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João 14:27: De Onde Vem a Nossa Paz?

Na Mesa da Despedida: o Contexto de João 14

Estamos na mesa com Jesus. É o capítulo 14 do Evangelho de João, e essas palavras que Jesus dirige aos seus discípulos são conhecidas como o seu discurso de despedida. É nessa mesma mesa que ele anuncia que um dos seus vai traí-lo e outro vai negá-lo. É ali, também, que ele diz aos discípulos que eles seriam reconhecidos pelo amor que tivessem uns pelos outros.

Foi nessa mesa que, além de afirmar "Eu sou o Pai e o Pai sou eu", Jesus responde a Felipe, quando este pede: "Mostra-nos o Pai." A resposta não poderia ser mais direta: "Quem vê a mim vê o Pai." Jesus é Deus em carne. E é ainda nessa mesma mesa que ele diz que vai, mas que voltará, e que não nos deixará órfãos, porque o seu Espírito estaria em nós e entre nós — entre os seus discípulos, nos seus discípulos —, dizendo-nos que não deveríamos atribular o nosso coração, nem nos preocuparmos.

Agora o texto prossegue, ainda no capítulo 14, no versículo 27, nessa mesma mesa, até o final do capítulo. Ele diz:

"Deixo com vocês a paz; a minha paz lhes dou. Não lhes dou como o mundo a dá. Que o coração de vocês não fique angustiado, nem com medo. Vocês ouviram o que eu disse? Vou, e volto para junto de vocês. Se vocês me amassem, ficariam alegres com a minha ida para o Pai, porque o Pai é maior do que eu. E isso eu falei agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vocês creiam."

Acho isso profundamente interessante: ele está falando antes que aconteça, justamente para que, quando acontecer, nós creiamos. E prossegue: "Já não falarei muito com vocês, porque aí vem o príncipe do mundo, e ele não tem poder sobre mim. No entanto, faço isso para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço o que o Pai me ordenou. Levantem-se, vamos sair daqui."

É a partir dessa cena — Jesus à mesa com os seus, prestes a enfrentar a cruz, mas falando de paz — que eu quero conduzir você a entender de onde vem, de fato, a nossa paz.


"Deixo-vos a Paz, a Minha Paz Vos Dou" — Uma Paz Diferente da do Mundo

Na tradução que eu mais aprecio, a Revista e Atualizada, o texto diz assim: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá." Jesus nos oferece uma paz diferente daquela que o mundo nos oferece. E aqui há um detalhe que muda tudo: a palavra "mundo", nesse texto, é a palavra grega cosmos. E cosmos significa ordem. Nós a traduzimos simplesmente como "mundo", e isso não está errado, mas ela carrega consigo um conceito mais amplo: é a ordem das coisas que vemos, não apenas a materialidade do mundo.

Jesus não está dizendo: "Eu dou para vocês uma paz que a terra, as pedras ou a praia não podem dar." Ele não está falando apenas da materialidade da natureza ou do mundo existente. Ele está dizendo: "Eu deixo para vocês a minha paz, mas não do jeito que a ordem estabelecida a dá. Estou dando a vocês uma paz que este mundo, na sua própria lógica, não pode oferecer."

É essencial que a gente entenda isso desde já: a paz que Jesus promete não compete com a paz que o mundo tenta produzir. Ela vem de outro lugar, de outra lógica, de outro reino. E é justamente essa diferença de origem que vou explorar nos próximos tópicos — porque, para entender por que o mundo não consegue nos dar essa paz, precisamos voltar ao princípio, a Gênesis, e compreender como e por que o mundo entrou em desordem.


O que Significa "Cosmos": A Ordem Caótica do Mundo Desde a Queda

Lembre-se de que, desde a queda, desde Gênesis, o mundo entrou em desordem. Você se recorda de Gênesis 1:1, quando Deus diz — e Moisés escreve — "No princípio, criou Deus os céus e a terra." A terra era sem forma e vazia. Deus vem e diz: "Haja luz!" E parece que ele vai ordenando as coisas. Ela era sem forma e vazia; nós costumamos dizer que era uma ordem caótica. E ele separa as águas da terra, cria o sol, a lua, os céus, o firmamento, os animais marinhos, as plantas. E assim, parece que Deus ordena tudo o que existe.

E Deus diz ao homem: "Isso aqui vai te servir, vai te alimentar. Isso aqui vai ser bom para você. Você vai plantar e vai colher e vai ser feliz. Esta aqui é a mulher, é carne da tua carne, osso dos teus ossos. Vocês vão se multiplicar." Isso tudo seria uma alegria — até o dia em que o homem peca.

E o pecado humano significa a escolha ontológica do homem. O que é isso? É o homem decidindo qual tipo de raça nós seremos: gente que tem um Senhor que lhe diz o que é o bem e o que é o mal, ou gente que, por si só, sendo deus de si mesma, diz o que é o bem e o que é o mal. O pecado, fundamentalmente, é isso: é Deus sendo tirado da existência e o homem decidindo o que é o bem e o mal.

É aqui que dizemos que o mundo volta ao caos. A terra começa a produzir espinhos e ervas daninhas; ela já não é aquele ambiente perfeito. O homem tem que suar a sua camisa, e do suor do seu rosto obtém o sustento. Vai comer a erva do campo, que antes era destinada aos animais. A mulher vai dar à luz, mas essa multiplicação virá com dores.

A narrativa do Éden, com todas as suas figuras, nos demonstra que o ser humano vive em um sistema caótico, onde a ordem das coisas não segue a lógica do Reino e do Criador, mas a lógica do próprio homem. Isso é o pecado. O pecado é a nossa decisão pela vida sem a interferência divina. A mentira, o assassinato, a traição — são consequências de um estado de pecado no qual nos encontramos.

Por isso vivemos em um mundo caótico, onde a ausência de Deus é o tom da existência humana. Há uma discussão milenar sobre de onde vem o mal e o que é o mal. É como se Gênesis nos respondesse: o mal é a ausência de Deus, e tudo onde ele não está é mal. Onde está o Senhor, ali está a ordem divina. Quando conhecemos a Cristo, o seu evangelho e o Reino de Deus, nosso arrependimento e o nosso processo de santificação são um caminho em que a ordem do Reino nos invade — ainda que imperfeitos neste corpo finito, ainda que existindo em um estado de erro, falha e imperfeição. Ouvimos do seu Espírito, da sua Palavra, e somos ordenados e orientados, cada dia, pelo seu querer e pela sua vontade — pelo seu Espírito, que habita em nós até o dia da nossa redenção eterna, quando o pecado já não terá mais espaço nem afinidade conosco, porque seremos eternos.

É muito comum alguém dizer: "Ah, mas se Deus criou o mundo, por que há tanto problema do jeito que tem?" Porque este não é o mundo de Deus. Isso é o que sobrou depois que o ser humano disse a Deus: "Eu decido o que é o bem e o mal." Isso é o que restou do mundo e da criação depois que nós decidimos o que fazer com esta vida.


Do Caos à Redenção: A Ressurreição de Cristo como Solução

Quando João 3:16 diz que Deus amou o mundo de tal maneira, ele amou essa desordem toda, ele amou todo esse caos. Não porque ele o admira, mas porque ele é o redentor dela. A figura de Apocalipse 21 mostra a nova Jerusalém descendo do céu para a terra — uma nova realidade de ordem que vem dos céus para redimir toda a criação, para que o governo seja do Filho, o Filho reinando em cada um de nós. Como seria a vida humana se o próprio Criador habitasse plenamente em todos os seres humanos? Essa é a lógica do Reino.

E assim o mundo vive na desordem. Jesus diz: "Eu ofereço a vocês uma paz que esse caos não consegue oferecer." É interessante que o próprio apóstolo João, em sua primeira epístola, capítulo 5, versículo 19, afirma que o cosmos — essa ordem caótica — jaz no maligno. Sabemos que não há nada, nesse mundo, que o diabo não ataque e não domine. O mundo jaz no maligno, está sepultado nele. Ele já acabou. O que estamos enxergando já acabou; o que estamos vendo já foi.

E a ressurreição de Cristo é a solução da existência. Ali, na cruz, a regência do caos encontra o seu fim. Na ressurreição do Filho, na nova lógica da vida, Jesus ressuscita, e os seus discípulos demoram para reconhecê-lo. A sua condição humana e material atravessa a parede do cenáculo, e ele diz: "Paz seja convosco." Depois ele desaparece. Anda com os discípulos a caminho de Emaús, que não o reconhecem — reconhecem quando ele parte o pão, e então ele desaparece de novo.

É como se uma realidade perfeita e eterna, intrusa em nossa realidade caótica, gritasse para nós que a solução do mundo é a ressurreição, é a nova vida.

O que te traz paz? O que faz você respirar fundo e falar: "Graças a Deus"? Não estou falando de uma solução porque você perdeu sua carteira ou o cartão de crédito e depois encontrou. Não é isso. Estou falando da solução da vida, e de onde nós a buscamos. Porque Jesus disse: "Eu dou uma paz para vocês que vocês não vão encontrar nesse mundo." E é interessante que, no versículo 30 que lemos, Jesus afirma: "O príncipe desse cosmos, o príncipe dessa desordem, o príncipe do caos, não tem nada em mim, e eu não tenho nada dele. E ele não tem poder sobre mim."


O Príncipe Deste Mundo Não Tem Nada em Mim

Quando alguém diz: "Ó Jesus, se você criou o mundo, por que o mundo é esse caos?", eu respondo: não vou assinar esse boletim de ocorrência. Isso não tem nada a ver com Jesus. Vivemos uma condição de mundo em queda. Aliás, a maneira como nós, teologicamente, descrevemos o caos é "mundo decaído". É como se o ser humano tivesse passado por um downgrade. Recuamos um degrau; a existência recuou para um estado finito, imperfeito, caótico, de morte — que caminha para o fim, onde o pecado, que é a lógica da ausência de Deus, governa; onde a maldade e a indiferença dos seres humanos se tornaram normais; onde pisar na cabeça de alguém faz parte do jogo.

Estamos habituados com a deselegância, com a intolerância — apesar de o ser humano gritar por redenção. É o que Paulo diz em Romanos capítulo 8: toda a criação geme, aguardando a revelação dos filhos de Deus, a revelação da vida de Deus para si. Vivemos num estado de agonia, um estado de agonia perene.


O Cristão Verdadeiro Não é Plenamente Feliz Neste Mundo

Eu disse isso outro dia numa entrevista, e as pessoas não entenderam: o cristão é a pessoa que, neste mundo, não é completamente feliz. Entenda o que estou dizendo. O verdadeiro cristão é aquele que, pisando no chão desta desordem, não consegue estar plenamente satisfeito.

Se alguém disser: "Eu sou plenamente feliz porque tudo está dando certo na minha vida", eu respondo: "Nossa, que beleza! Tudo deu certo, você pagou suas contas, pagou seu apartamento, conseguiu um bom trabalho, casou seus filhos, seu time empatou ontem e está classificado, consertaram o asfalto da sua rua. Está tudo bem na sua vida." Você diria: "Que beleza, Deus é maravilhoso." Mas eu diria: que cristão egoísta você é.

Quer dizer que você consegue sair pela porta afora, ver fome e violência, e isso não te dói? Alguém bate no vidro do seu carro e você é indiferente? Você vê as notícias do que acontece no mundo e se fecha em seu casulo porque pagou a última prestação da sua moto, e agora está plenamente feliz dentro do seu quarto de indiferença?

Isso pode acontecer com qualquer ser humano. Mas o verdadeiro cristão sente a dor da terra. Ele completa, no seu próprio corpo, as aflições que restam de Cristo, como Pedro nos ensina. Ele chora com quem chora. Ele carrega a carga uns dos outros. Ele sente a dor do outro em si, porque, de verdade, não se contenta com este cosmos, que é um caos.

A minha paz não vem daqui. E eu não estou buscando essa paz aqui — não estou buscando a Deus para que ele me dê uma paz que venha deste lugar, porque ele mesmo diz: "A minha paz não é deste mundo." Tenho uma paz que não é deste lugar. E ela é paradoxal, ela é muito diferente do que se espera, porque nós vivemos neste caos em paz. E a nossa paz não vem de nada desta terra. Ela continua em desordem, continua caótica.

E se alguém me perguntar o que eu acho disso, eu falo: "Isso aqui é um caos." Mas não vou por isso "me acabar" — não vou desistir. Estou em paz porque tenho a paz que excede o entendimento, e ela não vem deste mundo.


A Pax Romana: o Contexto Histórico da "Paz" nos Dias de Jesus

Jesus está dizendo isso num contexto de paz muito peculiar. Roma dominava o mundo. E na época em que Jesus vivia entre nós, havia a chamada Pax Romana, ou paz romana. O Império Romano, juntamente com as suas conquistas, recebia um problema: quando você amplia o império, ganha o desafio de mantê-lo. Manter o império em paz, sem revoltas e sem revide, era a questão — porque dominar um povo significa ter, do outro lado, um ódio que um dia vai se levantar contra você.

E como um dominador mantém a paz entre os seus dominados? A chamada Pax Romana foi um período de aproximadamente duzentos e poucos anos — de Augusto César, entre 27 e 29 antes de Cristo, até Marco Aurélio, em 180 depois de Cristo. Roma colocou uma série de dispositivos políticos para manter essa paz. Obviamente, Roma desejava riqueza, crescimento e expansão. A lógica era simples: "Eu quero ter o que você tem, a título de ser melhor do que você." Isso não mudou até hoje; continua igual. "Eu vou entrar aí na sua terra e vou dominar você. Por quê? Porque eu quero." "Mas quem te deu esse direito?" "Eu mesmo. Eu sou deus aqui." "Mas quem disse que você é deus?" "As minhas armas."

Não era diferente naqueles dias. Roma tinha um poderio invejável, e a Pax Romana era um sistema de dominação que deixava uma pseudopaz em seus territórios. Entre os deuses do panteão romano estava Marte. Havia, inclusive, um lugar chamado Campo de Marte, onde se faziam sacrifícios a esse deus, pedindo pela paz, pela harmonia e pela prosperidade do império. Nos dias de Jesus, havia também o culto ao imperador: César era tido como um enviado dos deuses para o mundo, e os povos dominados deveriam aclamá-lo, aplaudi-lo, venerá-lo e se submeter a ele como um devoto se submete a uma entidade divina.

Roma promovia, então, uma pseudopaz política e também religiosa, porque os povos dominados ficavam sob o comando de César, pagando impostos a ele, ao mesmo tempo em que se curvavam aos deuses de Roma. E assim, a paz era mantida.

Mas essa paz não era garantida de graça. Havia guarnições e divisões do exército romano espalhadas por todos os territórios. Uma terra ocupada recebia soldados romanos que mantinham, entre aspas, a paz. O exército daquela terra era vencido, os homens eram mortos, as crianças comercializadas como escravos e as mulheres violadas. Nem todos os homens eram do exército, então alguns sobreviviam, mas quase sempre, nos povos dominados, a maioria das famílias perdia sua pequena terra, onde produzia para sua subsistência. Muita gente caía na condição de mendicância — algo comum naqueles dias — e descia na escala de sua posição social e financeira, porque, afinal, Roma estava ali exercendo o domínio.

A escravidão não era um detalhe dentro do Império Romano; a escravidão era o próprio sistema. O sistema era dominar. E o mais impressionante é que as vozes que se revoltavam contra isso eram brutalmente silenciadas — por isso havia as crucificações. Elas serviam de exemplo para quem estivesse observando um crucificado: era isso que acontecia com quem se levantasse contra o sistema.

Aliás, quando os saduceus e os religiosos levaram Jesus para ser interrogado por Pilatos, a acusação era exatamente essa: que ele se dizia rei, e isso seria uma ameaça ao império. Por isso Pilatos pergunta: "Você é rei ou não é?" E Jesus responde: "É você que está dizendo. Meu reino não é deste mundo." Isso seria uma ameaça ao Império Romano, e assim ele seria crucificado — apesar de Pilatos lavar as mãos e dizer: "Ele não é isso que vocês estão falando." Mas a religião consegue ser muito mais violenta do que os impérios, porque talvez a religião dos impérios humanos seja o que carrega mais ausência de Deus.

A paz não era para todos. Na verdade, a Pax Romana era uma sensação de controle para o próprio Império Romano, e também para os dominados e amigos do império que se submetiam a ele. Era uma paz para Roma, para os romanos vencedores e para os amigos do sistema.


Religião e Sistema: Como Saduceus, Herodianos e o Templo se Acomodaram a Roma

Você lê nas páginas do Novo Testamento que havia, entre os judeus, os herodianos — um apelido para aqueles que simpatizavam com Herodes. Eram judeus que não achavam ruim o que Roma fazia. "Ah, melhorou. A moeda é boa. Os caras construíram estradas." Para se manter a Pax Romana, além do exército nas guarnições e fronteiras, era preciso investir pesado — e isso custava caro. Por isso, aliás, ela durou apenas duzentos e poucos anos: Roma não conseguiu sustentar esse custo por mais tempo. Os soldados eram mercenários; era preciso garantir salário e sustento para todo mundo, em todo o império, para manter a paz em todos os lugares.

Havia também a romanização — a aculturação aos deuses, à cultura e à religião de Roma —, além de uma propaganda imperial e de toda uma infraestrutura: estradas, pontes, aquedutos, construções e obras. Herodes, por exemplo, ampliou o próprio templo. O templo dos dias de Jesus era muito maior do que a planta dos dias de Davi e de Salomão, quando este o construiu. Mas muitos judeus, nos dias de Jesus, não gostavam desse templo, porque ele havia passado pela mão de um gentio, um romano, em sua ampliação — e havia, ainda, a Fortaleza Antônia, a torre de onde os soldados romanos tinham acesso ao pátio do templo, apesar de serem considerados imundos para estar ali.

Roma trabalhava para convencer os judeus — e, em outros territórios, os respectivos povos dominados — a se curvarem à sua cultura, aos seus deuses, a chamar César de deus e fazer culto a ele, simplesmente porque haviam construído uma estrada, um aqueduto, uma ponte. Havia negociação em muitas províncias, com muitos povos dominados. No caso dos judeus, para manter a Pax Romana, ficava-se com o templo. Os saduceus tinham um acordo: eram eles que escolhiam o sumo sacerdote — lembre-se de Anás e Caifás, que nunca existiram como dupla no Antigo Testamento. Era um acordo com Roma, entre sogro e genro: "Vocês mantêm o comércio do templo, e eu deixo vocês fazerem câmbio de moeda."

É por isso que Jesus expulsa os cambistas do templo: eles trocavam dracmas e denários por siclos — funcionavam como um banco. Por isso os saduceus formavam uma aristocracia dentro de Jerusalém, enquanto o povo era pobre e pagava impostos a Roma. Os zelotes, por sua vez, eram revolucionários que faziam uma espécie de terrorismo contra os romanos; não simpatizavam com eles, mas os saduceus tinham um bom acordo — "uma mão lava a outra". A religião mantinha o comércio, mantinha, pseudamente, a sua fé, e Roma dominava como bem entendia. E assim a paz era mantida.

Os religiosos faziam isso. E Jesus, aliás, tinha embates constantes com esses religiosos — algo que acompanhamos ao longo do Evangelho de João, nos capítulos 7 e 8, especialmente. O capítulo 8 é onde ocorre o confronto mais forte de Jesus contra fariseus e saduceus. Mas, ao final, Jesus é julgado pelo Sinédrio, pela corte judaica, e é levado a Pilatos. E quando Pilatos lava as mãos, são os próprios religiosos que gritam: "Solta Barrabás!" Podiam escolher soltar um preso na Páscoa, e escolheram soltar o assassino. Porque os religiosos conseguem ser mais violentos do que os mais violentos.


As Bem-Aventuranças e os Pacificadores: Promotores do Shalom

Jesus disse aos discípulos: "Vocês serão conhecidos pelo amor que tiverem uns pelos outros, e eu deixo para vocês a minha paz." Quando ele diz "não a paz desta ordem caótica", eles sabiam muito bem do que Jesus estava falando. Ele estava dizendo: "Não é a Pax Romana, não é isso que vocês vivem dia após dia, manhã, tarde e noite — é um outro tipo de paz que estou deixando para vocês."

Mateus capítulo 5 nos ajuda a entender essa paz. "Bem-aventurados os pobres de espírito, pois deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados." Bem-aventurados significa felizes, sortudos. E repare: não são os ricos, mas os pobres. Não são os que riem, mas os que choram. "Bem-aventurados os mansos" — não são os que têm armas, não é o guerreiro, é o manso. "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça" — não é quem tem a caneta para praticar a justiça, é quem tem falta dela. Que coisa extraordinária: são esses que são felizes, e eles serão saciados por Deus.

"Bem-aventurados os misericordiosos" — os perdoadores; eles alcançarão misericórdia. "Bem-aventurados os limpos de coração" — os que não são controlados por esse caos sem ética, sem valores, sem compaixão e sem misericórdia; os limpos e puros, os inocentes, esses verão a Deus.

"Bem-aventurados os pacificadores." A minha paz vos dou. O termo grego usado aqui é eirenopoioi — os fazedores de paz, os pacificadores. É o termo que traduz o shalom do hebraico. Shalom não é apenas paz no sentido de ausência de guerra; é todo o bem-estar da vida humana. Quando alguém dizia ao seu irmão "shalom", estava dizendo: "Eu desejo tudo o que é harmonioso e bom para você, para o seu lar." Shalom é essa presença de toda a harmonia e graça de Deus para o ser humano.

Bem-aventurados, então, os promotores do shalom — as pessoas que promovem a paz no meio desta loucura. Bem-aventurados os pacificadores: eles serão chamados filhos de Deus. "Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus." E o versículo 11 é a cereja do bolo:

"Bem-aventurados são vocês quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vocês. Alegrem-se e exultem, porque é grande a sua recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vocês."

A nossa alegria brota neste mundo controverso e caótico, que nos espreme e onde reina tudo aquilo em que não acreditamos.


A Paz que Nasce no Paradoxo da Perseguição

Jesus nos oferece esta paz, e disse aos discípulos: "Eu digo essas coisas que lemos para que, quando elas acontecerem, vocês creiam que eu estou dando a minha paz para vocês." Veja a loucura disso: "Estou dizendo essas coisas para vocês antes que aconteçam." Acontece o quê? A crucificação. Porque, quando ela acontecer, ao invés de vocês dizerem "o mal venceu, o caos venceu, Roma venceu", vocês creiam e sejam cheios da minha paz — porque eu não estou dando uma paz que o mundo dá. Estou dando a vocês algo que o mundo não conhece. No ápice da imposição do sistema, que é a crucificação, vocês terão paz.

É interessante que, naquela época, as pessoas abraçavam o modelo romano de dominação para poderem desfrutar da Pax Romana. Elas abraçavam o sistema, mesmo que isso as separasse dos seus próprios irmãos judeus. "Mesmo que eu veja irmãos judeus sofrendo, eu digo sim a Roma, porque escolhi o sistema, não as pessoas." E escolher o sistema era criar uma casca sobre o próprio sentimento de amor e misericórdia. Porque, para que a Pax Romana fosse estabelecida, Roma passava por cima como um trator: desterrava, matava no exército, vendia crianças como escravas e violava mulheres. Há quem abrace sistemas romanos dando de ombros. Mas se um sistema passa por cima de seres humanos, de onde vem a sua paz? Vem da paz que o mundo dá.

O que estamos lendo aqui é muito profundo, porque isso permanece até os dias de hoje. Esse modo de operação humana caótico da realidade continua atual. No meio da religião, ainda hoje encontramos herodianos e saduceus. Você sabe que não se podia sacrificar a outro deus, porque o imperador era o deus. A maneira como os judeus mantinham o seu sacrifício era através de um pseudocompromisso: sacrificavam ao seu Deus, mas em favor do imperador. Tudo tinha um acordo, um jeito de se fazer.

A verdade é que evangelho é uma coisa, religião é outra. Vida no evangelho é uma coisa, religião é outra coisa. A religião daqueles dias se acomodou a César, a Pilatos, ao sistema — mesmo que isso passasse por cima de pessoas como o próprio Jesus, o Filho de Deus. E, na escolha dela, a religião gritou: "Solta Barrabás" — porque somos nós que escolhemos quem é o bem e quem é o mal. Desde o Éden e a queda, o homem ainda acha que pode decidir o que é o bem e o que é o mal.

Mas isso não é o pior. O pior é quando o próprio sacerdote quer convencer o povo de que César é mesmo o enviado dos deuses. O pior é quando os herodianos querem te dizer que Roma é legal, que ela é enviada dos céus — que é melhor do que a nova Jerusalém a antiga Roma. Esse é o pior.

Jesus fez a paz pelo seu sangue. Está escrito em Colossenses 1:20: pelo seu sangue, ele desfez a inimizade entre Deus e o homem. Porque a paz de Cristo está no sacrifício da cruz. A nossa paz reside no fato de termos sido reconciliados com Deus e sermos dele de novo. Mesmo em meio ao caos, a ordem divina precisa governar a minha mente, o meu coração e a minha alma, tendo dentro de mim o altar, e habitando em mim o seu Espírito. Daí vem a minha paz.

Isaías 9 diz que ele é Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz. Temos paz porque quem nos governa não é o imperador de Roma — apesar de Roma existir, de nós estarmos nela e de existir um imperador. A nossa paz vem porque o regente é um Príncipe que nos governa em meio ao caos, andando na contramão da lógica caótica da dominação da terra: repartindo quando nada temos, abraçando quando ainda choramos, andando mais uma milha com os nossos pés cansados, abrindo nossas portas quando nem certeza temos, dando o nosso pão a nossos perseguidores, nem sabendo se teremos amanhã — mas na confiança de que o Deus provedor está conosco. Essa é a regência do Príncipe da Paz.

Os que são regenerados pelo Príncipe da Paz são os promotores do shalom, são os pacificadores, são aqueles que oferecem uma outra lógica. E, como sempre digo, no metro quadrado que ele pisa, reina o Reino — mesmo que isso lhe custe a vida. No paradoxo da perseguição, ele encontra a verdadeira paz. Em Filipenses 4:7, Paulo diz aos filipenses que a paz de Deus, que excede todo entendimento humano, guardará os seus corações. Tudo isso que estou dizendo está fora da lógica deste mundo. Qualquer pessoa que vive na sua "Roma particular" vai te dizer que não é assim, vai te trazer um imperador vindo dos céus, vai te dizer que você só terá paz se entender o que precisa fazer ali dentro do sistema.


Vivendo em Roma, Mas Pertencendo a Outro Reino

Sabe que havia disputa entre Herodes e Pilatos? Eles estavam brigados, e fizeram as pazes justamente no dia em que Jesus foi crucificado. Na Roma de hoje, uns vão te puxar para apoiar "Herodes", outros vão te puxar para apoiar "Pilatos" — mas é tudo Roma. E você vai passar por cima de gente para apoiar o sistema. Vai abraçar o império, vai mandar o seu irmão para a cruz, e vai se sentir em paz porque a Pax Romana te satisfaz. É a difícil oração de dizer: "Leva-me, Senhor, mas eu não vou me curvar a outro. Eu já tenho um Rei; não preciso de um imperador." Bem-aventurados os promotores do shalom, que promovem a paz em meio à perseguição.

Você está inquieto e ansioso porque passa o dia inteiro dentro disso: ouvindo guerra, guerra, guerra, e rumores de guerra — de Pilatos contra Herodes, e de Herodes contra Pilatos. Porque Herodes mandou seu irmão Filipe para Roma, ficou com a mulher dele, Herodias, e depois matou João Batista. "Esse cara não presta." "Melhor é Pilatos, coitado do Herodes." A gente nem fala do Lisânias, porque ele está em outra região — eram quatro tetrarcas. Você passa o dia inteiro vendo mensagens de que o mundo vai acabar nas mãos de Pilatos, ou nas mãos de Herodes. E há pessoas da sua própria comunidade de fé dizendo que, se você está com Pilatos, vai para o inferno, e outros dizendo que quem é de Deus é Herodes. É tudo César. E é por isso que não temos paz: porque continuamos procurando a Pax Romana. Continuamos tentando encontrar, na lógica deste mundo e desta terra, uma paz que só Jesus pode dar.

E vou dizer a você: nós vamos continuar morando em Roma. Vamos ter que "sambar miudinho", porque é flecha para cá e paulada para lá — geralmente vindas dos domésticos da fé, porque a maior guerra costuma vir da própria religião, que é quem manda nos prender e soltar Barrabás.

Aonde está a nossa paz, então? Jesus disse de novo: "Não se turbe o vosso coração. Eu deixo para vocês a minha paz." Não é a Pax Romana à qual vocês estão acostumados. Eu sou um outro tipo de Rei, um outro tipo de Reino. É uma outra mente, um outro coração. É uma outra origem de paz, um outro lugar onde ela brota e nasce dentro de vocês.

Que Deus nos abençoe a levantar a nossa cabeça e olhar para o alto. Vivemos aqui, e vamos ter que cumprimentar — tem dia que vamos ter que cumprimentar Herodes, tem dia que vamos ter que cumprimentar Pilatos. Mas o que esperamos não vem daqui. Façamos o que pudermos para ajudar quem está aqui, para levar o Reino para quem está aqui. Contribuamos com tudo o que pudermos, para tentar dar um pouco da paz que temos — que não é deste mundo — para as pessoas que estão neste mundo e querem outro tipo de paz. Essa é a nossa missão: tentar trazer luz e sal para este mundo. Não temos garantias; somos apenas semeadores. Mas se, um dia, Roma nos engolir com a sua lógica, perderemos completamente a nossa salvação.

A nossa paz, no fim das contas, não vem de nenhum sistema, de nenhum império, de nenhuma acomodação. Ela vem do Príncipe da Paz, que nos governa em meio ao caos e que, mesmo quando tudo ao redor parece ruir, nos garante que a sua paz — diferente de toda paz que este mundo pode oferecer — permanecerá guardando o nosso coração.


Fonte: A Casa da Rocha. 05 - A pregação de Pedro - Zé Bruno - Meu Caro Amigo 2. https://youtu.be/fti4I6J4bZM

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