1. Introdução: O Novo Sinai e a Profecia Cumprida
O Sermão da Montanha, registrado nos capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de Mateus, representa um dos discursos mais fundamentais e transformadores da fé cristã. Longe de ser apenas um compêndio de ensinamentos morais, este momento estabelece um marco teológico que ecoa séculos de profecias e redefine a relação da humanidade com a lei divina. Para compreender sua magnitude, é essencial olhar para as Escrituras do Antigo Testamento, onde a semente deste evento foi plantada.
Os profetas Isaías e Miqueias, em passagens notavelmente paralelas, registraram uma esperança futura, na qual povos de todas as nações se voltariam para Deus em busca de Sua instrução. Eles descreveram uma peregrinação espiritual a um "monte sagrado" para aprender os caminhos do Senhor.
Isaías 2:3 "Muitos povos virão, dizendo: 'Venham, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que ele nos ensine os seus caminhos, e andemos nas suas veredas'. Pois de Sião sairá a lei, e de Jerusalém, a palavra do Senhor."
Miqueias 4:2 "E muitas nações virão, dizendo: 'Venham, subamos ao monte do Senhor e à casa do Deus de Jacó, para que ele nos ensine os seus caminhos, e para que andemos nas suas veredas'. Porque de Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor, de Jerusalém."
Este anseio profético encontra um cumprimento vívido na cena que abre Mateus 5. Ao ver as multidões, Jesus sobe a um monte, e o povo o segue. Este ato não é meramente geográfico; é um gesto carregado de simbolismo. A imagem de Jesus ensinando no monte evoca diretamente a entrega da Lei a Moisés no Monte Sinai.
Assim, estabelece-se um poderoso paralelo: se no Sinai a Lei foi entregue a Israel em tábuas de pedra, no Monte das Bem-Aventuranças, essa mesma Lei é reinterpretada e aprofundada por Jesus. Não se trata de uma anulação, mas de uma elevação. O foco se desloca da obediência externa para a transformação interna, do ato para a intenção do coração. O Sermão da Montanha se apresenta, portanto, como o "Novo Sinai", onde a vontade de Deus é revelada de forma plena e definitiva, não apenas para uma nação, mas para todos que desejam ouvir. É a partir desse cenário grandioso que se desdobra uma nova compreensão sobre a justiça, a felicidade e a verdadeira natureza dos filhos do Reino de Deus.
2. As Bem-Aventuranças: A Lógica Invertida do Reino de Deus
O Sermão da Montanha inicia-se com uma série de declarações que subvertem radicalmente os valores convencionais do mundo: as Bem-Aventuranças. A palavra grega utilizada é makarios, um termo que transcende a simples noção de "felicidade" que conhecemos. Makarios significa "bem-aventurado", "bendito", "feliz" em um sentido profundo, descrevendo um estado de graça e contentamento que emana diretamente de Deus. É a mesma essência da bênção que o anjo anuncia a Maria, indicando um favor divino que não depende de circunstâncias externas.
Jesus utiliza este conceito para apresentar uma série de paradoxos que formam a constituição do Seu Reino. Ele redefine quem são os verdadeiramente abençoados, chocando as expectativas de seus ouvintes e das nossas até hoje.
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Os pobres de espírito: A primeira bem-aventurança estabelece o tom. Em uma sociedade que valoriza a autossuficiência, Jesus declara: "Bem-aventurados os pobres de espírito, pois deles é o Reino dos céus." A bênção não está na arrogância ou na riqueza espiritual, mas no reconhecimento da própria carência e dependência de Deus. Aquele que se esvazia de si mesmo, contrito e buscador, é quem encontra o tesouro do Reino.
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Os que choram: A lógica mundana associa o choro à desgraça, mas Jesus o associa a uma bênção iminente: "Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados." O choro aqui representa a dor genuína diante das injustiças, do pecado e do sofrimento do mundo. A promessa não é a ausência de dor, mas a certeza do consolo que vem do Altíssimo, uma esperança que transforma o lamento em bem-aventurança.
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Os mansos: Em contraste com a exaltação da força e da agressividade para conquistar espaço, Jesus afirma: "Bem-aventurados os mansos, pois herdarão a terra." A mansidão aqui não é fraqueza, mas um poder controlado, uma humildade que reflete o caráter do próprio Cristo. A herança da terra é prometida não aos beligerantes, mas àqueles cuja força reside na gentileza e na submissão a Deus.
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Os que têm fome e sede de justiça: Quem anseia por justiça geralmente o faz por estar sofrendo com a falta dela. Contudo, Jesus declara que essa fome é um sinal de bênção, pois "serão fartos". A promessa é de saciedade divina para aqueles que, em meio à opressão, não desistem de desejar a retidão de Deus. Era uma mensagem de esperança direta para as pessoas simples e oprimidas que compunham a multidão ao seu redor.
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Os misericordiosos: Em uma cultura onde a esperteza muitas vezes se sobrepõe à bondade, ser misericordioso pode ser visto como ingenuidade. Jesus, no entanto, estabelece uma lei espiritual recíproca: "Bem-aventurados os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia." A felicidade verdadeira está em estender a graça, pois é nesse ato que o indivíduo se abre para receber a própria misericórdia de Deus.
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Os limpos de coração: Ecoando os Salmos, que questionam quem pode subir ao monte do Senhor, Jesus aponta para a pureza interior: "Bem-aventurados os limpos de coração, pois verão a Deus." A conexão com o divino não é garantida por rituais externos, mas por uma sinceridade interna. Assim como o profeta Samuel foi instruído a olhar para o coração de Davi, Deus valoriza a pureza de intenção acima de qualquer aparência.
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Os pacificadores: Em um mundo marcado por divisões, polarização e a busca por impor a própria voz, a bênção é destinada aos que constroem pontes: "Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus." A identidade de um filho de Deus se revela não na capacidade de vencer discussões, mas na habilidade de promover a paz e a reconciliação, trazendo brandura onde há conflito.
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Os perseguidos: Talvez o maior paradoxo de todos seja encontrar felicidade na perseguição. Jesus conclui a lista inicial afirmando: "Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus." Ele expande essa ideia, conectando diretamente o sofrimento de seus seguidores à linhagem dos profetas do Antigo Testamento:
Mateus 5:11-12 "Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a sua recompensa nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês."
Ser participante do Reino, portanto, implica em uma inevitável colisão com os sistemas deste mundo. A perseguição não é um sinal de fracasso, mas uma marca de autenticidade, uma evidência de que a vida do discípulo, assim como a dos profetas, desafia as estruturas de injustiça e aponta para uma realidade superior.
3. Sal da Terra e Luz do Mundo: A Essência da Fé em Ação
Após estabelecer a constituição do seu Reino através das Bem-Aventuranças, Jesus se volta para a aplicação prática dessa nova realidade na vida de seus seguidores. Ele utiliza duas metáforas poderosas — sal e luz — para ilustrar que o cristianismo não é uma filosofia a ser meramente adotada, nem um conjunto de rituais a serem seguidos. É, em sua essência, uma natureza transformada, uma metanoia (mudança de mente e coração) que se manifesta em uma vida prática e influente.
Primeiramente, Jesus declara de forma inequívoca:
Mateus 5:13 "Vocês são o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens."
Na sociedade do primeiro século, o sal possuía um valor imenso, indo muito além do uso culinário. Sua principal função era a de conservante, impedindo a decomposição de alimentos em uma era sem refrigeração. Ao chamar seus discípulos de "sal da terra", Jesus lhes atribui a função de agentes de preservação, que atuam contra a decadência moral e espiritual do mundo. Para que o sal cumpra seu propósito, ele precisa estar em contato, misturado ao alimento. Da mesma forma, a vida cristã não pode ser vivida em reclusão. A espiritualidade autêntica, contrariando a ideia de isolamento monástico que se popularizou séculos depois, se manifesta no meio do mundo, "salgando" a cultura e a sociedade com os valores do Reino. O aviso é severo: um sal que perde sua essência — sua capacidade de salgar — torna-se inútil. A fé que não transforma e não influencia perde seu propósito fundamental.
Em seguida, Jesus apresenta a segunda metáfora:
Mateus 5:14-16 "Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E também ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Pelo contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus."
A luz, por sua natureza, existe para ser vista e para revelar o que está ao redor. A vida de um discípulo deve ser igualmente visível. No entanto, o propósito dessa exposição não é a autoglorificação. A passagem contém uma nuance crucial: quando se acende uma lâmpada em um ambiente escuro, o objetivo não é olhar para a lâmpada, mas para as coisas que ela ilumina. A luz que os cristãos devem resplandecer não serve para atrair os holofotes para si, mas para revelar "boas obras" — atos de justiça, misericórdia e amor. O resultado final dessa iluminação é que as pessoas, ao verem essas obras, "glorifiquem ao Pai". Quando a prática de vida de um indivíduo leva outros a darem "graças a Deus", a missão da luz se cumpre.
Este chamado para ser uma influência visível e positiva para o mundo ecoa a própria vocação de Israel no Antigo Testamento. Deus não entregou a Lei a Israel apenas para benefício próprio, mas para que a nação se tornasse um farol para os outros povos.
Deuteronômio 4:5-6 "Eis que vos tenho ensinado estatutos e juízos, como me mandou o Senhor, meu Deus, para que assim façais no meio da terra que passais a possuir. Guardai-os, pois, e cumpri-os, porque isto será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos que, ouvindo todos estes estatutos, dirão: ‘Certamente, este grande povo é gente sábia e inteligente’."
Assim como Israel foi chamado a resplandecer entre as nações pela fidelidade à Lei, a Igreja é chamada a ser sal e luz, demonstrando a sabedoria e a graça de Deus para que o mundo inteiro seja alcançado pela mensagem transformadora do Evangelho.
4. A Lei Elevada: Do Ato Exterior à Intenção do Coração
Um dos pontos mais revolucionários do Sermão da Montanha é a forma como Jesus aborda a Lei Mosaica. Diante de uma cultura religiosa que, por vezes, reduzia a Lei a um conjunto de regras externas, Jesus revela sua profundidade original, demonstrando que a verdadeira justiça transcende o mero comportamento e mergulha nas intenções mais íntimas do coração. Ele inicia esta seção com uma afirmação fundamental para evitar mal-entendidos:
Mateus 5:17 "Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir."
A palavra "cumprir" aqui significa dar o sentido completo, levar à plenitude. Jesus não veio destruir o alicerce do Antigo Testamento, mas edificar sobre ele, revelando o propósito final para o qual a Lei sempre apontou. Com essa base estabelecida, ele introduz uma fórmula de ensino que se repete ao longo do capítulo, criando um contraste dramático entre a interpretação tradicional e a sua autoridade divina: "Ouvistes o que foi dito aos antigos... Eu, porém, vos digo...". Essa mudança do "ouvistes" para o "eu vos digo" é o que deixou as multidões maravilhadas, pois, enquanto os mestres da Lei citavam autoridades passadas, Jesus falava com autoridade própria e inquestionável.
Ele aplica esse princípio a diversas áreas da vida, elevando o padrão de justiça:
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Do "Não matarás" à condenação da ira e do desprezo: A lei proibia o ato físico do assassinato. Jesus, no entanto, internaliza o mandamento, afirmando que a ira injustificada contra um irmão, o insulto ou o desprezo já constituem uma violação do espírito da lei. O ódio no coração é a semente do homicídio, e, aos olhos de Deus, o pecado já está consumado na intenção. A lei não é apenas sobre o que se faz com as mãos, mas sobre o que se nutre na alma.
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Do "Não adulterarás" à pureza de pensamento e intenção: O mandamento proibia o ato físico do adultério. Jesus expande radicalmente seu alcance:
Mateus 5:28 "Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração."
Aqui, a religião deixa de ser uma lista de ordenanças externas para se tornar uma jornada que sonda o coração. A verdadeira santidade não reside apenas em evitar o ato, mas em cultivar uma pureza de pensamento. O pecado é concebido no desejo, na cobiça, muito antes de se manifestar em ação. Essa perspectiva revela que somente um coração genuinamente transformado pode viver de acordo com a vontade de Deus.
- Da questão do divórcio e dos juramentos à integridade da palavra: Jesus aborda a prática do divórcio, limitando-o à infidelidade conjugal, e critica o uso de juramentos elaborados. Em vez de jurar pelos céus ou pela terra, ele estabelece um novo padrão de comunicação:
Mateus 5:37 "Seja, porém, o seu falar: Sim, sim; não, não; porque o que passa disso é de procedência maligna."
A palavra de um filho do Reino deve ser tão verdadeira e confiável que não necessita de artifícios para ser validada. A integridade deve ser a marca de toda comunicação.
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Da lei de talião ao princípio da generosidade radical: A lei do "olho por olho, dente por dente" (Lex Talionis) foi, em sua origem, um princípio de justiça para limitar a vingança desproporcional. Jesus a substitui por um princípio revolucionário de não resistência ao mal e de generosidade extravagante: oferecer a outra face, entregar a capa além da túnica, andar a segunda milha. Essas ações não são sinais de passividade ou fraqueza, mas de uma força moral superior que quebra o ciclo da retaliação e responde ao mal com o bem.
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Do amor ao próximo ao mandamento de amar os inimigos: Talvez o ápice dessa reinterpretação da Lei esteja na ordem de amar aqueles que nos odeiam. A norma cultural era "ame o seu próximo e odeie o seu inimigo". Jesus destrói essa fronteira:
Mateus 5:44-45 "Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos."
O amor deixa de ser uma emoção seletiva e se torna um ato de vontade que imita o caráter do próprio Deus, que estende sua graça a todos, sem distinção. Amar apenas quem nos ama é um padrão comum, praticado por qualquer pessoa. O diferencial dos filhos de Deus é a capacidade de estender o amor àqueles que não o merecem, que são hostis e que nos perseguem.
Com esses ensinamentos, Jesus não apenas explica a Lei, mas a revive, tirando-a das tábuas de pedra e inscrevendo-a no coração humano, tornando-a um caminho para uma transformação profunda e integral.
5. Conclusão: Um Chamado à Perfeição e ao Evangelho Integral
O capítulo 5 de Mateus se encerra com uma das exortações mais desafiadoras de todas as Escrituras, um comando que resume a essência de todo o Sermão da Montanha:
Mateus 5:48 "Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês."
Este chamado à perfeição não deve ser interpretado como uma exigência de impecabilidade humana, o que seria inatingível. Antes, é um convite a uma maturidade e integridade que espelham o caráter de Deus, especialmente Seu amor imparcial que se estende a bons e maus, justos e injustos. Ser "perfeito", nesse contexto, é alinhar o coração, os pensamentos e as ações com a vontade divina revelada por Jesus.
Ao longo de todo o discurso, fica evidente uma profunda inversão de valores. Jesus desloca o foco da busca humana do "ter" para a importância do "ser". A sociedade, tanto na antiguidade quanto hoje, frequentemente mede a felicidade e o sucesso em termos de posses, status e poder. A casa, o carro, a carreira e o reconhecimento são vistos como os marcadores de uma vida abençoada. Jesus, contudo, afirma que a verdadeira bem-aventurança não reside no que possuímos, mas em quem nos tornamos. A felicidade duradoura não está em ter, mas em ser: ser pobre de espírito, ser manso, ser misericordioso, ser um pacificador.
Essa transformação de caráter é o que fundamenta o conceito de um evangelho integral. A mensagem do Reino de Deus não é apenas um discurso a ser proclamado, mas uma vida a ser vivida. Se as palavras que falamos não são confirmadas e validadas pelas nossas ações, elas se tornam vazias. A vida de um discípulo deve ser a prova visível da transformação que o evangelho opera. É a coerência entre o que se prega e o que se pratica que torna a fé crível e impactante.
O Sermão da Montanha, portanto, nos confronta com perguntas diretas e incômodas: Somos capazes de amar aqueles que nos odeiam ou que pensam diferente de nós? Conseguimos responder a uma ofensa com graça em vez de retaliação, seja no trânsito ou em discussões acaloradas? Estamos dispostos a buscar uma pureza de coração que vai além da aparência religiosa? Assumimos nosso papel de preservar a vida e a justiça, como o sal que impede a corrupção?
No fim, os ensinamentos de Mateus 5 não são um mero código moral, mas o manifesto de uma revolução que começa no coração. É um chamado para que cada indivíduo se torne sal e luz, não por esforço próprio, mas como resultado de uma natureza transformada, para que, ao verem nossas boas obras, as pessoas não nos glorifiquem, mas glorifiquem ao Pai que está nos céus.
Resumo de Fixação – Mateus 5
Tópico Principal | Conceito Chave | Citação/Referência Principal | Implicação Prática |
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O Novo Sinai | Jesus no Monte das Bem-Aventuranças cumpre as profecias (Isaías 2, Miqueias 4) e estabelece um novo paradigma para a Lei, similar a Moisés no Sinai. | Mateus 5:1-2 | A Lei de Deus é revelada de forma plena e definitiva, focando na transformação interior, não apenas em rituais externos. |
As Bem-Aventuranças | A "felicidade" (makarios) do Reino de Deus inverte os valores do mundo: a bênção está na humildade, no choro, na mansidão, na busca por justiça e na perseguição. | Mateus 5:3-12 | A verdadeira alegria não depende de circunstâncias materiais ou de poder, mas de um caráter alinhado com Deus. |
Sal da Terra e Luz do Mundo | A fé cristã não é passiva ou isolada, mas uma força ativa que preserva (sal) e ilumina (luz) o mundo através de uma vida prática e visível. | Mateus 5:13-16 | A vida do crente deve influenciar positivamente a sociedade, e suas boas obras devem levar outros a glorificar a Deus. |
A Lei Elevada (Cumprimento) | Jesus não anula a Lei, mas a aprofunda, deslocando o foco do ato externo (não matar, não adulterar) para a intenção do coração (não odiar, não cobiçar). | Mateus 5:17, 21-22, 27-28 | A verdadeira obediência a Deus envolve pensamentos, desejos e motivações internas, não apenas o comportamento visível. |
Amor Revolucionário | O padrão da Lei é elevado ao máximo, substituindo a retaliação ("olho por olho") pela generosidade e o ódio ao inimigo pelo mandamento de amá-lo. | Mateus 5:38-39, 43-45 | O amor cristão deve ser incondicional, imitando o caráter de Deus, que oferece Sua graça a justos e injustos. |
Evangelho Integral | A conclusão do capítulo chama a uma "perfeição" que reflete o caráter de Deus. A fé proclamada deve ser confirmada pela vida vivida. | Mateus 5:48 | A credibilidade da mensagem cristã depende da integridade e coerência entre as palavras e as ações do crente. |
Último Passo: Resumo em Questões de Verdadeiro ou Falso
Avalie as afirmações abaixo como Verdadeiras (V) ou Falsas (F) com base no conteúdo apresentado sobre Mateus 5.
1. ( ) Jesus afirmou no Sermão da Montanha que veio para abolir a Lei e os Profetas, substituindo-os completamente por novos ensinamentos.
2. ( ) As Bem-Aventuranças definem a felicidade (makarios) como um estado de bênção divina que se alinha com os valores do mundo, como riqueza material e autossuficiência.
3. ( ) A metáfora da "luz do mundo" ensina que os cristãos devem brilhar para que suas qualidades pessoais sejam admiradas, atraindo a atenção para si mesmos.
4. ( ) De acordo com os ensinamentos de Jesus, evitar o ato físico de matar é suficiente para cumprir o mandamento "Não matarás", independentemente de sentimentos de ira ou ódio no coração.
5. ( ) O mandamento de amar os inimigos e orar pelos perseguidores é apresentado como uma forma de imitar o caráter de Deus, que concede sua graça (sol e chuva) tanto a justos quanto a injustos.
6. ( ) O conceito de "sal da terra" sugere que a forma mais eficaz de viver a fé cristã é através do isolamento e da reclusão, para não se contaminar com o mundo.
7. ( ) Jesus ensina que o pecado de adultério se consuma apenas na relação física, e não nos pensamentos ou intenções do coração.
8. ( ) Ao abordar a lei de "olho por olho", Jesus a reforça como o padrão ideal de justiça para seus seguidores, incentivando a retaliação proporcional.
9. ( ) O evangelho integral, conforme sugerido no final do capítulo, é a ideia de que a fé é principalmente uma declaração verbal, e que as ações práticas são secundárias.
10. ( ) O chamado final para "ser perfeito como o Pai celestial" é uma exigência de que os seres humanos atinjam a impecabilidade absoluta por conta própria.
Gabarito Comentado
1. Falsa. Comentário: A afirmação é falsa. Em Mateus 5:17, Jesus diz explicitamente: "Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir". Ele não veio destruir a Lei, mas dar a ela seu sentido completo e pleno, aprofundando seus princípios.
2. Falsa. Comentário: A afirmação é falsa. As Bem-Aventuranças apresentam uma lógica "invertida" em relação aos valores do mundo. A felicidade divina (makarios) é atribuída aos "pobres de espírito", aos "que choram" e aos "mansos", exatamente o oposto da autossuficiência, do poder e da agressividade valorizados pela sociedade.
3. Falsa. Comentário: A afirmação é falsa. O texto de Mateus 5:16 esclarece que a luz deve brilhar "para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês que está nos céus". O propósito não é a autoglorificação, mas direcionar a glória a Deus através de uma vida prática e transformada.
4. Falsa. Comentário: A afirmação é falsa. Jesus eleva o padrão da Lei, ensinando que a ira injustificada, o insulto ou o desprezo contra um irmão já são violações do espírito do mandamento "Não matarás". Ele internaliza a lei, condenando a raiz do pecado no coração.
5. Verdadeira. Comentário: A afirmação é verdadeira. Jesus justifica o mandamento de amar os inimigos justamente com o exemplo de Deus, que "faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos" (Mateus 5:45). O amor incondicional é um reflexo do caráter divino.
6. Falsa. Comentário: A afirmação é falsa. O sal, para cumprir sua função de preservar, precisa estar em contato com o alimento. A metáfora sugere, portanto, o engajamento e a influência no mundo, e não o isolamento. Um cristão recluso seria como o "sal que perdeu o sabor".
7. Falsa. Comentário: A afirmação é falsa. Em Mateus 5:28, Jesus deixa claro que "qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração". O pecado é concebido na intenção e no desejo, não apenas no ato físico.
8. Falsa. Comentário: A afirmação é falsa. Jesus substitui explicitamente a lei de talião ("olho por olho") por um princípio de não resistência ao mal e de generosidade radical, como "oferecer a outra face" e "andar a segunda milha". Ele quebra o ciclo de vingança.
9. Falsa. Comentário: A afirmação é falsa. O conceito de evangelho integral defende o oposto: a fé autêntica é aquela onde a vida vivida (ações, caráter, ética) confirma e dá credibilidade à palavra pregada. Há uma união inseparável entre crença e prática.
10. Falsa. Comentário: A afirmação é falsa. O chamado à "perfeição" (em grego, teleios) refere-se à maturidade, completude e integridade, especialmente em imitar o amor abrangente de Deus. Não é uma exigência de ausência de falhas, mas um convite a um caráter maduro e alinhado com o Pai.
"No Sermão da Montanha, Jesus não nos oferece um novo conjunto de regras, mas um espelho para a alma, revelando que a verdadeira santidade não se encontra naquilo que evitamos fazer, mas naquilo que nos tornamos por dentro."