A Data de Escrita do Evangelho de Mateus
Uma das questões mais debatidas entre estudiosos da Bíblia é a data exata em que o Evangelho de Mateus foi escrito. Embora não haja um manuscrito original datado, a análise de evidências históricas e textuais aponta para duas principais janelas de tempo, cada uma com seus próprios argumentos.
A visão mais difundida no meio acadêmico contemporâneo situa a escrita do evangelho entre os anos 80 e 100 d.C. O principal argumento para essa datação é a citação do Evangelho de Mateus por Inácio de Antioquia, um dos Pais da Igreja, em seus escritos do início do século II. Se Inácio já conhecia e citava a obra, é lógico supor que ela já circulava há algum tempo, o que torna o final do século I um período provável para sua composição.
No entanto, existe uma interpretação divergente que defende uma data mais antiga, provavelmente na década de 60 d.C. Essa visão se baseia em dois pontos principais. Primeiro, a proximidade com a data de escrita do Evangelho de Marcos, que muitos acreditam ter servido de fonte para Mateus. Segundo, e mais significativo, é o fato de que o evangelho não menciona a destruição de Jerusalém e do seu Templo, ocorrida no ano 70 d.C., como um evento passado. A queda de Jerusalém foi um acontecimento traumático e definidor para o judaísmo, e sua ausência como fato consumado no texto é um forte indicativo.
Com base nos argumentos expostos, a datação na década de 60 d.C. se mostra mais consistente. A menção da destruição do Templo como uma profecia, e não como um relato histórico, fortalece a ideia de que o autor escreveu antes do evento. Portanto, embora o debate acadêmico continue, a evidência interna do texto favorece uma data anterior à queda de Jerusalém.
A Questão da Autoria: Quem Escreveu o Evangelho?
Embora tradicionalmente conhecido como Evangelho de Mateus, o texto em si não identifica seu autor, sendo, tecnicamente, uma obra anônima. A atribuição ao apóstolo Mateus remonta a uma das mais antigas tradições da Igreja Primitiva, registrada por Papias, bispo de Hierápolis, por volta de 125 d.C. Papias, considerado um dos Pais Apostólicos, afirmou que Mateus compilou os ditos de Jesus, dando origem ao que ele chamou de "primeiro evangelho". Apesar dessa forte tradição, os estudiosos modernos se dividem quanto à autoria direta.
Independentemente do debate, o próprio texto oferece pistas fascinantes sobre a identidade de seu autor. Uma das mais significativas encontra-se na passagem de Mateus 9:9-10:
"Partindo Jesus dali, viu um homem chamado Mateus sentado na coletoria e disse-lhe: Segue-me! Ele se levantou e o seguiu. E sucedeu que, estando ele em casa, à mesa, muitos publicanos e pecadores vieram e tomaram lugares com Jesus e seus discípulos."
Nesse relato, o autor descreve a si mesmo (ou a figura que dá nome ao livro) como um "publicano", um coletor de impostos. Na sociedade judaica da época, os publicanos eram vistos com grande desprezo, considerados traidores por colaborarem com o Império Romano e frequentemente associados à corrupção. Ao se identificar como parte desse grupo marginalizado e como um "pecador" que teve a honra de receber Jesus em sua casa, o autor demonstra uma notável humildade.
Essa autodescrição é um forte indício que apoia a tradição de que o apóstolo Mateus, a testemunha ocular dos eventos, é a fonte primária por trás desta narrativa. Portanto, embora a obra seja formalmente anônima, a tradição histórica e as evidências internas convergem de forma consistente para a figura do apóstolo Mateus.
O Destinatário: Para Quem Mateus Escreveu?
O Evangelho de Mateus foi cuidadosamente redigido com um público-alvo específico em mente: o povo judeu. Essa intenção é evidente não apenas na estrutura da narrativa, mas também em diversas passagens que ressaltam a prioridade da missão de Jesus para com Israel.
Em Mateus 15:24, durante um diálogo com uma mulher cananeia (uma gentia), Jesus afirma de forma direta: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel." Essa declaração sublinha o foco inicial de seu ministério. Da mesma forma, ao enviar seus doze discípulos em sua primeira missão, as instruções são explícitas, conforme registrado em Mateus 10:5-6:
"Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos; mas, de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel."
No entanto, o evangelho de Mateus carrega uma tensão intencional, pois, ao mesmo tempo que se volta para Israel, ele planta as sementes de uma missão universal. Um exemplo claro está em Mateus 8:11-12, onde Jesus, admirado com a fé de um centurião romano, declara que "muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus", enquanto "os filhos do reino serão lançados para fora".
Essa perspectiva universal culmina no final do livro, na passagem conhecida como a Grande Comissão (Mateus 28:18-20). Nela, Jesus ressuscitado ordena a seus discípulos: "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações...". Essa ordem final expande o escopo do ministério de forma definitiva.
Essa aparente contradição, na verdade, revela uma profunda teologia. Mateus demonstra que a mensagem do Reino foi primeiramente oferecida a Israel, em cumprimento das promessas do Antigo Testamento. Contudo, a narrativa também prepara o leitor para a expansão dessa mensagem a todos os povos, tornando o evangelho uma ponte crucial entre a antiga aliança com Israel e a nova aliança que abraça toda a humanidade.
O Propósito Central do Evangelho
O Evangelho de Mateus é uma obra teologicamente rica, construída com propósitos claros e interligados. Sua principal intenção é apresentar Jesus de Nazaré como o Messias prometido nas Escrituras do Antigo Testamento, conectando sua vida e ministério às antigas profecias e esperanças do povo de Israel.
Para alcançar esse objetivo, Mateus utiliza diversos títulos messiânicos que ressoavam profundamente com a audiência judaica. Jesus é identificado como:
- O Filho de Davi: Este título estabelece sua linhagem real e o direito ao trono de Israel, cumprindo a promessa de um descendente de Davi que reinaria para sempre.
- O Filho de Deus: Uma designação que aponta para sua natureza divina e sua relação única com o Pai, um conceito central para a fé cristã.
- O Filho do Homem: Uma expressão retirada do livro de Daniel que se refere a uma figura celestial com autoridade para julgar e reinar.
Além desses títulos, Mateus enfatiza que Jesus é o Emanuel, que significa "Deus conosco". Essa ideia, apontada pelo Antigo Testamento, revela que em Jesus, Deus se fez presente de forma tangível na história humana. O autor habilmente entrelaça a narrativa com citações do Antigo Testamento para demonstrar que Jesus é o cumprimento de tudo o que os profetas anunciaram.
Outro propósito fundamental é alertar sobre as consequências da rejeição do Messias. O evangelho deixa claro que a não aceitação de Jesus pelos líderes religiosos e por parte do povo judeu resultará em juízo na ressurreição. Essa advertência cria uma tensão dramática ao longo da narrativa.
Finalmente, Mateus introduz o conceito teológico conhecido como "Já e ainda não". Ele mostra que o Reino escatológico, o esperado governo de Deus, já despontou com a vida, morte, ressurreição e exaltação de Cristo. No entanto, sua plenitude ainda não foi manifestada, apontando para um tempo vindouro quando Jesus, o Messias, retornará em pessoa para consumar seu Reino. Essa dualidade entre a presença atual do Reino e sua futura consumação é uma das chaves para compreender a mensagem do evangelho.
O Aspecto Missional: O Reino em Nós e a Grande Comissão
O Evangelho de Mateus não apenas narra a vida de Jesus, mas também estabelece um fundamento sólido para a missão da Igreja. Um dos aspectos centrais dessa missão é a compreensão de que o Reino de Deus está presente na vida de todo aquele que crê. Essa percepção, que mais tarde seria profundamente explorada por reformadores como Lutero, significa que o Reino não é apenas uma realidade futura, mas uma força transformadora que deve ser reconhecida e vivida no presente.
A vida espiritual, portanto, não se limita a espaços sagrados ou a um grupo seleto de pessoas. Pelo contrário, ela deve se manifestar em todas as esferas da existência humana. Onde quer que um crente esteja — seja no trabalho, em casa ou na sociedade — o Reino de Deus deve ser perceptível através de seus atos de justiça, misericórdia, amor, graça e perdão. A Igreja se torna, assim, a portadora e a demonstração visível desse Reino no mundo.
Essa vivência do Reino culmina no imperativo missional deixado por Jesus. A ordem registrada em Mateus 28, "Ide por todo o mundo", é mais do que uma simples instrução; é o clímax do evangelho. O verbo "fazei discípulos" está no modo imperativo, indicando uma ordem direta e contínua. As ações de "ir" e "batizar", na língua original, funcionam como qualificadores que descrevem como essa ordem deve ser cumprida.
Dessa forma, a missão não é uma opção, mas a própria essência da identidade cristã. A Igreja é chamada a estar em constante movimento, levando a mensagem do Messias a todas as nações. O Evangelho de Mateus, portanto, conclui com um chamado poderoso à ação: a responsabilidade de continuar a obra de Cristo, manifestando o Reino de Deus até os confins da Terra.
Resumo do Evangelho de Mateus: Origem, Propósito e Mensagem
Tópico | Descrição Principal | Pontos-Chave e Referências | Interpretações e Tensões |
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Data de Escrita | Debatida entre o final do século I e meados dele. | • Visão 1 (80-100 d.C.): Baseada na citação de Inácio de Antioquia. • Visão 2 (década de 60 d.C.): Argumenta que a ausência do relato da destruição de Jerusalém (70 d.C.) como fato passado sugere uma data anterior. | A datação na década de 60 d.C. é considerada mais consistente com as evidências internas do texto. |
Autoria | Embora o texto seja anônimo, a tradição o atribui ao apóstolo Mateus. | • Papias (125 d.C.): Primeiro a atribuir a autoria a Mateus. • Mateus 9:9-10: O autor se identifica como um publicano, o que reforça a tradição. | A autoria direta é debatida, mas a tradição e as pistas textuais apontam fortemente para Mateus como a fonte principal. |
Destinatário | Escrito primariamente para o povo judeu. | • Foco em Israel: Jesus se declara enviado "às ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 15:24) e instrui os discípulos a fazerem o mesmo inicialmente (Mt 10:5-6). | Paradoxo Universal: O evangelho também aponta para a inclusão de gentios (Mt 8:11-12) e culmina na Grande Comissão para "todas as nações" (Mt 28:18-20). |
Propósito | Provar que Jesus é o Messias prometido, cumprindo as profecias do Antigo Testamento. | • Títulos Messianicos: Filho de Davi, Filho de Deus, Filho do Homem. • Jesus como Emanuel: "Deus conosco", a presença divina encarnada. • Juízo: A não aceitação do Messias levará a consequências. | O Reino de Deus é apresentado no conceito de "Já e ainda não": já inaugurado por Cristo, mas aguardando sua consumação futura. |
Aspecto Missional | O Reino de Deus se manifesta na vida dos crentes e deve ser proclamado a todos os povos. | • O Reino em nós: A vida cristã deve refletir os valores do Reino (justiça, graça, perdão). • "Ide por todo o mundo": A Grande Comissão é um imperativo, a essência da missão da Igreja. | A Igreja não é um fim em si mesma, mas o veículo pelo qual o Reino se torna visível ao mundo. |
Instruções: Leia cada afirmação abaixo e marque (V) para Verdadeiro ou (F) para Falso.
- ( ) O consenso unânime entre todos os estudiosos é que o Evangelho de Mateus foi escrito após a destruição de Jerusalém em 70 d.C.
- ( ) O Evangelho de Mateus é tecnicamente anônimo, pois o autor não se identifica diretamente no texto.
- ( ) Papias, um dos doze apóstolos, é a fonte da tradição que atribui a autoria do evangelho a Mateus.
- ( ) O Evangelho de Mateus mostra que a missão de Jesus era exclusivamente para os judeus, sem nenhuma indicação de que se estenderia a outros povos.
- ( ) Mateus, o apóstolo, era um publicano, uma profissão respeitada e admirada pela sociedade judaica da época.
- ( ) Um dos propósitos centrais de Mateus é demonstrar que Jesus é o Messias prometido, o cumprimento das profecias do Antigo Testamento.
- ( ) A expressão "Filho de Davi", usada por Mateus, serve para conectar Jesus à linhagem sacerdotal de Israel.
- ( ) Segundo Mateus, o Reino de Deus é uma realidade exclusivamente futura, que só começará com a segunda vinda de Cristo.
- ( ) O evangelho foi escrito primariamente para um público gentio, por isso contém poucas referências ao Antigo Testamento.
- ( ) A Grande Comissão ("Ide por todo o mundo"), em Mateus 28, é apresentada como uma sugestão, e não como uma ordem imperativa para a Igreja.
Gabarito Comentado
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(F) Falso. Embora o consenso contemporâneo aponte para 80-100 d.C., existe uma forte interpretação divergente que defende uma data anterior (década de 60 d.C.), justamente porque o texto não menciona a destruição de Jerusalém como um evento passado.
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(V) Verdadeiro. O texto não contém o nome de seu autor. A autoria é atribuída a Mateus com base na tradição da Igreja Primitiva, registrada por figuras como Papias.
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(F) Falso. Papias foi um bispo do século II e um dos Pais Apostólicos que atribuiu a autoria a Mateus, mas não era um dos doze apóstolos nem o autor do livro.
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(F) Falso. Embora o foco inicial da missão de Jesus seja para Israel (Mt 15:24), o evangelho apresenta uma tensão que culmina na Grande Comissão (Mt 28:18-20), uma ordem para levar a mensagem a "todas as nações".
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(F) Falso. Os publicanos (cobradores de impostos) eram desprezados e vistos como traidores por colaborarem com o Império Romano. A identificação de Mateus como publicano (Mt 9:9-10) destaca a graça de Jesus em chamá-lo.
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(V) Verdadeiro. Este é o principal objetivo do evangelho: conectar a vida, os ensinamentos e os atos de Jesus às profecias messiânicas do Antigo Testamento para provar sua identidade ao público judeu.
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(F) Falso. O título "Filho de Davi" conecta Jesus à linhagem real de Israel, não à sacerdotal, afirmando seu direito ao trono messiânico.
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(F) Falso. Mateus apresenta o conceito do "Já e ainda não". O Reino de Deus já despontou com a vinda de Cristo, mas sua plenitude ainda não foi consumada, o que ocorrerá em sua segunda vinda.
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(F) Falso. O público-alvo era o povo judeu. Por isso, o Evangelho de Mateus é o que mais contém citações e alusões ao Antigo Testamento, buscando provar que Jesus cumpriu as Escrituras.
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(F) Falso. A ordem de "fazei discípulos" está no modo imperativo, o que a caracteriza como uma ordem direta e central para a missão da Igreja, e não uma mera sugestão.
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Outros Estudos para Conhecimento:
1. Introdução: Mateus, a Porta de Acesso à Pessoa de Cristo
O Evangelho de Mateus é frequentemente descrito como a grande porta de entrada para o Novo Testamento e, mais especificamente, para uma compreensão robusta da pessoa de Jesus Cristo. Não se trata de uma afirmação superficial; teólogos e historiadores ao longo dos séculos têm reforçado essa percepção. O teólogo D.A. Carson, por exemplo, argumenta que ignorar a leitura de Mateus é resignar-se a conhecer apenas uma faceta da complexa identidade de Cristo. Outros estudiosos destacam que este evangelho revela a manifestação de um "Deus que tem história", sublinhando a importância fundamental da historicidade na fé cristã.
Essa valorização não é recente. Desde os primeiros séculos, os Pais da Igreja — período conhecido como a era patrística, que se estende do século I ao VII — como Agostinho de Hipona, Irineu de Lião e Eusébio de Cesareia, já incentivavam a leitura aprofundada de Mateus. Indo ainda mais longe, o Didaquê, um dos mais antigos escritos cristãos (datado por volta de 130 d.C.) e utilizado como manual de instrução apostólica, descrevia a mensagem contida no livro como a revelação da "beleza do Deus todo-poderoso".
É fundamental, contudo, fazer uma distinção terminológica precisa: não se trata do "Evangelho de Mateus", mas do "Evangelho segundo Mateus". A nuance é crucial, pois o Evangelho — a boa-nova — pertence unicamente a Jesus Cristo. Os quatro evangelistas são os cronistas inspirados que registraram essa mensagem sob perspectivas únicas e complementares.
Nesse conjunto, os três primeiros evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) são classificados como sinóticos. O termo indica que eles compartilham uma "mesma ótica" ou perspectiva, narrando muitos dos mesmos eventos e ensinamentos, de forma que se complementam mutuamente na construção do retrato de Jesus. O Evangelho de João, por sua vez, segue uma estrutura e um propósito distintos. Seu foco não recai sobre a mesma quantidade de parábolas ou ensinamentos pedagógicos. A preocupação central de João é apresentar o Deus encarnado, como declara majestosamente em seu prólogo:
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. [...] E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade." (João 1:1, 14)
Enquanto João se aprofunda na divindade pré-existente de Cristo, os sinóticos, com Mateus à frente, constroem a ponte entre as promessas do Antigo Testamento e a sua realização histórica na pessoa do Messias.
2. As Quatro Faces do Messias: A Visão de Ezequiel e a Apresentação de Jesus
Para compreender a singularidade de cada Evangelho, a tradição teológica frequentemente recorre a uma visão grandiosa descrita no Antigo Testamento. Cerca de seis séculos antes de Cristo, durante o quinto ano do cativeiro babilônico, o profeta Ezequiel teve uma revelação extraordinária à beira do rio Quebar. Ele descreve seres angelicais, identificados como querubins, de aparência gloriosa e complexa. O detalhe mais significativo para a nossa análise está na descrição de suas faces.
Conforme narrado no livro de Ezequiel, cada um desses seres possuía uma única cabeça com quatro faces distintas, apontando para as quatro direções cardeais.
"Quanto à semelhança dos seus rostos, todos os quatro tinham rosto de homem; à direita, rosto de leão; à esquerda, rosto de boi; e todos os quatro tinham também rosto de águia." (Ezequiel 1:10)
Essa imagem profética é amplamente interpretada como um símbolo poderoso que antecipa a maneira multifacetada como Jesus Cristo seria apresentado ao mundo através dos quatro Evangelhos. Não se trata de quatro visões contraditórias, mas de quatro perspectivas complementares que, juntas, formam um retrato completo e coeso da pessoa e obra do Messias. Cada face do querubim corresponde à ênfase principal de um dos evangelistas:
- A Face de Leão (Mateus): O leão é o rei dos animais, um símbolo de realeza, poder e autoridade. Mateus apresenta Jesus primariamente como o Leão da Tribo de Judá, o Messias prometido, o Rei que veio para cumprir a lei e as profecias e estabelecer Seu Reino. Sua genealogia, seus discursos de autoridade e seus títulos régios reforçam essa imagem.
- A Face de Boi (Marcos): O boi (ou novilho) é um animal de serviço e sacrifício. O Evangelho de Marcos retrata Jesus como o servo sofredor, que veio "não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Marcos 10:45). A narrativa é dinâmica, focada nas ações e no serviço incansável de Cristo.
- A Face de Homem (Lucas): Lucas, o médico e historiador detalhista, enfatiza a perfeita humanidade de Jesus. Ele O apresenta como o Filho do Homem, cheio de compaixão, acessível a pecadores, mulheres e marginalizados. Sua genealogia remonta até Adão, conectando-O a toda a humanidade.
- A Face de Águia (João): A águia voa nas alturas e possui uma visão penetrante. Esta face simboliza a perspectiva celestial e divina do Evangelho de João, que apresenta Jesus como o Verbo eterno, o Filho de Deus, focando em Sua divindade, glória e natureza pré-existente.
Assim, os quatro Evangelhos, juntos, revelam as múltiplas facetas do caráter e da missão de Cristo. Eles são o desdobramento daquela visão profética, mostrando que a revelação completa de quem Jesus é exige a contemplação de todas as suas dimensões: a realeza, o serviço, a humanidade e a divindade. Cada evangelista nos ajuda a ver um ângulo diferente da única e gloriosa "Face de Cristo".
3. O Cristo Histórico: A Importância da Genealogia para o Público Hebreu
A posição de Mateus como o primeiro livro do Novo Testamento não é acidental. Sua estrutura e conteúdo formam uma ponte magistral entre a Antiga e a Nova Aliança, tornando-o o ponto de partida ideal para a revelação cristã. A chave para entender essa função está em sua audiência primária — o povo hebreu — e na forma como o evangelho se inicia.
O livro começa de forma impactante e, para uma mente não familiarizada com a cultura judaica, até paradoxal:
"Livro da genealogia [em grego, geneseos] de Jesus Cristo, Filho de Davi, Filho de Abraão." (Mateus 1:1)
A palavra grega geneseos pode ser traduzida como "gênesis", "origem" ou "genealogia". É a mesma raiz usada na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento) para o título do primeiro livro da Bíblia, Gênesis (Bereishit em hebraico, que significa "no princípio"). Mateus está, deliberadamente, declarando que está apresentando a "Gênesis de Cristo". Mas como Aquele que é eterno, sem começo e sem fim, pode ter um "início"?
A resposta reside no profundo respeito que a cultura judaica nutre pela história. Para a mentalidade hebraica, a história não é apenas um registro do passado; ela confere identidade, legitimidade e autoridade. Um famoso rabino e exegeta do século XI, conhecido como Rashi, sintetizou esse pensamento ao afirmar que "quem não tem história, não tem autoridade". Manifestações espirituais momentâneas eram menos valorizadas do que uma linhagem comprovada e um histórico consistente com as promessas de Deus.
Portanto, a tarefa de Mateus era apresentar Jesus não como uma figura divina que surgiu subitamente, mas como o Cristo histórico, aquele cuja vinda era o clímax de séculos de história e profecia. Jesus não veio para inventar algo novo, mas para cumprir tudo o que havia sido dito a seu respeito. Das mais de 300 profecias messiânicas encontradas de Gênesis a Malaquias, cerca de 60 são registradas como cumpridas apenas no Evangelho de Mateus, que frequentemente utiliza a fórmula: "para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta".
Um dos títulos mais potentes que Mateus utiliza para sublinhar essa conexão histórica é "Filho de Davi". Este não era um mero apelido, mas uma declaração messiânica que ecoava a promessa de um rei eterno do trono de Davi. É significativo que, na narrativa de Mateus, pessoas em desespero reconhecem Jesus por este título. A mulher cananeia clama: "Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!" (Mateus 15:22). O cego de Jericó grita: "Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!" (Mateus 20:30). Eles não O veem apenas como um curandeiro, mas como o herdeiro do trono, o Messias com uma história.
Ao iniciar com a genealogia, Mateus estabelece, desde a primeira linha, as credenciais irrefutáveis de Jesus como o Messias prometido a Israel, enraizado em sua história e cumprimento de suas profecias.
4. A Genealogia da Graça: Inclusão e Redenção na Linhagem do Rei
Uma genealogia real geralmente evoca imagens de uma linhagem pura, nobre e imaculada. No entanto, um olhar atento à lista apresentada por Mateus no capítulo 1 revela uma narrativa surpreendente e radicalmente inclusiva. Em vez de ocultar as complexidades e os escândalos do passado de Israel, Mateus os destaca, mostrando que a linhagem do Messias é tecida com os fios da graça divina, e não da perfeição humana.
De forma intencional e contrária aos costumes patriarcais da época, Mateus inclui quatro mulheres com histórias marcadas por irregularidades sociais, morais e étnicas, além de Maria:
- Tamar: Sua história, registrada em Gênesis 38, é complexa e envolve engano para garantir a continuidade da linhagem de Judá. Sua inclusão desafia noções simplistas de retidão.
- Raabe: Descrita como uma prostituta de Jericó (Josué 2), ela não era apenas uma mulher com um passado socialmente condenável, mas também uma gentia, ou seja, não pertencia ao povo de Israel por nascimento.
- Rute: O livro que leva seu nome a identifica claramente como "a moabita". Os moabitas eram um povo estrangeiro e, por vezes, inimigo de Israel, cuja entrada na assembleia do Senhor era restrita pela Lei (Deuteronômio 23:3).
- Bate-Seba: Mateus a identifica de forma sutil, mas poderosa, como "a que fora mulher de Urias" (Mateus 1:6). Essa referência invoca diretamente um dos episódios mais sombrios da história de Israel: o adultério de Davi e o assassinato de um homem fiel para encobrir o pecado.
Por que incluir essas figuras em uma linhagem sagrada? A mensagem é profunda e transformadora: a linhagem do Messias não é definida pela perfeição humana, mas pela soberana graça de Deus, que age através de pessoas imperfeitas e improváveis para cumprir Seus propósitos redentores.
O Evangelho, como Mateus o apresenta desde o início, não é uma história para pessoas perfeitas. É uma boa-nova para os que se reconhecem falhos e necessitados de "recuperação". A presença dessas mulheres na genealogia de Jesus é a prova de que, na economia de Deus, não há barreiras de etnia, passado ou pecado que a graça não possa superar. A genealogia de Cristo é, portanto, a genealogia da graça, onde o sangue dEle não apenas corre através de uma linhagem, mas a purifica, convidando todos — independentemente de sua história — a fazerem parte dela.
5. O Mestre por Excelência: O Sermão do Monte e o Ensino por Parábolas
Além de apresentar Jesus como o Rei messiânico, o Evangelho de Mateus O exalta como o Mestre por excelência, o legislador supremo cuja autoridade para ensinar o caminho da salvação é inquestionável. Este evangelho não está primariamente focado em evocar emoções momentâneas, mas em construir um fundamento sólido de doutrina e prática de vida.
Uma evidência clara desse foco está na proeminência que Mateus concede ao ensino por parábolas. Embora haja um debate acadêmico sobre o número exato de parábolas proferidas por Jesus — com estimativas variando entre 40 e 42 —, é notável que Mateus registre 25 delas. Essa concentração substancial demonstra a intenção do evangelista de preservar o rico conteúdo didático do ministério de Cristo.
Contudo, a joia da coroa do ensino em Mateus é, sem dúvida, o Sermão do Monte. Registrado de forma ordeira e detalhada ao longo de três capítulos (Mateus 5 a 7), este discurso é a mais extensa e completa compilação dos ensinamentos éticos de Jesus. Nenhum outro evangelista o apresenta com tal clareza e profundidade. A profundidade e o poder transformador deste sermão são tão universais que até mesmo figuras de fora da fé cristã, como Mahatma Gandhi, reconheceram seu valor incomparável. Gandhi chegou a afirmar que, se todos os textos sagrados de todas as religiões se perdessem e restasse apenas o Sermão do Monte, nada teria sido perdido, pois seu conteúdo seria suficiente para mudar a sociedade.
Essa mudança, como ressalta a lógica do evangelista, não se concentra em estruturas físicas, mas em pessoas. A preocupação de Mateus não é com o Templo de Salomão ou a tenda de Davi, mas com a "linhagem dos homens", as vidas que compõem a família de Deus. O Sermão do Monte visa transformar o indivíduo de dentro para fora.
A estrutura do livro reforça magistralmente essa ênfase. Mateus inicia seu evangelho estabelecendo a autoridade histórica do Mestre (a genealogia) e o conclui com um mandamento direto para perpetuar Sua obra de ensino (a Grande Comissão). Do início ao fim, a mensagem é clara: fazer parte da linhagem de Cristo implica em aprender com Ele e submeter-se aos Seus ensinamentos.
6. Quebrando o Silêncio: O Contexto Político-Religioso do Nascimento de Jesus
A folha em branco que separa o Antigo do Novo Testamento em muitas Bíblias é mais do que um espaço de diagramação; ela representa um silêncio profético de aproximadamente 400 anos. Este período, conhecido como interbíblico, foi uma era de profundas transformações políticas e sociais para o povo de Israel, mas sem a voz direta de um profeta de Deus.
Após a última profecia de Malaquias, sob o domínio do Império Medo-Persa, a história testemunhou uma sucessão de potências mundiais. Primeiro, a ascensão do Império Greco-Macedônio sob Alexandre, o Grande, que helenizou o mundo conhecido. Após sua morte prematura, seu império foi dividido, e a Judeia se tornou um palco de disputas. Finalmente, o poder avassalador de Roma se impôs, e foi sob o governo do imperador César Augusto que o cenário para o Novo Testamento foi estabelecido.
É nesse contexto de dominação romana que surge a figura de Herodes, o Grande, o rei vassalo da Judeia na época do nascimento de Jesus. Herodes era uma figura de dualidades extremas. Por um lado, foi um construtor visionário, responsável por obras monumentais como a magnífica ampliação do Templo de Jerusalém, a construção do estratégico porto de Cesareia Marítima e a imponente fortaleza de Massada.
Por outro lado, sua grandiosidade arquitetônica era ofuscada por uma personalidade paranoica, cruel e sedenta por poder. Casado com dez mulheres, Herodes não hesitava em eliminar qualquer um que considerasse uma ameaça ao seu trono, chegando a executar a própria sogra e um cunhado. Seu reinado também foi marcado por uma profunda corrupção religiosa. A linhagem sacerdotal de Arão foi posta de lado, e o cargo de sumo sacerdote passou a ser um peão em seu jogo político, concedido por manipulação e favorecimento.
É precisamente neste cenário de opressão política e decadência espiritual que Mateus situa o nascimento do verdadeiro Rei, numa declaração de contraste intencional e poderosa:
"Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes..." (Mateus 2:1)
A menção a Herodes não é um mero detalhe cronológico. Mateus está fazendo uma afirmação teológica: enquanto um homem que se autoproclamava "grande" governava com medo e tirania, o Deus Todo-Poderoso encarnava em humildade para mostrar quem é o verdadeiro Rei dos reis e Senhor dos senhores. O silêncio de 400 anos foi quebrado não por uma nova palavra profética, mas pela chegada da própria Palavra viva, o Rei cujo reino não terá fim e cuja autoridade transcende a de todos os tiranos da história.
7. A Revelação Central: "Tu És o Cristo, o Filho do Deus Vivo"
Se o Evangelho de Mateus fosse uma escalada, o capítulo 16 representaria o seu cume teológico, o ponto em que a identidade de Jesus é revelada de forma explícita e inequívoca. Este momento crucial não acontece em Jerusalém, o centro religioso, mas em Cesareia de Filipe, uma região onde o imperador romano, César, era aclamado como uma divindade. A escolha do local é, por si só, uma declaração poderosa.
Nesse cenário de adoração a um deus humano, Jesus faz uma pergunta em duas etapas a seus discípulos. Primeiro, Ele questiona a percepção popular: "Quem os outros dizem que o Filho do homem é?". As respostas variam, identificando-o com grandes profetas do passado: João Batista, Elias ou Jeremias. Então, Jesus torna a questão intensamente pessoal: "E vocês, quem dizem que eu sou?".
É Simão Pedro quem, movido por uma inspiração divina, articula a confissão que se tornaria o alicerce da fé cristã:
"Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo." (Mateus 16:16)
A resposta de Jesus a Pedro revela a origem dessa verdade. Ele afirma que tal entendimento não foi fruto de pesquisa, mérito humano ou dedução lógica — "porque não foi carne e sangue quem te revelou, mas meu Pai, que está nos céus" (Mateus 16:17). Este episódio revela uma dinâmica fundamental da Trindade: o Pai revela o Filho, e o Filho revela o Pai. É uma verdade recíproca que o próprio Mateus já havia registrado em um capítulo anterior:
"Ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar." (Mateus 11:27)
Essa revelação solidifica a doutrina central da Cristologia: Jesus não é 50% homem e 50% Deus, mas plenamente homem e plenamente Deus em uma única pessoa. Como 100% homem, ele sentiu fome, sede e cansaço. Como 100% Deus, ele é o Pão da Vida, a Água Viva e o descanso para os sobrecarregados. Ele é a encarnação perfeita da divindade, um mistério que define o cristianismo. A confissão de Pedro, revelada pelo Pai, ecoa a verdade que o apóstolo Paulo mais tarde expressaria de forma definitiva:
"Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade." (Colossenses 2:9)
8. De Coletor de Impostos a Cronista do Rei: A Transformação Pessoal de Mateus
Quem foi o homem divinamente inspirado para redigir este evangelho fundamental, que apresenta Jesus como o Rei Messias? A resposta é, em si mesma, uma poderosa lição do Evangelho. Dos quatro evangelistas, apenas dois andaram pessoalmente com Jesus durante seu ministério terreno: João e Mateus. E a história de Mateus, também conhecido como Levi, é um testemunho vívido da graça que ele tão cuidadosamente documentou.
Antes de seu chamado, Mateus era um publicano, um coletor de impostos a serviço do Império Romano. Em sua cultura, essa não era apenas uma profissão; era uma marca de traição. Publicanos eram desprezados por colaborarem com a força opressora e eram frequentemente associados à corrupção e à extorsão. Ele era um homem de registros, acostumado a lidar com canetas, papéis e, acima de tudo, com as dívidas do povo.
O momento de sua transformação, narrado com simplicidade tanto em seu próprio evangelho quanto no de Lucas, é abrupto e radical:
"Partindo Jesus dali, viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: 'Siga-me'. Ele se levantou e o seguiu." (Mateus 9:9)
O relato de Lucas acrescenta um detalhe crucial: "Ele, deixando tudo, levantou-se e o seguiu" (Lucas 5:28). Mateus não pediu garantias nem negociou termos. Ele abandonou sua mesa — seu cargo, seu status, sua segurança financeira — em resposta a um simples convite de duas palavras. Sua autoridade para escrever sobre o Rei não veio de um currículo impecável, mas de um ato de total renúncia.
Sua transformação é simbolizada pela troca de mesas. Ele deixou a mesa da coletoria, onde registrava as dívidas dos homens, para preparar uma nova mesa em sua casa: um grande banquete para que Jesus pudesse cear com seus amigos, outros publicanos e pecadores. O homem que antes cobrava moedas agora oferecia um banquete, entendendo que o verdadeiro tesouro não estava nas dracmas romanas, mas na presença redentora de Cristo. Seu primeiro instinto como discípulo foi evangelístico: se o Médico o havia encontrado em sua doença, ele precisava levar outros doentes ao mesmo Médico.
É nesse contexto que Jesus profere uma das sentenças que definem sua missão:
"Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. [...] Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores." (Mateus 9:12-13)
A vida de Mateus é, talvez, a maior ilustração de seu próprio evangelho. Sua história forma um contraste gritante com a de outro discípulo, Judas. Ambos lidaram com dinheiro. Judas, encarregado da bolsa, traiu Jesus por moedas. Mateus, um profissional do dinheiro, largou todas as moedas para seguir Jesus. Ele nos ensina que a verdadeira riqueza não está no que acumulamos, mas naquilo a que renunciamos para abraçar o valor inestimável de seguir o Rei.
Resumo de Fixação: Panorama do Evangelho de Mateus
Tópico Principal | Pontos-Chave e Conceitos |
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1. A Posição de Mateus | • Considerado a "porta de acesso" ao Novo Testamento. • A terminologia correta é "Evangelho segundo Mateus", pois o Evangelho é de Cristo. • Faz parte dos Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos, Lucas), que compartilham uma perspectiva semelhante. |
2. As Quatro Faces do Messias | • Baseado na visão do profeta Ezequiel (Ezequiel 1:10) sobre os querubins com quatro faces. • Cada face simboliza a apresentação de Cristo por um evangelista: Leão (Rei/Mateus), Boi (Servo/Marcos), Homem (Humanidade/Lucas), Águia (Divindade/João). |
3. O Cristo Histórico | • O evangelho começa com a genealogia para estabelecer a autoridade de Jesus perante o público hebreu, que valoriza a história. • Apresenta Jesus como o cumprimento de mais de 60 profecias do Antigo Testamento. • O título "Filho de Davi" é uma afirmação messiânica central. |
4. A Genealogia da Graça | • Inclui deliberadamente mulheres com histórias complexas e/ou gentias (Tamar, Raabe, Rute, Bate-Seba). • Demonstra que a linhagem de Cristo é formada pela graça de Deus, não pela perfeição humana, e que o Evangelho é inclusivo. |
5. O Mestre por Excelência | • Mateus enfatiza Jesus como o grande Mestre. • Contém 25 das cerca de 40 parábolas de Jesus. • Apresenta o Sermão do Monte (Mateus 5-7), o mais completo corpo de ensinamentos éticos de Cristo. |
6. Contexto Histórico | • O livro quebra um silêncio profético de 400 anos (período interbíblico). • O nascimento de Jesus ocorre sob o Império Romano, durante o reinado de Herodes, o Grande, um rei cruel e paranoico. • O contraste entre o "grande" Herodes e o humilde nascimento do verdadeiro Rei é intencional. |
7. A Revelação Central | • O clímax teológico ocorre com a confissão de Pedro: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mateus 16:16). • Essa verdade é de origem divina (revelada pelo Pai). • Afirma a Cristologia central: Jesus é 100% Deus e 100% homem em uma única pessoa. |
8. A Transformação do Autor | • O autor, Mateus (Levi), era um coletor de impostos desprezado que deixou tudo para seguir Jesus. • Sua história pessoal ilustra o poder do Evangelho: ele trocou a mesa da cobrança pela mesa da comunhão com pecadores. • Sua renúncia ao dinheiro contrasta fortemente com a traição de Judas por dinheiro. |
Último Passo: Resumo em Questões
Responda com (V) para Verdadeiro ou (F) para Falso, com base no conteúdo do artigo. O gabarito comentado está logo abaixo.
Questões
- ( ) O Evangelho de João é considerado um evangelho sinótico, junto com Mateus e Marcos, por compartilhar a mesma perspectiva sobre a vida de Cristo.
- ( ) A simbologia da visão de Ezequiel associa a face do Leão ao Evangelho de Mateus, que apresenta Jesus como o Rei da linhagem de Judá.
- ( ) Mateus inicia seu evangelho com uma genealogia para provar que Jesus não tinha conexão com o Antigo Testamento, representando um início completamente novo.
- ( ) A genealogia de Cristo em Mateus inclui mulheres como Raabe e Rute, que não eram israelitas, para demonstrar o caráter inclusivo da graça de Deus.
- ( ) O Sermão do Monte, o principal corpo de ensinamentos de Jesus, está registrado em detalhes no Evangelho de Lucas, enquanto Mateus contém apenas 5 das 40 parábolas de Jesus.
- ( ) Jesus nasceu durante o reinado de Herodes, o Grande, um rei conhecido por suas grandes construções e por sua extrema crueldade, em um período de dominação do Império Romano.
- ( ) A confissão de Pedro em Mateus 16, "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo", é apresentada como uma verdade revelada diretamente por Deus Pai, e não por dedução humana.
- ( ) Mateus, o autor do evangelho, era um pescador que, assim como Judas, se preocupava muito com as finanças do grupo, mas acabou se arrependendo.
Gabarito Comentado
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( F ) Falso. O artigo explica que os evangelhos sinóticos são Mateus, Marcos e Lucas. O Evangelho de João possui uma estrutura e um foco teológico distintos, concentrando-se na divindade de Cristo (a face da Águia) e não sendo classificado como sinótico.
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( V ) Verdadeiro. Conforme explicado, a tradição teológica associa cada face do querubim da visão de Ezequiel a um evangelho. O Leão, símbolo de realeza e poder, corresponde a Mateus, que enfatiza a identidade de Jesus como o Rei Messias, o Leão da Tribo de Judá.
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( F ) Falso. O artigo afirma o exato oposto. Mateus inicia com a genealogia precisamente para estabelecer a autoridade de Jesus como o Messias histórico, cumpridor das profecias e profundamente enraizado na história de Israel (Antigo Testamento), algo crucial para seu público-alvo hebreu.
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( V ) Verdadeiro. A inclusão intencional de mulheres gentias (não israelitas) como Raabe e Rute na linhagem de Jesus é um ponto teológico central em Mateus, destacando que a "genealogia da graça" é para todos e não se limita a barreiras étnicas ou sociais.
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( F ) Falso. Esta afirmação contém dois erros. O Sermão do Monte (Mateus 5-7) é uma exclusividade do Evangelho de Mateus em sua forma completa e detalhada. Além disso, Mateus é o evangelho que mais contém parábolas, registrando 25 das cerca de 40 proferidas por Jesus.
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( V ) Verdadeiro. O contexto histórico apresentado no artigo descreve o cenário político do nascimento de Jesus, que ocorreu sob o Império Romano e durante o reinado de Herodes, o Grande, uma figura de grande poder construtivo, mas também de imensa crueldade.
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( V ) Verdadeiro. Um dos pontos centrais do artigo é que a revelação da identidade de Cristo, expressa por Pedro, não foi um mérito humano ("carne e sangue"), mas uma verdade concedida por revelação direta de Deus Pai, conforme as próprias palavras de Jesus no texto.
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( F ) Falso. O artigo identifica Mateus (também chamado de Levi) como um publicano, ou coletor de impostos, e não um pescador. Ao contrário de Judas, que se apegou às moedas, Mateus é apresentado como alguém que "deixou tudo" — sua fonte de renda e status — para seguir a Jesus.
"O Evangelho de Mateus nos revela que a autoridade do Rei não reside em uma história impecável, mas em Sua capacidade de redimir cada nome de sua própria genealogia, convidando-nos a abandonar nossa mesa de cálculos para sentar à Sua mesa de graça."
Aprofundando sobre o assunto:
- Mateus: Ouro, Incenso, Mirra e um Chamado Inesperado: Lições de Mateus 2 e 9;
- Desvendando o Evangelho de Mateus: Uma Análise Profunda de Sua Origem e Propósito
Cidade IMAFE. Panorama Do Evangelho Na Visão De Mateus | Pr. Adson Belo (4 faces do evangelho de Cristo). YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Y4aviKxnFYw. Acesso em: 20/08/2025.
1. Os Magos e as Dádivas: Mais que Presentes, Símbolos de um Reino
A narrativa do nascimento de Jesus, conforme registrada no Evangelho de Mateus, apresenta um dos cenários mais icônicos da tradição cristã: a visita dos magos do Oriente. Guiados por uma estrela, esses homens chegam a Belém com um propósito claro. Conforme instruído por Herodes, eles deveriam buscar diligentemente pelo menino para, supostamente, também o adorarem. O texto bíblico descreve o clímax desse encontro em Mateus 2:11:
"E, entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra."
Uma das primeiras observações que um estudo atento do texto revela desconstrói uma imagem popularmente difundida. Em momento algum a passagem afirma que os visitantes eram três. A tradição associou o número de dádivas (três) ao número de magos, mas o texto sagrado é mais sutil. O evangelho utiliza o pronome plural "eles", indicando um grupo de duas ou mais pessoas, sem especificar a quantidade exata.
Mais revelador do que o número de visitantes é o foco que o evangelista Mateus confere às dádivas. Os nomes e as identidades dos magos se perderam na história, tornando-se objeto de especulação tardia. No entanto, seus presentes são nomeados com precisão: ouro, incenso e mirra. Essa escolha narrativa sugere que a importância não reside em quem eram os ofertantes, mas no significado do que eles traziam. As dádivas eram mais contundentes que seus portadores.
Essas três ofertas, longe de serem presentes aleatórios ou meramente valiosos, carregam uma profunda carga teológica. Elas são interpretadas como a revelação do que a teologia chama de Múnus Triplex, ou o Tríplice Ministério de Cristo. Este conceito afirma que Jesus cumpriu de forma perfeita e unificada três ofícios distintos no Antigo Testamento: o de Rei, o de Sacerdote e o de Profeta. Cada presente, portanto, desvenda uma faceta da identidade e da missão de Jesus, anunciando, desde o seu nascimento, a totalidade de sua obra.
2. O Ouro e a Realeza Eterna de Cristo
A primeira dádiva apresentada pelos magos, o ouro, é universalmente reconhecida como um símbolo de realeza, majestade e divindade. Este metal precioso, que não se corrompe, adornava os palácios de reis e os objetos mais sagrados, representando poder, riqueza e status. Ao oferecerem ouro, os visitantes do Oriente não estavam apenas entregando um presente valioso; eles faziam uma profunda declaração teológica, reconhecendo que o menino nascido em Belém era o herdeiro de uma promessa ancestral de reinado.
Essa promessa remonta ao livro de Gênesis, quando Jacó abençoa seus filhos. Sobre Judá, de cuja linhagem descenderia Jesus, foi profetizado:
"O cetro não se arredará de Judá, nem o legislador dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se congregarão os povos." (Gênesis 49:10)
A entrega do ouro, portanto, era o reconhecimento do cumprimento dessa profecia. Era uma afirmação de que aquele menino era o Rei prometido, detentor de um reino que não seria sazonal ou passageiro, mas eterno. Essa natureza perene de seu reinado é ecoada até mesmo no momento da crucificação, quando um dos malfeitores ao seu lado clama: "Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino" (Lucas 23:42), demonstrando fé em uma soberania que transcendia a morte.
A realeza de Cristo não se limita ao seu nascimento ou ministério terreno, mas se estende por toda a eternidade. O livro de Apocalipse confirma essa soberania de forma grandiosa, descrevendo sua vinda gloriosa. Em sua veste e em sua coxa, ele traz um título que resume sua identidade real:
"E na veste e na sua coxa tem escrito este nome: REI DOS REIS, E SENHOR DOS SENHORES." (Apocalipse 19:16)
Dessa forma, o ouro foi a primeira confissão de fé registrada no evangelho de Mateus: uma proclamação de que aquela criança, nascida em condições humildes, era o soberano Rei prometido, cujo domínio jamais teria fim.
3. O Incenso e o Sacerdócio Perfeito
A segunda dádiva, o incenso, aponta para a segunda função de Cristo: seu sacerdócio perfeito. No Antigo Testamento, o incenso era um elemento central no culto a Deus, simbolizando as orações e a adoração que ascendiam da humanidade para o divino. Sua fumaça aromática representava a mediação, a intercessão e a santidade necessárias para se aproximar de Deus.
A importância do incenso é vividamente ilustrada em sua função no Tabernáculo de Moisés. O Altar de Incenso era uma peça sagrada posicionada no Santo Lugar, estrategicamente encostada ao véu que o separava do Santíssimo Lugar. Sua localização não era acidental. No Dia da Expiação, o único dia em que o sumo sacerdote podia entrar na presença direta de Deus, ele era obrigado a passar por este altar. O ritual exigia que ele criasse uma densa nuvem de fumaça com o incenso.
Essa fumaça tinha um propósito vital: ela deveria esconder a figura do sacerdote, de modo que apenas a oferta e o perfume chegassem diante da Arca da Aliança. Se a fumaça se dissipasse e o sacerdote fosse visto, ele morreria. Era um poderoso símbolo de que, na presença da santidade absoluta de Deus, a identidade humana desaparece, e o que prevalece é a adoração. O incenso, portanto, era a proteção e o meio de acesso.
Ao oferecerem incenso ao menino Jesus, os magos reconheciam profeticamente que Ele seria o Sumo Sacerdote definitivo. Ele não apenas ofereceria orações, mas seria a própria ponte entre Deus e a humanidade. O livro de Hebreus articula essa verdade de forma explícita, contrastando o sacerdócio levítico, temporário e imperfeito, com o sacerdócio eterno de Cristo. A passagem de Hebreus 7:17-21 afirma:
"Porque dele assim se testifica: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque. [...] Pois a lei nenhuma coisa aperfeiçoou e desta sorte é introduzida uma melhor esperança, pela qual chegamos a Deus. E visto como não é sem prestar juramento (porque certamente aqueles, sem juramento, foram feitos sacerdotes, mas este com juramento por aquele que lhe disse: Jurou o Senhor, e não se arrependerá; Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque)."
Este texto estabelece que o sacerdócio de Jesus é superior porque foi selado por um juramento divino, garantindo sua permanência e perfeição. Assim, o incenso oferecido em Belém foi mais do que uma especiaria cara; foi o anúncio de que nascia Aquele que seria o mediador perfeito, cujo sacrifício abriria o véu e daria acesso direto à presença de Deus.
4. A Mirra, o Profeta e o Perfume do Sacrifício
A terceira e última dádiva, a mirra, é a mais sombria e profética de todas. Esta resina amarga era comumente utilizada na antiguidade para embalsamar os mortos, e sua presença no nascimento de Cristo aponta diretamente para o seu sofrimento e morte sacrificial. Ela simboliza o martírio e a dimensão profética de sua missão, que frequentemente envolvia a proclamação de verdades duras e a inevitável perseguição.
Existe uma poderosa analogia no processo de extração do perfume da mirra. Para que a resina exale sua fragrância mais intensa, ela precisa ser triturada, esmagada. Da mesma forma, o ministério de Cristo foi marcado por um processo de "trituração": traição, acusações, humilhação e, finalmente, a crucificação. Contudo, a cada golpe, a cada ferida, o que emanava dele não era amargura ou vingança, mas o perfume da graça, do perdão e do amor. Mesmo na cruz, ele se preocupa com sua mãe e o discípulo amado, perfumando o ambiente de dor com um ato de cuidado.
Essa capacidade de suportar o sofrimento enquanto se cumpre um propósito divino é a marca de um verdadeiro profeta. A função profética não se resume a prever o futuro, mas a falar a verdade de Deus, mesmo que isso gere confronto e rejeição.
Neste ponto, o texto bíblico oferece uma importante distinção, muitas vezes negligenciada: há uma diferença entre possuir o "dom de profetizar" e exercer o "ministério de profeta". O livro de Atos ilustra isso perfeitamente. Em Atos 21:8-9, lemos sobre o evangelista Filipe, que "tinha quatro filhas virgens, que profetizavam". Elas possuíam o dom. No entanto, o versículo seguinte introduz outra figura:
"E, demorando-nos ali por muitos dias, chegou da Judeia um profeta, por nome Ágabo." (Atos 21:10)
A narrativa distingue claramente a ação de profetizar, exercida pelas filhas de Filipe, do ofício de profeta, personificado em Ágabo. O ministério profético é uma vocação específica, um chamado para ser a voz de Deus em um tempo e lugar, muitas vezes arcando com as consequências disso. Jesus cumpriu esse ofício em sua plenitude, sendo reconhecido como tal pela multidão que o ouvia, conforme registrado em Mateus 21:11:
"E a multidão dizia: Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia."
A mirra, portanto, foi o presente que prenunciou o alto custo da missão de Cristo. Ela revelou que Ele seria o Profeta por excelência, cujo sacrifício final seria o perfume mais agradável oferecido a Deus em favor da humanidade.
5. O Chamado de Mateus: Deixando a Alfândega para Seguir o Mestre
Após as narrativas do nascimento e do início do ministério de Jesus, o Evangelho de Mateus nos apresenta um dos chamados mais radicais e socialmente disruptivos: o do próprio autor do livro. A cena, descrita em Mateus 9:9, é sucinta e poderosa:
"E Jesus, passando adiante dali, viu assentado na alfândega um homem, chamado Mateus, e disse-lhe: Segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu."
Para compreender a profundidade deste ato, é crucial entender quem eram os publicanos no contexto judaico do primeiro século. Eles eram cobradores de impostos a serviço do Império Romano, a potência ocupante. Por essa razão, eram vistos por seus compatriotas como traidores, colaboradores do opressor e símbolos da subjugação de Israel. Além da conotação política, eram frequentemente associados à corrupção e à extorsão, enriquecendo ao cobrar taxas superiores às devidas. Seu dinheiro era considerado tão impuro que o Talmude, um dos livros sagrados do judaísmo, proibia que suas ofertas fossem aceitas no Templo.
O chamado de Jesus a Mateus foi, portanto, um ato que quebrou todas as convenções sociais e religiosas da época. Mas Jesus foi além. Em seu grupo de doze apóstolos, Ele incluiu não apenas Mateus, o publicano, mas também Simão, o Zelote. Os zelotes eram um grupo de nacionalistas fervorosos que se opunham radicalmente ao domínio romano e lutavam ativamente por sua derrubada. Em qualquer outra circunstância, um publicano e um zelote seriam inimigos mortais. O primeiro representava a colaboração com o sistema; o segundo, a rebelião contra ele.
A escolha de Jesus de unir esses dois opostos em seu círculo íntimo revela um princípio fundamental de seu Reino: a nova identidade em Cristo transcende e anula as antigas divisões políticas, sociais e ideológicas. Sob o senhorio de Jesus, o publicano e o zelote deixam de ser definidos por suas afiliações terrenas para se tornarem, simplesmente, discípulos. O livro de Atos confirma o sucesso dessa união aparentemente impossível, ao listar os apóstolos reunidos em oração após a ascensão de Jesus:
"E, entrando, subiram ao cenáculo, onde habitavam Pedro e Tiago, João e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu, e Simão, o Zelote, e Judas, irmão de Tiago. Todos estes perseveravam unanimemente em oração e súplicas..." (Atos 1:13-14)
A presença de Mateus e Simão, juntos e "unanimemente", é o testemunho poderoso de que o chamado de Cristo não apenas convida indivíduos, mas cria uma nova comunidade onde as barreiras mais intransponíveis são desfeitas pela graça.
6. Interpretações e Significados: Mateus, Levi e a Mudança de Vida
A figura de Mateus é apresentada nos evangelhos com dois nomes: Mateus (em Mateus 9:9) e Levi (em Marcos 2:14 e Lucas 5:27). Essa duplicidade de nomes era comum na época e, no caso de Mateus, pode simbolizar a profunda transformação que ele experimentou. O evangelho de Marcos oferece um detalhe adicional, identificando-o como "Levi, filho de Alfeu". Isso gerou alguma discussão sobre se ele seria irmão de Tiago, também chamado "filho de Alfeu". No entanto, o texto bíblico nunca os associa como irmãos, e uma interpretação simbólica oferece uma perspectiva interessante: a palavra "Alfeu" em hebraico pode estar relacionada ao conceito de "mudança" ou "troca".
Nessa visão, chamar Levi de "filho de Alfeu" seria uma forma poética de descrevê-lo como um "filho da mudança", alguém cuja identidade foi redefinida por uma transformação radical. Enquanto Tiago parece ter passado por um processo contínuo de mudança, a conversão de Levi/Mateus foi instantânea e definitiva, marcada por um único e poderoso chamado.
O comando de Jesus, "Segue-me", é carregado de significado. A palavra grega original é Akoloutheo, que vai além de um simples "vir atrás". Ela evoca a imagem de um filho que caminha pisando exatamente nas pegadas deixadas por seu pai na areia. Ao dizer "Segue-me", Jesus não estava apenas convidando Mateus para uma jornada, mas para uma completa reorientação de vida. Ele estava dizendo: "Pise onde eu piso, ande como eu ando, adote meu caminho como o seu. Deixe que minhas pegadas definam seu destino".
A resposta de Mateus é tão imediata quanto o chamado. O evangelista Lucas destaca a magnitude de sua decisão:
"E ele, deixando tudo, levantou-se e o seguiu. E fez-lhe Levi um grande banquete em sua casa; e havia ali uma grande multidão de publicanos e outros que estavam com eles à mesa." (Lucas 5:28-29)
Mateus não apenas abandonou sua fonte de riqueza e segurança, mas imediatamente usou seus recursos para um novo propósito. Ele, que era um pária social, promoveu um grande banquete, não para a elite religiosa, mas para seus antigos colegas — outros publicanos e "pecadores". Ele transformou sua casa em um campo missionário, usando sua influência para criar uma ponte entre os marginalizados e o Mestre que o havia chamado. Sua primeira ação como discípulo foi servir de isca para pescar outras pessoas que, como ele, precisavam desesperadamente da graça que acabara de encontrar.
7. Conclusão: A Oferta e o Chamado — Propósito, Qualidade e Transformação
À primeira vista, a visita dos magos e o chamado de Mateus podem parecer episódios distintos no Evangelho. No entanto, quando analisados em conjunto, eles revelam uma verdade unificadora sobre o propósito divino por trás de cada oferta e de cada chamado. Ambas as narrativas demonstram que os atos de entrega a Deus, sejam eles materiais ou a dedicação da própria vida, são investidos de um significado prático e transformador.
Logo após a partida dos magos, o propósito imediato de suas dádivas se torna claro. Conforme Mateus 2:13-14, um anjo instrui José a fugir para o Egito para escapar da fúria de Herodes. Nesse contexto, o ouro, o incenso e a mirra transcendem seu valor simbólico; eles se tornam a provisão divina que financiou a jornada e a estadia da Sagrada Família em uma terra estrangeira, preservando a vida do menino que era Rei, Sacerdote e Profeta. A oferta não foi apenas um ato de adoração, mas a ferramenta de Deus para a continuidade de seu plano.
De forma análoga, a "oferta" de Mateus não foi um objeto, mas sua própria vida, seus recursos e sua reputação. Ao deixar tudo para trás, ele imediatamente investiu o que possuía em um propósito evangelístico: o banquete para os pecadores. Aquele ato de hospitalidade, financiado por alguém que conhecia profundamente aquele meio, tornou-se a ponte para que a mensagem de esperança e arrependimento alcançasse aqueles que eram socialmente desprezados. A vida que ele entregou serviu para trazer outros à mesma presença transformadora que ele havia encontrado.
A lição fundamental que une essas duas histórias é a da intencionalidade. O valor de uma oferta não reside em sua quantidade, mas na qualidade do reconhecimento e na sinceridade do coração que a entrega. Pode-se dar muito sem reconhecer a soberania de Cristo, ou pode-se dar o que se tem com a plena convicção de quem Ele é. Uma oferta verdadeira, seja ela material ou a dedicação da própria vida, nasce do reconhecimento de Cristo em sua totalidade: o Rei a quem se deve lealdade, o Sacerdote que nos conecta a Deus, e o Profeta cujo caminho de sacrifício nos inspira.
Assim, tanto as dádivas dos magos quanto a decisão de Mateus nos ensinam que a maior oferta não é o que damos, mas o quanto de Sua realeza, sacerdócio e verdade profética reconhecemos e permitimos que nos transforme.
Fixação do Conteúdo
Os magos do Oriente trouxeram três presentes simbólicos ao menino Jesus:
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Ouro - Simboliza a realeza de Jesus como Rei eterno
- Exemplo: Como o ouro não se corrompe, representa um reino que nunca terá fim
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Incenso - Representa o sacerdócio perfeito de Jesus
- Exemplo: No templo, o incenso criava uma nuvem que permitia ao sacerdote entrar na presença de Deus; Jesus é o mediador perfeito entre Deus e os homens
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Mirra - Aponta para o papel profético e o sacrifício de Jesus
- Exemplo: A mirra, usada para embalsamar os mortos, precisa ser triturada para liberar seu aroma, assim como Jesus foi "esmagado" para liberar o perfume da graça
O texto também mostra como Mateus (também chamado Levi), um cobrador de impostos desprezado pela sociedade, foi chamado por Jesus e imediatamente deixou tudo para segui-lo. Sua transformação foi tão completa que ele usou seus recursos para aproximar outros "pecadores" de Jesus.
Frase reflexiva: O valor de nossa oferta a Deus não está no que entregamos, mas no quanto reconhecemos quem Ele verdadeiramente é e permitimos que essa verdade nos transforme por completo.
Cidade IMAFE. Discípulo Matheus | Adson Belo. YouTube, 2 de junho de 2020. 2h41min35s. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jd6i6raVxtU. Acesso em: 23 de julho de 2025.