1. Os Riscos Associados ao Uso Contínuo de Omeprazol e Similares
Medicamentos da classe dos inibidores da bomba de prótons (IBPs), como o omeprazol e o pantoprazol, estão entre os mais prescritos e utilizados para o alívio de sintomas como azia e refluxo. Embora eficazes em reduzir a acidez estomacal e proporcionar alívio temporário, seu uso contínuo e indiscriminado tem sido associado a uma série de riscos significativos para a saúde, transformando o que parece ser uma solução simples em uma fonte potencial de problemas mais complexos.
A supressão crônica do ácido gástrico interfere em processos fundamentais do organismo, e a literatura médica tem levantado alertas sobre as seguintes consequências a longo prazo:
- Aumento do Risco de Demência: Estudos têm apontado para uma correlação preocupante entre o uso prolongado de IBPs e um aumento na incidência de demência e declínio cognitivo em idosos.
- Depressão e Deficiências Nutricionais: A acidez estomacal é crucial para a absorção adequada de diversas vitaminas e minerais, como as do complexo B (especialmente a B12), ferro, cálcio e magnésio. A inibição dessa acidez prejudica a absorção desses nutrientes, o que pode levar a quadros de depressão, anemia, fadiga e outros problemas neurológicos.
- Doenças Cardiovasculares: A utilização contínua desses medicamentos também tem sido associada a um maior risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
- Câncer de Estômago: Paradoxalmente, um medicamento usado para proteger o sistema digestivo pode, a longo prazo, aumentar o risco de câncer de estômago. A alteração crônica do pH estomacal pode criar um ambiente que favorece o crescimento de bactérias e inflamações que são precursoras de condições malignas.
Dessa forma, a abordagem que foca apenas em neutralizar o ácido gástrico sem investigar a causa raiz do problema pode mascarar os sintomas enquanto, silenciosamente, abre portas para condições de saúde mais graves. A supressão ácida não é uma intervenção isenta de efeitos colaterais e suas implicações sistêmicas devem ser cuidadosamente consideradas.
2. O Paradoxo da Acidez: Hipocloridria como a Verdadeira Causa da Azia e do Refluxo
Contrariamente à crença popular, a sensação de queimação característica da azia e do refluxo raramente é causada por um excesso de produção de ácido no estômago. Na verdade, em uma esmagadora maioria dos casos, o cenário é exatamente o oposto: a causa raiz é a hipocloridria, ou seja, a produção insuficiente de ácido clorídrico.
Para compreender este paradoxo, é fundamental conhecer a diferença de pH entre o esôfago e o estômago. O esôfago possui um ambiente com pH próximo da neutralidade, variando entre 6 e 7. Sua mucosa (o revestimento interno) não foi projetada para suportar a acidez. O estômago, por outro lado, é um órgão que precisa ser extremamente ácido para cumprir suas funções de digestão e esterilização, com um pH ideal que se situa entre 1 e 2.
A hipocloridria é a condição na qual o estômago não consegue manter esse nível ótimo de acidez. Quando o conteúdo estomacal, mesmo que esteja com um pH mais elevado que o normal (por exemplo, 3, 4 ou 5), retorna para o esôfago, o contraste é drástico. Esse líquido, ainda que "fraco" para os padrões estomacais, é extremamente agressivo para a delicada parede do esôfago, causando a lesão química e a sensação de queimação que conhecemos como azia.
De acordo com a linha de raciocínio apresentada, estima-se que 99,9% das pessoas que sofrem com refluxo e azia apresentam, na realidade, um quadro de baixa acidez gástrica. Portanto, o problema não é a hiperacidez, mas sim uma disfunção no sistema digestivo que começa com a falta dela, permitindo que o conteúdo gástrico retorne para um local inadequado.
3. Como a Baixa Acidez Gástrica Provoca o Refluxo: O Papel dos Esfíncteres
O processo digestivo é uma orquestra finamente sintonizada, onde cada etapa depende de sinais químicos precisos para acontecer no momento certo. A acidez estomacal é um dos maestros mais importantes dessa orquestra, especialmente no controle das "portas" de entrada e saída do estômago, conhecidas como esfíncteres.
O estômago possui duas válvulas principais: o esfíncter esofágico inferior, que o separa do esôfago, e o esfíncter pilórico, que o separa do intestino delgado. Enquanto a abertura do esfíncter superior é um ato majoritariamente mecânico e neurológico (acontece quando engolimos), a abertura do esfíncter pilórico é quimicamente dependente.
Para que a digestão prossiga corretamente, duas coisas cruciais precisam acontecer no estômago:
- Ativação da Pepsina: A principal enzima responsável pela quebra de proteínas, a pepsina, só é ativada em um ambiente extremamente ácido, especificamente quando o pH estomacal é inferior a 2.
- Abertura do Esfíncter Pilórico: O pH ácido funciona como um gatilho. Quando o conteúdo do estômago atinge a acidez necessária (pH < 2), ele sinaliza ao esfíncter pilórico que o alimento foi devidamente processado e está pronto para passar para a próxima fase da digestão no intestino.
Aqui reside o cerne do problema do refluxo: quando uma pessoa sofre de hipocloridria (baixa acidez), o pH do estômago permanece acima de 2. Sem o estímulo ácido adequado, o esfíncter pilórico não recebe o sinal para abrir. Consequentemente, o alimento fica retido no estômago por mais tempo do que deveria, fermentando e gerando gases.
Essa pressão interna aumenta, e o conteúdo estomacal busca uma via de escape. Como a porta de saída (esfíncter pilórico) está fechada, a pressão força o conteúdo a subir, vencendo a barreira do esfíncter esofágico e retornando ao esôfago. É esse retorno – o refluxo – que causa a sensação de queimação, pois, como vimos, a mucosa do esôfago não está preparada para qualquer nível de acidez.
4. A Lógica Contraditória: Por que Inibir a Produção de Ácido Pode Agrav ar o Problema
Diante da compreensão de que a azia e o refluxo são, na maioria das vezes, sintomas de baixa acidez estomacal (hipocloridria), a abordagem de tratamento com medicamentos como o omeprazol se revela profundamente contraditória. Esses fármacos, conhecidos como inibidores da bomba de prótons (IBPs), atuam bloqueando a produção de ácido clorídrico, ou seja, diminuem ainda mais a acidez de um estômago que já está com dificuldade para ser ácido o suficiente.
Ao tomar um IBP, o paciente pode sentir um alívio temporário da queimação. Isso ocorre porque o pH do estômago se torna ainda mais elevado (menos ácido), e o líquido que reflui para o esôfago fica menos agressivo. No entanto, essa abordagem não trata a causa do problema; pelo contrário, a perpetua. O esfíncter pilórico, que depende de um pH baixo para abrir, permanecerá fechado, e o refluxo continuará a ocorrer, ainda que com um conteúdo menos irritante.
Essa estratégia cria um ciclo vicioso e perigoso. Ao tratar apenas o sintoma (a queimação) e não a causa (a hipocloridria), o uso contínuo de omeprazol pode desencadear uma cascata de outros problemas de saúde, consequência direta da má digestão e da má absorção de nutrientes. O paciente, que inicialmente buscava alívio para a azia, pode se ver diante de novos quadros clínicos, como:
- Dores articulares: A absorção deficiente de minerais essenciais para a saúde óssea e articular, como cálcio e magnésio, pode levar a dores e inflamações.
- Depressão e ansiedade: A má absorção de vitaminas do complexo B, fundamentais para a saúde do sistema nervoso e a produção de neurotransmissores, está diretamente ligada ao surgimento de transtornos de humor.
- Perda de memória e declínio cognitivo: A deficiência de vitamina B12, cuja absorção depende criticamente do ácido estomacal, é uma causa conhecida de problemas neurológicos e de memória.
Dessa forma, o paciente entra em uma polifarmácia, onde um medicamento leva à necessidade de outro para tratar os efeitos colaterais do primeiro. A lógica de inibir a produção de ácido para tratar um problema causado pela falta dele é, portanto, uma falha conceitual que pode agravar a condição geral de saúde do indivíduo a longo prazo.
5. Investigando a Raiz do Problema: O Caminho para o Tratamento Efetivo
A palavra "remédio" deriva de "remediar", que significa aplicar uma solução paliativa, muitas vezes sem corrigir a origem do problema. Uma abordagem de saúde verdadeiramente eficaz, no entanto, busca ir além: investigar e tratar a causa fundamental. No caso da azia e do refluxo, isso significa perguntar: "Por que o estômago não está produzindo ácido clorídrico suficiente?".
A produção de ácido gástrico não ocorre no vácuo; ela depende de cofatores nutricionais específicos. A hipocloridria pode ser um sinal de deficiências subjacentes, como:
- Deficiência de Zinco: Este mineral é um componente vital para a enzima anidrase carbônica, que desempenha um papel crucial na secreção de ácido clorídrico pelas células do estômago.
- Deficiência de Iodo: O iodo também é essencial para a função gástrica e a manutenção de um pH adequado.
Portanto, o primeiro passo para um tratamento efetivo é investigar a existência dessas e de outras carências nutricionais. A correção dessas deficiências é a base para restaurar a capacidade natural do corpo de produzir ácido.
Em alguns casos, especialmente no início do tratamento, pode ser necessário o uso de suplementos para auxiliar o processo digestivo. O cloridrato de betaína, por exemplo, é um suplemento que ajuda a aumentar a acidez do estômago, mimetizando a função do ácido clorídrico. Ele pode ser utilizado para quebrar o ciclo vicioso da má digestão enquanto as causas da hipocloridria são tratadas.
É crucial reforçar o mecanismo fisiológico: o esfíncter esofágico, na parte superior do estômago, funciona por ação neurológica e se abre com a deglutição. Já o esfíncter pilórico, na saída para o intestino, é quimicamente dependente. Ele só abre quando o pH do estômago está abaixo de 2. Quando o pH está mais alto devido à hipocloridria, o esfíncter pilórico não abre, o alimento fica retido, fermenta, e a pressão resultante força o seu retorno para o esôfago, causando a queimação.
A solução, portanto, não está em reduzir ainda mais a acidez, mas em restaurá-la ao seu nível ideal. A chave é compreender a fisiologia do corpo e tratar a causa, em vez de apenas silenciar os sintomas, que são, na verdade, importantes sinais de alerta de que algo não vai bem.
Fonte: Dr. Lufas F Mattos, Instagram: https://www.instagram.com/p/DMdzACIM8qR/