição do Evangelho. Dos quatro evangelistas, apenas dois andaram pessoalmente com Jesus durante seu ministério terreno: João e Mateus. E a história de Mateus, também conhecido como Levi, é um testemunho vívido da graça que ele tão cuidadosamente documentou.
Antes de seu chamado, Mateus era um publicano, um coletor de impostos a serviço do Império Romano. Em sua cultura, essa não era apenas uma profissão; era uma marca de traição. Publicanos eram desprezados por colaborarem com a força opressora e eram frequentemente associados à corrupção e à extorsão. Ele era um homem de registros, acostumado a lidar com canetas, papéis e, acima de tudo, com as dívidas do povo.
O momento de sua transformação, narrado com simplicidade tanto em seu próprio evangelho quanto no de Lucas, é abrupto e radical:
"Partindo Jesus dali, viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: 'Siga-me'. Ele se levantou e o seguiu." (Mateus 9:9)
O relato de Lucas acrescenta um detalhe crucial: "Ele, deixando tudo, levantou-se e o seguiu" (Lucas 5:28). Mateus não pediu garantias nem negociou termos. Ele abandonou sua mesa — seu cargo, seu status, sua segurança financeira — em resposta a um simples convite de duas palavras. Sua autoridade para escrever sobre o Rei não veio de um currículo impecável, mas de um ato de total renúncia.
Sua transformação é simbolizada pela troca de mesas. Ele deixou a mesa da coletoria, onde registrava as dívidas dos homens, para preparar uma nova mesa em sua casa: um grande banquete para que Jesus pudesse cear com seus amigos, outros publicanos e pecadores. O homem que antes cobrava moedas agora oferecia um banquete, entendendo que o verdadeiro tesouro não estava nas dracmas romanas, mas na presença redentora de Cristo. Seu primeiro instinto como discípulo foi evangelístico: se o Médico o havia encontrado em sua doença, ele precisava levar outros doentes ao mesmo Médico.
É nesse contexto que Jesus profere uma das sentenças que definem sua missão:
"Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. [...] Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores." (Mateus 9:12-13)
A vida de Mateus é, talvez, a maior ilustração de seu próprio evangelho. Sua história forma um contraste gritante com a de outro discípulo, Judas. Ambos lidaram com dinheiro. Judas, encarregado da bolsa, traiu Jesus por moedas. Mateus, um profissional do dinheiro, largou todas as moedas para seguir Jesus. Ele nos ensina que a verdadeira riqueza não está no que acumulamos, mas naquilo a que renunciamos para abraçar o valor inestimável de seguir o Rei.
Resumo de Fixação: Panorama do Evangelho de Mateus
Tópico Principal | Pontos-Chave e Conceitos |
---|---|
1. A Posição de Mateus | • Considerado a "porta de acesso" ao Novo Testamento. • A terminologia correta é "Evangelho segundo Mateus", pois o Evangelho é de Cristo. • Faz parte dos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos, Lucas), que compartilham uma perspectiva semelhante. |
2. As Quatro Faces do Messias | • Baseado na visão do profeta Ezequiel (Ezequiel 1:10) sobre os querubins com quatro faces. • Cada face simboliza a apresentação de Cristo por um evangelista: Leão (Rei/Mateus), Boi (Servo/Marcos), Homem (Humanidade/Lucas), Águia (Divindade/João). |
3. O Cristo Histórico | • O evangelho começa com a genealogia para estabelecer a autoridade de Jesus perante o público hebreu, que valoriza a história. • Apresenta Jesus como o cumprimento de mais de 60 profecias do Antigo Testamento. • O título "Filho de Davi" é uma afirmação messiânica central. |
4. A Genealogia da Graça | • Inclui deliberadamente mulheres com histórias complexas e/ou gentias (Tamar, Raabe, Rute, Bate-Seba). • Demonstra que a linhagem de Cristo é formada pela graça de Deus, não pela perfeição humana, e que o Evangelho é inclusivo. |
5. O Mestre por Excelência | • Mateus enfatiza Jesus como o grande Mestre. • Contém 25 das cerca de 40 parábolas de Jesus. • Apresenta o Sermão do Monte (Mateus 5-7), o mais completo corpo de ensinamentos éticos de Cristo. |
6. Contexto Histórico | • O livro quebra um silêncio profético de 400 anos (período interbíblico). • O nascimento de Jesus ocorre sob o Império Romano, durante o reinado de Herodes, o Grande, um rei cruel e paranoico. • O contraste entre o "grande" Herodes e o humilde nascimento do verdadeiro Rei é intencional. |
7. A Revelação Central | • O clímax teológico ocorre com a confissão de Pedro: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mateus 16:16). • Essa verdade é de origem divina (revelada pelo Pai). • Afirma a Cristologia central: Jesus é 100% Deus e 100% homem em uma única pessoa. |
8. A Transformação do Autor | • O autor, Mateus (Levi), era um coletor de impostos desprezado que deixou tudo para seguir Jesus. • Sua história pessoal ilustra o poder do Evangelho: ele trocou a mesa da cobrança pela mesa da comunhão com pecadores. • Sua renúncia ao dinheiro contrasta fortemente com a traição de Judas por dinheiro. |
Último Passo: Resumo em Questões
Responda com (V) para Verdadeiro ou (F) para Falso, com base no conteúdo do artigo. O gabarito comentado está logo abaixo.
Questões
- ( ) O Evangelho de João é considerado um evangelho sinótico, junto com Mateus e Marcos, por compartilhar a mesma perspectiva sobre a vida de Cristo.
- ( ) A simbologia da visão de Ezequiel associa a face do Leão ao Evangelho de Mateus, que apresenta Jesus como o Rei da linhagem de Judá.
- ( ) Mateus inicia seu evangelho com uma genealogia para provar que Jesus não tinha conexão com o Antigo Testamento, representando um início completamente novo.
- ( ) A genealogia de Cristo em Mateus inclui mulheres como Raabe e Rute, que não eram israelitas, para demonstrar o caráter inclusivo da graça de Deus.
- ( ) O Sermão do Monte, o principal corpo de ensinamentos de Jesus, está registrado em detalhes no Evangelho de Lucas, enquanto Mateus contém apenas 5 das 40 parábolas de Jesus.
- ( ) Jesus nasceu durante o reinado de Herodes, o Grande, um rei conhecido por suas grandes construções e por sua extrema crueldade, em um período de dominação do Império Romano.
- ( ) A confissão de Pedro em Mateus 16, "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo", é apresentada como uma verdade revelada diretamente por Deus Pai, e não por dedução humana.
- ( ) Mateus, o autor do evangelho, era um pescador que, assim como Judas, se preocupava muito com as finanças do grupo, mas acabou se arrependendo.
Gabarito Comentado
-
( F ) Falso. O artigo explica que os evangelhos sinóticos são Mateus, Marcos e Lucas. O Evangelho de João possui uma estrutura e um foco teológico distintos, concentrando-se na divindade de Cristo (a face da Águia) e não sendo classificado como sinótico.
-
( V ) Verdadeiro. Conforme explicado, a tradição teológica associa cada face do querubim da visão de Ezequiel a um evangelho. O Leão, símbolo de realeza e poder, corresponde a Mateus, que enfatiza a identidade de Jesus como o Rei Messias, o Leão da Tribo de Judá.
-
( F ) Falso. O artigo afirma o exato oposto. Mateus inicia com a genealogia precisamente para estabelecer a autoridade de Jesus como o Messias histórico, cumpridor das profecias e profundamente enraizado na história de Israel (Antigo Testamento), algo crucial para seu público-alvo hebreu.
-
( V ) Verdadeiro. A inclusão intencional de mulheres gentias (não israelitas) como Raabe e Rute na linhagem de Jesus é um ponto teológico central em Mateus, destacando que a "genealogia da graça" é para todos e não se limita a barreiras étnicas ou sociais.
-
( F ) Falso. Esta afirmação contém dois erros. O Sermão do Monte (Mateus 5-7) é uma exclusividade do Evangelho de Mateus em sua forma completa e detalhada. Além disso, Mateus é o evangelho que mais contém parábolas, registrando 25 das cerca de 40 proferidas por Jesus.
-
( V ) Verdadeiro. O contexto histórico apresentado no artigo descreve o cenário político do nascimento de Jesus, que ocorreu sob o Império Romano e durante o reinado de Herodes, o Grande, uma figura de grande poder construtivo, mas também de imensa crueldade.
-
( V ) Verdadeiro. Um dos pontos centrais do artigo é que a revelação da identidade de Cristo, expressa por Pedro, não foi um mérito humano ("carne e sangue"), mas uma verdade concedida por revelação direta de Deus Pai, conforme as próprias palavras de Jesus no texto.
-
( F ) Falso. O artigo identifica Mateus (também chamado de Levi) como um publicano, ou coletor de impostos, e não um pescador. Ao contrário de Judas, que se apegou às moedas, Mateus é apresentado como alguém que "deixou tudo" — sua fonte de renda e status — para seguir a Jesus.
"O Evangelho de Mateus nos revela que a autoridade do Rei não reside em uma história impecável, mas em Sua capacidade de redimir cada nome de sua própria genealogia, convidando-nos a abandonar nossa mesa de cálculos para sentar à Sua mesa de graça."
Aprofundando sobre o assunto:
- Mateus: Ouro, Incenso, Mirra e um Chamado Inesperado: Lições de Mateus 2 e 9;
- Desvendando o Evangelho de Mateus: Uma Análise Profunda de Sua Origem e Propósito
Cidade IMAFE. Panorama Do Evangelho Na Visão De Mateus | Pr. Adson Belo (4 faces do evangelho de Cristo). YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Y4aviKxnFYw. Acesso em: 20/08/2025.