1. Um Encontro Improvável: O Diálogo que Quebrou Protocolos
Em qualquer sociedade, existem barreiras, algumas visíveis, outras profundamente enraizadas na cultura e na religião, que ditam as interações humanas. No contexto do primeiro século na Judeia, essas linhas eram nítidas e intransponíveis. É nesse cenário de rígidas divisões que se desenrola um dos diálogos mais emblemáticos e transformadores dos Evangelhos: o encontro de Jesus com uma mulher samaritana. A cena, aparentemente simples, representa uma deliberada quebra de protocolos sociais, étnicos e de gênero, iniciada por um pedido singelo, mas carregado de significado: "dá-me de beber".
A narrativa, conforme registrada no Evangelho de João, estabelece um momento de vulnerabilidade e necessidade. Jesus, cansado da viagem, senta-se junto ao histórico poço de Jacó, enquanto uma mulher de Samaria se aproxima para buscar água. O que se segue desafia todas as convenções da época. Um homem judeu não apenas dirige a palavra a uma mulher desconhecida em público, mas a uma samaritana — representante de um povo visto com desprezo e considerado impuro pelos judeus. A resposta imediata da mulher evidencia o quão chocante era essa interação, pois ela mesma questiona a legitimidade daquele pedido.
O diálogo que se inicia transcende a sede física e mergulha em questões existenciais, revelando a missão de Cristo de derrubar os muros que separam a humanidade de Deus e uns dos outros. O texto bíblico descreve o clímax dessa revelação inicial:
João 4:24-29 "Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade. A mulher disse-lhe: Eu sei que o Messias (que se chama o Cristo) vem; quando ele vier, nos anunciará tudo. Jesus disse-lhe: Eu o sou, eu que falo contigo. E nisto vieram os seus discípulos, и maravilharam-se de que estivesse falando com uma mulher; todavia nenhum lhe disse: Que perguntas? ou: Por que falas com ela? Deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles homens: Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura tu é este o Cristo?"
A chegada dos discípulos e sua admiração silenciosa servem como um testemunho poderoso da transgressão que presenciaram. Eles, imersos na mesma cultura, compreenderam imediatamente que seu Mestre estava operando sob uma lógica diferente, uma que não se curvava a preconceitos. Este primeiro contato não foi um acidente, mas um ato intencional que preparou o terreno para uma das mais profundas lições sobre adoração, salvação e a natureza universal do Evangelho. Antes de entender o que é a "água viva", é crucial compreender por que Jesus escolheu aquele lugar e aquela pessoa, desvendando a razão pela qual sua presença ali não era opcional, mas uma necessidade divina.
2. A Necessidade Divina: "Era-lhe Necessário Passar por Samaria"
A rota de um viajante no mundo antigo era frequentemente ditada pela geografia, segurança e conveniência. No entanto, a declaração em João 4:4, "E era-lhe necessário passar por Samaria", transcende a lógica de um mero itinerário. Para qualquer judeu da época que desejasse ir da Judeia para a Galileia, o caminho mais curto de fato cruzava o território samaritano. Contudo, devido à profunda hostilidade histórica e religiosa, muitos optavam por uma rota mais longa e árdua, contornando a região para não se "contaminarem". A afirmação de que para Jesus era "necessário" passar por ali aponta, portanto, não para uma obrigação geográfica, mas para um imperativo divino.
Essa "necessidade" não era um acaso, mas uma decisão consciente e intencional, enraizada no propósito de sua missão. Curiosamente, essa não é a primeira vez que o conceito de uma necessidade inegociável aparece no Evangelho de João. Um capítulo antes, em seu diálogo noturno com Nicodemos, um mestre da lei judaica, Jesus declara com a mesma ênfase:
João 3:7 "Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo."
Ao conectar esses dois momentos, percebe-se um padrão fundamental. Para Nicodemos, o representante da elite religiosa, a necessidade era a transformação interior — o novo nascimento. Para a mulher samaritana, a representante dos marginalizados e excluídos, a necessidade era o encontro com o Redentor que deliberadamente cruza fronteiras para alcançá-la. Em ambos os casos, o encontro com Cristo é apresentado como uma condição indispensável.
Jesus entende que sua missão não é opcional nem seletiva. Há uma urgência divina que o impulsiona a ir onde a necessidade humana é mais profunda, mesmo que isso signifique adentrar um território considerado hostil e impuro. O grande perigo na jornada espiritual surge quando aquilo que é divinamente necessário se torna secundário em nossas prioridades. A decisão de Jesus de ir a Samaria foi uma declaração de que a salvação não se conforma com as barreiras humanas. Para entender a magnitude dessa decisão, é preciso mergulhar nas raízes históricas que tornaram Samaria um lugar tão evitado e desprezado.
3. Raízes de um Conflito: Entendendo a Divisão Histórica entre Judeus e Samaritanos
Para compreender a tensão palpável no diálogo junto ao poço, é fundamental retroceder séculos na história de Israel. A animosidade entre judeus e samaritanos não era um mero desentendimento cultural, mas uma fratura profunda, com raízes históricas, políticas e, sobretudo, religiosas. A origem desse cisma remonta à morte do Rei Salomão, quando o Reino Unificado de Israel — que floresceu por 120 anos sob os reinados de Saul, Davi e Salomão — se partiu em dois.
Após a divisão, formaram-se o Reino do Sul, reinada por Jeroboão,(composto pelas tribos de Judá e Benjamim, com capital em Jerusalém) e o Reino do Norte, reinada por Roboão, (formado pelas outras dez tribos, com capital em Samaria). Embora ambos os reinos adorassem ao mesmo Deus, a separação política rapidamente evoluiu para uma divergência religiosa. O Reino do Norte, para se firmar, estabeleceu seus próprios locais de adoração, distanciando-se do Templo em Jerusalém.
O ponto de inflexão que selou o destino de Samaria ocorreu com a invasão do Império Assírio, por volta de 722 a.C. A estratégia assíria de conquista diferia drasticamente daquela que seria empregada posteriormente pelos babilônios em Jerusalém. Enquanto o exílio babilônico levou a elite de Judá cativa para a Babilônia, preservando, de certa forma, sua identidade étnica e religiosa (como visto nas histórias de Daniel e Ezequiel), os assírios aplicaram uma política de "inculturação" em Samaria.
Essa estratégia consistia em deportar a população local e, ao mesmo tempo, trazer povos de diversas outras nações conquistadas para habitarem a terra. O registro bíblico descreve esse processo com clareza:
2 Reis 17:24 "E o rei da Assíria trouxe gente de Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e de Sefarvaim, e a fez habitar nas cidades de Samaria, em lugar dos filhos de Israel; e tomaram a Samaria em herança, e habitaram nas suas cidades."
Essa miscigenação forçada teve um impacto devastador na identidade samaritana. Os novos habitantes trouxeram consigo seus próprios deuses e costumes, que se mesclaram com as tradições israelitas remanescentes. O resultado foi um sincretismo religioso profundo: de manhã, podiam adorar a Deus; à noite, sacrificavam a Baal. O sociólogo francês Pierre Bourdieu afirmava que "toda cultura é a base da sociedade". Ao corromper a cultura com influências pagãs, os assírios enfraqueceram a base da nação samaritana, tornando-a irremediavelmente "misturada" aos olhos dos judeus do sul.
Essa mistura era vista como uma violação direta das leis divinas que proibiam o casamento com povos estrangeiros para evitar a idolatria. Para os judeus que retornaram do exílio babilônico e se orgulhavam de ter mantido sua linhagem "pura", os samaritanos eram vistos como um povo de "sangue impuro" e fé corrompida. O termo "samaritano" tornou-se, assim, um dos piores xingamentos da época, sinônimo de heresia, perturbação e até possessão demoníaca. A gravidade dessa ofensa é evidenciada quando os próprios líderes religiosos, em um ato de extremo desprezo, acusam Jesus:
João 8:48 "Responderam, pois, os judeus, e disseram-lhe: Não dizemos nós bem que és samaritano, e que tens demônio?"
Nesse contexto, a decisão de Jesus de não apenas passar, mas de parar, descansar e dialogar em Samaria, era um ato revolucionário. Ele estava adentrando um território não apenas geográfico, mas um campo minado de preconceitos históricos e religiosos, para mostrar que a sua missão era, precisamente, curar essas antigas feridas.
4. Uma Missão Exclusiva: Por que Apenas Jesus Poderia Entrar em Samaria Naquele Momento?
A jornada de Jesus para Samaria não foi apenas um ato de quebra de barreiras, mas também uma missão cuidadosamente cronometrada e pessoal. Uma análise atenta dos Evangelhos revela que a entrada no território samaritano foi, em momentos anteriores, evitada ou adiada, sugerindo que havia um tempo e um modo divinamente designados para que essa reconciliação começasse. A tarefa de inaugurar o Evangelho em um solo tão hostil e espiritualmente complexo parecia reservada unicamente ao próprio Messias.
Em uma ocasião registrada no Evangelho de Lucas, Jesus e seus discípulos estavam a caminho de Jerusalém e precisavam de um lugar para pernoitar. A rota natural os levou a uma aldeia samaritana. Contudo, a hostilidade era mútua. Os samaritanos, percebendo que o destino final de Jesus era Jerusalém — o centro de adoração que eles rejeitavam —, recusaram-se a hospedá-lo. A reação inflamada de Tiago e João revela o quão arraigado era o preconceito:
Lucas 9:51-56 "E aconteceu que, completando-se os dias para a sua assunção, manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém. E mandou mensageiros adiante de si; e, indo eles, entraram numa aldeia de samaritanos, para lhe prepararem pousada. Mas não o receberam, porque o seu aspecto era como de quem ia a Jerusalém. E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez? Voltando-se, porém, repreendeu-os, e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. E foram para outra aldeia."
Jesus repreende seus discípulos, mostrando que sua missão não era de destruição, mas de salvação. Ele não força a entrada, mas adia o momento. A semente do Evangelho não seria plantada sob a ameaça de "fogo do céu", mas com a oferta de "água viva".
Ainda mais reveladora é a instrução que Jesus dá aos doze apóstolos ao enviá-los em sua primeira missão evangelística. Ele estabelece limites geográficos claros para aquela etapa específica de seu ministério, proibindo-os expressamente de entrar em território samaritano:
Mateus 10:5 "Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou, dizendo: Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos."
Por que essa proibição? A resposta se torna clara no contexto de João 4. A obra a ser realizada em Samaria era delicada demais, a ferida histórica era profunda demais para ser tratada por intermediários. Era uma tarefa que exigia a presença do próprio Cristo. Ele estava comunicando que há missões que apenas Ele pode realizar, encontros que apenas Ele pode orquestrar. Seus discípulos, ainda imaturos e cheios de preconceitos, não estavam prontos. Aquele encontro no poço não era algo que Pedro, Tiago ou João poderiam ter conduzido. Era necessário que Jesus, em pessoa, se sentasse, esperasse e iniciasse o diálogo que mudaria para sempre a história daquela mulher e de sua cidade.
5. O Cenário da Transformação: Simbolismos no Poço de Jacó ao Meio-Dia
Cada detalhe no encontro entre Jesus e a mulher samaritana é carregado de significado. O local, o horário e a aparente solidão não foram coincidências, mas elementos cuidadosamente orquestrados que compõem um cenário de profunda transformação simbólica.
O Local: O Poço de Jacó, Herança de Sonhos
O poço não era um ponto de água qualquer. O texto especifica que ele estava "junto da herdade que Jacó tinha dado a seu filho José" (João 4:5). Esta referência a Gênesis 33:18-19 conecta o local a um passado de promessas e herança. Jacó, o patriarca, abriu aquele poço após seu próprio encontro transformador com Deus no Vau de Jaboque (Gênesis 32:22). Aquele poço, portanto, nasceu de um encontro divino. Além disso, a terra era a herança de José, o filho dos sonhos, cuja história é marcada pela superação de adversidades para cumprir um propósito maior.
Para a mulher samaritana, ir àquele poço era uma rotina diária. Ela caminhava fisicamente para um "ambiente de sonho", um lugar ligado à promessa patriarcal, mas sua vida era um verdadeiro pesadelo. A ironia é poderosa: ela buscava água em um lugar de herança e esperança, enquanto sua alma estava seca, vivendo uma realidade de rejeição e desilusão. Jesus a espera exatamente ali para lhe oferecer um sonho que ela havia perdido: o da restauração e de um futuro com propósito.
O Horário: Meio-Dia, o Exílio Social
O horário do encontro, "por volta do meio-dia" (João 4:6), é crucial. Nos costumes da época, a busca por água era uma atividade social realizada em horários específicos e mais frescos do dia. As mulheres casadas iam pela manhã, cuidando dos afazeres domésticos, enquanto as jovens donzelas iam à tarde, como um momento de aprendizado e socialização, conforme descrito em Gênesis 24:11.
O meio-dia, sob o sol escaldante, era o horário dos excluídos. A mulher ia buscar água no momento mais inóspito do dia precisamente para evitar os olhares, os cochichos e o julgamento das outras mulheres. Sua reputação a precedia; ela vivia em um exílio social dentro de sua própria comunidade. Era uma mulher que "vinha sozinha para o poço". E é nesse exato momento de solidão e vergonha que Jesus a espera. Ele não a encontra na multidão, mas em seu isolamento, mostrando que seu amor alcança aqueles que a sociedade marginaliza.
A Solidão Estratégica: Um Encontro Particular
Para que esse diálogo íntimo e revelador pudesse ocorrer, a privacidade era essencial. Por isso, Jesus envia deliberadamente seus discípulos à cidade para comprar comida (João 4:8). Ele cria um cenário de exclusividade. Se Pedro, com seu temperamento impetuoso, ou João, que antes queria ver Samaria consumida pelo fogo, estivessem presentes, a mulher jamais teria se aberto. A barreira cultural e o medo do julgamento teriam permanecido.
Jesus sabia que para ela confessar suas feridas mais profundas, para ela expor os "cinco maridos" e a situação irregular em que vivia, era necessário um ambiente de segurança e confiança total. Ele remove todas as distrações e potenciais obstáculos para que o encontro fosse apenas entre ela e Ele. Essa solidão estratégica espelha o momento em que Jacó, antes de ter seu nome mudado para Israel, ficou sozinho para lutar com o anjo. Existem transformações na vida que só acontecem quando estamos a sós com Deus, sem intermediários, sem plateia, apenas com o coração aberto diante daquele que conhece toda a nossa história.
6. Da Sede Física à Água Viva: A Revelação Progressiva de Cristo
O diálogo entre Jesus e a mulher samaritana é uma obra-prima de comunicação divina, onde uma conversa sobre água se aprofunda progressivamente até tocar as questões mais centrais da alma humana. A percepção da mulher sobre quem é Jesus evolui em estágios, refletindo sua jornada da desconfiança à adoração, à medida que Ele se revela a ela.
Inicialmente, ela o vê apenas através das lentes de seu preconceito cultural: ele é simplesmente um judeu (v. 9), alguém de quem ela deveria manter distância. Sua resposta é reativa, marcada pela surpresa e pela desconfiança. Ela não consegue enxergar além da identidade étnica que os separa.
Contudo, quando Jesus transcende a conversa sobre a água do poço e oferece uma "água viva", algo começa a mudar. O ponto de virada ocorre quando Ele demonstra conhecimento sobrenatural sobre sua vida, tocando em sua ferida mais oculta com uma instrução simples: "Vai, chama o teu marido" (v. 16). Ao revelar que sabia de seus "cinco maridos" e do relacionamento atual, Jesus não a expõe para envergonhá-la, mas para mostrar que a conhece profundamente e, ainda assim, a aceita. A reação dela é imediata e de espanto. Sua percepção salta para um novo patamar: "Senhor, vejo que és profeta" (v. 19). Ela reconhece estar diante de alguém com autoridade divina.
Com essa nova compreensão, ela imediatamente levanta a maior questão teológica que dividia judeus e samaritanos: o local correto de adoração. Jesus usa essa pergunta para elevá-la ainda mais, explicando que a verdadeira adoração não está ligada a um lugar, mas a uma postura do coração — "em espírito e em verdade". É então que ela expressa sua esperança messiânica, a vinda daquele que "nos anunciará tudo". Nesse momento, Jesus faz a revelação completa e inequívoca: "Eu o sou, eu que falo contigo" (v. 26). Sua identidade final é revelada: Ele é o Messias. Em uma única conversa, Jesus passou de um judeu anônimo a um profeta perspicaz e, finalmente, ao Cristo esperado.
A forma como Jesus aborda o trauma dela é particularmente instrutiva. Ele não inicia a conversa acusando-a. Em vez disso, ele pacientemente a conduz a um ponto de confiança, e só então toca no "pesadelo" que ela vivia. Em uma analogia com o pensamento de Sigmund Freud, que em sua "Interpretação dos Sonhos" argumentava que pesadelos e traumas são "portas" que tendemos a manter fechadas, Jesus bate suavemente nessa porta trancada. Diferente de qualquer outra pessoa que pudesse tocar no assunto para julgar, Ele o faz porque tem o poder de curar e resolver. Ele não está apenas expondo uma ferida; Ele está se oferecendo como a cura. É essa abordagem, que mescla onisciência divina com compaixão infinita, que desmorona as defesas da mulher e a abre para receber a Água Viva que Ele oferece.
7. O Cântaro Vazio e a Cidade Cheia: A Transformação de uma Excluída em Missionária
A prova mais contundente de um encontro transformador com Cristo não reside apenas na compreensão intelectual, mas na ação que se segue. No caso da mulher samaritana, sua reação imediata e espontânea é um dos testemunhos mais poderosos de todo o Evangelho. O texto nos diz que, após a revelação de Jesus como o Messias, ela "deixou, pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade" (João 4:28).
Este ato aparentemente simples — deixar o cântaro para trás — é carregado de um profundo simbolismo. O cântaro representava sua rotina, sua necessidade física e, em um nível mais profundo, sua sede existencial. Era o motivo pelo qual ela enfrentava o sol do meio-dia e a vergonha social. Era o instrumento de sua busca incessante por algo que nunca a satisfazia plenamente, assim como a água do poço saciava a sede apenas temporariamente. Ao abandonar o cântaro, ela estava declarando simbolicamente que havia encontrado a verdadeira fonte, a "Água Viva". Sua prioridade mudou instantaneamente. A necessidade de carregar água foi suplantada pela urgência de compartilhar a notícia. O objeto que definia sua antiga vida e sua labuta diária tornou-se irrelevante.
O que acontece a seguir é ainda mais extraordinário. A mesma mulher que ia ao poço ao meio-dia para evitar as pessoas, agora corre voluntariamente para o centro da vida social — a cidade — para encontrá-las. A excluída se torna missionária. A que vivia em silêncio para não ser julgada agora ergue a voz para proclamar: "Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo?" (João 4:29).
Seu testemunho era autêntico e vulnerável. Ela não escondeu seu passado; pelo contrário, usou-o como prova da divindade de Jesus. "Ele me disse tudo", ou seja, Ele viu o pior de mim e ainda assim me ofereceu a salvação. O mesmo ambiente que antes lhe negava crédito e a estigmatizava, agora para e ouve sua mensagem. A mulher que antes não tinha companhia para ir ao poço, agora lidera uma multidão que sai da cidade para encontrar Jesus. Seu encontro particular no poço resultou em um avivamento comunitário. Ela demonstra que um verdadeiro encontro com Cristo não apenas nos transforma individualmente, mas nos impulsiona a levar essa transformação ao mundo ao nosso redor, transformando nosso maior ponto de vergonha em nosso mais poderoso testemunho.
8. A Salvação Sem Fronteiras: O Legado do Encontro em Samaria
O encontro de Jesus no poço de Sicar não foi um evento isolado com um final feliz apenas para uma mulher. Seu impacto imediato já foi extraordinário, levando muitos samaritanos daquela cidade a crerem Nele. Contudo, o propósito de Jesus ia muito além daquela cidade e daquele momento. Aquele diálogo foi, na verdade, um ato profético e fundacional, a primeira semente de uma colheita que revelaria a verdadeira extensão de sua missão: uma salvação sem fronteiras.
Anos mais tarde, antes de sua ascensão aos céus, Jesus entregou aos seus discípulos a Grande Comissão, um mapa geográfico e espiritual para a expansão do Evangelho. A ordem era clara e progressiva:
Atos 1:8 "Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra."
A inclusão explícita de Samaria nesse roteiro divino é de uma importância imensa. O mesmo lugar que Ele havia proibido seus discípulos de entrarem em sua primeira missão agora se tornava um campo missionário obrigatório. Aquele território, antes considerado impuro e hostil, estava oficialmente no coração do plano redentor de Deus para o mundo. O encontro com a mulher no poço não foi apenas um ato de compaixão, mas a preparação do solo para o que viria a seguir.
A semente plantada por Jesus naquele dia germinou de forma espetacular no livro de Atos. Após o martírio de Estêvão, uma grande perseguição se levantou contra a igreja em Jerusalém, forçando os cristãos a se dispersarem. O que parecia uma tragédia se tornou o catalisador para o cumprimento da promessa. O diácono Filipe, um dos que fugiram, foi guiado precisamente para Samaria.
Atos 8:5-8 "E, descendo Filipe à cidade de Samaria, lhes pregava a Cristo. E as multidões unanimemente prestavam atenção ao que Filipe dizia, porque ouviam e viam os sinais que ele fazia; pois que os espíritos imundos saíam de muitos que os tinham, clamando em alta voz; e muitos paralíticos e coxos eram curados. E havia grande alegria naquela cidade."
O Evangelho foi recebido com alegria e poder. O que começou com um diálogo corajoso e a quebra de um protocolo cultural, culminou em um avivamento que integrou os samaritanos à família da fé. O legado daquele encontro no poço é a demonstração inequívoca de que o amor de Cristo não reconhece os muros que os homens constroem. Ele veio para todos: para o judeu e para o samaritano, para o religioso e para o marginalizado. A lição de Samaria ecoa até hoje, nos lembrando que a missão da Igreja é seguir os passos de Jesus, cruzando todas as fronteiras para oferecer a "Água Viva" a um mundo sedento.
Resumo de fixação em formato de tabela
Tópico | Ideia Central | Referências Chave |
---|---|---|
Um Encontro Improvável | Jesus quebra barreiras sociais, religiosas e de gênero ao iniciar um diálogo com uma mulher samaritana, um ato chocante para a cultura da época. | João 4:24-29 |
A Necessidade Divina | A ida a Samaria não foi uma conveniência geográfica, mas um propósito divino, assim como o "novo nascimento" era necessário para Nicodemos. | João 4:4, João 3:7 |
Raízes de um Conflito | A hostilidade entre judeus e samaritanos nasceu da divisão do reino e se aprofundou com o exílio assírio, que promoveu a miscigenação (inculturação) em Samaria. | 2 Reis 17:24, João 8:48 |
Uma Missão Exclusiva | Jesus reservou a si mesmo a missão de iniciar o Evangelho em Samaria, proibindo anteriormente os discípulos de irem lá, pois a tarefa exigia Sua presença. | Lucas 9:51-56, Mateus 10:5 |
O Cenário da Transformação | O local (poço de Jacó, terra de sonhos), o horário (meio-dia, hora da exclusão) e a solidão (encontro particular) foram simbólicos e essenciais para a transformação. | João 4:5-8, Gênesis 33:18-19 |
Da Sede Física à Água Viva | A mulher progride em sua percepção de Jesus (de judeu a profeta e a Messias) à medida que Ele revela conhecimento divino e compaixão, curando sua ferida mais profunda. | João 4:9, 19, 26, 29 |
O Cântaro Vazio e a Cidade Cheia | Ao deixar o cântaro, ela abandona sua antiga fonte de satisfação e, transformada de excluída em missionária, leva a notícia de Cristo à sua cidade. | João 4:28-29 |
A Salvação Sem Fronteiras | O encontro preparou o caminho para a Grande Comissão e seu cumprimento em Atos 8, mostrando que Samaria sempre esteve no plano de salvação universal de Deus. | Atos 1:8, Atos 8:5-8 |
Último Passo: Resumo em Questões
Responda com (V) para Verdadeiro ou (F) para Falso.
1. ( ) O encontro de Jesus com a mulher samaritana foi um evento casual, resultado da rota mais curta que Ele precisava tomar entre a Judeia e a Galileia, sendo a interação com ela uma consequência não planejada.
2. ( ) A hostilidade entre judeus e samaritanos originou-se principalmente porque os samaritanos foram levados para o exílio na Babilônia e lá perderam sua identidade cultural, enquanto os judeus de Jerusalém permaneceram em suas terras.
3. ( ) Ao instruir os discípulos a não entrarem em cidades samaritanas durante sua primeira missão (Mateus 10:5), Jesus estava demonstrando um preconceito inicial contra eles, que só foi superado mais tarde em seu ministério.
4. ( ) A mulher samaritana buscava água ao meio-dia, o horário mais quente, porque era o costume cultural das mulheres de sua condição social realizarem essa tarefa nesse período.
5. ( ) O ato de a mulher deixar seu cântaro para trás após conversar com Jesus simboliza que ela encontrou a verdadeira "Água Viva" e que suas necessidades e prioridades anteriores se tornaram secundárias.
6. ( ) A percepção da mulher sobre Jesus permaneceu a mesma durante todo o diálogo; desde o início, ela o reconheceu como o Messias esperado.
7. ( ) O poço onde ocorreu o encontro era historicamente significativo, pois foi aberto por Jacó em uma terra que ele deu como herança a seu filho José, ligando o local a um passado de promessas e sonhos.
8. ( ) O testemunho da mulher samaritana não foi bem recebido em sua cidade, pois sua reputação duvidosa fez com que ninguém acreditasse em suas palavras sobre ter encontrado o Cristo.
9. ( ) O conceito de "inculturação", aplicado pelos assírios em Samaria, refere-se à estratégia de preservar a cultura local, removendo apenas seus líderes para enfraquecer a nação.
10. ( ) O encontro em Samaria serviu como um prelúdio para a Grande Comissão registrada em Atos 1:8, onde Jesus ordena explicitamente que o Evangelho também seja pregado em Samaria, validando a importância estratégica daquele território.
Gabarito Comentado
1. (F) Falso. O artigo enfatiza que a frase "era-lhe necessário passar por Samaria" (João 4:4) aponta para um propósito divino e intencional, não para uma mera conveniência geográfica. Muitos judeus evitavam essa rota, mas Jesus foi deliberadamente para realizar aquela missão.
2. (F) Falso. A hostilidade se deu pelo motivo oposto. Os habitantes do Reino do Norte (Samaria) foram subjugados pelos assírios, que promoveram uma miscigenação forçada ("inculturação"), misturando-os com outros povos. Os judeus do Reino do Sul (Judeia) foram para o exílio babilônico e se orgulhavam de ter mantido sua linhagem "pura".
3. (F) Falso. Jesus não demonstrou preconceito. A instrução foi estratégica, pois a missão em Samaria era tão delicada e fundamental que estava reservada para ser inaugurada por Ele mesmo, no tempo certo. Seus discípulos, naquele momento, ainda não estavam preparados para essa tarefa.
4. (F) Falso. O horário do meio-dia era atípico e socialmente indesejado para buscar água. Ela ia nesse horário justamente para evitar o contato e o julgamento das outras mulheres da cidade, que iam nos horários mais frescos da manhã ou da tarde.
5. (V) Verdadeiro. O abandono do cântaro é um ato simbólico poderoso. Representa sua libertação da busca incessante por satisfação em fontes terrenas e a mudança imediata de suas prioridades após encontrar a fonte da "Água Viva".
6. (F) Falso. A percepção dela evoluiu progressivamente. Inicialmente, ela o viu apenas como um judeu (v. 9), depois como um profeta (v. 19) e, somente ao final do diálogo, reconheceu-o como o Messias (v. 29).
7. (V) Verdadeiro. O artigo destaca o simbolismo do local, o poço de Jacó, que remete a Gênesis 33 e à herança de José, o filho dos sonhos. Isso cria um contraste entre o "ambiente de sonho" do local e a vida de "pesadelo" da mulher.
8. (F) Falso. Pelo contrário, seu testemunho foi tão impactante que "saíram, pois, da cidade, e foram ter com ele" (João 4:30). A autenticidade de seu encontro, onde ela admite que Jesus "disse tudo" sobre ela, atraiu a cidade para Cristo.
9. (F) Falso. A "inculturação" assíria consistia em deportar parte da população local e trazer diversos outros povos para habitarem a terra, forçando uma mistura de culturas e religiões para enfraquecer a identidade e a unidade da nação conquistada.
10. (V) Verdadeiro. O evento em João 4 é fundamental para entender a ordem de Jesus em Atos 1:8. Ele preparou o terreno em Samaria, mostrando que aquele povo estava incluído no plano de salvação, o que foi posteriormente cumprido pela pregação de Filipe em Atos 8.
"O caminho mais necessário para Cristo não foi o que contornava o preconceito, mas o que atravessava a solidão de uma alma, provando que nenhum poço de vergonha é fundo demais para a Sua graça alcançar."
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- BRUNO, Zé. #13 - A mulher samaritana e a Água Viva - Zé Bruno - Quem é Jesus?. Youtube, A Casa da Rocha, Brasília/DF. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qWlEmA4U1y4. Acesso em: 20/08/2025.
- Cidade IMAFE. A Beira do Poço | Culto de Ceia | Pr. Adson Belo e Paloma Possi | 04.10.2020. Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=avC0UyYNVNg. Acesso em: 20/08/2025.