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Atos 3:1–4:4: O Milagre Que Não Era Sobre o Milagre

Onde paramos: do Pentecostes à porta Formosa

Vamos nos lembrar de onde paramos na semana passada. Foram uns quatro artigos falando sobre o capítulo 2 — sobre o que aconteceu no dia de Pentecostes, aquele grande evento da descida do Espírito e o que ele representou. Falamos da balbúrdia que aquilo causou no pessoal que estava ali fora do sinédrio, e do que Pedro fez a partir da descida do Espírito: a pregação, e quase três mil pessoas se converteram e se batizaram naquele dia. Depois, Lucas explica a Teófilo como era a vida desse povo que passou a seguir a Cristo.

É onde paramos. Agora vamos ler o capítulo 3, do verso 1, até o capítulo 4, verso 4. Prestem atenção nessa narrativa:

Pedro e João estavam se dirigindo ao templo para a oração das três horas da tarde.

Olhem que interessante: ainda não existia igreja. Eles iam ao templo mesmo. Até esse momento, a fé cristã ainda não era uma fé desassociada, desligada do judaísmo. Os crentes em Jesus eram tidos como um movimento de renovação dentro da fé judaica. Ainda não havia essa cisão que temos hoje — judaísmo de um lado, fé cristã do outro. Eles estavam indo para o templo, para a oração das três horas da tarde.

E é nesse cenário simples, cotidiano, que a narrativa começa: dois discípulos a caminho de uma oração de rotina. Nada ali sugeria que aquele dia seria diferente dos outros — nem para Pedro e João, nem para o homem que os esperava na porta.


O homem que ninguém via, mas todos conheciam

Estava sendo levado um homem coxo de nascença — de nascença — que diariamente era colocado à porta do templo, a porta chamada Formosa, para pedir esmolas aos que ali entravam. Quando ele viu Pedro e João, que iam entrar no templo, pediu que lhe dessem uma esmola.

A gente não tem certeza absoluta de qual porta era essa. Pode ser a porta da muralha que dava direto ao templo, uma das principais, hoje chamada de Portão Dourado — está fechada, não é mais aberta, mas quem já foi a Jerusalém consegue ver ali a marca dela. Essa porta dava acesso direto ao pátio do templo, que era uma obra gigantesca de Herodes. Foi ele quem fez essa ampliação toda. Aliás, quando alguém me mostra na internet um desenho e fala "olha o Templo de Salomão", eu corrijo: o de Salomão era bem menor, só a parte do sacrifício. Essa ampliação toda é conhecida como o templo de Herodes — e nem todos os judeus gostavam muito dela, porque Herodes colocou a mão e ampliou muito mais do que Deus havia dado a Davi como planta do templo.

Nesse grande pátio, que também já era considerado parte do templo, havia uma fortaleza chamada Antônia — uma torre onde ficavam soldados romanos verificando o que acontecia lá dentro. Isso era visto como uma ofensa: ter soldados romanos dentro do pátio, que para eles já era espaço sagrado.

Alguns entendem que a porta Formosa seria a que dava acesso ao ambiente mais interno do templo, separando o pátio dos gentios do átrio das mulheres — até onde as mulheres podiam entrar. Outros acham que seria uma terceira porta, a que separava o átrio das mulheres do átrio dos homens de Israel. A verdade é que não temos certeza. O Pórtico de Salomão, provavelmente, era um lugar do lado de fora — isso quase certeza, mas não sabemos exatamente onde ficava. O que sabemos é que, passando a porta da muralha e entrando no pátio do templo, já havia um pórtico com um arco chamado Pórtico de Salomão.

O que importa, de verdade, é isto: esse homem já tinha mais de quarenta anos, e todos os dias era colocado ali. Isso significa que todo mundo o conhecia. Quando ele entra e adentra a região do templo, o povo fica espantado — porque todo mundo conhecia aquele homem. Muita gente ali já tinha dado esmola para ele, ou já tinha se recusado a dar.

E eu não estou errado ao dizer que o próprio Pedro e João já haviam se deparado várias vezes com aquele homem naquela porta. Porque eles entravam no templo repetidamente ao longo da vida — centenas de vezes, talvez, já que todo mundo ia ao templo nas festas: Páscoa, Pentecostes, e outras festas judaicas, para adorar e oferecer seus sacrifícios. Fazia parte da vida religiosa.

E eu talvez não esteja errado em dizer, também, que o próprio Jesus entrou naquele templo. Antes da sua morte e ressurreição, e estamos falando de uma narrativa que se passa alguns meses depois — pelo menos dois — da ressurreição de Cristo. O próprio Jesus entrou e saiu daquele templo, e passou por aquele homem.

Interessante isso, irmãos. Interessante isso: e não fez nenhum milagre. Não curou aquele homem. Nem Pedro e João pensaram em fazer isso antes. E nem Jesus fez. Eu só estou dizendo isso porque é o que está escrito — eu só estou lendo o que está escrito.

Há uma segunda coisa interessante: quando o homem é curado e entra no templo, há um alvoroço, porque todo mundo o conhecia. E eles ainda estavam ali com o homem quando o povo veio até Pedro e João no Pórtico de Salomão — ou seja, eles estavam no pátio ainda. Houve um alvoroço, e essa galera veio para cima de Pedro e João.


"O que eu tenho, isso lhe dou"

Quando ele viu Pedro e João que iam entrar no templo, pediu que lhe dessem uma esmola. Pedro, fitando-o juntamente com João, disse:

"Olha para nós."

Ele olhava atentamente, esperando receber alguma coisa. Mas Pedro disse:

"Eu não possuo nem prata nem ouro. Mas o que eu tenho, isso lhe dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levante-se e ande."

E, pegando na mão direita do homem, ajudou-o a se levantar. Imediatamente, seus pés e tornozelos se firmaram, e, dando um salto, ficou de pé e começou a andar. Entrou com eles no templo, pulando e louvando a Deus. Todo o povo viu o homem andando e louvando a Deus, e reconheceram que ele era o mesmo que pedia esmolas assentado à porta Formosa do templo. Todo mundo conhecia aquele homem, e ficaram muito admirados e espantados com o que tinha acontecido.

Agora, prestem atenção nisso: por que especula tanto sobre o que o povo estava perguntando? Não temos aqui, no texto, a pergunta que o povo fez a Pedro e a João. Mas, pela resposta deles, a gente imagina o que estava sendo perguntado. Quando Pedro começa a dizer "vocês estão achando que esse homem foi curado pelo nosso poder ou pela nossa piedade", isso me faz pensar que talvez as pessoas estivessem se aproximando porque viram um sinal e pensaram: esses caras podem fazer mais sinais, faça um para mim também.

É bem provável que esse fosse o questionamento — e é para responder a isso que Pedro diz: não é o nosso poder, não somos nós que temos poder para fazer isso. E, com certeza, eles também, quando passavam por aquela porta e viam aquele homem ali — talvez até por anos — nunca tinham se atentado à ideia, ou ao fato, de que deveriam levar cura para aquele homem.

Um homem que pediu uma esmola, e não pediu um milagre. O texto não diz que ele creu. O texto diz que ele pediu uma esmola. Foi Pedro e João que acharam que deveriam falar para ele levantar e andar.

Vejam o padrão: eu não possuía prata nem ouro, mas o que eu tinha, isso lhe dei. Não foi porque aquele homem merecia. Não foi porque ele pediu por isso. Foi porque, diante de alguém que só esperava uma moeda, um discípulo decidiu oferecer o nome de Jesus Cristo Nazareno — e esse nome bastou.


O alvoroço no Pórtico de Salomão

Enquanto aquele homem ainda se mantinha ao lado de Pedro e João, todo o povo, perplexo, correu para junto deles no Pórtico chamado de Salomão. Quando Pedro viu isso, dirigiu-se ao povo, dizendo:

"Israelitas, por que vocês estão admirados com isso? Ou por que estão com os olhos fixos em nós, como se, pelo nosso próprio poder ou piedade, tivéssemos feito esse homem andar?"

Olhem que interessante: ele está falando para o povo judeu. "Israelitas" — por que vocês estão admirados com isso? Por que estão olhando para a gente como se nós tivéssemos algum poder, alguma coisa nossa que produziu isso?

Vou repetir: eu não estou dizendo que o povo perguntou algo explícito registrado no texto. Mas pela forma como Pedro responde, dá para reconstruir a cena. Havia gente ali que, provavelmente, já tinha ouvido falar da descida do Espírito, dos sinais dos apóstolos, e agora viam esse homem — que todos conheciam, que estava ali havia mais de quarenta anos pedindo esmola — andando, pulando, louvando a Deus. A reação natural de qualquer multidão diante de algo assim é achar que encontrou uma fonte de poder. Alguém que "sabe fazer milagre". E é exatamente essa suposição que Pedro precisa desmontar antes de dizer qualquer outra coisa.

Por isso ele começa negando a si mesmo como protagonista. Não fixem os olhos em nós. Não é sobre nosso poder. Não é sobre nossa piedade. E, ao negar isso, ele já está preparando o terreno para apontar para outro lugar — para o verdadeiro autor daquele sinal.


Não foi por nosso poder nem piedade

Pedro continua:

"O Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus de Jacó, o Deus dos nossos pais, glorificou o seu servo Jesus, a quem vocês entregaram e negaram diante de Pilatos, quando este já havia decidido soltá-lo. Vocês negaram o Santo e o Justo, e pediram que fosse solto um assassino, que foi Barrabás. Vocês mataram o Autor da Vida, a quem Deus ressuscitou dos mortos, do que nós somos testemunhas. Pela fé em nome de Jesus, é que esse mesmo nome fortaleceu a este homem que vocês estão vendo e bem conhecem. Sim, a fé que vem por meio de Jesus deu a esse homem saúde perfeita na presença de todos vocês."

Reparem no movimento que Pedro faz. Ele não nega apenas que o poder seja dele e de João — ele imediatamente credita tudo a um nome, a uma pessoa, a uma história: o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. O mesmo Deus que essas pessoas diziam servir, o mesmo Deus do templo onde estavam, o mesmo Deus da aliança que aprenderam desde crianças. Pedro não está trazendo um Deus novo. Ele está dizendo: o Deus que vocês já conhecem glorificou o seu servo Jesus — o mesmo Jesus que vocês entregaram, negaram, e mataram.

E aqui ele não amacia a acusação. Ele diz com todas as letras: vocês negaram o Santo e o Justo. Vocês pediram a soltura de um assassino em vez dele. Vocês mataram o Autor da Vida. Não há como suavizar isso. Mas, logo em seguida, ele acrescenta:

"E agora, irmãos, eu sei que vocês fizeram isso por ignorância, ou seja, entregaram-no à morte por ignorância — como também as suas autoridades o fizeram."

Ele não está ali para condenar sem esperança. Ele nomeia o pecado com clareza — mataram o Autor da Vida — mas também abre uma porta: fizeram isso por ignorância. Essa é a tensão que sustenta toda pregação apostólica: dizer a verdade sobre o que foi feito, sem fechar a porta para o arrependimento.

E então vem a virada teológica mais importante desse discurso: "mas Deus assim cumpriu o que tinha anunciado anteriormente pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo havia de padecer." O que os profetas anunciaram, diz Pedro, era sobre Cristo. Não foi um acidente da história. Não foi apenas injustiça humana vencendo. Foi o cumprimento de algo que já estava escrito, muito antes, na boca dos profetas.


Toda a Escritura sempre foi sobre Cristo

Pedro continua, e aqui ele amplia o alcance da sua fala:

"Portanto, arrependam-se e convertam-se, para que sejam cancelados os seus pecados, a fim de que da presença do Senhor venham tempos de refrigério, e que ele envie o Cristo que já foi designado para vocês, a saber, Jesus — ao qual é necessário que o céu receba antes dos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca do seu santos profetas desde a antiguidade."

Ele volta além dos profetas. Vai até Moisés:

"Moisés disse: o Senhor Deus fará com que, do meio dos irmãos de vocês, se levante um profeta semelhante a mim. A esse vocês ouvirão em tudo o que ele disser, e quem não der ouvidos a esse profeta será exterminado do meio do povo."

Foi isso que Moisés disse ao povo em Deuteronômio 18: vai vir um outro profeta, e quem não crer nele vai morrer. E Pedro está dizendo que ele falava sobre Jesus.

"E todos os profetas, a começar com Samuel, assim como todos os que falaram depois dele, também anunciaram esses dias."

Caramba — todos os profetas estavam falando sobre o nascimento da igreja. Ele cita Moisés. Cita os profetas. Cita Samuel. E então vai ainda mais fundo:

"Vocês são os filhos dos profetas e da aliança que Deus estabeleceu com os pais de vocês, dizendo a Abraão: na sua descendência serão abençoadas todas as nações da terra."

Ele cita Abraão. E aqui eu preciso parar e dizer uma coisa que já me perguntaram várias vezes: "eu nunca vejo você pregando o Antigo Testamento." Minha resposta é simples: Jesus mandou eu ir pelo mundo pregar o evangelho. Não importa se está escrito no Antigo ou no Novo Testamento — eu só penso no evangelho. Afinal, todos os profetas — não sou eu que estou dizendo, é o próprio Pedro, que andou com Cristo, quem diz que os profetas falavam sobre Cristo.

Mas eu pensei que a profecia dos profetas era sobre Israel. Sobre o reino de Israel. Sobre um outro rei que viria como Davi. Sobre o nosso reinado. Não. O Antigo Testamento fala sobre Cristo. Não fala sobre a sua vitória, nem sobre o seu reinado, nem sobre uma nação, nem sobre Israel, nem sobre uma bandeira com uma estrela azul no meio. Não é isso. É sobre Cristo. Não sou eu que estou dizendo — é o texto.

E um dos problemas de pregar o que está no texto é que o texto estraga a nossa religião. O evangelho acaba com a nossa religião.

Pedro fala de Moisés, vai para a Lei, e diz que quando Moisés anunciou o profeta que viria, não era sobre Israel, não era um novo rei, não era um novo Moisés — era Cristo. Depois vai para Samuel, o último juiz, aquele que ungiu Davi, iniciando a dinastia mais significativa para os judeus — a linhagem de Davi. Samuel falava sobre Cristo. E depois volta para Abraão: quando Deus disse que seriam benditas todas as famílias da terra, não era sobre Abraão, nem sobre uma nação com fronteiras e um tratado de Tordesilhas. Era sobre Cristo, sobre a igreja, sobre o seu povo espalhado na terra.

Acabei de pregar o Antigo Testamento. E o Antigo Testamento não é sobre Davi, não é sobre Abraão, não é sobre Moisés, nem sobre os profetas, não é sobre o povo de Israel dentro de uma nação, não é sobre uma etnia — apesar de essas coisas fazerem parte da narrativa, e essas histórias terem realmente acontecido. Mas tudo isso apontava, disse Pedro, para estes dias.

Quando lemos sobre o povo que andava no deserto rumo à terra prometida, teve o deserto, e teve a terra. Mas se eu olhar um pouco de longe, vou entender que isso fala muito sobre nós, que ainda vivemos nesse mundo, nesse deserto, pisamos nesse chão. Não sei explicar por que o deserto continua sendo deserto. Só sei que é assim. Não sei explicar de onde vem a coluna de fogo durante a noite e a nuvem durante o dia — só sei que vem de Deus. Não sei por que, em vez de tirar essas colunas, ele já não me tira do deserto. Não sei. Só sei que tenho que andar nesse deserto. Ele manda água que sai de uma pedra, manda codornizes para eu ter carne, cai o maná que vem do céu. Só sei que ele está comigo no meio do deserto. Enquanto isso acontece, não sou eu quem escolhe. Eu não tenho poder e fé para mudar o meu deserto — ele manda eu andar por ele. Mas ele fala para eu ter os olhos na terra prometida, onde mana leite e mel, porque eu sou cidadão de um reino eterno, apesar de pisar nesse chão.

Porque o Antigo Testamento não é sobre Israel, e não é para que nós tentemos fazer da nossa vida aqui a nação israelita. É sobre Cristo. É sobre a ressurreição. É sobre uma nova vida. É sobre ainda pisarmos nesse chão com a consciência de que não pertencemos mais a este mundo.

A pregação de Pedro para esse povo, depois do sinal, era para dizer que aquele sinal anunciava Cristo. Mas Pedro e João já tinham se cansado de ver Jesus fazendo isso — pelo menos quando eu leio os Evangelhos, e nós já passamos por Lucas: Jesus abriu os olhos de cegos, curou surdos, mudos, paralíticos, multiplicou pães, acalmou a tempestade, ressuscitou pessoas. E a gente fica embasbacado com os sinais. Mas o interessante é que, nos dias de Jesus, teve um monte de gente que não foi curada. Eu não sei explicar. Só sei dizer uma coisa: o sinal aponta para o reino da ressurreição.

Quando leio os Evangelhos, imagino que, quando Jesus cura um surdo, ele está dizendo: a minha realidade é diferente da de vocês — no meu reino, todo mundo ouve. Quando o Cristo e o seu reino se deparam com a nossa realidade mortal, e ele cura um mudo, ele diz: no meu reino, todo mundo fala. Quando abre o ouvido de um surdo, está dizendo: no meu reino, todo mundo ouve. Quando cura um coxo, está dizendo: na minha realidade, quando encaro a de vocês, no meu reino todo mundo anda. Ele multiplica pães e peixes, e está dizendo: no meu reino, ninguém passa fome. Ou quando ressuscita um morto, está dizendo: no meu reino, ninguém mais morre.

A realidade sobrenatural do Cristo ressurreto — de quem não é deste mundo, apesar de pisar nele — quando encara a realidade humana, material, finita, produz um choque de duas realidades que não conseguem conviver juntas. O eterno, o Todo-Poderoso, o reino perfeito, anda no meio daquele imperfeito, finito, mortal. E todos os sinais que ele produz estão gritando para nós que existe uma outra vida, uma outra cabeça, e um outro coração, que permeia a nossa existência aqui — mas anuncia algo eterno. E aqueles que vivem aqui já vivem com a cabeça na eternidade. É só assim que a gente consegue atravessar esse deserto.

Eu não posso reclamar: tem a sombra da nuvem, e o fogo de noite. Tem maná todo dia. Mas ainda é deserto. Eu sei que tudo isso são sinais de um reino eterno, e a minha cabeça está lá. Eu não tenho como garantir que todo mundo vai ter milagre todo dia, apesar de ter certeza que Deus faz muitos. Mas entender que cada sinal aponta para uma outra realidade — é por isso que Pedro disse aos israelitas: convertam-se, arrependam-se. Arrependimento, aqui, é metanoia — o verbo metanoeo. Mude a sua cabeça. Pense diferente. Não queira mais ser o que você era. Mude o pen drive, encaixe um outro software, enxergue a sua vida de um outro jeito. Porque o Deus de Abraão, Isaque, Jacó, de Samuel, de Moisés, dos profetas — esse é o Jesus.


Arrependam-se e convertam-se: um chamado dentro do próprio templo

E convertam-se. O templo de Deus, da religião de Deus, do povo de Deus — que fazia sacrifícios para Deus, com os sacerdotes de Deus, o povo escolhido por Deus — foi o povo que matou Jesus, que era Filho de Deus. Um desses dois não é o Deus que é Deus. Se tudo que foi feito contra Jesus foi em nome de Deus, e Jesus Cristo é o Filho de Deus, quem dos dois não é Deus? Alguma coisa está errada aqui.

Ele estava falando com israelitas, com judeus, e diz: arrependam-se e convertam-se. Isso é interessante. Ele estava no templo — o templo de Deus, da religião de Deus, do povo de Deus, que servia ao Deus de Israel, o povo escolhido. E ele está dizendo: arrependam-se e convertam-se. Para que sejam cancelados os seus pecados.

Espera aí — nós somos o povo de Deus. A religião de Deus, do Povo de Deus. Os sacerdotes que são ungidos por Deus, dentro do templo, que é a casa de Deus. Sem falar isso, eu tenho que me converter — a quem? A Deus? Porque a sua religião transformou o Deus em quem você crê na sua própria imagem. E ele passa a ser o que você acha que ele é, e não o que de verdade ele é. É por isso que o evangelho decepciona a gente: porque ele fala do Deus que é o que é, não daquilo que eu queria que ele fosse.

E naquele momento em que um grande sinal acontece, Pedro começa a falar sobre a ressurreição, partindo de Abraão, Moisés, Samuel, todos os profetas falando sobre Cristo, e a ressurreição sobre a nova vida, sobre o novo nascimento, sobre uma nova mente, um novo coração, uma nova conduta. Está nascendo um povo novo. Eles estão morrendo para essa existência, e ressurgindo para Deus. Está nascendo uma nova nação, que não tem tratado de Tordesilhas. Está nascendo um novo povo, de uma nova espécie. Está nascendo uma nova humanidade a partir do Reino de Deus — que, ainda que pise nesse chão, sendo governado por essas necessidades, tem a cabeça em outro lugar, e as suas práticas não refletem o seu entorno: refletem a eternidade. O nosso amor, a nossa generosidade, a nossa paz, a nossa justiça, não são formadas pelos ideais que eu encontro aqui, mas por aquilo que o reino eterno plantou dentro de mim. É por isso que a gente não se encaixa.


Religião versus Reino: medo, culpa e benefício contra a liberdade do amor

Diz o texto que os sacerdotes, os saduceus, ficaram loucos da vida. O texto usa a palavra ressentidos, que tem a ver um pouco com inveja e raiva ao mesmo tempo — porque os saduceus não criam na ressurreição. Aqui também tem um detalhe: os fariseus ainda criam que haveria uma ressurreição da alma. Os saduceus, não. Aliás, quando Jesus debate com os saduceus no templo, a questão que eles colocam é a da mulher que teve sete maridos — de quem ela seria esposa quando fosse para o céu — dizendo que não há ressurreição. E Jesus responde que no céu não se casam nem se dão em casamento, e que eles entendem falar muito, mas não sabem nada do Reino de Deus. Ou seja, eles não criam na ressurreição — ainda mais na ressurreição em nome de Jesus, ainda mais sendo eles os que pediram a Pilatos para lavar as mãos e entregar o próprio Filho de Deus. E agora esse homem ressuscita. Isso é uma maldição para eles. E prendem Pedro e João, porque o fundamento da nossa fé está na ressurreição — Paulo diz que se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé.

O que ele está dizendo é que Jesus Cristo é uma nova vida, e a essência do evangelho é sermos novas criaturas. De maneira simples: é olharmos para essas Escrituras e enxergar Cristo em cada uma dessas páginas, desde Gênesis até o Apocalipse. É olhar para Jesus Cristo como o centro da nossa existência, onde tudo começa — porque ele é o Alfa —, onde tudo acaba — porque ele é o Ômega —, e onde tudo, no meio do começo e do fim, é dele, por ele, para ele. Porque dele, por ele, para ele são todas as coisas. E a vida de Cristo, de um outro rei, de um outro reino no meio dos homens, é o anúncio de uma outra vida, a qual nós queremos. Por isso a gente nega a si mesmo. Eu nego a mim mesmo, tomo minha cruz para segui-lo, porque eu quero viver uma outra realidade, ainda que eu pise nesse chão, ainda que eu sofra as ações desse deserto, ainda que eu tenha dificuldades aqui. Quando eu vejo o sinal, eu olho para Cristo.

E aqui eu preciso parar e dizer uma coisa que talvez ninguém aqui esteja livre disso — nem eu. Não há ninguém neste lugar que não tenha nenhum problema. É todo mundo igual. Eu também tenho problema de saúde que preciso resolver, situações da vida, algumas questões de pagamento de conta, situações a resolver, família — todo mundo tem, né? Eu vou dizer para você, irmão, que eu não consigo — e vou aproveitar que Deus não está aqui — eu não consigo vir aqui e dizer que, do jeito que esse homem recebeu um milagre, agora todo mundo vai receber milagre, e garantir que todos os nossos problemas vão acabar. Você pode dizer que eu não tenho fé para fazer isso. Beleza. Você tem? Então faça isso na sua vida. E aí a nossa conclusão seria que o Deus que fez milagres lá não vai fazer aqui. Aí eu vou responder lendo o texto: o texto não é sobre um milagre, apesar de o milagre ter acontecido — e vou dizer que acontece mesmo.

Se eu perguntar aqui quem já viu alguma coisa milagrosa e sobrenatural na sua vida, ao seu redor, tem alguém? Quase todo mundo tem, porque Deus faz mesmo, ele é maravilhoso. Eu só não tenho um joystick para controlar Deus. E quando eu vejo um milagre, eu prego sobre o milagre para todo mundo, porque eu não controlo Deus, e eu não sei por que eu passo pelas coisas que eu passo — só sei que eu passo. Eu não sei por que, em algumas situações, Deus me livrou milagrosamente, e em outras ele deixou eu passar — porque não sou eu que controlo. O Senhor é por isso que eu sou servo, e ele é Senhor. É o Senhor quem comanda os servos. Eu só sei que o poder da ressurreição e da nova vida está em mim, passando ou não por problemas, e eu sempre vou glorificar a Deus pelos milagres e feitos que ele faz. E nós vamos, todo domingo, insistir em orar pelas pessoas que pedem, em orar por quem está enfermo, em orarmos uns pelos outros e pedirmos a Deus pelas nossas dificuldades. Mas o feito de Deus a partir da nossa oração não interfere na nossa fé, porque ele é o ressurreto que nos deu uma nova vida.

Portanto, após o grande sinal e o grande milagre, o povo se une ao redor de Pedro, e ele prega sobre a ressurreição, sobre Cristo, sobre a novidade de vida daqueles que creem nele — falando com gente que estava no templo, falando com israelitas e judeus. E ele se reporta a toda a tradição de fé que esses homens têm.

Já me fizeram essa pergunta várias vezes: "Zé, eu nunca vejo você pregando o Antigo Testamento." Minha resposta é: Jesus mandou eu ir pelo mundo pregar o evangelho. Não importa se está escrito no antigo ou no novo. Eu só penso no evangelho. Afinal, todos os profetas — não sou eu que estou dizendo, é o evangelho, é Pedro, quem andou com Cristo, que está dizendo que os profetas falavam sobre Cristo.

Quando a gente fala a palavra religião, ela pode significar várias coisas. O que nós estamos fazendo aqui hoje é um culto religioso — para quem passa por esse bairro e vê o nosso prédio, vai dizer que ali funciona uma igreja. São pessoas que professam a mesma fé e têm uma reunião religiosa. Esse é um sentido da palavra religião: um ajuntamento de pessoas que professam a mesma fé, um fenômeno dentro de uma sociedade, um fenômeno social. Mas existe outro sentido da palavra religião, completamente negativo: o sentido de ser uma série de regras, ritos e dogmas que regem um grupo de pessoas, independente de Deus estar ali.

Porque esses saduceus, sacerdotes, o capitão do templo, no templo, no lugar do sacrifício, que tinham a lei de Deus, as profecias de Deus, a história do povo de Deus, e eram o povo de Deus — perseguiram o Filho de Deus. Um desses dois não tem Deus. A religião não precisa de um Deus. A religião existe por si própria. Não é necessário um Deus para que a religião exista, porque ela ocupa esse lugar. Uma pessoa que se relaciona com um pseudo-deus dentro de uma religião, apesar de falar o nome de Deus de Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, os profetas, Samuel, pode estar fazendo alguma coisa que não tem nada a ver com Deus — e ela subsiste. Aliás, existem milhares de religiões no mundo, e talvez você diga: Deus não está aqui ou ali, o Deus em quem a gente crê. Porque a religião não precisa de um Deus. Ela só precisa de pessoas que acreditam naquele rito religioso.

Porque, na religião, eu faço sacrifício, eu pago. Eu tenho três pilares que sustentam a minha vida na religião: o medo, a culpa e o benefício. Eu faço o que faço, cumpro meus ritos, pago meus votos, pago meus sacrifícios, porque eu tenho medo de Deus. "Ó, Deus acordou! O sacerdote acordou com o pé esquerdo hoje, pisou no penico que tava cheio, ele tá nervoso" — e você vai oferecer alguma coisa para aplacar. É tipo: "o King Kong tá vindo, pega uma loira e coloca lá." Por medo, a religião diz que você tem que manter o sacrifício.

Talvez por culpa — esse é o segundo pilar. Você é o culpado. A coisa está errada na sua vida porque você fez isso, fez aquilo, pecou, errou. Pague alguma coisa para Deus, para pagar esses erros que você cometeu. Por culpa, o sacrifício se perpetua.

E o terceiro pilar é o benefício. Está tudo bem na sua vida, mas você não tem isso, não tem aquilo, está te faltando não sei o quê. Se você fizer o sacrifício, Deus te abençoa. Ou por medo, ou por culpa, ou por benefício — o rito religioso mantém alguém preso a Deus. Só não se sabe se esse Deus é Deus.

Por um outro lado, o reino de Cristo traz os seus sinais da liberdade do amor. Onde eu pedi uma esmola, e eu não pedi cura, mas ele me curou — e não fez porque eu merecia, fez porque ele é gracioso. Eu até quero fazer um sacrifício, mas ele é o sacrifício. E não é pelo sacrifício que eu faço, é por aquilo que ele fez na cruz. E, pelo sacrifício dele, ele me comprou. Eu era um pecador, não merecia nada, nem teria força de me auto salvar. Por isso ele fez o que fez por mim, enquanto aqui a religião me mantém preso ao meu sacrifício, na minha doação de vida, porque eu tenho medo, porque eu tenho culpa, porque eu quero um benefício. Aqui eu tenho uma prisão que, se eu sair, eu não tenho cobertura. Se eu sair daqui, estou amaldiçoado. Se eu sair daqui, vai acontecer um cataclismo na minha vida, e eu tô ferrado, porque as pragas do Apocalipse virão sobre mim porque eu saí da religião.

Mas o reino de Cristo é diferente. Ele diz aos discípulos: "Se o discurso é pesado, se vocês querem ir embora, podem ir." Pedro disse: "Senhor, para onde iremos? Só o Senhor tem as palavras da vida eterna." Eu não estou aqui porque sou obrigado. Eu não estou aqui porque tenho medo. Eu não estou aqui porque quero um benefício. Eu não estou aqui porque me sinto somente culpado. Eu estou aqui porque o teu sacrifício cobriu a minha culpa. Eu estou aqui porque a tua graça e a tua misericórdia me abençoaram sem eu pedir. Eu estou aqui porque o Senhor morreu por mim primeiro. Eu não estou aqui porque tenho mérito, e eu não ofereço o que ofereço, e não faço o que faço, porque tenho medo ou culpa ou quero um benefício. Eu faço por gratidão. Eu faço porque te amo. E eu sei que o Senhor não me prende, mas eu quero estar preso a essa liberdade do amor.

Como eu sempre digo: duas pessoas estão sentadas no mesmo lugar, na mesma celebração. As duas levantam a mão. As duas choram. As duas se ajoelham. As duas cantam. As duas oram. As duas se emocionam. As duas dão uma oferta na igreja. E uma delas faz isso porque está com medo, faz isso porque sabe que, se louvar, vai ter vitória — tem um benefício. Faz isso porque está com culpa, e acha que tem que pagar, pagar, pagar, e fazer o seu sacrifício. Ela chora, levanta a mão, ora, ajoelha, canta, e dá uma oferta para pagar a sua culpa. E o outro, exatamente do lado, faz a mesma coisa, com a mesma emoção — só que, dentro dele, o pressuposto é outro: "Eu louvo a Deus porque eu não sou merecedor, mas ele me salvou. Eu reparto o que eu tenho porque tenho compaixão e amor de doar aquilo que tenho. Eu me ajoelho e oro porque estou rendido a ele, grato pelo que ele fez por mim." E o reino da graça encheu o coração dele.

Parece que é igual, mas é muito diferente.


Não foi o milagre que salvou, foi a ressurreição que ele anunciava

Uma outra coisa interessante é que, quando esse povo veio até Pedro e João, a pregação de Pedro não foi sobre o milagre. Isso é muito interessante, irmãos. Porque Pedro poderia ter feito uma teoria sobre o que havia acontecido — algo como: "isto aqui é o poder de Jesus que está em nós pelo seu Espírito." Afinal de contas, o Espírito tinha se derramado em Pentecostes, alguns dias atrás, e ele poderia ter dito: "Esse poder está aqui com a gente, e o mesmo milagre que aconteceu com esse homem vai acontecer com todo mundo." Mas a pregação de Pedro não foi sobre o milagre.

Porque, afinal de contas, eu e você já ouvimos pregações ao longo da vida, dezenas ou centenas, sobre esse texto — e quando a gente lê sobre o coxo que foi curado na porta do templo, a pregação imediata costuma ser: "você também pode ser curado, se você crer como esse homem creu." Mas o texto não diz que ele creu. O texto diz que ele pediu uma esmola. Não pediu um milagre. Foi Pedro e João que acharam que deveriam falar para ele levantar e andar. E a pregação deles não foi sobre o milagre, para que mais pessoas recebessem milagres.

Estou querendo dizer que é errado ler esse texto e pregar sobre milagre? Irmão, eu não sou juiz de ninguém. Deus não me colocou aqui para criticar ninguém. Mas eu escolhi pregar o que está escrito, e o que está escrito é que, depois do milagre, ele pregou a ressurreição. Então eu vou falar sobre o que está escrito. Mas você acha que é certo ou errado ler esse texto e pregar sobre milagre? Não sei, irmão, e não quero saber. Eu só quero dizer o que foi que o apóstolo Pedro fez depois do milagre.

Não estou dizendo que o milagre não aconteceu — claro que sim. E não estou dizendo que não devemos crer. A gente crê. Por isso a gente ora todos os dias por todas as pessoas, por isso a gente está aqui, porque queremos um Deus que é sobrenatural. O que eu quero dizer é que o milagre não é o fim. E aquele homem, se tivesse recebido um milagre e não tivesse crido em Cristo, o milagre na vida dele seria só uma melhoria de vida por mais alguns anos, enquanto ele estivesse aqui — porque, depois, viria a condenação eterna. E teve muita gente ali, naquele dia, no pátio, que queria receber um milagre e não recebeu, porque o milagre foi só um sinal para aquele homem — mas eles receberam um milagre ainda maior: o novo nascimento, uma nova vida.

Isso significa que a gente não se alegra quando vê alguém recebendo uma dádiva do céu? Claro que sim. Tomara que seja eu. Claro que a gente quer isso — é por isso que a gente ama a Deus pelas coisas sobrenaturais que ele faz, a princípio. Mas, quando a gente entende que aquilo ali sinaliza uma outra existência, meu Deus, ele se torna um detalhe dentro do todo. Eu não sei se todos os meus problemas vão se resolver na minha vida, mas que eu tenho uma nova vida, isso eu tenho certeza. Eu não tenho como dizer a todo mundo que os seus problemas vão acabar, porque eu sei que não. Mas eu sei como é que a gente vive nesse deserto: cai codorna, água sai da pedra. Eu não sei explicar por que essas coisas acontecem, a não ser por graça e misericórdia de Deus. Apesar de ele não ter nos tirado do deserto, eu sei para onde a gente vai.

Aliás, na oração de Cristo, em João capítulo 17, ele disse ao Pai: "Eu não peço que o Senhor os tire do mundo." Eles estão nesse deserto, eles vão continuar aqui — "mas ajuda-os, livres do mal."

Eu, olhando para essa pregação de Pedro, vejo um eco de João capítulo 6, quando Jesus multiplica pães e peixes, e no dia seguinte uma multidão vai atrás dele. Depois, se você ler o capítulo 6 de João, Jesus diz: "Vocês não vieram atrás de mim porque viram um sinal do reino, mas porque, ontem, eu multipliquei pães e vocês encheram a barriga. Vocês querem pão de novo, né? Trabalhem pela comida que dura para a vida eterna, e não por aquela que perece."

Eu não posso julgar quem está certo e quem está errado. Mas uma coisa eu preciso fazer: ser fiel ao que está escrito.


Uma nova humanidade, um novo povo

Irmãos, a nossa vida está na ressurreição. Nova vida, nova cabeça, novo coração, uma nova consciência, um outro tipo de paixão e devoção a Cristo — a do Reino. Olhando para o Autor e Consumador da nossa fé, celebrando quando ele nos coloca de pé, agradecendo quando coisas sobrenaturais acontecem, mas maduramente continuando a ser adoradores e gratos a Deus — porque a nova vida nos alcançou, e porque o seu reino nos abraçou. E nós temos a chance de ser novas criaturas no velho mundo, de termos um novo coração e uma nova mente, ainda que pisando nessa velha terra, que a própria terra há de comer quando tudo acabar.

Mas, olhando para o Autor e Consumador da fé — porque talvez o seu casamento precise de um grande milagre. Não é uma questão de ficar de pé e andar, mas de mudar a cabeça do marido, da esposa. Esse é um baita milagre. Quer mudar a cabeça e o coração do pai com o filho, do filho com o pai? Isso é um milagre da reconciliação. Não há uma oração que faça dois amigos se reconciliarem — só perdão e graça. E nem tudo se resolve com o sinal. É por isso que ele se chama sinal: porque só sinaliza o que Deus faz por nós.

Na pregação de Pedro, segundo o que está escrito, tudo isso pode nos conduzir aos pés da cruz, para falar: "Senhor, eu quero ser uma nova criatura. Eu preciso disso. Isso é tudo que eu preciso." Ó Teófilo, aqueles homens mataram o Autor da Vida, e a vida é a vida a partir da ressurreição. E essa galera é o povo da nova vida, diferente da barganha da religião. Esse é o povo da nova vida. A religião se dá bem com a morte, com culpa, medo e sacrifício. Mas o reino se dá bem com a vida. Por isso, no reino, existe justiça e condenação — mas eu vivo em paz, sem o medo da religião. Porque, apesar de o reino apontar para justiça, salvação e condenação, ele me abraça com o perdão, porque eu me arrependo.

É isso, Teófilo. Esse é o reino. Esse é o povo. Essa é a vida. Essa é a ressurreição.

O verdadeiro milagre que precisamos hoje

A gente tem que morrer todo dia, e começar de novo todo dia. Vamos ficar de pé e vamos orar. Se você entendeu isso, talvez a sua oração hoje seja: "Senhor, eu preciso morrer." Quer você seja um frequentador antigo desta igreja, quer seja essa a primeira vez que você pisa dentro de um lugar chamado igreja — talvez a sua oração hoje seja: "Senhor, eu preciso morrer para mim mesmo e nascer de novo para Cristo."

Feche seus olhos.

Senhor, obrigado pela tua palavra. Obrigado porque o Senhor é Deus. Obrigado pelo teu ensino, obrigado pelos teus milagres, pelos teus sinais. Obrigado porque, sobrenaturalmente, o Senhor cuida de nós, nos livra, nos cura, nos abre caminhos — e a gente não sabe explicar, só sabe agradecer, porque o Senhor é maravilhoso. Também não sei explicar por que tem dias que o milagre acontece, e outros em que eu ainda estou no deserto. Mas isso não importa, porque eu sou teu. O que eu sei é que eu sou uma nova criatura.

Eu quero morrer um pouco mais hoje, Senhor, para mim mesmo. Essa vida terrena, nossos pés estão muito enraizados nisso aqui, Senhor. A gente está muito preso a essas coisas. Mas eu sei que a minha cabeça tem que estar no reino. Nós somos o teu povo. Nos ajuda a enxergar as Escrituras, olhando apenas para Cristo, desde Abraão, Moisés, Samuel, os profetas — enxergando ali a tua igreja, o teu povo, e Jesus anunciado, Deus entre nós.

Senhor, nos livra do grande perigo que é sermos uma religião de Deus, falando sobre Deus, fazendo sacrifícios a Deus, com sacerdotes de Deus, sendo o povo de Deus, e matando Cristo. Falando sobre um Deus que não é Deus. Olhando para o evangelho e querendo que aquele Jesus seja a imagem que nós temos de Deus. Nos livra disso, Senhor. E que, todo dia, a tua palavra, o teu evangelho, continue estragando a nossa religião, ofendendo a nossa religião e nossas práticas de fé, trazendo o nosso coração de volta para a essência de um povo manso, humilde, arrependido, gracioso, convertido, transformado, novas criaturas de um novo reino, gente ressurreta.

Nos ajuda, Senhor, a cada dia sermos assim. E obrigado por aquilo que Lucas, inspirado pelo Senhor, escreveu para Teófilo, que está nos abençoando tanto nesses dias. Abençoa a nossa semana, leva a gente em paz para casa, nos traz de volta semana que vem, debaixo da tua paz, do teu amor. É o que nós pedimos, em nome de Jesus. Amém.


Fonte: A Casa da Rocha. 08 - Sinais apontam para o Reino - Zé Bruno - Meu Caro Amigo 2. https://www.youtube.com/watch?v=v7A9Xg4jn24&t=2628s

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