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O Jantar na Casa do Fariseu: Contexto Cultural e Quebra de Protocolos

O relato bíblico de Lucas, capítulo 7, nos transporta para um cenário doméstico que antecede a ruptura definitiva entre Jesus e o grupo religioso dos fariseus. Neste momento, a tensão ainda não havia se transformado em uma disputa aberta, permitindo que Jesus aceitasse um convite para jantar na casa de Simão, um fariseu. Para compreendermos a profundidade do que ocorreu naquele encontro, é fundamental despirmos o nosso olhar ocidental moderno e mergulharmos nos costumes e na etiqueta do Oriente Médio do primeiro século.

Naquela época, a dinâmica de um jantar solene diferia drasticamente da nossa cultura atual. As aldeias eram pequenas, e a estrutura social, tribal. Quando uma figura ilustre — um mestre ou rabi — era convidada para uma refeição, o evento não era estritamente privado. A arquitetura das casas, muitas vezes com alpendres e colunas, permitia um ambiente semiaberto. Era comum que pessoas da comunidade, mesmo não convidadas para comer, se aproximassem para ouvir a sabedoria, a prédica e a exposição da lei feita pelo convidado de honra.

Isso explica um detalhe crucial da narrativa: a facilidade com que uma pessoa não convidada, inclusive alguém marginalizada socialmente, poderia ter acesso ao ambiente onde o jantar ocorria. O "público" assistia ao banquete, ávido por ouvir os ensinamentos.

Além do acesso, a disposição à mesa era singular. Não se utilizavam cadeiras altas como hoje. As mesas eram baixas, e os convivas reclinavam-se lateralmente, apoiando-se sobre um braço, deixando as pernas estendidas para trás. Essa posição deixava os pés dos convidados expostos e afastados da mesa, acessíveis a quem estivesse no perímetro externo da sala.

A Etiqueta da Hospitalidade e a Falha de Simão

A hospitalidade no antigo Oriente não era apenas uma questão de boas maneiras; era um código de honra sagrado. Havia rituais específicos de recepção que demonstravam respeito e acolhimento ao visitante, especialmente após longas caminhadas por estradas de terra, sob calor intenso e usando sandálias abertas.

O protocolo padrão para receber um convidado ilustre envolvia três atos principais:

  1. O Beijo de Boas-Vindas (Ósculo): O anfitrião recebia o convidado na porta com um beijo na face, simbolizando paz e aceitação.
  2. A Lavagem dos Pés: Um servo trazia uma bacia com água e uma toalha para lavar os pés do visitante, removendo a poeira da estrada e proporcionando alívio.
  3. A Unção com Óleo: Oferecia-se um óleo aromático (bálsamo) para passar na cabeça e cabelos. Não se tratava de um ritual religioso complexo, mas de um ato de higiene e refrigério, similar ao ato de se arrumar ou perfumar-se para um evento social hoje.

No entanto, ao analisarmos o texto, percebemos uma dissonância chocante. Simão, o fariseu, negligenciou propositalmente esses ritos.

"E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés... Não me deste ósculo... Não me ungiste a cabeça com óleo..." (Lucas 7:44-46)

Jesus entrou na casa e dirigiu-se à mesa sem ter os pés lavados, sem o beijo de recepção e sem o óleo de refrigério. Trazendo para a nossa realidade, seria equivalente a convidar alguém importante para jantar, mas deixá-lo entrar sozinho, sem cumprimentá-lo, ignorando sua presença na porta e não oferecendo sequer um lugar confortável ou uma bebida.

Essa atitude de Simão não foi um mero esquecimento; foi uma mensagem. Ao quebrar o protocolo de hospitalidade, o fariseu tratou Jesus com desdém, classificando-o implicitamente como inferior ou indigno das honras devidas a um profeta. Simão, em sua posição de doutor da lei e membro de um grupo que prezava pela pureza ritual, comportou-se de maneira deselegante e desrespeitosa, criando um ambiente de tensão silenciosa que logo seria rompido por um ato inusitado de devoção.


A "Intromissão" da Mulher Pecadora: Um Ato de Humildade e Entrega

Enquanto o ambiente na casa de Simão era marcado pela frieza e pela falta de cortesia, uma figura inesperada rompe o cenário. O texto bíblico a descreve como "uma mulher da cidade, pecadora". No contexto social da época, e pela forma como a narrativa é construída, é amplamente aceito que ela era conhecida por sua vida na prostituição. Uma mulher marcada pelo estigma, marginalizada pela sociedade "respeitável" e, certamente, alvo do desprezo dos fariseus.

Contudo, sua entrada naquela casa não foi um acidente. É razoável inferir que essa mulher já conhecia a fama de Jesus. Talvez tivesse ouvido suas pregações nas sinagogas da Galileia ou presenciado sua compaixão para com outros excluídos — leprosos, paralíticos e publicanos. A mensagem de um Reino de Graça, que acolhia o cansado e o sobrecarregado, deve ter ecoado profundamente em sua alma ferida. Ela não foi ao jantar para conhecer Jesus, mas para responder a Ele.

Ela traz consigo um frasco de alabastro cheio de perfume. O alabastro, uma pedra nobre, e o perfume em seu interior representavam um alto custo financeiro. Diferente de Simão, que economizou até na água, essa mulher estava disposta a entregar algo de grande valor.

A Liturgia das Lágrimas

Ao aproximar-se por trás de Jesus, que estava reclinado à mesa, a mulher protagoniza uma cena de intensa emoção e quebra de paradigmas.

"E, estando por detrás, aos pés dele, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-os com os cabelos da sua cabeça; e beijava-lhe os pés, e ungia-os com o unguento." (Lucas 7:38)

Este ato carrega simbolismos profundos que contrastam diretamente com a negligência do anfitrião:

  • As Lágrimas como Água: Onde Simão não ofereceu água para lavar a poeira da estrada, a mulher derramou lágrimas. Eram lágrimas de quem reconhece sua própria condição miserável, mas também de quem vislumbra a esperança do perdão. A quantidade de lágrimas foi suficiente para "regar" os pés de Cristo.
  • Os Cabelos como Toalha: Em um ato de extrema humilhação social — pois uma mulher respeitável jamais soltaria seus cabelos em público, sendo isso considerado um sinal de sensualidade ou desonra —, ela usa seus próprios cabelos para secar os pés do Mestre. Ela não se importou com o julgamento dos olhares ao redor; sua dignidade estava sendo redefinida naquele momento de serviço.
  • O Beijo nos Pés: Simão não saudou Jesus com o ósculo na face, um beijo de igual para igual. A mulher, sentindo-se indigna, não ousa beijar o rosto, mas não cessa de beijar os pés. É a adoração da criatura que reconhece a santidade do Criador.
  • O Perfume nos Pés: Enquanto o anfitrião não ofereceu óleo simples para a cabeça, ela quebrou o frasco de perfume caro e o derramou sobre os pés. Culturalmente, ungir os pés poderia ser visto como um desperdício, já que o óleo na cabeça escorreria pelo corpo. Mas para ela, nada era desperdício quando ofertado a Jesus.

O Coração Contrito

A atitude desta mulher revela a essência de quem compreende o Evangelho. Ela não foi ali para fazer um pedido, para exigir uma bênção ou para propor uma troca. Ela foi para agradecer. Sua postura de joelhos, chorando e beijando os pés de Jesus, demonstra um coração quebrantado e contrito.

Diferente da religiosidade que busca "comprar" favores divinos ou ostentar virtudes, a verdadeira espiritualidade nasce do reconhecimento da própria falência moral diante da santidade de Deus. Aquela mulher sabia quem ela era — uma pecadora — e sabia quem Jesus era — a fonte de vida e perdão. Naquele jantar, a verdadeira honra a Jesus não veio do líder religioso sentado à mesa, mas da mulher prostrada no chão, cuja fé se manifestou em serviço sacrificial e amor silencioso.


A Parábola dos Dois Devedores: A Matemática da Graça e do Amor

A cena da mulher aos pés de Jesus provocou uma reação imediata, embora silenciosa, em Simão. O fariseu, observando a interação, iniciou um julgamento interno severo. Sua lógica era baseada na pureza ritual e na separação: um profeta de Deus deveria possuir o dom da vidência e, consequentemente, saber que aquela mulher era "imunda". E, sabendo disso, jamais permitiria tal toque.

"E, vendo isto o fariseu que o tinha convidado, falava consigo, dizendo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora." (Lucas 7:39)

A ironia deste momento é palpável. Simão duvidava que Jesus fosse um profeta porque acreditava que Ele desconhecia a natureza da mulher. No entanto, Jesus prova ser mais do que um profeta não apenas por saber quem ela era, mas por saber exatamente o que Simão estava pensando. Jesus responde aos pensamentos ocultos do fariseu com uma parábola pedagógica e confrontadora.

A Dívida Impagável

Jesus pede a atenção de Simão e conta uma breve história:

"Um certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos dinheiros, e outro cinquenta. E, não tendo eles com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Dize, pois, qual deles o amará mais?" (Lucas 7:41-42)

A parábola apresenta uma situação simples de entender, mas teologicamente profunda. Temos dois homens com dívidas diferentes — uma dez vezes maior que a outra — mas com uma condição igual: a incapacidade absoluta de pagar. A falência de ambos era total.

O credor, num ato de pura generosidade, cancela a dívida de ambos. A pergunta de Jesus desloca o foco do valor da dívida para a resposta do devedor. Não se trata mais de contabilidade, mas de relacionamento e gratidão.

A Lógica do Perdão
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Simão, compelido pela lógica óbvia da história, responde:

"Tenho para mim que é aquele a quem mais perdoou. E ele lhe disse: Julgaste bem." (Lucas 7:43)

Aqui, Jesus estabelece a "matemática" do Reino de Deus: a intensidade do amor é proporcional à consciência do perdão recebido.

Simão julgou corretamente a parábola, mas falhou em aplicar a lição a si mesmo. A mulher amava muito — demonstrado por seus beijos, lágrimas e perfume — porque ela tinha plena consciência do tamanho de sua dívida moral e espiritual. Ela sabia o quanto precisava ser perdoada.

Por outro lado, Simão amava pouco (ou nada). Sua frieza, falta de hospitalidade e julgamento arrogante denunciavam que ele não se via como um devedor. Em sua mente de fariseu, ele acreditava ter "crédito" com Deus devido à sua observância da lei e sua posição social. Ele não percebia que, diante da santidade divina, sua dívida também era impagável. Quem acha que precisa de pouco perdão, entrega pouco amor. Quem se reconhece falido e recebe a graça, entrega a própria vida em gratidão.


O Perigo da Soberba Religiosa: Quando a "Pureza" Afasta o Homem de Deus

A aplicação da parábola por Jesus é cirúrgica e devastadora para o ego de Simão. O Mestre não deixa a lição no campo teórico; Ele volta-se para a mulher, mas dirige suas palavras ao fariseu, forçando uma comparação visual e moral que expõe a hipocrisia religiosa.

"Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas, e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com unguento." (Lucas 7:44-46)

Jesus lista, ponto a ponto, as falhas de Simão em contraste com os excessos de amor da mulher. O fariseu, que se orgulhava de sua posição e retidão, havia falhado no básico da civilidade. Mas por que Simão agiu assim? A resposta reside na raiz do farisaísmo.

A Armadilha da Superioridade Moral

O termo "fariseu" deriva do hebraico Perushim, que significa "separados". O grupo surgiu com a intenção nobre de viver uma vida de santidade, rigorosamente observante da Lei e afastada da impureza pagã. No entanto, com o tempo, essa separação física e ritual transformou-se em um abismo espiritual. A busca pela pureza tornou-se um pedestal de arrogância.

Simão não lavou os pés de Jesus nem o beijou porque, no fundo, ele se sentia superior ao seu convidado. Ele via a si mesmo como um guardião da moral e da verdade, alguém que está em posição de julgar, e não de servir.

A soberba religiosa é perigosa porque cega o homem para a sua própria condição. Simão olhava para a mulher e via apenas "uma pecadora", um "filho do cão", alguém digno de desprezo. Ele não conseguia enxergar que, diante de Deus, o seu orgulho e a sua falta de amor eram tão ou mais repulsivos do que os pecados morais daquela mulher.

"Por isso te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama." (Lucas 7:47)

A Religião que Cria Juízes, não Adoradores

O comportamento de Simão reflete um fenômeno ainda presente nos dias de hoje: a religiosidade que torna as pessoas duras, críticas e donas da verdade. É o "evangelho" que aponta o dedo, que se envolve em debates intermináveis para provar sua superioridade teológica, mas que perdeu a ternura e a capacidade de chorar aos pés de Cristo.

Quando nos sentimos "puros" ou "melhores" que os outros, deixamos de amar. Acreditamos que Deus nos deve algo, ou que a nossa posição na igreja nos confere um status especial. Criamos uma cultura de "semideuses", onde líderes e religiosos esperam ser servidos e bajulados, esquecendo-se de que no Reino de Deus a maior honra é servir.

A lição de Jesus para Simão é clara: a sua "pureza" ritual não vale de nada se o seu coração é árido. A mulher, com toda a sua bagagem de erros, estava mais próxima de Deus do que o fariseu, porque ela entendia a dinâmica da graça. Ela sabia que não merecia nada, e por isso recebeu tudo. Simão achava que merecia tudo, e por isso saiu daquele encontro de mãos vazias, sem experimentar a profundidade do perdão que gera o verdadeiro amor.


A Essência do Reino: Reconhecimento do Pecado e a Simplicidade da Fé

O desfecho do encontro na casa de Simão não é apenas uma lição de moral, mas uma declaração teológica que reestrutura a esperança humana. Após expor a dureza do coração do fariseu, Jesus volta-se para a mulher e profere as palavras que sua alma desesperadamente ansiava ouvir:

"E disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz." (Lucas 7:50)

É crucial notar que Jesus atribui a salvação à , e não ao perfume caro ou às lágrimas. As obras da mulher — sua adoração extravagante — foram a evidência visível de uma fé invisível que já havia brotado em seu coração. Ela não comprou o perdão com o alabastro; ela derramou o alabastro porque creu que o perdão era possível e real na pessoa de Jesus.

Só os Pecadores Entram na Eternidade

Existe um paradoxo fundamental no Evangelho que muitas vezes escapa à compreensão religiosa: o Reino de Deus é habitado exclusivamente por pecadores. Não porque o pecado seja celebrado, mas porque a condição primária para entrar na graça é o reconhecimento da própria falência.

Aqueles que, como Simão, se consideram "sãos", "justos" e "mercedores", não buscam o Médico. Eles constroem seus próprios pedestais de moralidade e observância de regras, acreditando que isso os eleva acima da massa comum. No entanto, o Evangelho é para os doentes, para os quebrados, para aqueles que não têm nada a oferecer além de sua própria necessidade.

O texto bíblico e a história da igreja — como o episódio de Pedro e Cornélio em Atos 10 — reforçam que diante de Deus não há hierarquias humanas. Quando Cornélio se ajoelha diante de Pedro, o apóstolo imediatamente o levanta dizendo: "Levanta-te, que eu também sou homem". No Reino, não há semideuses ou super-homens espirituais; há apenas pecadores redimidos servindo uns aos outros.

A Simplicidade contra a Arrogância

A narrativa de Lucas nos convida a rejeitar um "evangelho" de poder, domínio político e supremacia, que tenta transformar a fé em uma ferramenta de controle ou status social. Tais "gritos de guerra" e demonstrações de força são estranhos à manjedoura, à cruz e ao cenáculo.

O verdadeiro Caminho é trilhado na simplicidade. É o caminho de quem se despe das honrarias, dos títulos pomposos e da necessidade de ser reverenciado, para assumir o lugar daquela mulher: aos pés de Cristo.

Diante desta passagem, somos confrontados com uma escolha diária de identidade:

  1. Podemos ser Simão: corretos aos nossos próprios olhos, críticos dos erros alheios, mantendo uma distância segura e "higiênica" de Jesus, sem nunca experimentar a transformação radical do amor.
  2. Ou podemos ser a Pecadora: conscientes de nossas falhas, sem máscaras, mas profundamente gratos e apaixonados por Aquele que nos amou primeiro.

Que a nossa oração não seja de agradecimento por sermos "melhores que os outros", mas um choro de gratidão por termos sido alcançados pela misericórdia. O Reino dos Céus pertence aos que, não tendo como pagar a dívida de 500 denários, descobrem com alegria que o Credor a rasgou inteiramente.


A casa da rocha. #22 - Jesus, a pecadora e o fariseu - Zé Bruno - Meu Caro Amigo. https://youtu.be/1G7djuR5zow

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Matéria: Bíblia
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