4. Filipe: Desvendando a Identidade do Discípulo "Achado" por Jesus

1. Introdução: Quem foi Filipe na Galeria dos Apóstolos?

Ao explorarmos as narrativas do Novo Testamento, o nome de Filipe emerge consistentemente entre os doze apóstolos, o círculo mais íntimo de seguidores escolhidos por Jesus Cristo. Sua menção em passagens cruciais, como em Atos dos Apóstolos e no Evangelho de Lucas, estabelece sua importância desde o início da formação desse grupo fundamental para a Igreja Primitiva.

Em Atos, seu nome é listado entre os que se reuniram no cenáculo após a ascensão de Jesus:

Atos 1:13: "E, entrando, subiram ao cenáculo, onde habitavam Pedro e Tiago, João e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelote, e Judas, irmão de Tiago."

Da mesma forma, o Evangelho de Lucas o registra no momento da escolha oficial dos doze:

Lucas 6:12-16: "E aconteceu que naqueles dias subiu ao monte a orar, e passou a noite em oração a Deus. E, quando já era dia, chamou a si os seus discípulos, e escolheu doze deles, a quem também deu o nome de apóstolos: Simão, ao qual também chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelote; E Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que foi o traidor."

Contudo, uma análise mais atenta da forma como essas listas são apresentadas revela uma nuance interessante. O teólogo e líder anglicano John Stott (1921-2011) argumentava que a ordem sequencial dos nomes dos discípulos não reflete necessariamente uma hierarquia de cargos, mas sim o grau de intimidade de cada um com Cristo. Nessa perspectiva, Judas Iscariotes é consistentemente mencionado por último, frequentemente acompanhado da designação "o traidor", indicando que, embora exercesse um cargo de confiança, sua intimidade com o Mestre era superficial ou inexistente.

Em contrapartida, figuras como Lázaro de Betânia demonstram que a intimidade com Jesus transcendia os títulos oficiais. Lázaro não era um apóstolo, mas é descrito como um amigo a quem Jesus amava, e era em sua casa que o Mestre frequentemente se hospedava. Isso evidencia que ter um cargo elevado não é sinônimo de proximidade relacional com Deus.

Essa distinção é fundamental para compreendermos a jornada de Filipe. Ele ocupa o quinto lugar na maioria das listas, sugerindo um nível de proximidade significativo. No entanto, sua história é frequentemente obscurecida por uma confusão histórica que precisa ser desvendada antes de podermos apreciar plenamente seu papel e legado.


2. A Grande Confusão Histórica: Filipe, o Apóstolo vs. Filipe, o Evangelista

Um dos maiores desafios ao estudar a vida do apóstolo Filipe é uma confusão histórica que remonta aos primeiros séculos da igreja, conhecida como a era patrística (aproximadamente 200 a 700 d.C.). Desde essa época, muitos teólogos e historiadores misturaram a identidade de Filipe, o Apóstolo, com a de outro personagem bíblico de mesmo nome: Filipe, o diácono e evangelista.

Essa sobreposição de identidades não é um erro moderno. Figuras proeminentes como Eusébio de Cesareia (c. 265-339 d.C.), considerado o "pai da história da Igreja", e Clemente de Alexandria (c. 150-215 d.C.), um dos mais influentes pais da igreja, cometeram esse equívoco em seus escritos. Devido à autoridade de suas obras, a confusão foi perpetuada em muitos comentários e estudos posteriores, criando uma "salada de frutas" teológica que perdura até hoje.

As consequências dessa mistura são significativas. Ela pode levar a interpretações equivocadas, como a ideia de que o apóstolo Filipe teria sido, em algum momento, "rebaixado" para a função de diácono. Essa noção distorce a narrativa bíblica e a estrutura da Igreja Primitiva. Por isso, é crucial abordar o estudo das Escrituras com um espírito crítico e investigativo.

A postura ideal é a dos cristãos de Bereia, elogiada no livro de Atos por sua diligência em verificar os ensinamentos à luz das Escrituras:

Atos 17:11 (implícito na fonte original): "Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim."

Adotar essa mentalidade "bereana" é fundamental. O objetivo deste estudo é, portanto, desmistificar essa confusão, distinguindo claramente as identidades e os ministérios dos diferentes "Filipes" mencionados no Novo Testamento, com base exclusivamente no que os textos sagrados revelam.


3. Os Quatro "Filipes" do Novo Testamento: Uma Distinção Necessária

Para eliminar a confusão histórica, o primeiro passo é reconhecer que o Novo Testamento menciona não dois, mas quatro homens diferentes com o nome Filipe. Cada um tem um papel e um contexto distintos, e identificá-los corretamente é essencial para a clareza da narrativa bíblica.

  1. Filipe, o Apóstolo: Este é o discípulo escolhido por Jesus, integrante do círculo dos doze. Sua história e chamado são o foco principal deste estudo, e ele é a figura central em passagens dos Evangelhos, especialmente o de João.

  2. Filipe, Irmão de Herodes Antipas: O segundo Filipe está associado à corte romana e à dinastia herodiana. Ele é mencionado no Evangelho de Mateus como o primeiro marido de Herodias, que o deixou para se casar com seu irmão, Herodes, o tetrarca.

    Mateus 14:3: "Porque Herodes, havendo prendido a João, o manietou e encerrou no cárcere, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe."

  3. Filipe, o Tetrarca: O terceiro Filipe também pertence à esfera política da época, sendo ele próprio um governante. O Evangelho de Lucas o identifica como tetrarca da Itureia e da província de Traconites durante o tempo do ministério de João Batista.

    Lucas 3:1: "E no ano quinze do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos presidente da Judeia, e Herodes tetrarca da Galileia, e seu irmão Filipe tetrarca da Itureia e da província de Traconites, e Lisânias tetrarca de Abilene..."

  4. Filipe, o Diácono e Evangelista: Este é o quarto Filipe e a principal fonte da confusão histórica com o apóstolo. Ele surge no livro de Atos, sendo um dos sete homens escolhidos pela comunidade de Jerusalém para uma tarefa específica de serviço.

    Atos 6:5: "E este parecer contentou a toda a multidão, e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, e a Filipe, e a Prócoro, e a Nicanor, e a Timão, e a Pármenas e a Nicolau, prosélito de Antioquia."

Com estas distinções estabelecidas, torna-se claro que o apóstolo é uma figura única. Para solidificar essa diferença, é proveitoso analisar a trajetória de seu homônimo mais famoso, o diácono, cuja jornada ministerial é detalhada no livro de Atos.


4. A Jornada de Filipe, o Diácono: De Servidor das Mesas a Evangelista

A trajetória de Filipe, o diácono, é uma das mais dinâmicas do livro de Atos e serve como a prova definitiva de que ele não é o mesmo que Filipe, o apóstolo. Sua história começa em um momento de crise administrativa na igreja de Jerusalém, quando surgiu uma tensão entre os judeus de fala grega (helenistas) e os de fala hebraica.

Os helenistas reclamavam que suas viúvas estavam sendo negligenciadas na distribuição diária de alimentos. Para resolver o conflito e permitir que os apóstolos se concentrassem na oração e no ministério da Palavra, foi proposta a eleição de sete homens de boa reputação para administrar esse serviço. Filipe foi um dos escolhidos.

Atos 6:1-5: "Ora, naqueles dias, crescendo o número dos discípulos, houve uma murmuração dos gregos contra os hebreus, porque as suas viúvas eram desprezadas no ministério quotidiano. E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais constituamos sobre este importante negócio. (...) E este parecer contentou a toda a multidão, e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, e a Filipe..."

Note que foram "os doze" — incluindo o apóstolo Filipe — que convocaram a reunião. Portanto, seria ilógico que um dos convocadores fosse, ao mesmo tempo, um dos escolhidos para a nova função.

O ponto mais conclusivo, no entanto, vem com a perseguição que se seguiu à morte de Estêvão. A Bíblia é explícita ao afirmar quem ficou e quem foi disperso.

Atos 8:1: "E também Saulo consentiu na morte dele. E fez-se naquele dia uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos foram dispersos pelas terras da Judéia e de Samaria, exceto os apóstolos."

O texto deixa claro: os apóstolos permaneceram em Jerusalém. Contudo, versículos seguintes mostram a ação missionária de Filipe fora da cidade.

Atos 8:4-5: "Mas os que andavam dispersos iam por toda a parte, anunciando a palavra. E, descendo Filipe à cidade de Samaria, lhes pregava a Cristo."

Se os apóstolos ficaram em Jerusalém e Filipe desceu para Samaria, a conclusão é inevitável: este Filipe não era um dos doze apóstolos.

Sua dedicação a essa tarefa, no entanto, foi apenas o começo de uma jornada ministerial notável. Embora escolhido como diácono (servidor), seu ministério floresceu, e ele passou a ser reconhecido como um evangelista poderoso. Anos mais tarde, o livro de Atos o descreve com este novo título, destacando o fruto de sua vida:

Atos 21:8-9: "E no dia seguinte, partindo dali Paulo, e nós que com ele estávamos, chegamos a Cesareia; e, entrando em casa de Filipe, o evangelista, que era um dos sete, ficamos com ele. E tinha este quatro filhas virgens, que profetizavam."

A progressão de diácono para evangelista ilustra um princípio fundamental: a identidade e o serviço precedem o título. Antes de qualquer rótulo, há um nome e uma vocação. O apóstolo Paulo entendia isso perfeitamente, como demonstra em sua apresentação na carta aos Romanos:

Romanos 1:1: "Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus."

Primeiro, ele se identifica como "servo". O título de "apóstolo" é uma consequência do seu chamado e serviço. A jornada de Filipe, o evangelista, reforça essa verdade: o ministério autêntico não nasce de um título, mas de um coração disposto a servir onde for necessário.


5. "Eu te Achei": O Chamado Intencional de Filipe, o Apóstolo

Tendo esclarecido as distinções necessárias, podemos agora mergulhar na jornada de Filipe, o apóstolo. Sua primeira aparição na narrativa bíblica ocorre no Evangelho de João, e a forma como seu chamado é descrito revela uma profundidade teológica notável. Diferente de outros discípulos que foram levados a Cristo por terceiros, o texto afirma que Jesus o encontrou de maneira direta e intencional.

João 1:43: "No dia seguinte quis Jesus ir à Galileia, e achou a Filipe, e disse-lhe: Segue-me."

A palavra "achou" aqui é uma tradução do termo grego heuriskō. Esta palavra carrega um significado muito mais forte do que um encontro casual. Heuriskō implica um ato de buscar, averiguar, descobrir e encontrar algo que era procurado. Não foi um encontro ao acaso; Jesus estava ativamente buscando por Filipe. O texto sugere um processo de escolha deliberada: Ele tinha outras opções, mas perscrutou, investigou e, finalmente, selecionou Filipe.

Essa escolha intencional ecoa um padrão divino visto em outras partes das Escrituras. No Antigo Testamento, Deus usa uma linguagem semelhante para descrever a escolha de Davi como rei de Israel.

Salmo 89:20: "Achei a Davi, meu servo; com o meu santo óleo o ungi."

Deus não encontrou Davi por acidente entre os filhos de Jessé. Ele o "achou" porque o estava procurando, pois Davi era um homem segundo o Seu coração. Da mesma forma, Jesus "achou" Filipe porque ele possuía as qualidades que o Mestre buscava. Assim como Deus ungiu Davi para um propósito específico, Jesus chamou Filipe para uma missão apostólica.

Este princípio da escolha soberana de Deus é reforçado pelas próprias palavras de Jesus a seus discípulos mais tarde, no mesmo Evangelho de João:

João 15:16: "Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda."

O chamado de Filipe não foi uma iniciativa sua, mas uma decisão divina. Ao encontrá-lo, Jesus lhe dá uma ordem simples e direta: "Segue-me". A palavra grega para "seguir" (akoloutheō) significa literalmente "caminhar no mesmo caminho", "pisar onde eu piso". Jesus não estava apenas convidando Filipe a acompanhá-lo, mas a adotar seu modo de vida, a compartilhar sua jornada e a pisar em suas pegadas. Ser "achado" por Deus é o primeiro passo para uma jornada de imitação e propósito divino.


6. A Prova em Casa: O Teste da Fé em Betsaida

Ser escolhido por Deus não isenta ninguém de passar por provas. Pelo contrário, o processo de ser "achado" muitas vezes inaugura um período de testes, cujo objetivo não é informar a Deus (que já conhece o coração), mas revelar ao indivíduo a verdadeira natureza de sua própria fé. A segunda vez que Filipe ganha destaque no Evangelho de João, ele se encontra exatamente nessa situação: sendo testado por Jesus.

O cenário é a famosa multiplicação dos pães e peixes, um momento de grande necessidade diante de uma multidão faminta. Em meio a doze discípulos, Jesus se dirige especificamente a Filipe com uma pergunta desafiadora:

João 6:5-7: "Então Jesus, levantando os olhos, e vendo que uma grande multidão vinha ter com ele, disse a Filipe: Onde compraremos pão, para estes comerem? Mas dizia isto para o experimentar; porque ele bem sabia o que havia de fazer. Filipe respondeu-lhe: Duzentos dinheiros de pão não lhes bastarão, para que cada um deles tome um pouco."

A palavra traduzida como "experimentar" é o termo grego peirazō, que significa testar, provar ou colocar a fé em xeque. Jesus não estava buscando informações; Ele estava sondando o coração de Filipe. O teste não era sobre a capacidade de Filipe, mas sobre sua confiança no poder de Cristo. A resposta de Filipe é puramente lógica e pragmática: ele calcula o custo (duzentos denários representavam cerca de oito meses de trabalho) e conclui que a tarefa é impossível. Ele confia na matemática, não no Mestre que o chamou.

O que torna este teste ainda mais profundo é o local onde ele acontece. A narrativa de Lucas, ao descrever o mesmo evento, fornece um detalhe geográfico crucial:

Lucas 9:10: "E, regressando os apóstolos, contaram-lhe tudo o que tinham feito. E, tomando-os consigo, retirou-se para um lugar deserto de uma cidade chamada Betsaida."

A multiplicação dos pães ocorreu nas proximidades de Betsaida. E qual a relevância disso? O Evangelho de João nos informa a origem de Filipe:

João 1:44: "Ora, Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro."

Jesus testa Filipe em seu "território", na região que ele conhecia como a palma da sua mão. Ele, um nativo de Betsaida, sabia melhor do que ninguém quais eram os recursos disponíveis na área. Ao ser confrontado com o problema, sua familiaridade com o ambiente o levou a uma conclusão baseada apenas no que era visível e humano. Ele conhecia a geografia, os mercados, as pessoas, mas se esqueceu do poder daquele que estava ao seu lado.

Este episódio revela um padrão divino: Deus frequentemente nos testa no ambiente que acreditamos dominar. Assim como provou Pedro, um pescador profissional, desafiando-o a lançar as redes após uma noite inteira de fracasso, Ele testou Filipe em sua terra natal. O propósito era claro: mostrar a Filipe que o conhecimento humano e os recursos terrenos são limitados, e que a verdadeira provisão vem daquele que pode multiplicar o pouco e criar o que não existe. A prova em Betsaida foi uma lição para que Filipe aprendesse a confiar não no que ele conhecia, mas em quem ele seguia.


7. A Porta para os Gregos: O Papel de Filipe na Expansão do Evangelho

A terceira aparição significativa de Filipe nos Evangelhos revela outra faceta de seu ministério: ele serviu como uma ponte cultural, uma "porta" de acesso para aqueles que estavam fora do círculo judaico imediato. Se, como visto anteriormente, André foi uma "ponte" que conectou pessoas a Cristo (como seu irmão Pedro), Filipe foi a porta que levou até essa ponte, especialmente para os não-judeus.

Este episódio ocorre durante a última semana do ministério de Jesus, quando alguns gregos (gentios) que estavam em Jerusalém para a festa da Páscoa expressaram o desejo de conhecer o Mestre. A escolha de quem abordar nesse momento foi estratégica e reveladora.

João 12:20-22: "Ora, havia alguns gregos, entre os que tinham subido a adorar no dia da festa. Estes, pois, dirigiram-se a Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e rogaram-lhe, dizendo: Senhor, queríamos ver a Jesus. Filipe foi dizê-lo a André, e então André e Filipe o disseram a Jesus."

O fato de os gregos terem procurado especificamente por Filipe não foi uma coincidência. Seu nome, Philippos, é de origem grega e significa "amante de cavalos". Esse nome foi popularizado na região séculos antes por Filipe II da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande. Em um grupo onde a maioria dos nomes era distintamente hebraica (como Simão, Tiago, João), o nome helenista de Filipe o tornava uma figura acessível e menos intimidante para os gentios. Eles viram nele um ponto de contato cultural.

A reação de Filipe é igualmente interessante. Em vez de levar os gregos diretamente a Jesus, ele primeiro procura André. Essa ação demonstra prudência e, talvez, um reconhecimento da posição de André como um dos primeiros chamados. Juntos, os dois apóstolos levam o pedido a Cristo, mostrando uma dinâmica de cooperação ministerial.

Este evento é profundamente simbólico. A escolha deliberada de Jesus de incluir no seu círculo íntimo um homem com um nome grego não foi acidental. Era um sinal profético de que sua mensagem não se limitaria a Israel, mas se estenderia a todas as nações, cumprindo a promessa de que Ele veio para ser o Salvador do mundo. Filipe, com seu nome e sua disposição, tornou-se a personificação dessa abertura, a porta de entrada para que os "confins da terra" começassem a buscar o Messias. Ele representa o início da universalização do evangelho, um convite para que todos, judeus e gentios, pudessem "ver a Jesus".


8. "Mostra-nos o Pai": A Busca por Intimidade e a Revelação de Cristo

A quarta e última grande intervenção de Filipe no Evangelho de João ocorre durante o discurso de despedida de Jesus, na noite anterior à crucificação. Em um dos momentos teologicamente mais densos do Novo Testamento, Filipe faz um pedido que, embora possa parecer ingênuo, revela um anseio profundo por uma intimidade maior com Deus.

Após Jesus declarar "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim", e afirmar que conhecer a Ele era conhecer o Pai, Filipe expressa o desejo de ver essa promessa concretizada de forma visível e definitiva.

João 14:8-9: "Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta. Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?"

O pedido de Filipe — "mostra-nos o Pai, o que nos basta" — é audacioso e sincero. Ele expressa uma verdade espiritual universal: o coração humano só encontra satisfação plena e definitiva na revelação de Deus. Ele não pede bens materiais, status ou poder; ele pede pelo próprio Deus. Esse desejo reflete o clímax da busca espiritual: ver o Pai.

A resposta de Jesus, embora contenha um tom de leve repreensão ("Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe?"), é, na verdade, uma das mais profundas revelações sobre Sua própria identidade e Sua unidade com o Pai. Jesus redireciona o olhar de Filipe do anseio por uma teofania espetacular (uma aparição visível de Deus Pai, como as do Antigo Testamento) para a realidade da encarnação.

Ainda que a formação judaica de Filipe o levasse a conceber a Deus como um ser transcendente e invisível, a quem não se podia chamar de "Pai" de forma tão direta, Jesus passou mais de três anos ensinando sobre essa paternidade. O Mestre pacientemente explica que a manifestação visível e perfeita do Pai estava bem diante dele, na pessoa do Filho.

João 14:10: "Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras."

O pedido de Filipe, portanto, serviu como o gatilho para uma das afirmações cristológicas mais importantes da Bíblia. Através de sua busca sincera, todos os que leem o evangelho recebem a clareza de que ver Jesus é ver o Pai. As quatro intervenções de Filipe na Escritura, embora poucas, são marcantes: ele foi o discípulo achado intencionalmente, o testado em sua terra natal, a porta para os gentios e o buscador da face do Pai. Sua jornada, ainda que discreta, é um mapa para o crescimento na fé e no conhecimento de Deus.


Resumo de Fixação: A Jornada do Apóstolo Filipe

Tópico Principal Descrição e Pontos-Chave Referências Bíblicas e Citações
Identidade e Posição Filipe é consistentemente listado como um dos doze apóstolos. A ordem dos nomes nas listas pode indicar o grau de intimidade com Cristo, não apenas um cargo hierárquico. Atos 1:13; Lucas 6:14-16
A Confusão Histórica Historiadores da Igreja Primitiva, como Eusébio de Cesareia e Clemente de Alexandria, confundiram Filipe, o Apóstolo, com Filipe, o diácono/evangelista. O Novo Testamento menciona quatro "Filipes" distintos. - Apóstolo: (Foco do artigo) <br>- Irmão de Herodes: Mateus 14:3 <br>- Tetrarca: Lucas 3:1 <br>- Diácono: Atos 6:5
Filipe, o Diácono Foi um dos sete escolhidos para servir as mesas em Jerusalém. A prova de que não era o apóstolo é que ele foi disperso para Samaria durante a perseguição, enquanto os apóstolos permaneceram em Jerusalém. Mais tarde, foi reconhecido como "o evangelista". Atos 6:1-5; Atos 8:1, 5; Atos 21:8-9
O Chamado Intencional A primeira menção ao apóstolo Filipe afirma que Jesus o "achou". A palavra grega heuriskō implica uma busca deliberada e uma escolha intencional, e não um encontro casual. João 1:43; Salmo 89:20; João 15:16
O Teste da Fé Jesus testou Filipe antes da multiplicação dos pães. A palavra grega para "testar" é peirazō. O teste ocorreu em Betsaida, a cidade natal de Filipe, um ambiente que ele conhecia bem, para ensiná-lo a confiar no poder divino acima do conhecimento humano. João 6:5-7; Lucas 9:10; João 1:44
A "Porta" para os Gregos Por ter um nome grego (Philippos), Filipe serviu como uma "porta" de acesso cultural para os gentios que desejavam conhecer Jesus. Ele recebeu o pedido dos gregos e o levou a André. João 12:20-22
A Busca pela Intimidade Em seu último diálogo registrado, Filipe pede a Jesus: "Mostra-nos o Pai". O pedido, embora repreendido, revela um profundo desejo por intimidade com Deus e abre espaço para uma das maiores revelações de Cristo sobre Sua divindade: "Quem me vê a mim vê o Pai". João 14:8-9

Último Passo: Questões de Verdadeiro ou Falso

Avalie as afirmações abaixo como (V) para Verdadeiro ou (F) para Falso, com base no conteúdo do artigo.

  1. ( ) Segundo a interpretação de John Stott, a ordem em que os apóstolos são listados nos Evangelhos reflete principalmente a hierarquia de cargos e autoridade que cada um possuía.
  2. ( ) A confusão entre Filipe, o Apóstolo, e Filipe, o Evangelista, é um erro de interpretação recente, não existindo nos escritos dos pais da igreja como Eusébio de Cesareia.
  3. ( ) O Novo Testamento narra a história de quatro homens diferentes chamados Filipe: o Apóstolo, o irmão de Herodes, o Tetrarca da Itureia e o Diácono de Jerusalém.
  4. ( ) Durante a grande perseguição que se iniciou em Jerusalém, o apóstolo Filipe fugiu para Samaria, enquanto os outros onze apóstolos permaneceram na cidade.
  5. ( ) O termo grego heuriskō, usado para descrever o chamado de Filipe, significa "achar por acaso", indicando que seu encontro com Jesus foi um evento fortuito.
  6. ( ) Jesus testou a fé de Filipe antes da multiplicação dos pães em Betsaida, a terra natal do apóstolo, para prová-lo em um ambiente que ele acreditava conhecer bem.
  7. ( ) Os gregos que desejavam conhecer Jesus procuraram diretamente André, pois ele era conhecido por ter um nome de origem grega e ser mais acessível aos gentios.
  8. ( ) Filipe, o diácono, foi um dos sete escolhidos para servir as mesas e, mais tarde, tornou-se conhecido como "o evangelista", sendo pai de quatro filhas que profetizavam.
  9. ( ) A resposta de Filipe ao teste de Jesus foi pragmática; ele calculou que nem duzentos denários seriam suficientes para alimentar a multidão.
  10. ( ) No seu último diálogo registrado no Evangelho de João, Filipe pede a Jesus que lhe mostre o Pai, e a resposta de Jesus é uma das mais claras afirmações sobre a Sua unidade com o Pai.

Gabarito Comentado

  1. ( F ) Falso. A interpretação de John Stott sugere o contrário. Ele argumentava que a ordem dos nomes indicava o grau de intimidade de cada discípulo com Cristo, e não uma hierarquia de cargos.

  2. ( F ) Falso. A confusão é, na verdade, muito antiga e remonta à era patrística. O artigo cita especificamente Eusébio de Cesareia e Clemente de Alexandria como figuras proeminentes que misturaram a identidade dos dois "Filipes".

  3. ( V ) Verdadeiro. O artigo distingue claramente os quatro personagens: Filipe, o Apóstolo; Filipe, irmão de Herodes e primeiro marido de Herodias; Filipe, o Tetrarca da Itureia; e Filipe, um dos sete diáconos que se tornou evangelista.

  4. ( F ) Falso. O livro de Atos (8:1) é explícito ao afirmar que "todos foram dispersos (...), exceto os apóstolos". Quem desceu para Samaria foi Filipe, o diácono, provando que ele não era o apóstolo.

  5. ( F ) Falso. O artigo explica que a palavra grega heuriskō implica uma busca intencional, uma averiguação e descoberta, e não um encontro casual. O chamado de Filipe foi um ato deliberado de Jesus.

  6. ( V ) Verdadeiro. O teste ocorreu nas proximidades de Betsaida (Lucas 9:10), que era a cidade natal de Filipe (João 1:44). O objetivo era testar sua fé em um ambiente familiar, mostrando que o conhecimento humano é limitado diante do poder divino.

  7. ( F ) Falso. Os gregos procuraram primeiro por Filipe, justamente porque seu nome de origem grega (Philippos) o tornava uma "porta" de acesso cultural. Foi Filipe quem, em seguida, foi falar com André.

  8. ( V ) Verdadeiro. A trajetória de Filipe, o diácono, é exatamente essa: escolhido em Atos 6, ele se torna um poderoso pregador e, em Atos 21, é identificado como "Filipe, o evangelista", pai de quatro filhas que profetizavam.

  9. ( V ) Verdadeiro. A resposta de Filipe, registrada em João 6:7, foi baseada na lógica humana e nos recursos disponíveis. Ele calculou o custo e concluiu pela impossibilidade da tarefa, sem considerar o poder de Cristo.

  10. ( V ) Verdadeiro. Em João 14:8, Filipe faz o pedido: "Senhor, mostra-nos o Pai". Isso leva à profunda resposta de Jesus: "Quem me vê a mim vê o Pai", uma declaração fundamental da fé cristã sobre a divindade de Cristo.


"A jornada de Filipe nos ensina que, após sermos intencionalmente 'achados' por Deus, somos testados em nosso próprio território para que, ao invés de sermos a resposta, nos tornemos a 'porta' que conduz outros à verdadeira revelação: a de que em Cristo, finalmente, podemos 'ver o Pai'."


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Cidade IMAFE. Pr Adson Belo | 12 Discípulos | Filipe. YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=f4cGzZewfxk. Acesso em: 21/08/2025.

Avatar de diego
há 1 semana
Matéria: Religião
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