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Lucas 5:33-39: O Vinho Novo Não Cabe na Religião Velha

  1. O Pano Rasgado da Religião: A Pergunta sobre o Jejum: Contexto do embate entre Jesus e os religiosos; a pergunta dos discípulos de João e dos fariseus sobre por que os discípulos de Jesus não jejuavam.
  2. O Jejum no Antigo Testamento: Do Yom Kipur ao Arrependimento Pessoal: Levítico 23 e 25, o Dia do Perdão, Daniel e seus amigos, a prática de rasgar vestes e sentar sobre cinzas, e o jejum como expressão de arrependimento nacional e pessoal.
  3. Maimônides e a Esperança Messiânica: Zacarias 8:19: A interpretação rabínica de que o jejum cessaria com a vinda do Messias; a tristeza judaica pela demora da restauração do Reino sob o domínio romano.
  4. "O Noivo Está Aqui": A Resposta de Jesus sobre a Alegria do Reino: A explicação de Jesus de que Seus discípulos não jejuam porque o Messias, o noivo, já chegou; o jejum viria depois, quando Ele fosse tirado.
  5. A Religião Vazia e o Jogo de Poder de Roma: A crítica à aliança entre a casta sacerdotal, saduceus, Herodes e o Império Romano; o templo como centro de comércio e controle; a corrupção da religião a serviço da opressão.
  6. Pano Novo em Pano Velho: A Primeira Parábola: O ensino de Jesus sobre o remendo novo que não serve à roupa velha; a religião como sistema gasto e ultrapassado diante do Reino que chega.
  7. Vinho Novo em Odres Novos: A Segunda Parábola: O processo de fermentação e o simbolismo do odre — a mensagem de Cristo como vinho novo que exige um coração disposto a se expandir e se transformar.
  8. "O Velho É Excelente": A Resistência ao Novo: A terceira parábola e a tendência humana de preferir o conhecido, resistindo à novidade radical do evangelho.
  9. Evangelho, Não Religião: A Reconfiguração da Humanidade: A distinção entre um sistema de regras externas e a verdadeira transformação interior; o chamado a negar-se a si mesmo e nascer de novo.
  10. Oração Final: Sede Odres Novos

O Pano Rasgado da Religião: A Pergunta sobre o Jejum

No artigo passado estávamos no texto onde Jesus entra em embate mais uma vez — e não é novidade, meus irmãos, porque estamos percorrendo o Evangelho de Lucas trecho a trecho, e a grande guerra de Jesus era contra a religião. Dentro de uma casa, um paralítico foi trazido em um leito, descido por uma corda pelo teto, e os fariseus que ali estavam questionaram se Jesus tinha poder para curar. Quem é esse que pode perdoar pecados?

Já temos assistido a esse embate de Jesus com os religiosos nos domingos anteriores: quando questionavam sua autoridade nas sinagogas, quando Ele cura um leproso — porque a religião o colocava para fora do convívio da sociedade —, quando cura outro paralítico e a religião perguntava se foi o pai, a mãe, ou ele mesmo quem pecou para que nascesse daquela forma. Havia um preconceito social profundo. E assistimos também Jesus jantar com publicanos e pecadores, depois de ter chamado Mateus, um publicano, para ser seu discípulo.

Em todas essas narrativas que Lucas registra em sua carta ao amigo Teófilo — por isso chamamos esta série de "Meu Caro Amigo" — só vemos Jesus fazer o bem. Nas sinagogas da Galileia, em Nazaré, em Cafarnaum, suas palavras sempre abençoam as pessoas. Quando cura a sogra de Pedro que tinha febre, quando tira a lepra de um leproso, quando cura o paralítico, quando acolhe publicanos e pecadores e abre lugar para eles em sua mesa, quando abre os braços para uma humanidade toda perdida, sem exceção — Jesus demonstra o seu amor e a sua graça. Em toda a sua jornada não houve um único evento em que Jesus tivesse demonstrado ódio, vingança, maus-tratos, morte ou mentira. E é exatamente por isso que a religião batia tanto de frente com Ele.

Nesta continuidade, depois do que aconteceu na cura daquele paralítico descido pelo teto, o texto diz assim: os religiosos disseram a Jesus que os discípulos de João frequentemente jejuam e fazem orações, e os discípulos dos fariseus fazem o mesmo — mas os discípulos de Jesus comem e bebem, e não jejuam. Jesus respondeu:

"Será que vocês podem fazer com que os convidados do casamento jejuem enquanto o noivo está com eles? No entanto, virão dias em que o noivo lhes será tirado; então, naqueles dias, eles jejuarão."

E contou ainda uma parábola:

"Ninguém tira um pedaço de uma roupa nova para colocar sobre roupa velha; pois, se o fizer, além de rasgar a roupa nova, o remendo da roupa nova não combinará com a roupa velha. E ninguém põe vinho novo em odres velhos; porque, se o fizer, o vinho novo romperá os odres, e o vinho se derramará, e os odres se estragarão. Pelo contrário, o vinho novo deve ser posto em odres novos. E ninguém, tendo bebido vinho velho, prefere o novo, porque diz: o velho é excelente."

Quero começar esta reflexão pedindo que o Senhor nos abençoe, fale ao nosso coração e nos edifique pela sua palavra nesta manhã, em nome de Jesus. Amém.

Vale lembrar que este escrito de Lucas era um pergaminho, uma carta para o seu amigo Teófilo. Não sabemos exatamente como se conheceram, mas o nome grego "Teófilo" sugere um convertido — é o que se depreende do início do livro —, alguém ainda com dúvidas sobre Jesus Cristo e sobre o seu Reino. Naquele mundo greco-romano, a religião judaica estava presente em todas as cidades do Império, porque havia judeus dispersos em todos os lugares, e os cristãos que pregavam a palavra que chegou até Teófilo também eram judeus. Se você ler as cartas de Paulo e as demais epístolas do Novo Testamento, verá que em algum momento sempre há um embate entre fé judaica e fé cristã — era um período em que essas duas realidades ainda não estavam completamente desligadas uma da outra.

Teófilo, tentando compreender essa questão, deve ter perguntado — por carta ou pessoalmente — a Lucas, e Lucas lhe disse: relaxe, farei uma pesquisa bem acurada de tudo o que aconteceu e depois lhe contarei tudo. É exatamente isso que está escrito no primeiro capítulo do seu Evangelho. Por isso, esses embates da religião com Jesus Cristo são importantes: para que Teófilo construa em sua mente a verdadeira ideia do que significa o Reino de Deus, a fé em Cristo, distinta da religião que os judeus pregavam — e distinta, obviamente, de toda a corrupção presente na religião em conluio com o Império Romano.

Isso fica evidente até sem que eu precise dizer nada: basta você ler o escrito de Lucas. Há pessoas que não gostam desse tipo de pregação, mas eu lhes digo: não ouçam apenas — leiam. Porque, se a sua fé parte das próprias Escrituras, está tudo certo; mas se a sua fé parte apenas da interpretação de terceiros, sem que você tenha a oportunidade de olhar e investigar o texto por si mesmo, você está escravo — escravo de quem quer manipular o seu pensamento.


O Jejum no Antigo Testamento: Do Yom Kipur ao Arrependimento Pessoal

Esse embate que vemos aqui também aparece nos outros Evangelhos, quando os fariseus e os escribas do trecho anterior perguntam sobre o jejum. O jejum era uma prática que você encontra já no Antigo Testamento — no Dia do Perdão, em Levítico 23 e Levítico 25. Depois você pode pesquisar sobre o Yom Kipur, o Dia do Perdão: todos deveriam estar contristados, arrependidos, fazendo uma autoanálise da sua vida e dos seus pecados. Era um dia de jejum nacional que Deus havia estabelecido na própria Lei, onde cada judeu deveria ter aquele dia como consagrado a Deus, para sua purificação e para se lembrar do Senhor, o único Deus sobre toda a nação.

Mas é possível também encontrar, nas páginas do Antigo Testamento, que fora esse dia específico — reservado a todos igualmente —, havia momentos em que alguém, estando abatido, contristado, amargurado em sua alma, rasgava as próprias vestes e jejuava. Você encontra isso, por exemplo, em Daniel, quando ele é levado com Sadraque, Mesaque e Abed-Nego, e eles preferem não comer as comidas que lhes eram trazidas. É uma abstenção interessante, uma consagração — embora ali também houvesse outras implicações envolvidas.

É muito interessante perceber ainda outro motivo para o jejum: quando alguém estava profundamente arrependido por algo que havia feito, fora do dia do Yom Kipur. Você encontra, no Antigo Testamento, uma verdadeira figura do arrependimento — a pessoa rasgava as vestes, sentava-se sobre cinzas, jogava cinzas sobre a própria cabeça, e ficava contristada, arrependida e em jejum diante de Deus.

O contestamento, o arrependimento, o jejum nacional — tudo isso era prática do povo judeu. E você encontra também, nas páginas do Antigo Testamento, momentos em que a pessoa estava desorientada e queria buscar a Deus para entender o que estava acontecendo: "Senhor, o que estamos enfrentando? Que batalha é esta?" — buscando uma comunhão mais próxima com Deus. Temos o exemplo de Ester, que vai se encontrar com o rei porque havia uma palavra de morte sobre todos os judeus — e mais do que isso, todo o povo, através de Mordecai (dependendo da tradução que você tem), começa a buscar a Deus para que o Senhor revele sua vontade, se manifeste naquele momento de tristeza, de abatimento, de contestamento diante d'Ele.

Há também um indício, após o exílio babilônico, no livro de Zacarias, de que outros dias foram estabelecidos na religião judaica para o jejum — não apenas o Yom Kipur, mas outros três dias no ano, dias específicos de jejum.

Mas existe ainda outro motivo, de prática pessoal dos judeus, que fica claro depois de uma interpretação e de pesquisas sobre Maimônides. Mande-me dizer: ele foi um intelectual do século 10, filósofo judeu, rabino, um dos líderes do rabinismo moderno, pesquisador e intérprete da Lei e do costume da fé judaica, que escreveu a seguinte frase: "Todos os jejuns cessarão nos dias do Messias, e não haverá outros dias bons e de alegria iguais àqueles, como está escrito." E cita Zacarias 8:19:

"Assim diz o Senhor dos Exércitos: o jejum do quarto mês, do quinto, do sétimo e do décimo serão para a casa de Judá dias de júbilo, alegria e festividades solenes. Amem, pois, a verdade e a paz."

Maimônides faz uma interpretação, e começamos a compreender que, no imaginário judeu, o fato de o Messias não ter chegado ainda era motivo de tristeza — uma tristeza que não passava despercebida, ainda mais naquele momento de subjugação sob o Império Romano. Parece-nos, então, que a não aparição do Messias era um dos principais motivos que faziam com que o judeu estivesse contristado, arrependido de seu pecado diante de Deus, e em jejum — tanto nas datas determinadas pelo judaísmo quanto naquelas que eles mesmos estabeleciam, pessoalmente, por sua própria espiritualidade, na esperança da restauração do Reino.


"O Noivo Está Aqui": A Resposta de Jesus sobre a Alegria do Reino

Exatamente por isso, quando os religiosos vêm a Jesus com essa cobrança, Ele lhes diz que os discípulos não têm por que jejuar — porque, para eles, o perdão já está presente. Para eles, a alegria já está presente. Para eles, o Messias já chegou. E por isso Jesus responde como quem diz: é como se fosse uma festa. Aqui está o noivo e a noiva, a festa está acontecendo — é dia de fazer jejum? Quando o noivo for embora e a festa acabar, talvez vocês façam. "Quando o noivo lhes for tirado" — e Jesus falava ali a respeito de sua própria morte, ressurreição e retorno ao Pai. E então eles se encontrarão em dias de angústia, dias de dúvida, momentos de contristamento — e vão se ajoelhar e jejuar, porque o noivo não estará mais com eles.

Para vocês, agora, não. E talvez até os discípulos de João — eu li um comentarista dizendo que provavelmente o motivo do jejum deles fosse o fato de João estar sendo perseguido por Herodes, e depois preso, e ter tido sua cabeça cortada — talvez na esperança de que João também pudesse ser o Messias, porque você encontra em outros textos dúvidas até dos próprios discípulos de João sobre Jesus ser o Messias.

O mais interessante é que os religiosos tentam pegar Jesus no pulo: "Os discípulos dos fariseus jejuam — está na Lei que devemos jejuar. Até os discípulos de João jejuam, sendo ele primo de Jesus, um homem de Deus que O anunciou. Então por que os discípulos de Jesus não jejuam?" É como se Jesus dissesse: nem vocês entenderam que o Messias chegou — e talvez nem os discípulos de João, neste momento, tenham compreendido isso ainda. Mas o noivo está aqui.

E o mais importante desta cena não é a discussão sobre o jejum em si — porque hoje o jejum virou moeda de troca para se ganhar bênção, virou outra coisa que não é bíblica. Não vou discutir sobre o jejum praticado hoje em dia, porque só falo do que está na Bíblia; não falarei daquilo que não está nela. A pessoa que faz um jejum não bíblico — que deixa de comer chocolate para ser promovida na empresa, ou para comprar um carro novo, ficando em jejum o dia inteiro enquanto trabalha — na verdade nem está orando; é como uma greve de fome para Deus: "me dê alguma coisa aí." Se você perguntar a alguém que crê nisso, ele vai procurar nas páginas da Bíblia algo para te explicar — o que hoje em dia virou quase uma piada.

Mas vamos ao texto. Vamos entender o que Jesus disse quando afirmou que o noivo já está ali e, por isso, não se jejua. Ele estava dizendo aos fariseus que aquilo que eles esperavam já havia chegado — a alegria que Maimônides interpretaria séculos depois já estava presente ali, no século primeiro. Eles deveriam se alegrar com o Rei, naquele Reino de justiça, de amor, de paz, de alegria que já estava ali, diante deles.

"Vocês não viram a alegria na casa da sogra de Pedro? Vocês não viram a alegria das pessoas nas sinagogas? Vocês não viram a alegria daquele leproso que saiu pulando, reinserido na sociedade? Vocês não perceberam o paralítico que agora tem como ir e vir? Vocês não entenderam que pecadores e publicanos e perdidos têm lugar na minha mesa? Vocês não entenderam que o Reino já chegou — e ainda assim jejuam para que ele venha?"

Deixa eu fazer uma pergunta: de que adianta você ficar um dia sem comer se você odeia o pequenino, se você chuta o leproso, se você duvida do perdão do paralítico, se você é preconceituoso contra os publicanos, contra o estrangeiro, contra aquele que você julga pecador — porque você não julga a si mesmo, só julga aos outros? Quer dizer, então, que vocês não praticam nada daquilo que o Reino trouxe como alegria, e ainda acham que Deus se agrada de vocês só porque ficam sem comer?

Você entende o que Lucas quer mostrar a Teófilo? Deixa eu tentar entender essa lógica religiosa: o amor, o acolhimento, o abraço, o perdão, a compaixão, a misericórdia, a alegria da palavra — vocês não praticam nada disso. Vocês dizem que isso não é de Deus, é sei lá do que, do demônio. Mas o ódio de vocês continua, o pré-julgamento de vocês continua, o preconceito de vocês continua. E aí vocês entram na sinagoga e dizem: "estou jejuando." Jesus fala em Mateus 5 sobre isso — deixam o cabelo despenteado, aparecem magrinhos, para que as pessoas achem que são mais santos. Só que toda a canalhice que promovem em suas vidas, com o próprio ódio, Deus está vendo.

Parece que Lucas está deixando bem claro nesses textos, para Teófilo, quem é Cristo, quem é o Reino, o que é o Reino — e o que é a religião vazia, fria, suja, imunda e corrupta. Esse é o melhor sistema para separar o homem de Deus: a religião.

E o que Jesus disse — que o Reino já chegou — é uma afronta a eles. O Reino que chegou os incomoda, dá coceira neles, porque as interpretações que eu faço não vendem para eles, e os sinais não trazem alegria para eles, porque as pessoas são libertas dos domínios deles. E o Evangelho liberta você de uma das garras do jugo da religião. A religião odeia o Evangelho porque o Evangelho liberta pessoas. A religião fala do Evangelho, mas não o pratica. A religião fala do nome de Jesus, mas não o teme. A religião usa versículos da Bíblia, mas produz sua própria lógica de controle, domínio e opressão.


A Religião Vazia e o Jogo de Poder de Roma

A casta religiosa dos sacerdotes e dos saduceus tinha interesses pessoais junto aos romanos. A única maneira de Roma ver o povo judeu obedecendo às suas ordens era ter um interlocutor que acalmasse e apaziguasse a cidade de Jerusalém, toda a Judeia e todo o povo judeu, para que obedecessem em paz aos romanos — sem guerra e sem força. É por isso que Herodes leva 46 anos restaurando e ampliando o templo, tornando-o uma das maiores construções do mundo daquela época, atraindo pessoas do mundo inteiro para visitá-lo em Jerusalém. E é por isso que Herodes anda de mãos dadas com os sacerdotes e os saduceus, que controlam o comércio dentro do templo.

No dia a dia, circulavam o denário e a dracma — a moeda grega e a moeda romana. Mas Roma permitia que, dentro do templo, circulasse o siclo. E assim, além de fazerem o comércio das ofertas, faziam também o câmbio da moeda, com ágio e deságio. Por isso Jesus chutou as mesas dos cambistas — porque o templo havia se transformado num comércio, num banco. E ainda diziam ao povo: "estamos abençoados, Herodes é amigo, César é bom."

Era exatamente assim com os principais sacerdotes. O sumo sacerdote — Anás era o sumo sacerdote, escolhido por César e por Herodes, sogro de Caifás — só podia assumir o cargo quando o sumo sacerdote anterior morresse, e então seu filho assumiria. Era assim que dizia a Lei desde Arão. Mas agora não se entendia mais por quê — porque, como Lucas já disse no primeiro e no segundo capítulo, ao seu amigo Teófilo, esses homens estavam abraçados com César para que o povo fosse usado como gado e rebanho, e não se levantasse contra o Império.

Essa aliança permitia que existisse o Sinédrio; quando Jesus foi preso, foi o capitão do templo e o soldado quem o prendeu — e como é que havia capitão e soldado do templo em Roma? Porque Roma permitia que o Sinédrio tivesse entre os seus guardas o seu próprio julgamento particular, onde toda a corrupção possível podia acontecer. É por isso que se pôde soltar Barrabás e prender a Cristo.

Você precisa entender a lógica da operação dos dominadores do mundo que oprimem o povo: a lógica política de se locupletar da própria posição para benefício próprio, mantendo o povo escravo, precisa de um interlocutor religioso com ascensão mística de controle para que isso aconteça sobre os mais fracos. Mas eu não estou falando dos nossos dias — estou falando dos dias de Jesus. Qualquer semelhança é mera coincidência. E, se você não entende isso, leia. Leia sem filtros e sem intermediários — leia o capítulo 2 e 3 de Lucas com calma, leia todos os Evangelhos, leia o que disse Paulo, o que disse Pedro, o que disse João em sua primeira epístola.


Pano Novo em Pano Velho: A Primeira Parábola

É exatamente por isso que Jesus propõe três parábolas aqui. A primeira Ele diz: ninguém tira um remendo de um tecido novo para colocar numa roupa velha. A primeira coisa que Ele está dizendo é que a roupa de vocês já está velha, rasgada e furada — e há algo novo chegando. Se você ler esse mesmo texto em Mateus 9 e em Marcos 2, verá detalhes um pouco diferentes, mas com uma explicação semelhante: aqui, em Lucas, Ele diz que não dá para fazer um furo numa roupa nova; não faz sentido, porque ela é uma roupa nova. Jesus está dizendo que o novo é melhor do que o velho — você precisa entender isso, porque foi por isso que Ele falou: você vai estragar a roupa nova e vai colocar um remendo que não vai combinar com a velha.

Mateus e Marcos ainda acrescentam um detalhe: a roupa velha já não encolhe mais, mas a nova ainda encolhe. E quando encolher, aquele pedaço novo vai repuxar a costura e vai aumentar ainda mais o buraco da velha. Porque a roupa nova precisa de gente nova para vesti-la — e a roupa nova não veio para fazer remendos na religião velha. É preciso jogar fora essa roupa velha e vestir uma roupa nova.

Essa primeira parábola está dizendo aos seguidores dos fariseus: a roupa de vocês não cabe na gente. Ele está dizendo que não dá para usar o que vocês estão usando. E eu não vou esburacar o Evangelho tentando dar uns remendinhos aqui e ali, naquilo que não tem mais conserto.


Vinho Novo em Odres Novos: A Segunda Parábola

Você está entendendo? Vamos agora à segunda parábola, que fala sobre os odres. Os odres eram como um cantil feito de couro, geralmente feito de um animal pequeno que era caçado. Punham o couro para secar, mas não o abriam — apenas prendiam onde eram as pernas do animal, e ficava assim um cantil de couro onde colocavam o vinho.

É interessante como, quando você amassa a uva, começa um processo natural: a levedura fermenta e produz o teor alcoólico, dependendo da fermentação, da bactéria, da época da uva, da quantidade de açúcar, e assim por diante — e libera CO2. Sei disso porque minha família fazia vinho; meu pai fazia, e eu também faço com meu irmão, de brincadeira, embora ainda não tenhamos acertado a receita — talvez esse ano a gente acerte. Hoje em dia, quando você visita uma vinícola, encontra aqueles tonéis de fermentação, geralmente com um tubo por onde o CO2 sai, com alguma válvula para que o oxigênio de fora não entre e o vinho não vire vinagre — mas que libera o gás.

Naquela época, eles não tinham tonéis: colocavam o vinho dentro de um odre que fosse novo, porque, quando a fermentação liberasse o CO2, aquele couro novo se esticava, se expandia. Depois, quando a fermentação terminava, o odre ficava duro, ressecado, no tamanho ideal para aquela quantidade de vinho. E eles sabiam que não podiam colocar um vinho novo, ainda em fermentação, dentro de um odre velho — porque o odre velho já não tinha mais como se expandir; já estava esticado, ressecado, no seu limite. Ele iria se romper, explodir.

Jesus diz que o vinho novo tem que ser colocado em odre novo — não dá para colocá-lo num odre velho. O que Jesus está dizendo é que a sua mensagem é vinho novo. E, nesse caso, o vinho novo é muito melhor do que o velho — ao contrário do que normalmente se pensa. Se Ele colocar as suas palavras dentro de nós, precisamos estar prontos para nos expandir, para abrir o coração, para tirar muita coisa de dentro e dar espaço à verdade de Cristo. Porque, se você simplesmente colocar esse vinho num odre velho, vai acontecer o que já está acontecendo: vocês estão rachando, vocês estão explodindo.

E preciso falar com você que está me ouvindo: tenho encontrado muita gente sentindo muita pressão por dentro, porque está conhecendo o Evangelho e, de repente, não sei por que motivo, cometeu a "besteira" de ler a Bíblia — e a Bíblia acaba com a religião. Cometeu a "besteira" de ler os Evangelhos, caiu nessa "doideira" de ler os escritos de Paulo, e olhou para a religião e percebeu que algo ali está errado. E ficou perturbada, começou a ouvir pastores proibidos, e começou a se perguntar: "só falta Cristo, eu tô sem Jesus? Não, eu tô aqui só que isso aqui é só religião, é só vento, não tem nada." E as pessoas ao redor ficam com medo, achando que Deus não está mais com ela.

Se você está passando por isso, é porque há um vinho novo fermentando dentro de você. Se você resistir a isso, você vai explodir — porque o vinho de Cristo explode a religião de dentro para fora. Mas, se você está sentindo isso, é um excelente sinal — um excelente sinal de que você está ouvindo o Evangelho de verdade. Meu conselho: seja um odre novo. Deixe que sua cabeça se expanda, que o seu coração se dilate, e deixe as coisas de Cristo entrarem em você. Você vai sentir uma alegria completa.


"O Velho É Excelente": A Resistência ao Novo

A terceira parábola está no último versículo: ninguém, tendo bebido vinho velho, prefere o novo, porque diz: "o velho é excelente." E Jesus está dizendo isso justamente para os religiosos, como quem afirma: ninguém quer ouvir o novo, né? Eles querem o velho, que já está fermentado, já está docinho, já não é ácido. Não é verdade? É exatamente o que vocês estão fazendo: vocês não querem receber o que é novo. O que é novo incomoda vocês. O que é novo desfaz essas cascas de domínio. O que é novo não tem essas ligações corruptas que vocês têm. O que é novo não tem esse tipo de abordagem da interpretação da Lei para benefício da religião, como vocês fazem. Esse novo que chega — se vocês aceitarem — vai explodir tudo isso.

Aliás, Jesus disse que o templo seria destruído e reconstruído em três dias, e falava sobre o seu próprio corpo, sobre a sua igreja, sobre o seu Reino, sobre a verdade que chega nova e fresca para dilatar, expandir e libertar o ser humano.


Evangelho, Não Religião: A Reconfiguração da Humanidade

O Evangelho de Jesus Cristo não é uma tábua de práticas, de regras externas, para que eu fique fazendo jejum e cumprindo a lei, enquanto por dentro sigo odioso, colocando para fora meretrizes, publicanos, pecadores, paralíticos, os pobres que estavam lá na Galileia dos gentios, os leprosos. Não é uma religião de preceito externo, onde eu cumpro mandamentos, mas continuo vivendo internamente como se Deus não existisse.

O Evangelho não é uma religião. O Evangelho é uma reconfiguração da humanidade. Aliás, o Evangelho é morte para um novo nascimento — é se jogar fora tudo aquilo que se creu, tudo o que se pensou, para ser transformado numa nova criatura, à imagem do Filho de Deus. É estar pronto para dizer: eu vou deixar tudo para trás. Quem quiser vir após mim, negue-se a si mesmo. Negue-se a si mesmo.

Por isso Jesus não tinha problema em sentar com publicanos, meretrizes e pecadores — porque, afinal de contas, para me seguir, todos eles vão ter que negar a si mesmos. Eu posso sentar à mesa com eles, posso abraçá-los, bater papo — e, quando eu me levantar, e eles quiserem me seguir, não importa do jeito que cada um chegue: ele vai ter que jogar fora a si mesmo. E assim também é para mim, e assim também é para você.

Portanto, o Evangelho precisa rasgar a religião — aquilo que domina, que controla, que lê o texto e fecha o texto, que fala o contrário do texto, próprio de pessoas que são súditas — "ave César", "Heil Hitler". O Evangelho é uma vida nova.

Eu convido você, irmão meu da casa da Rocha — como sempre digo, minha responsabilidade como pastor da casa é dizer: dilate-se, não seja odre velho. Jesus não veio até você para consertar a sua vida — pode esquecer isso. Você tem que ir a Jesus para jogar fora a sua vida velha. Aquela pessoa perfeita, tão boa, só falta uma coisinha — não, não venha colocar remendo novo em pano velho. Se você precisa de um novo nascimento, Jesus não é alvo da sua campanha para resolver uma coisinha aqui, outra ali, com um remendo novo no pano velho. Ele não quer consertar o joelho da sua calça — Ele quer consertar o seu coração. Ele não quer colocar uma meia-sola no seu sapato — Ele quer mudar a sua mente, a sua alma. Ele quer que a gente morra para nascer de novo.


Oração Final: Sede Odres Novos

Essa explicação de Lucas para Teófilo é um desafio para nós. A nossa tendência humana é de acomodação religiosa — nossa tendência é de uma acomodação, entre aspas, "espiritual". Amamos rituais, amamos leis e obediência, amamos gurus que nos governem, amamos deuses e ídolos, porque somos idólatras de imagens de carne.

E o Senhor nos livra disso. Que a nossa comunidade seja de irmãos que servem uns aos outros em amor — não por ordem, mas porque se amam. Que se consagram porque O amam, não porque são obrigados. Que doam porque são parte da missão, não porque querem receber uma bênção. Gente que se prostra diante da cruz não para receber algo em troca, mas porque quer se entregar a Cristo. Gente que não busca o desejo do seu próprio coração e da sua própria mente, mas que diz: venha o teu Reino, venha a tua vontade. Gente que troca a sua vontade pela de Deus.

Senhor, nos faça gente assim — a roupa nova, o odre novo, pronto para te entender, e para jogar fora os conceitos da velha religião que já está rasgada, esburacada. Mas nós não largamos dela — o vinho fermentado, o que já não tem mais expansão, e ficamos acomodados, saboreando os velhos sistemas de controle e domínio de pessoas.

E eu te peço também, Senhor, além dos meus irmãos aqui: liberta os que são teus. Tem gente sentindo pressão por dentro — liberta, Senhor. Que o teu evangelho de poder seja vida dentro daqueles que já te conheceram. Nos protege, nos guarda, nos livra do mal, por sermos portadores da tua mensagem. Guarda a tua igreja, a Igreja de Cristo, espalhada por essa terra. Guarda a tua igreja, fortalece a tua igreja, a todos os que são teus, espalhados por essa terra, que conhecem o teu Evangelho e, por causa dele e por quererem vivê-lo, são perseguidos.

Guarda a verdadeira alegria do Reino dentro de cada um de nós, para que possamos suportar Roma com todas as suas representações multifacetadas e multipartidárias. Nos preserva no meio do caos. Que Deus abençoe o nosso dia, o nosso encontro de família, e que a nossa paz venha dos céus, em nome de Jesus. Amém!


Fonte: A Casa da Rocha. 12 - Rasgando a velha religião - Zé Bruno - Meu Caro Amigo. https://www.youtube.com/watch?v=iFYC_Ca_AjY

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