1. Os Magos e as Dádivas: Mais que Presentes, Símbolos de um Reino
A narrativa do nascimento de Jesus, conforme registrada no Evangelho de Mateus, apresenta um dos cenários mais icônicos da tradição cristã: a visita dos magos do Oriente. Guiados por uma estrela, esses homens chegam a Belém com um propósito claro. Conforme instruído por Herodes, eles deveriam buscar diligentemente pelo menino para, supostamente, também o adorarem. O texto bíblico descreve o clímax desse encontro em Mateus 2:11:
"E, entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra."
Uma das primeiras observações que um estudo atento do texto revela desconstrói uma imagem popularmente difundida. Em momento algum a passagem afirma que os visitantes eram três. A tradição associou o número de dádivas (três) ao número de magos, mas o texto sagrado é mais sutil. O evangelho utiliza o pronome plural "eles", indicando um grupo de duas ou mais pessoas, sem especificar a quantidade exata.
Mais revelador do que o número de visitantes é o foco que o evangelista Mateus confere às dádivas. Os nomes e as identidades dos magos se perderam na história, tornando-se objeto de especulação tardia. No entanto, seus presentes são nomeados com precisão: ouro, incenso e mirra. Essa escolha narrativa sugere que a importância não reside em quem eram os ofertantes, mas no significado do que eles traziam. As dádivas eram mais contundentes que seus portadores.
Essas três ofertas, longe de serem presentes aleatórios ou meramente valiosos, carregam uma profunda carga teológica. Elas são interpretadas como a revelação do que a teologia chama de Múnus Triplex, ou o Tríplice Ministério de Cristo. Este conceito afirma que Jesus cumpriu de forma perfeita e unificada três ofícios distintos no Antigo Testamento: o de Rei, o de Sacerdote e o de Profeta. Cada presente, portanto, desvenda uma faceta da identidade e da missão de Jesus, anunciando, desde o seu nascimento, a totalidade de sua obra.
2. O Ouro e a Realeza Eterna de Cristo
A primeira dádiva apresentada pelos magos, o ouro, é universalmente reconhecida como um símbolo de realeza, majestade e divindade. Este metal precioso, que não se corrompe, adornava os palácios de reis e os objetos mais sagrados, representando poder, riqueza e status. Ao oferecerem ouro, os visitantes do Oriente não estavam apenas entregando um presente valioso; eles faziam uma profunda declaração teológica, reconhecendo que o menino nascido em Belém era o herdeiro de uma promessa ancestral de reinado.
Essa promessa remonta ao livro de Gênesis, quando Jacó abençoa seus filhos. Sobre Judá, de cuja linhagem descenderia Jesus, foi profetizado:
"O cetro não se arredará de Judá, nem o legislador dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se congregarão os povos." (Gênesis 49:10)
A entrega do ouro, portanto, era o reconhecimento do cumprimento dessa profecia. Era uma afirmação de que aquele menino era o Rei prometido, detentor de um reino que não seria sazonal ou passageiro, mas eterno. Essa natureza perene de seu reinado é ecoada até mesmo no momento da crucificação, quando um dos malfeitores ao seu lado clama: "Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino" (Lucas 23:42), demonstrando fé em uma soberania que transcendia a morte.
A realeza de Cristo não se limita ao seu nascimento ou ministério terreno, mas se estende por toda a eternidade. O livro de Apocalipse confirma essa soberania de forma grandiosa, descrevendo sua vinda gloriosa. Em sua veste e em sua coxa, ele traz um título que resume sua identidade real:
"E na veste e na sua coxa tem escrito este nome: REI DOS REIS, E SENHOR DOS SENHORES." (Apocalipse 19:16)
Dessa forma, o ouro foi a primeira confissão de fé registrada no evangelho de Mateus: uma proclamação de que aquela criança, nascida em condições humildes, era o soberano Rei prometido, cujo domínio jamais teria fim.
3. O Incenso e o Sacerdócio Perfeito
A segunda dádiva, o incenso, aponta para a segunda função de Cristo: seu sacerdócio perfeito. No Antigo Testamento, o incenso era um elemento central no culto a Deus, simbolizando as orações e a adoração que ascendiam da humanidade para o divino. Sua fumaça aromática representava a mediação, a intercessão e a santidade necessárias para se aproximar de Deus.
A importância do incenso é vividamente ilustrada em sua função no Tabernáculo de Moisés. O Altar de Incenso era uma peça sagrada posicionada no Santo Lugar, estrategicamente encostada ao véu que o separava do Santíssimo Lugar. Sua localização não era acidental. No Dia da Expiação, o único dia em que o sumo sacerdote podia entrar na presença direta de Deus, ele era obrigado a passar por este altar. O ritual exigia que ele criasse uma densa nuvem de fumaça com o incenso.
Essa fumaça tinha um propósito vital: ela deveria esconder a figura do sacerdote, de modo que apenas a oferta e o perfume chegassem diante da Arca da Aliança. Se a fumaça se dissipasse e o sacerdote fosse visto, ele morreria. Era um poderoso símbolo de que, na presença da santidade absoluta de Deus, a identidade humana desaparece, e o que prevalece é a adoração. O incenso, portanto, era a proteção e o meio de acesso.
Ao oferecerem incenso ao menino Jesus, os magos reconheciam profeticamente que Ele seria o Sumo Sacerdote definitivo. Ele não apenas ofereceria orações, mas seria a própria ponte entre Deus e a humanidade. O livro de Hebreus articula essa verdade de forma explícita, contrastando o sacerdócio levítico, temporário e imperfeito, com o sacerdócio eterno de Cristo. A passagem de Hebreus 7:17-21 afirma:
"Porque dele assim se testifica: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque. [...] Pois a lei nenhuma coisa aperfeiçoou e desta sorte é introduzida uma melhor esperança, pela qual chegamos a Deus. E visto como não é sem prestar juramento (porque certamente aqueles, sem juramento, foram feitos sacerdotes, mas este com juramento por aquele que lhe disse: Jurou o Senhor, e não se arrependerá; Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque)."
Este texto estabelece que o sacerdócio de Jesus é superior porque foi selado por um juramento divino, garantindo sua permanência e perfeição. Assim, o incenso oferecido em Belém foi mais do que uma especiaria cara; foi o anúncio de que nascia Aquele que seria o mediador perfeito, cujo sacrifício abriria o véu e daria acesso direto à presença de Deus.
4. A Mirra, o Profeta e o Perfume do Sacrifício
A terceira e última dádiva, a mirra, é a mais sombria e profética de todas. Esta resina amarga era comumente utilizada na antiguidade para embalsamar os mortos, e sua presença no nascimento de Cristo aponta diretamente para o seu sofrimento e morte sacrificial. Ela simboliza o martírio e a dimensão profética de sua missão, que frequentemente envolvia a proclamação de verdades duras e a inevitável perseguição.
Existe uma poderosa analogia no processo de extração do perfume da mirra. Para que a resina exale sua fragrância mais intensa, ela precisa ser triturada, esmagada. Da mesma forma, o ministério de Cristo foi marcado por um processo de "trituração": traição, acusações, humilhação e, finalmente, a crucificação. Contudo, a cada golpe, a cada ferida, o que emanava dele não era amargura ou vingança, mas o perfume da graça, do perdão e do amor. Mesmo na cruz, ele se preocupa com sua mãe e o discípulo amado, perfumando o ambiente de dor com um ato de cuidado.
Essa capacidade de suportar o sofrimento enquanto se cumpre um propósito divino é a marca de um verdadeiro profeta. A função profética não se resume a prever o futuro, mas a falar a verdade de Deus, mesmo que isso gere confronto e rejeição.
Neste ponto, o texto bíblico oferece uma importante distinção, muitas vezes negligenciada: há uma diferença entre possuir o "dom de profetizar" e exercer o "ministério de profeta". O livro de Atos ilustra isso perfeitamente. Em Atos 21:8-9, lemos sobre o evangelista Filipe, que "tinha quatro filhas virgens, que profetizavam". Elas possuíam o dom. No entanto, o versículo seguinte introduz outra figura:
"E, demorando-nos ali por muitos dias, chegou da Judeia um profeta, por nome Ágabo." (Atos 21:10)
A narrativa distingue claramente a ação de profetizar, exercida pelas filhas de Filipe, do ofício de profeta, personificado em Ágabo. O ministério profético é uma vocação específica, um chamado para ser a voz de Deus em um tempo e lugar, muitas vezes arcando com as consequências disso. Jesus cumpriu esse ofício em sua plenitude, sendo reconhecido como tal pela multidão que o ouvia, conforme registrado em Mateus 21:11:
"E a multidão dizia: Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia."
A mirra, portanto, foi o presente que prenunciou o alto custo da missão de Cristo. Ela revelou que Ele seria o Profeta por excelência, cujo sacrifício final seria o perfume mais agradável oferecido a Deus em favor da humanidade.
5. O Chamado de Mateus: Deixando a Alfândega para Seguir o Mestre
Após as narrativas do nascimento e do início do ministério de Jesus, o Evangelho de Mateus nos apresenta um dos chamados mais radicais e socialmente disruptivos: o do próprio autor do livro. A cena, descrita em Mateus 9:9, é sucinta e poderosa:
"E Jesus, passando adiante dali, viu assentado na alfândega um homem, chamado Mateus, e disse-lhe: Segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu."
Para compreender a profundidade deste ato, é crucial entender quem eram os publicanos no contexto judaico do primeiro século. Eles eram cobradores de impostos a serviço do Império Romano, a potência ocupante. Por essa razão, eram vistos por seus compatriotas como traidores, colaboradores do opressor e símbolos da subjugação de Israel. Além da conotação política, eram frequentemente associados à corrupção e à extorsão, enriquecendo ao cobrar taxas superiores às devidas. Seu dinheiro era considerado tão impuro que o Talmude, um dos livros sagrados do judaísmo, proibia que suas ofertas fossem aceitas no Templo.
O chamado de Jesus a Mateus foi, portanto, um ato que quebrou todas as convenções sociais e religiosas da época. Mas Jesus foi além. Em seu grupo de doze apóstolos, Ele incluiu não apenas Mateus, o publicano, mas também Simão, o Zelote. Os zelotes eram um grupo de nacionalistas fervorosos que se opunham radicalmente ao domínio romano e lutavam ativamente por sua derrubada. Em qualquer outra circunstância, um publicano e um zelote seriam inimigos mortais. O primeiro representava a colaboração com o sistema; o segundo, a rebelião contra ele.
A escolha de Jesus de unir esses dois opostos em seu círculo íntimo revela um princípio fundamental de seu Reino: a nova identidade em Cristo transcende e anula as antigas divisões políticas, sociais e ideológicas. Sob o senhorio de Jesus, o publicano e o zelote deixam de ser definidos por suas afiliações terrenas para se tornarem, simplesmente, discípulos. O livro de Atos confirma o sucesso dessa união aparentemente impossível, ao listar os apóstolos reunidos em oração após a ascensão de Jesus:
"E, entrando, subiram ao cenáculo, onde habitavam Pedro e Tiago, João e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu, e Simão, o Zelote, e Judas, irmão de Tiago. Todos estes perseveravam unanimemente em oração e súplicas..." (Atos 1:13-14)
A presença de Mateus e Simão, juntos e "unanimemente", é o testemunho poderoso de que o chamado de Cristo não apenas convida indivíduos, mas cria uma nova comunidade onde as barreiras mais intransponíveis são desfeitas pela graça.
6. Interpretações e Significados: Mateus, Levi e a Mudança de Vida
A figura de Mateus é apresentada nos evangelhos com dois nomes: Mateus (em Mateus 9:9) e Levi (em Marcos 2:14 e Lucas 5:27). Essa duplicidade de nomes era comum na época e, no caso de Mateus, pode simbolizar a profunda transformação que ele experimentou. O evangelho de Marcos oferece um detalhe adicional, identificando-o como "Levi, filho de Alfeu". Isso gerou alguma discussão sobre se ele seria irmão de Tiago, também chamado "filho de Alfeu". No entanto, o texto bíblico nunca os associa como irmãos, e uma interpretação simbólica oferece uma perspectiva interessante: a palavra "Alfeu" em hebraico pode estar relacionada ao conceito de "mudança" ou "troca".
Nessa visão, chamar Levi de "filho de Alfeu" seria uma forma poética de descrevê-lo como um "filho da mudança", alguém cuja identidade foi redefinida por uma transformação radical. Enquanto Tiago parece ter passado por um processo contínuo de mudança, a conversão de Levi/Mateus foi instantânea e definitiva, marcada por um único e poderoso chamado.
O comando de Jesus, "Segue-me", é carregado de significado. A palavra grega original é Akoloutheo, que vai além de um simples "vir atrás". Ela evoca a imagem de um filho que caminha pisando exatamente nas pegadas deixadas por seu pai na areia. Ao dizer "Segue-me", Jesus não estava apenas convidando Mateus para uma jornada, mas para uma completa reorientação de vida. Ele estava dizendo: "Pise onde eu piso, ande como eu ando, adote meu caminho como o seu. Deixe que minhas pegadas definam seu destino".
A resposta de Mateus é tão imediata quanto o chamado. O evangelista Lucas destaca a magnitude de sua decisão:
"E ele, deixando tudo, levantou-se e o seguiu. E fez-lhe Levi um grande banquete em sua casa; e havia ali uma grande multidão de publicanos e outros que estavam com eles à mesa." (Lucas 5:28-29)
Mateus não apenas abandonou sua fonte de riqueza e segurança, mas imediatamente usou seus recursos para um novo propósito. Ele, que era um pária social, promoveu um grande banquete, não para a elite religiosa, mas para seus antigos colegas — outros publicanos e "pecadores". Ele transformou sua casa em um campo missionário, usando sua influência para criar uma ponte entre os marginalizados e o Mestre que o havia chamado. Sua primeira ação como discípulo foi servir de isca para pescar outras pessoas que, como ele, precisavam desesperadamente da graça que acabara de encontrar.
7. Conclusão: A Oferta e o Chamado — Propósito, Qualidade e Transformação
À primeira vista, a visita dos magos e o chamado de Mateus podem parecer episódios distintos no Evangelho. No entanto, quando analisados em conjunto, eles revelam uma verdade unificadora sobre o propósito divino por trás de cada oferta e de cada chamado. Ambas as narrativas demonstram que os atos de entrega a Deus, sejam eles materiais ou a dedicação da própria vida, são investidos de um significado prático e transformador.
Logo após a partida dos magos, o propósito imediato de suas dádivas se torna claro. Conforme Mateus 2:13-14, um anjo instrui José a fugir para o Egito para escapar da fúria de Herodes. Nesse contexto, o ouro, o incenso e a mirra transcendem seu valor simbólico; eles se tornam a provisão divina que financiou a jornada e a estadia da Sagrada Família em uma terra estrangeira, preservando a vida do menino que era Rei, Sacerdote e Profeta. A oferta não foi apenas um ato de adoração, mas a ferramenta de Deus para a continuidade de seu plano.
De forma análoga, a "oferta" de Mateus não foi um objeto, mas sua própria vida, seus recursos e sua reputação. Ao deixar tudo para trás, ele imediatamente investiu o que possuía em um propósito evangelístico: o banquete para os pecadores. Aquele ato de hospitalidade, financiado por alguém que conhecia profundamente aquele meio, tornou-se a ponte para que a mensagem de esperança e arrependimento alcançasse aqueles que eram socialmente desprezados. A vida que ele entregou serviu para trazer outros à mesma presença transformadora que ele havia encontrado.
A lição fundamental que une essas duas histórias é a da intencionalidade. O valor de uma oferta não reside em sua quantidade, mas na qualidade do reconhecimento e na sinceridade do coração que a entrega. Pode-se dar muito sem reconhecer a soberania de Cristo, ou pode-se dar o que se tem com a plena convicção de quem Ele é. Uma oferta verdadeira, seja ela material ou a dedicação da própria vida, nasce do reconhecimento de Cristo em sua totalidade: o Rei a quem se deve lealdade, o Sacerdote que nos conecta a Deus, e o Profeta cujo caminho de sacrifício nos inspira.
Assim, tanto as dádivas dos magos quanto a decisão de Mateus nos ensinam que a maior oferta não é o que damos, mas o quanto de Sua realeza, sacerdócio e verdade profética reconhecemos e permitimos que nos transforme.
Fixação do Conteúdo
Os magos do Oriente trouxeram três presentes simbólicos ao menino Jesus:
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Ouro - Simboliza a realeza de Jesus como Rei eterno
- Exemplo: Como o ouro não se corrompe, representa um reino que nunca terá fim
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Incenso - Representa o sacerdócio perfeito de Jesus
- Exemplo: No templo, o incenso criava uma nuvem que permitia ao sacerdote entrar na presença de Deus; Jesus é o mediador perfeito entre Deus e os homens
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Mirra - Aponta para o papel profético e o sacrifício de Jesus
- Exemplo: A mirra, usada para embalsamar os mortos, precisa ser triturada para liberar seu aroma, assim como Jesus foi "esmagado" para liberar o perfume da graça
O texto também mostra como Mateus (também chamado Levi), um cobrador de impostos desprezado pela sociedade, foi chamado por Jesus e imediatamente deixou tudo para segui-lo. Sua transformação foi tão completa que ele usou seus recursos para aproximar outros "pecadores" de Jesus.
Frase reflexiva: O valor de nossa oferta a Deus não está no que entregamos, mas no quanto reconhecemos quem Ele verdadeiramente é e permitimos que essa verdade nos transforme por completo.
Cidade IMAFE. Discípulo Matheus | Adson Belo. YouTube, 2 de junho de 2020. 2h41min35s. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jd6i6raVxtU. Acesso em: 23 de julho de 2025.