1. O Ponto de Partida: A Eternidade de Deus e o Sacrifício Eterno de Cristo
Para compreender a grande narrativa apresentada na Bíblia, é fundamental partir de um conceito que desafia a nossa experiência humana: a diferença entre o tempo e a eternidade. Enquanto a existência humana é marcada por uma linha cronológica com início, meio e fim — um ontem, um hoje e um amanhã —, a natureza de Deus é descrita como eterna, existindo fora das limitações do tempo que Ele mesmo criou.
Essa distinção é crucial para interpretar corretamente os eventos centrais da fé cristã. A teologia cristã sustenta que o plano de redenção não foi uma reação a uma falha humana, um "plano B" elaborado após o pecado entrar no mundo. Pelo contrário, a solução já estava presente desde o princípio na mente e no ser de Deus.
Dois textos bíblicos são pilares para essa compreensão. O primeiro, no Evangelho de João, estabelece a identidade e a ação de Cristo na criação. O texto afirma:
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez." (João 1:1-3)
Aqui, Jesus Cristo (o Verbo) é apresentado não apenas como uma figura histórica que surge no Novo Testamento, mas como o agente divino coeterno com Deus Pai, participando ativamente da criação do universo.
O segundo texto, encontrado no livro do Apocalipse, introduz uma ideia ainda mais profunda sobre o papel de Cristo:
"[...] todos os que habitam sobre a terra o adorarão, esses cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo." (Apocalipse 13:8)
À primeira vista, a frase "o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo" parece um paradoxo. Historicamente, a crucificação de Jesus ocorreu em um momento específico, no auge do Império Romano. Contudo, sob a perspectiva da eternidade de Deus, o sacrifício de Cristo não é um evento pontual, mas uma realidade eterna. Para um Deus que "é o que é" (Êxodo 3:14) e para quem mil anos são como um dia, o ato redentor da cruz transcende a cronologia humana.
A doutrina da Trindade ajuda a harmonizar essas ideias: sendo Cristo o próprio Deus, Ele é simultaneamente Criador e Sacrifício na dimensão eterna. A cruz, portanto, não é uma improvisação divina, mas o fundamento sobre o qual a própria história foi construída. Desde o início, o plano de Deus para a humanidade já continha em si o amor sacrificial que se manifestaria visivelmente no Calvário.
2. A Queda: A Ruptura Cósmica e a Origem do Sofrimento Humano
Após o ato da Criação, a narrativa bíblica apresenta um evento de consequências transformadoras e universais: a Queda. Este momento, descrito no terceiro capítulo de Gênesis, é muito mais do que um simples ato de desobediência. Trata-se de uma decisão de natureza ontológica — uma escolha sobre a própria essência do ser humano e sua relação com Deus e com o cosmos.
Antes da Queda, a humanidade vivia em um estado de completa dependência de Deus. O conhecimento, a sabedoria e a compreensão da vida fluíam diretamente dessa relação. O teólogo Dietrich Bonhoeffer sintetizou essa condição ao afirmar que, no Éden, o ser humano "só conhecia a Deus", e todo o seu conhecimento derivava dessa comunhão primordial. A escolha de comer do "fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal" representou o desejo humano de autonomia, de se tornar a fonte do seu próprio discernimento moral, independente de seu Criador.
As implicações dessa escolha foram imediatas e de alcance cósmico. A harmonia original foi quebrada, afetando não apenas o relacionamento entre Deus e a humanidade, mas toda a criação. Isso fica evidente nas sentenças proferidas por Deus em Gênesis:
"E a Adão disse: [...] maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela produzirá também cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo." (Gênesis 3:17-18)
A terra, antes um jardim de provisão generosa, passou a resistir ao trabalho humano. O surgimento de "cardos e abrolhos" simboliza uma desordem na própria natureza, que agora reflete a ruptura espiritual. O pecado não foi um evento que afetou apenas a alma humana; suas ondas de choque se estenderam por todo o cosmos.
Além disso, a Queda introduziu a mortalidade na experiência humana. A promessa de vida eterna no jardim foi substituída pela sentença: "no suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó, e ao pó tornarás" (Gênesis 3:19). A morte física e a luta pela sobrevivência tornaram-se realidades inescapáveis.
Contudo, no meio do juízo, a narrativa bíblica insere a primeira semente de esperança. Ao se dirigir à serpente, Deus faz uma promessa enigmática que a teologia cristã identifica como o Protoevangelho, ou o primeiro anúncio da boa nova:
"Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar." (Gênesis 3:15)
Este versículo é interpretado como a primeira profecia sobre um futuro Redentor, descendente da mulher, que travaria uma batalha contra o mal. Embora fosse ferido no processo (o "ferir do calcanhar"), Ele esmagaria definitivamente o poder do adversário (o "ferir da cabeça"). Assim, a história da Queda não termina em desespero, mas estabelece a necessidade e a promessa da redenção que se desdobraria ao longo de toda a Escritura.
3. A Redenção: A Vinda de Cristo como o Ponto Central da História
Se a Queda representa a profunda fratura na história da humanidade, a Redenção é o evento central que oferece a cura. A vinda de Jesus Cristo ao mundo não é apenas um capítulo na cronologia bíblica; é o seu ponto de inflexão, o momento em que a promessa feita no Éden começa a se cumprir de forma visível e definitiva. Cristo é apresentado como a "Boa Nova", a resposta de Deus à agonia da existência humana marcada pela separação, pelo sofrimento e pela morte.
A lógica da redenção está intrinsecamente ligada aos eventos da Queda. Em Gênesis, logo após o pecado, ocorre o primeiro sacrifício: um animal é morto para que Adão e Eva sejam vestidos com suas peles (Gênesis 3:21), cobrindo a vergonha de sua nudez. Este ato é um prenúncio do que viria a ser o sacrifício definitivo. A morte de Cristo na cruz é vista como o cumprimento perfeito desse simbolismo, onde Ele se torna o "Cordeiro de Deus" cujo sacrifício provê a cobertura para o pecado da humanidade.
A vinda de Cristo representa a inversão da escolha feita no Éden. Enquanto a humanidade buscou a independência de Deus, Jesus, sendo Deus, tornou-se homem e viveu em completa dependência e obediência ao Pai. Sua vida é o modelo da humanidade restaurada. Sua morte e ressurreição oferecem o caminho para que essa restauração seja aplicada a todos que creem. A essência dessa mensagem redentora é encapsulada em um dos versículos mais conhecidos da Bíblia:
"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (João 3:16)
Este ato de amor divino convida a uma resposta humana: o arrependimento e a fé. O chamado para "negar a si mesmo, tomar a sua cruz e segui-lo" e a necessidade de "nascer de novo" são figuras centrais do Novo Testamento. Elas indicam que a redenção não é apenas um perdão concedido, mas uma transformação radical da própria vida, que passa a ser orientada por Cristo.
Além disso, a encarnação de Jesus é o ápice da revelação de Deus. Se antes Deus se comunicava por meio de profetas, leis e eventos, em Cristo, Ele se revela pessoalmente. Jesus é o "Verbo que se fez carne e habitou entre nós" (João 1:14), a manifestação mais clara e completa de quem Deus é. Portanto, a Redenção não é apenas um plano de resgate, mas o momento em que o Criador entra em sua própria criação para restaurá-la a partir de dentro.
4. A Consumação: A Vitória Final e a Restauração do Cosmos
A narrativa bíblica não se encerra na Redenção. Ela avança em direção a um clímax final: a Consumação. Este é o ato final da história, onde o plano de Deus, iniciado na eternidade e centrado na cruz, atinge sua plena realização. Se a Queda colocou o mundo em uma trajetória de degeneração, a Consumação representa a certeza de que essa trajetória tem um ponto final, culminando na erradicação definitiva do mal e na restauração completa de todas as coisas.
A visão do apóstolo João no livro do Apocalipse oferece uma imagem poderosa de Cristo neste estágio final. Ele não é mais apenas o Cordeiro sofredor, mas o Rei vitorioso que ocupa o centro do universo. No entanto, sua identidade sacrificial permanece como a marca de sua glória:
"Então, vi no meio do trono e dos quatro seres viventes, e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto. Ele tinha sete chifres, bem como sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados por toda a terra." (Apocalipse 5:6)
A imagem de um "Cordeiro como tendo sido morto" no trono celestial é profundamente significativa. Ela conecta o sacrifício eterno (mencionado em Apocalipse 13:8) e o sacrifício histórico com a vitória final. A autoridade para julgar, reinar e restaurar o cosmos pertence àquele que se entregou por ele. A cruz não é um evento a ser esquecido, mas a própria base do seu reinado eterno.
A Consumação, portanto, é a resposta definitiva ao problema do sofrimento e da maldade. Ela estabelece uma nova eternidade onde a presença do pecado e suas consequências — dor, morte e a desordem da criação — não existirão mais. Para a fé cristã, esta esperança não é um escapismo, mas a convicção de que a história se move para um fim justo e redentor.
Essa perspectiva molda a vida do crente no presente. A existência cristã é vivida na tensão entre a realidade da Redenção já ocorrida e a expectativa da Consumação que ainda virá. A compreensão de que a vida encontra seu propósito e sustentação em Cristo é resumida pelo apóstolo Paulo em seu discurso em Atenas:
"Pois nele vivemos, nos movemos e existimos." (Atos 17:28)
Esta afirmação ganha um significado mais profundo dentro da linha do tempo bíblica. Viver "nele" significa que a identidade, a segurança e a esperança do indivíduo estão ancoradas no Cristo que é Criador, Redentor e, finalmente, o Rei que trará a consumação de todas as coisas.
5. Sombra e Graça: A Revelação Progressiva de Deus ao Longo dos Testamentos
A estrutura da Bíblia, dividida em Antigo e Novo Testamento, não é uma mera convenção literária, mas um reflexo de como Deus se revelou à humanidade de forma gradual e crescente ao longo da história. Este conceito, conhecido como "revelação progressiva", é fundamental para entender a relação entre as duas partes da Escritura e a centralidade de Cristo em toda a narrativa.
O Antigo Testamento é frequentemente descrito como o "período da sombra". A Lei mosaica, com seus mandamentos, rituais e sacrifícios, cumpria um papel pedagógico crucial: ela delineava a santidade de Deus e, ao mesmo tempo, expunha a incapacidade humana de atingir esse padrão por esforço próprio. A Lei apontava para o pecado, mas não possuía em si o poder de redimir. Era uma sombra que projetava a forma de uma realidade futura, preparando o caminho para a substância que viria.
Em contraste, o Novo Testamento inaugura o "período da graça". Com a vinda de Cristo, a sombra dá lugar à realidade. A salvação, antes prefigurada, agora é claramente revelada como um dom de Deus, acessível pela fé em Jesus. O apóstolo Paulo articula essa transição de forma direta:
"Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, e sim da graça." (Romanos 6:14)
Essa mudança da Lei para a Graça é o resultado da revelação progressiva. Deus não revelou todo o seu plano de uma só vez. Personagens como Abraão, considerado o "pai da fé", agiram com base em uma confiança fundamental em Deus, sem ter a clareza das Escrituras ou da vinda de Cristo que temos hoje. Séculos depois, Moisés recebeu a Lei, um passo adiante na revelação. Posteriormente, os profetas adicionaram mais detalhes sobre a vinda do Messias. Cada etapa construiu sobre a anterior, aprofundando o conhecimento de Deus e de seu plano redentor.
O autor de Hebreus resume perfeitamente este processo:
"Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo." (Hebreus 1:1-2)
Jesus Cristo é, portanto, o ápice e a plenitude dessa revelação. Nele, tudo o que foi escrito e prometido encontra seu cumprimento. Ele é a própria Palavra de Deus manifestada.
A própria organização dos livros bíblicos reflete essa linha do tempo. O Antigo Testamento se organiza em livros da Lei (o Pentateuco), livros Históricos, livros Poéticos e livros Proféticos. Após um período de aproximadamente 400 anos de silêncio profético, o Novo Testamento se inicia com os Evangelhos (que apresentam a vida e a "nova lei" de Cristo), seguidos por um livro Histórico (Atos), as Epístolas (cartas de instrução às primeiras igrejas) e um livro Profético (Apocalipse), completando a grande narrativa da revelação de Deus.
6. Pontos de Aprofundamento e Controvérsia
A análise da grande narrativa bíblica levanta questões teológicas importantes que geram debate e exigem um aprofundamento. A seguir, são explorados alguns desses pontos, com base nas interpretações apresentadas.
A Salvação no Antigo Testamento: Fé ou Obras?
Uma dúvida comum é sobre como as pessoas eram salvas antes da vinda e do sacrifício de Cristo. A resposta teológica consistente é que a salvação sempre foi um ato da graça de Deus, recebido pela fé, e não um resultado do cumprimento da Lei.
O exemplo primordial é Abraão, chamado de "o pai da fé". Ele foi considerado justo por Deus por sua confiança na promessa divina, séculos antes de a Lei ser entregue a Moisés. A Lei, portanto, não funcionava como um meio para alcançar a salvação, mas como um espelho que revelava a natureza do pecado e a necessidade de um Redentor.
O elemento central, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, é o arrependimento. No Antigo Testamento, o ato de oferecer um sacrifício só tinha valor quando acompanhado por um coração genuinamente arrependido, que reconhecia sua dependência de Deus. No Novo Testamento, esse arrependimento é direcionado à pessoa e obra de Jesus Cristo. A base da salvação — a graça de Deus — e o meio para recebê-la — a fé — permanecem os mesmos. A diferença está na clareza da revelação, que se torna plena em Cristo.
O Lugar dos Livros Apócrifos
Os livros apócrifos, como Macabeus e Judite, são escritos que se situam majoritariamente no período intertestamentário (o intervalo de aproximadamente 400 anos entre o Antigo e o Novo Testamento). Embora não façam parte do cânon protestante, eles possuem valor histórico significativo. O livro de Macabeus, por exemplo, narra a revolta judaica contra a dominação grega, um evento crucial para entender o cenário político e religioso em que Jesus nasceu.
A razão para sua exclusão do cânon não se baseia em uma proibição de sua leitura, mas no consenso de que, embora úteis, esses livros não foram considerados parte da linha central da revelação progressiva de Deus. Eles não acrescentam elementos doutrinários fundamentais que já não estivessem estabelecidos nos livros canônicos.
Teofanias e a Plenitude da Revelação em Cristo
O Antigo Testamento é rico em teofanias — manifestações visíveis ou audíveis de Deus, como a sarça ardente vista por Moisés ou as aparições de anjos. Essas manifestações eram poderosas e necessárias em uma época com pouca escritura acessível, servindo para confirmar a presença e o poder de Deus para o povo.
No entanto, essas eram revelações parciais. A vinda de Jesus Cristo representa a Encarnação — não apenas uma manifestação, mas o próprio Deus se tornando homem. Cristo é a revelação suprema e definitiva de Deus. Por essa razão, a ênfase no Novo Testamento se desloca das teofanias para a pessoa de Cristo e para o testemunho das Escrituras sobre Ele. A revelação de Deus não diminuiu; pelo contrário, atingiu seu ápice e sua maior clareza.
Resumo da Narrativa Bíblica em Tabela
Fase da Narrativa | Criação | Queda | Redenção | Consumação |
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Evento Principal | O ato criador de Deus, estabelecendo um mundo perfeito e harmonioso. | A desobediência humana ao escolher a autonomia e o conhecimento do bem e do mal independentemente de Deus. | A vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. | A segunda vinda de Cristo, o Juízo Final e a restauração completa de todas as coisas. |
Estado da Humanidade | Inocência, comunhão direta com Deus e vida eterna. | Natureza pecaminosa, separação de Deus, sofrimento e mortalidade. | Oportunidade de reconciliação, perdão e transformação através da fé em Cristo. | Glorificação, vida eterna em perfeita comunhão com Deus. |
Condição do Cosmos | Perfeito, ordenado e provendo sustento sem esforço. | "Amaldiçoado", em degeneração, produzindo "cardos e abrolhos" e resistindo ao ser humano. | A criação "geme" aguardando a sua própria redenção final. | Novos céus e nova terra, onde não haverá mais dor, morte ou mal. |
Palavra-Chave | Início | Ruptura | Resgate | Restauração |
Versículo-Chave | Gênesis 1:1 "No princípio, criou Deus os céus e a terra." | Gênesis 3:17 "...maldita é a terra por tua causa..." | João 3:16 "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito..." | Apocalipse 5:6 "...um Cordeiro como tendo sido morto..." (no trono) |
Perguntas e Respostas Fundamentais
1. Como as pessoas eram salvas no Antigo Testamento, antes de Jesus? A salvação sempre foi pela graça de Deus, mediante a fé. No Antigo Testamento, a fé era depositada no único Deus verdadeiro e em Suas promessas, mesmo que a figura de Cristo não fosse totalmente clara. Personagens como Abraão foram considerados justos por sua fé, não por obras. A Lei e os sacrifícios não salvavam, mas apontavam para a santidade de Deus, a realidade do pecado e a necessidade de um Redentor, que viria a ser Cristo. O arrependimento e a confiança em Deus eram os elementos centrais.
2. Por que a crucificação de Jesus não é considerada um "Plano B" de Deus? Porque Deus opera na eternidade, fora das limitações do tempo. A Bíblia afirma que Cristo é o "Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo" (Apocalipse 13:8). Isso significa que, na mente e no plano eterno de Deus, o sacrifício redentor de Cristo não foi uma reação a uma falha, mas um elemento central e pré-existente da própria criação. A cruz sempre foi o plano principal.
3. O que significa "revelação progressiva"? É a ideia de que Deus não revelou todo o Seu plano de uma só vez, mas o fez gradualmente ao longo da história. O Antigo Testamento é como uma "sombra" que projeta a forma do que está por vir. O Novo Testamento é a "realidade" ou a "substância" que preenche essa sombra, com a vinda de Cristo sendo o ponto máximo e mais claro da revelação de Deus (Hebreus 1:1-2). O conhecimento de Deus foi se aprofundando com o tempo, culminando em Jesus.
4. Por que a Queda teve consequências tão drásticas para todo o universo? Porque não foi apenas um ato de desobediência, mas uma decisão ontológica: uma mudança na essência do ser humano. Ao escolher a independência, a humanidade, que tinha o papel de zelar pela criação, quebrou sua relação fundamental com o Criador. Essa ruptura espiritual teve um efeito dominó, introduzindo desordem, sofrimento e morte não apenas na vida humana, mas em todo o cosmos que estava sob seu cuidado. A terra se tornou "maldita" por causa dessa escolha (Gênesis 3:17).
5. Se a Redenção já aconteceu com a vinda de Cristo, por que o mundo ainda vive tanta maldade e sofrimento? A teologia cristã entende que vivemos no período do "já e ainda não". A vitória sobre o pecado e a morte já foi conquistada por Cristo na cruz. A Redenção foi inaugurada. No entanto, a aplicação final e completa dessa vitória, a Consumação, ainda não aconteceu. Vivemos na tensão entre a realidade da vitória de Cristo e a manifestação contínua das consequências da Queda, aguardando a restauração final de todas as coisas.
A Grande Narrativa Bíblica**
Leia as afirmações abaixo e marque (V) para Verdadeiro ou (F) para Falso.
- ( ) O plano de salvação através de Cristo foi uma solução de emergência criada por Deus somente após o pecado de Adão e Eva.
- ( ) A Queda, descrita em Gênesis, afetou apenas o relacionamento espiritual do ser humano com Deus, sem impactar a natureza ou o mundo físico.
- ( ) O conceito de "revelação progressiva" significa que Deus revelou Seu plano de uma só vez, de forma completa, desde o início da Bíblia.
- ( ) No Antigo Testamento, a salvação era alcançada pelo cumprimento perfeito da Lei Mosaica.
- ( ) A identidade de Cristo como o "Cordeiro que foi morto" é central para a sua obra de redenção e é mantida até mesmo em sua glória final no Apocalipse.
- ( ) A vinda de Cristo é vista como o ponto central da história bíblica, sendo a resposta definitiva ao problema introduzido pela Queda.
- ( ) O Antigo Testamento é considerado o "período da sombra" porque suas leis e rituais apontavam para a realidade futura que seria plenamente revelada em Cristo.
- ( ) Os livros apócrifos são considerados historicamente inúteis e sua leitura é proibida pela fé cristã.
- ( ) Mesmo no momento do juízo da Queda, Deus inseriu uma promessa de um futuro Redentor em Gênesis 3:15.
- ( ) A Consumação, ou o fim da história bíblica, se resume à destruição do mundo, sem uma promessa de restauração.
Gabarito Comentado
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(F) FALSO. Comentário: A Bíblia apresenta o sacrifício de Cristo como um plano eterno de Deus. Textos como Apocalipse 13:8 referem-se a Ele como o "Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo", indicando que a Cruz não foi um "plano B", mas um elemento central do plano de Deus desde a eternidade.
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(F) FALSO. Comentário: As consequências da Queda foram cósmicas. Além da ruptura espiritual, a própria criação foi afetada. Gênesis 3:17 afirma que a terra se tornou "maldita" por causa do homem, passando a produzir "cardos e abrolhos", o que simboliza uma desordem que se estendeu a toda a natureza.
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(F) FALSO. Comentário: O conceito de "revelação progressiva" significa exatamente o oposto. Deus revelou Seu plano gradualmente ao longo da história, com cada etapa construindo sobre a anterior. A revelação começa de forma mais velada no Antigo Testamento e atinge sua plenitude e clareza máxima na pessoa de Jesus Cristo.
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(F) FALSO. Comentário: A salvação, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, é pela graça mediante a fé. A Lei servia para apontar o pecado e a santidade de Deus, mas não era um meio para alcançar a salvação. Personagens como Abraão foram justificados por sua fé, muito antes de a Lei ser dada.
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(V) VERDADEIRO. Comentário: A identidade sacrificial de Cristo é fundamental. Ele é o Cordeiro que redime a humanidade e, mesmo no trono celestial descrito em Apocalipse 5:6, Ele é visto "de pé, como tendo sido morto", mostrando que sua vitória e autoridade estão intrinsecamente ligadas ao seu sacrifício.
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(V) VERDADEIRO. Comentário: A Redenção através de Cristo é o ponto de inflexão de toda a narrativa bíblica. Sua vida, morte e ressurreição são a resposta direta ao problema da Queda, oferecendo reconciliação, restauração e a inversão da escolha de independência feita no Éden.
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(V) VERDADEIRO. Comentário: O termo "sombra" (usado em livros como Hebreus e Colossenses) descreve perfeitamente o papel do Antigo Testamento. Suas cerimônias, leis e sacrifícios eram prefigurações que projetavam a forma da realidade que seria plenamente manifestada em Cristo, a "substância".
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(F) FALSO. Comentário: Os livros apócrifos têm valor histórico e cultural, ajudando a compreender o período entre os testamentos. Eles não são considerados parte do cânon inspirado por não se alinharem à linha central da revelação divina, mas sua leitura não é proibida.
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(V) VERDADEIRO. Comentário: Em Gênesis 3:15, Deus promete que o descendente da mulher feriria a cabeça da serpente. Este trecho é conhecido como o Protoevangelho (o primeiro anúncio da boa nova) e é interpretado como a primeira promessa de um Redentor que, embora ferido, venceria o mal.
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(F) FALSO. Comentário: A Consumação não é apenas sobre juízo e destruição, mas, fundamentalmente, sobre restauração. A narrativa bíblica termina com a promessa de "novos céus e nova terra", um cosmos completamente restaurado onde não haverá mais mal, dor ou morte, e a comunhão com Deus será plena.