description Artigo Cristãs groups Teologia e Pregações

João 14:15-27: Que Todos Sejam Um Com Ele: A Trindade Habitando em Nós

  1. A Mesa Como Convite à Comunhão — retomando o contexto de João 13-14, o diálogo com Filipe ("Quem vê a mim, vê o Pai") e a promessa de não deixar os discípulos órfãos.

  2. O Paráclito: Um Outro Consolador — o significado da palavra grega parákletos, a promessa de Jesus de enviar "outro" consolador e o que isso revela sobre a unidade entre Pai, Filho e Espírito.

  3. Deus Conosco, Deus em Nós — a distinção entre o Espírito que "está com" e "estará em" os discípulos; Jesus como Emanuel e a chegada do Espírito como continuidade dessa presença.

  4. Explicando a Trindade: A Ilustração do Tablet — a analogia didática (as peças conversando dentro do aparelho, o software que entra e purifica, a energia que sustenta) para ilustrar Pai, Filho e Espírito como um só Deus.

  5. Pentecostes: A Virada da Era do Espírito — a ponte com Atos 2, o batismo com o Espírito Santo como parte do mesmo evento da conversão, não um segundo estágio.

  6. Amor Que Se Traduz em Obediência — "aquele que tem os meus mandamentos e os guarda é esse que me ama"; o diálogo com Pedro na praia (João 21) como ilustração; a diferença entre religiosidade ritualista e obediência genuína.

  7. Os Três Nós Franciscanos: Desapego, Castidade e Obediência — a tradição católica dos franciscanos como ilustração de consagração, com pontes para Filipenses 4 e Romanos 12.

  8. A Perichorese: A Mútua Habitação da Trindade — o conceito teológico de pericorese, a ilustração de Tim Keller sobre a "ciranda" trinitária, e o convite para participar dessa comunhão.

  9. A Mesa de Jesus: Publicanos, Pecadores e Nós — a crítica aos fariseus, a diferença entre honrar a Deus com os lábios e com o coração, e o chamado para sermos "gente da mesa" ao invés de criarmos inimigos religiosos.

  10. Conclusão: Vasos de Barro, Templo do Espírito — o convite final para a Ciranda da Trindade, a oração de encerramento e a síntese da mensagem: o Deus perfeito habitando no imperfeito.

A Mesa Como Convite à Comunhão

Paramos no versículo 14 e quero retomar o fio da meada com vocês. No capítulo 13, eu estava com os discípulos à mesa — foi ali que anunciei quem me trairia, quem me negaria, mas foi também naquele mesmo lugar que eu disse que seríamos conhecidos pelo amor que tivéssemos uns pelos outros, e que o mundo reconheceria a Cristo vendo em nós esse amor. A lógica sacrificial de entrega do nosso Senhor, viva em nós, saltando pelos nossos poros e emanando para este mundo. Porque é possível ao ser humano ser diferente a partir do amor de Deus.

Foi também à mesa que, na leitura da semana passada, Filipe me disse: "Mostra-nos o Pai, e isso nos basta." E eu respondi: "Filipe, o que está acontecendo com você? Onde você estava? Eu sou o Pai, porque eu e o Pai somos um. E quem vê a mim, vê o Pai."

Eu já havia dito isso à mulher samaritana, em João 4: que Deus é espírito, e que importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade. É como se eu estivesse dizendo: "Filipe, não dá para mostrar o Pai, porque o Pai é espírito — mas eu sou o Pai em carne, a verdade de Deus e o seu verbo vivo, aqui, com você."

Na semana passada eu falei que convido vocês a viver comigo. A mesa é o sinônimo da aceitação de Deus em sua comunhão. Chamamos aquele sermão de "Que todos sejam um com Ele", e disse que hoje continuaríamos, porque hoje eu falo do Espírito.

No versículo 15, digo: "Se vocês me amam, guardarão os meus mandamentos." E então, no versículo 16:

"Eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, a fim de que esteja com vocês para sempre — o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Vocês o conhecem, porque ele habita com vocês e estará em vocês."

Reparem nessas duas preposições: ele está com vocês e ele estará em vocês. É como se eu estivesse dizendo: ele está com vocês, no meio de vocês — mas ele estará em vocês, dentro de vocês.

"Não deixarei que fiquem órfãos. Voltarei para junto de vocês. Vocês, no entanto, me verão, porque eu vivo e vocês também viverão. Naquele dia, vocês saberão que eu estou em meu Pai, e vocês estão em mim, e eu estou em vocês."

Que frase bonita: eu estou no Pai, o Pai está em mim, e eu estou em vocês. E aquele que tem os meus mandamentos e os guarda é quem me ama — e quem me ama será amado pelo meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele.

Foi então que Judas — não o Iscariotes — me perguntou por que razão eu me manifestaria a eles e não ao mundo. E eu respondi:

"Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras. E a palavra que vocês estão ouvindo não é minha, mas do Pai que me enviou."

Eu disse isso enquanto ainda estava com eles. Mas o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviaria em meu nome, ensinaria a eles todas as coisas e faria com que se lembrassem de tudo o que eu havia dito.


O Paráclito: Um Outro Consolador

Eu disse: "Por isso, eu vou rogar ao Pai, e ele vos enviará um outro Consolador." A palavra usada aqui é parákletos. Ela significa alguém que está junto, que auxilia, que ajuda. Pode até ser traduzida como advogado, alguém que defende.

Gosto de uma imagem para explicar o que é um parákletos: é alguém que, no dia em que você tropeça, cai e se machuca, se ajoelha ao seu lado para saber se você está bem, e fica ali, junto de você. É quem socorre.

O interessante é que traduzimos essa palavra como "consolador", mas muitos intérpretes — e eu me incluo entre eles — não têm certeza se essa é a melhor tradução para descrever o que é o parákletos. O que importa é que ele é esse que está conosco, que não nos deixa sós, que nos auxilia, que nos socorre e vive conosco.

Agora, acho que vocês entendem por que eu disse que iria orar ao Pai para que ele enviasse um outro Consolador. Por que "outro"? Já não tinha vindo um espírito? Não — já havia vindo Deus. Porque eu sou chamado de Emanuel, o Deus conosco. Se eu digo "eu e o Pai somos um" e afirmo que enviaremos o Espírito, e ele será um outro Eu com vocês, é porque Pai, Filho e Espírito são a mesma pessoa.

É como se eu estivesse dizendo: "Eu sou um Paráclito de Deus. Estou aqui, junto de vocês. Eu sou o Emanuel, e vocês não estão sozinhos. Mas vou para junto do Pai — está na hora de eu partir. Vocês não ficarão sozinhos, porque virá um outro Eu."

A palavra "trindade" não está na Bíblia — não a encontramos ali. Ela é um termo teológico que tenta explicar quem é Deus: Pai, Filho e Espírito. Por isso uso o termo "outro" — porque eu sou um, e virá outro que continuará a minha obra entre vocês.

Eu havia dito, a respeito da minha própria pessoa e da minha palavra: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." E agora afirmo que sou eu quem é o Espírito da verdade, porque esse Espírito é o próprio Espírito do Filho.

Há quem diga: "Não, o Espírito Santo não é Deus — ele é apenas o espírito de Deus." Mas Deus já é espírito. Vocês acham que Deus é matéria? O Espírito é o próprio Deus entre nós, assim como eu, Cristo, era o próprio Deus entre vocês em carne. Não existe uma maneira perfeitamente objetiva e didática de explicar isso. A Trindade é algo muito difícil para a nossa cognição, olhando de baixo para cima, tentando compreender o Ser que existe eternamente, sem começo e sem fim, que ordena a existência e se relaciona com ela. É complexo — não cabe inteiramente em nossa mente.


A Ilustração do Tablet: Explicando a Trindade

A Trindade é muito difícil para a nossa cognição, mas há uma maneira — não perfeita, mas útil — que descobri para exemplificar quando dou aula ou falo com jovens. Sempre digo assim: imaginem que toda a nossa existência se resumisse a um computador, um tablet. Deus está fora disso. Isso aqui é a existência: as peças, os eletrodos, os condutores, as partes de plástico, de metal, o lítio, as memórias — todas as peças ficam conversando entre si, porque isso é a existência.

Elas ficam se perguntando: de onde viemos? E o ser humano, do lado de fora, ouve a discussão e diz: "Fui eu que fiz vocês. Fui eu que criei. Vocês só existem porque eu criei." E surge uma dúvida entre as peças: existe um Deus além de tudo, que faz com que tudo exista?

E as peças continuam conversando: "Quando dá um vírus, ele acaba com a nossa bateria, corrói tudo o que temos." Alguém entrou ali — um software, um programa, como os outros que existem, o Word, o Excel, os aplicativos — mas entrou um aplicativo diferente, igual a elas mesmas. E ele limpou, tirou o pecado, tirou o vírus. "Deve ter dois", pensam elas: "um que cria e um que entra." E o homem do lado de fora responde: "Não, vocês não entenderam. Sou eu mesmo. Sou eu que crio e sou eu que entro e limpo, do jeito que vocês são. Faço-me como uma de vocês para exemplificar o que é a limpeza."

E as peças continuam: "Como é que a gente se mantém? De onde vem essa energia presente?" Porque, além de entrar um software, sair e purificar, existe algo que permanece e mantém tudo energizado e vivo o tempo todo. "Deve ser três", concluem. E o homem do lado de fora responde: "Para vocês parece três, mas sou eu que crio, sou eu que entro, sou eu que plugo o carregador e mantenho isso vivo."

Nós olhamos para a nossa realidade de baixo para cima e não conseguimos conceber, porque isso vai muito além da nossa maneira de pensar no chão da vida. Mas o Espírito Santo é o próprio Deus, assim como Cristo era o próprio Deus entre nós — o Deus Criador que vê o homem morrer na queda, negando a Deus no Éden, entra na história através de Cristo para nos mostrar o caminho. E quando este volta à eternidade, envia o seu Espírito para que agora habite em nós.

O mundo não me conhece, não conhece esse Espírito — mas vocês o conhecem, porque ele está com vocês e estará em vocês. E alguém perguntaria: "Como assim, ele está conosco? Onde?" E eu diria: "Aqui, sou Deus, estou com vocês — mas em breve ele estará em vocês, porque eu e o Pai faremos em vocês morada." A habitação de Deus em nós acontece pelo seu Espírito.

O apóstolo Paulo diria que o nosso corpo é santuário, templo da sua presença. E o autor de Hebreus, logo no primeiro capítulo, primeiro versículo, escreve:

"Deus outrora falou aos nossos pais pelos profetas, mas nos últimos dias tem nos falado pelo Filho."

Aquilo que era um conceito que não enxergávamos virou gente e habitou no nosso meio. E agora eu digo: "Vou voltar ao Pai, mas continuarei com vocês. Vocês não ficarão órfãos."

Os discípulos me conheceram em carne e osso. Eu não podia habitar neles enquanto era manifesto entre os homens como figura humana. Mas quando fui para os céus, o Espírito veio e os ocupou. Já estudamos o livro de Atos dos Apóstolos, capítulo 2 — vale a pena assistir de novo, vale a pena orar sobre esse texto novamente. Estavam todos reunidos no mesmo lugar quando o Espírito de Deus desceu. Um fenômeno aconteceu: eles deviam estar ali com cânticos, lendo salmos e me adorando, e as pessoas de fora do cenáculo ficaram confusas, porque cada uma os ouvia na sua própria língua — medos, partos, elamitas, egípcios, gente de Chipre, da Capadócia, árabes, cretenses, cada um ouvindo no seu próprio idioma. O Espírito desceu ali, marcando o início da era do Espírito entre os homens. Os discípulos que me conheceram em carne agora me conheciam em espírito, habitando neles.


Pentecostes: A Virada da Era do Espírito

Existem diferentes perspectivas, diferentes interpretações e tradições que interpretam a Escritura. Passei por uma grande mudança na minha vida quando comecei a ler e a estudar esse texto com mais profundidade. Não creio que o batismo com o Espírito Santo seja um segundo evento — primeiro eu recebo a Cristo, depois recebo o Espírito. Se alguém dissesse: "Não estou entendendo o que você está falando" — é o mesmo. Nós não conhecemos a Cristo em carne e osso. Quando recebemos a Ele e cremos Nele, já era o Espírito. Ele já não estava mais ali. Por isso, quando alguém crê em Cristo, já é feito habitação do seu Espírito.

Se houvesse um dia em que a pessoa cresse Nele e outro dia para receber o Espírito, deveria haver também um dia para receber o Pai. Foi baseado no Espírito Santo. Foi no Espírito Santo e no Pai. Perdoem se isso escandaliza alguém, mas é assim que cremos: quem vê a mim, vê o Pai. O Pai é espírito. Importa que os adoradores o adorem em espírito e em verdade. E nós faremos morada em vocês através do Espírito.

O Espírito é Deus entre nós. Eu estou no meio de vocês, mas estarei em vocês. E vocês me conhecerão. Não ficarão órfãos. Terão o Verbo vivo habitando neles pelo Espírito.

É por isso que, mesmo parecendo fora do tema, eu digo: "Aquele que me ama obedece os meus mandamentos." É impossível dizer que ama a Deus — sendo Deus espírito, sendo Deus o Verbo, e o Verbo habitando em nós — se essa pessoa tem controvérsia com a sua palavra e não a obedece. Há algo errado ali: é ser possuído por alguém com quem não se concorda. Já pararam para pensar nisso?


Amor Que Se Traduz em Obediência

"Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda é esse que me ama." Acho isso muito interessante. Guardar é proteger, é tomar cuidado, é tomar conta com carinho, é preservar. E o mandamento aqui — a ordem — é também preceito. Toda ideia de vida que ensino pela minha palavra, vocês guardam. Porque, ao guardar a palavra, que é o Verbo, vocês estão guardando o próprio Deus em vocês. Ele não é um ser que os ocupa sem nenhum tipo de intenção — isso são os deuses pagãos.

No antigo Oriente Próximo era assim: os deuses dos amalequitas, os deuses romanos, dos midianitas, dos filisteus, dos egípcios eram ídolos aos quais se fazia uma oferenda, e eles davam o que se pedia — mas acabava ali. Deus é o Senhor da terra, é o Senhor da palavra, é o Senhor da ordem humana, é quem cria o ser humano e estabelece o método de existência e de vida ao qual negamos no Éden. Por isso, quando alguém crê nesse Deus, crê em tudo o que ele diz — não por um benefício que se recebe, mas por um novo ser que se deseja ser, porque a sua palavra passa a habitar em nós.

E é assim que o amamos: porque o obedecemos. Quando, no final deste livro, estou na praia, depois de Pedro ter me negado três vezes — chegaremos lá no final —, eu pergunto três vezes: "Pedro, você me ama?" E ele responde, na primeira vez: "Senhor, eu te amo." E eu digo: "Apascenta as minhas ovelhas." Na segunda vez, a mesma coisa: "Você me ama?" "Eu te amo, Senhor." "Então, apascenta as minhas ovelhas."

Imaginem se, ao invés disso, Pedro respondesse: "Claro, Senhor, vou cantar uma música gospel para o Senhor." Eu diria: "Não, não precisa." "Pedro, você me ama?" "Lógico, vou te dar uma oferta aqui." "Não, não é isso que eu quero." Se você me ama, você cumpre a minha palavra. Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda é esse que me ama.

O amor não é uma expressão apenas ritualista — ainda que cantemos, louvemos, dividamos e repartamos os nossos bens. Mas não é isso que nos faz, de verdade, seres humanos redimidos. Há muita gente neste mundo muito feliz, que canta muito e que é generosa, mas o que nos marca é o fato de que aquilo que digo habita em nós de uma maneira que muda o jeito como vivemos, pensamos e somos.


Os Três Nós Franciscanos: Desapego, Castidade e Obediência

Há uma tradição católica dos franciscanos muito interessante. Aliás, quando contamos a história da igreja, quando a estudamos, é uma única igreja. A separação entre protestantes e católicos aconteceu em 1517 — foi um milênio e meio de vida junto antes disso. Era uma igreja só.

Quando Francisco se converte, ele faz um voto. Os franciscanos não usam cinturão em sua túnica — usam uma corda com três nós. Vocês já viram isso? Sabem o que significa? O primeiro nó representa o voto da pobreza — na verdade, o voto do desapego. "Sou de Deus, e não estou mais apegado às coisas que estão aqui. Posso ter, posso não ter." É isso que Paulo ensina em Filipenses, capítulo 4. O primeiro nó é o desapego das coisas.

O segundo nó é o da castidade. É também o que Paulo diz em Romanos 12: que apresentemos o nosso corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, desligado da necessidade do prazer a qualquer custo. Esse segundo nó significa esse tipo de dedicação.

E o terceiro nó significa obediência — olhar para a sua palavra e para os seus princípios e dizer: "É isso que eu vou viver."

Talvez, na Reforma protestante, tenhamos perdido coisas muito preciosas que não deveríamos ter perdido. E somos tão cheios de críticas, não é? Mas, na minha maneira de pensar, tenho amigos católicos muito tementes a Deus, que considero como irmãos em Cristo. Alguém poderia dizer: "Mas eles têm Maria — isso é idolatria." E nós temos as nossas Marias, os nossos Mários, os nossos Joões, aos quais também nos devotamos. Eles acreditam que, se não pedirem a Maria, não serão abençoados. E há quem acredite que, se não for a determinado culto, não der uma oferta e não receber óleo na cabeça, não será abençoado. Só mudou a figura. A idolatria está em todo lugar.

Mas deixemos esse assunto de lado — sou completamente contra cortes de internet, e sei que isso vai me causar dor de cabeça. Não dói tanto assim, só chateia um pouco. Porque não entendemos que o que Deus espera de nós é a nossa abnegação. "Você me ama? Então cuide de quem eu amo. Você me ama? Então apascente aqueles por quem estou dando a minha vida. Você me ama? Então obedeça a minha palavra e siga a vida." Aquele que me ama é aquele que tem a minha presença em si — e a minha presença nele é a minha vida e a minha palavra, porque o Espírito está no Pai.


A Perichorese: A Mútua Habitação da Trindade

É muito bonito este verso quando digo: "Naquele dia, vocês saberão que eu estou no Pai, o Pai está em mim, e nós estamos em vocês pelo seu Espírito." Pelo seu Espírito, ele habita em nós. Esse é o conceito trinitário. Aliás, quando dizemos que cremos em Deus, na nossa cabeça cremos na Trindade. Nosso Deus é trino. Não são três pessoas separadas — é a mesma pessoa, é o mesmo Deus, é o mesmo Senhor.

É por isso que, se alguém olhar para o Antigo Testamento e olhar para Deus sem a imagem de Cristo, verá o Deus errado, porque Deus é Cristo e Cristo é Deus. E o que ali não se parece com Cristo deve ser cultural ou transitório, porque Cristo é Deus e Deus é Cristo. O Espírito é o Pai, o Pai é o Espírito, o Espírito é o Filho, o Espírito é Deus, o Espírito é o Pai. Naquele dia, vocês saberão que eu estou no Pai, o Pai está em mim, e nós estamos em vocês.

Tim Keller, no seu livro A Cruz do Rei — um comentário sobre o Evangelho de Marcos, muito bom, vale a pena ler —, fala, logo no início, sobre a ciranda. Sabem o que é uma ciranda? Quando as crianças estão dançando em roda. Aliás, isso não acontece só quando somos crianças — acontece também quando somos adultos. O que esperamos é ser aceitos. Quando somos convidados para uma festa e não conhecemos ninguém, chegamos ali deslocados — até que vemos alguém conhecido, e então dizemos: "Ali estão eles, ali sou eu, meu grupo. Ali eu vivo. Não estou deslocado, não estou fora."

Aconteceu algo interessante comigo: eu e meu irmão fomos a um velório da mãe de um amigo muito querido. Na hora de ir embora, havia outros velórios, outras famílias. Quando me virei para seguir meu irmão — de camisa preta — percebi que havia um grupo de três pessoas. Cumprimentei todo mundo, pensando ser alguém que ele conhecia. Quando olhei de novo, percebi: não era meu irmão, era outro homem. Enquanto eu me despedia, meu irmão havia seguido por outro caminho, e outra pessoa entrou no meu campo de visão. Eu tinha entrado na roda errada. Falei: "Acho que entrei na roda errada" — e o homem respondeu: "Está tudo certo." Porque procuramos a nossa turma, procuramos estar perto e ser aceitos na roda.

Tim Keller diz algo bonito: que o Pai, o Filho e o Espírito vivem como uma ciranda. Um único Deus — mas é o Senhor que está aqui na palavra, que se manifestou em carne, que é o próprio Espírito, que é o Deus que está no céu. E quando digo "eu estou no Pai, o Pai está em mim", na teologia chamamos isso de perichorese. Nome complicado, não é? Se um dia vocês ouvirem essa palavra, já saberão que se trata da mútua habitação das pessoas da Trindade. O Pai habita no Filho, o Filho habita no Pai, o Filho habita no Espírito, o Espírito no Filho, o Pai no Espírito, o Espírito no Pai. Eles são um. E digo que é uma festa de um Ser que é o que é e se alegra com tudo o que faz pela existência.

Naquele dia saberemos que o Pai está no Filho, o Filho no Pai, e eles estão em nós — porque nos chamam para a ciranda. Convidam-nos a dar a mão e participar da festa da vida — a festa da vida pelo Espírito do Deus que cria e olha para a sua criação, que se separa dele pelo pecado, mas continua a sustentá-la pela sua graça, intervém com o Filho, dá vida pelo Espírito e nos chama para sentar à sua mesa.

A simbologia da mesa não está no que se come, mas em com quem se come. Há quem pense que aquele pãozinho é místico, que ao comê-lo algo vai entrar em nós. Mas o Espírito já habita em quem crê — nada de novo vai entrar.

O Filho de Deus, perfeito, puro, santo, justo, criador, é negado pela própria criação, como se fosse um nada — mas é ele que sustenta tudo. E o mundo o nega, chega a dizer que ele não existe. Como diz Filipenses, capítulo 1, e Colossenses 1: nele tudo se sustenta. Ele é o sustentador e criador de tudo o que há. E nós somos convidados — pecadores, falíveis, finitos, imperfeitos. Ele senta à mesa e diz: "Vem, senta aí, puxa a cadeira."


A Mesa de Jesus: Publicanos, Pecadores e Nós

E alguns de fora vão dizer: "Mas ele come com publicanos e pecadores." E eu respondo: "Se você se sente são, não precisa de médico. Continue aí, fique na sua." Mas estou chamando para a ciranda — para esse lugar onde vivemos a minha palavra, onde somos abnegados e dizemos: "Não há vida em outro lugar a não ser aqui." E quando cremos e praticamos essa palavra, dizemos ao mundo quem eu sou.

Vivemos em amor e somos reconhecidos como discípulos por amarmos uns aos outros, porque carregamos em nós a mesma lógica do sentimento de Deus — do Espírito, do Filho, do Pai — que habita em nós pelo seu Espírito. E é um contrassenso quando nós, sendo habitação e morada do Espírito, fazemos algo contrário à sua palavra, porque o Verbo nos habita.

Isso me faz pensar em algo interessante. Não sei quantos anos faz que tenho Instagram — acho que desde que começou, por causa da banda, para divulgar o trabalho. E sempre tem os haters, os que xingam, os que criticam. Mas, em todos esses anos, nunca fui agredido verbalmente por nenhum ateu, nenhum espírita, nenhum católico, nenhum bandista. Nunca. Agora, evangélico... Isso é engraçado.

Quando olhei para os fariseus que criticavam o fato de eu sentar à mesa com publicanos e pecadores, eu disse: "Este povo me honra com os lábios, canta 'Glória a Deus!' — mas me honra com os lábios, e o seu coração está longe de mim."

Essa semana eu não gosto de ler comentários, mas fiz isso — que besteira. Havia alguém me perguntando por que eu havia homenageado um guitarrista falecido que não era cristão. Obviamente não respondi, porque não tenho tempo para perder com isso. Mas fiquei pensando: esse povo honra com os lábios, mas não consegue sentar com os publicanos e pecadores.

Os publicanos e pecadores deixaram de ser o nosso campo missionário e passaram a ser o nosso inimigo a ser alvejado. A compaixão e o amor pela salvação deram lugar a um conceito bélico de domínio e supremacia religiosa. E o lugar que deveria ser a habitação do Espírito, de onde emana toda graça e misericórdia, tornou-se um lugar que emana juízo, preconceito e separatismo.

Sabem por que sento com publicanos e pecadores? Porque não tenho nenhum problema com publicanos e pecadores. Eles têm pecado — pecado eu resolvo na cruz, isso é fácil. O que quero saber é se há gente que está entendendo — e ainda que tenha a vida toda torta, e precisemos puxar um fio para resolver tanta coisa, o que importa é dizer: "Eu quero, sou um pecador, longe de ser perfeito, mas quero te seguir. Tem dias que acerto e dias que erro nos meus passos, mas o objetivo está certo. É para o Senhor que eu vou. Quero ser a habitação do teu Espírito."

Naquela mesa da ceia, no meu chamado discurso de despedida, eu sabia que ia para a cruz — e deveria estar sendo consolado. Mas os meus discípulos ainda nem entendiam o que estava acontecendo. Era eu quem os estava consolando, dizendo: "Não fiquem preocupados, porque vou partir, mas vou continuar com vocês. Eu, o Pai, somos um, e o Espírito é o mesmo. Se vocês me amam, obedecerão a minha palavra, e eu e o Pai viremos e faremos morada em vocês."

Portanto, a nossa alegria é encontrar a nossa turma — gente que, da mesma forma como nós, diz: "Não quero mais ser quem eu sou, e quero que o Verbo de Deus me conduza." Não é por estarmos aqui, neste lugar específico — pode ser aqui dentro, pode ser em qualquer outro lugar. Se um dia tivermos que mudar deste espaço, tanto faz o que aconteça com as paredes depois — Deus não habita no tijolo, habita em nós. E se tivermos que mudar para outro lugar, na verdade nós somos o lugar onde ele habita. E nos encontramos como irmãos porque gostamos de estar juntos e adorar, porque somos membros uns dos outros, somos o seu corpo — não porque este é um lugar místico, mas porque somos nós, e não o edifício, quem carrega essa presença.

Não dá para buscar alguém que já habita em nós. São conceitos, são interpretações — mas expliquem-me como se busca alguém que já habita em você. Você já o tem e não sabe que tem. Você já o encontrou e continua procurando — talvez porque procure resultados, e não a Ele mesmo. Procurem a quem vocês procuram, ou a sua palavra, simplesmente porque desejam ser servos. Ele fará morada em vocês, e vocês o seguirão. E ele já está entre nós. A cada dia melhoramos um pouco mais, porque o Verbo vai fazendo diminuir quem somos e aparecer mais quem ele é. E voltamos ao Éden para sermos, de novo, a imagem e semelhança daquele que nos criou — não só numa aparência física, mas principalmente em tudo o que pensamos e somos.


Conclusão: Vasos de Barro, Templo do Espírito

Estou convidando vocês para a Ciranda da Trindade. Vamos entrar. Deus nos abençoe.

"Senhor, muito obrigado pela tua palavra. A tua palavra é a verdade, a tua palavra é a nossa vida. Nós a lemos e nos enxergamos nela. Lemos a respeito do teu amor, e é o que desejamos. Vemos o teu perdão e a tua compaixão, e dizemos: é isso que eu quero ser. Vemos a tua justiça e a tua retidão, e dizemos: é nisso que eu quero andar. Obrigado, Senhor, por nos ter convidado para a ciranda, por nos ter convidado para andar junto contigo — Pai, Filho, Espírito, Deus trino, perfeito. Mesmo sendo imperfeitos, o Senhor nos chamou para sentar à mesa, para termos lugar contigo. E, mesmo imperfeitos, somos vasos de barro. A gente quebra — e o Senhor habita em nós. O perfeito e puro escolheu morar dentro do imperfeito e impuro que sou eu."

Que isso não seja em vão, e que eu permita, a cada dia, morrer um pouco mais, e que o teu Espírito molde em mim, e em cada um de nós, mais de ti — e nos amemos a ponto do mundo enxergar quem o Senhor é através de nós, da tua palavra que em nós habita pelo teu Espírito, Pai, Filho, Espírito. Que não sejamos gente que cria inimigos para destruir e ter supremacia, mas sejamos gente da mesa — gente que senta à mesa e é grato a Deus por não merecer, mas ser convidado. E temos o prazer de convidar outros que o mundo diz que não merecem, mas que estão olhando para ti, dizendo: "Eu preciso de Deus. Eu preciso do Pai, do Filho, do Espírito."

Nos ajuda a demonstrar quem o Senhor é, a sermos o evangelho que o mundo lê. E obrigado, porque o Senhor habita em nós. Há dias em que nos sentimos sozinhos, parece que não há ninguém — mas o Paráclito, o Emanuel, o Deus presente, está ali. Há dias em que não sentimos nada, mas obrigado porque não precisamos sentir: o Senhor está conosco e habita em nós. Há horas em que nem sabemos como orar — não é preciso, porque o Senhor sabe o que está em nosso pensamento antes mesmo de a palavra chegar à nossa boca, e sabe do que precisamos antes de pedirmos. E, nos momentos em que não sabemos nem o que dizer, a tua palavra diz que o teu Espírito intercede por nós com uma linguagem que não conseguimos nem entender.

Obrigado pela tua presença em nossa casa, nossos casamentos, nossa vida como um todo, na educação dos nossos filhos. Há dias de tanta dúvida, tanto medo diante dos desafios da vida — mas o Senhor disse que, se estivermos nele, ele estará em nós; que o Senhor Jesus, o Pai, o Filho, o Espírito virão e farão em nós morada.

A única coisa que queremos é te conhecer mais. Que fama, que igreja grande ou pequena — essas são infantilidades que devem ser tiradas de nós. Que estejamos preocupados apenas com o que o Senhor está fazendo dentro de nós. Espírito de Deus, que és o próprio Filho e o próprio Pai, que habitas em nós — obrigado. Santo é o teu nome, tu és bendito. Nós te amamos e queremos cumprir os teus mandamentos. Tua morada está aqui, Senhor. Nos ajuda a viver a vida de Cristo nesta terra, em nome de Jesus. Amém.


Fonte: A Casa da Rocha. 48 - Que todos sejam um com Ele - Parte 2 - Zé Bruno - Quem é Jesus? https://youtu.be/c1uxIEp1tg8?list=PLln4KGoeU_UkkoVA8SVZwj-fYSJIw5qBO

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