A Condição Espiritual Humana e a Analogia da Enfermidade
Para compreender a profundidade do discurso de Jesus registrado no evangelho de João, é necessário revisitar o cenário que antecede imediatamente estas declarações: a cura do paralítico no tanque de Betesda. Este milagre não foi apenas um ato de compaixão física, mas um "sinal" — termo frequentemente utilizado por João — que aponta para uma realidade teológica superior.
O homem estava enfermo há trinta e oito anos, deitado à beira do tanque, incapaz de se mover em direção às águas que, segundo a crença popular, poderiam curá-lo. A sua condição física ilustra de forma vívida a condição espiritual da humanidade caída. Não se tratava de alguém que precisava apenas de um pequeno auxílio ou de um empurrão; tratava-se de alguém totalmente impotente para alterar o seu próprio estado.
Quando Jesus se aproxima e ordena que ele se levante, tome o seu leito e ande, o milagre ocorre instantaneamente. Contudo, este ato de poder gerou uma controvérsia imediata com as autoridades religiosas, pois a cura foi realizada num sábado. A defesa de Jesus contra a acusação de violar o sábado foi radical: Ele afirmou que trabalha porque o Seu Pai trabalha.
"Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também." (João 5:17)
Esta declaração foi corretamente interpretada pelos líderes judeus não apenas como uma reivindicação de autoridade sobre o sábado, mas como uma reivindicação de igualdade ontológica com Deus. É neste contexto de tensão e revelação divina que Jesus profere as palavras solenes sobre a vida e a morte, estabelecendo um paralelo entre a impotência do paralítico e a morte espiritual de todo ser humano.
A teologia que emerge deste texto confronta diretamente a noção de autossuficiência humana. Assim como o paralítico não podia curar a si mesmo, o ser humano natural encontra-se numa posição de inabilidade moral e espiritual perante Deus. A Bíblia não descreve a humanidade caída como "doente" ou "ferida", mas como espiritualmente morta.
"Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida." (João 5:24)
A analogia da enfermidade em Betesda serve, portanto, como um prelúdio visual para a doutrina da regeneração. A intervenção de Cristo é monérgica — ou seja, depende exclusivamente do poder de Deus. Não houve cooperação do paralítico para a sua cura, assim como não há cooperação do homem morto espiritualmente para o seu renascimento. A vida é concedida por uma iniciativa soberana e externa, preparando o terreno para o ensinamento sobre a voz que tem o poder de despertar os mortos.
O Poder da Voz de Cristo no "Agora": A Ressurreição Espiritual
Ao prosseguir em Seu discurso, Jesus introduz uma distinção temporal crucial que define a natureza da Sua obra salvífica no presente. Ele afirma solenemente a chegada de um tempo novo, marcado pela intervenção direta de Deus na história humana.
"Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão." (João 5:25)
A expressão "vem a hora, e já chegou" indica uma realidade escatológica inaugurada. Diferente da ressurreição física que ocorrerá no fim dos tempos, a ressurreição descrita neste versículo é um evento imediato e espiritual. Os "mortos" mencionados aqui não são aqueles que jazem em sepulcros físicos, mas sim a vasta multidão de seres humanos que, embora biologicamente vivos, estão espiritualmente mortos em seus delitos e pecados.
Esta condição de morte espiritual é absoluta. O apóstolo Paulo, em sua carta aos Efésios, corrobora este ensino ao descrever o estado natural do homem antes da conversão:
"Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados..." (Efésios 2:1)
Neste contexto, o milagre da salvação é equiparado a uma ressurreição. A conversão não é o resultado de uma reforma moral, de uma educação superior ou de um esforço religioso humano; é a infusão de vida onde antes havia apenas morte. O instrumento para essa operação milagrosa é a "voz do Filho de Deus".
O ato de "ouvir" a voz do Filho, conforme descrito no texto, transcende a mera percepção auditiva das ondas sonoras. Trata-se de um chamado eficaz e criativo. Da mesma forma que Deus disse "Haja luz" na criação e a luz passou a existir, Cristo fala aos corações mortos espiritualmente e eles despertam para a vida. É uma voz que carrega em si o poder de gerar a realidade que ordena. Aqueles que "ouvem" — no sentido bíblico de compreender e acolher a mensagem do Evangelho — recebem instantaneamente a vida eterna.
A fonte desse poder vivificante reside na natureza do próprio Cristo. Jesus explica a origem da Sua autoridade e capacidade de dar vida:
"Porque, assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo." (João 5:26)
Esta declaração aponta para a "asseidade" de Deus — a qualidade de ter vida em Si mesmo, não derivada e independente. O Pai concedeu ao Filho, em Sua encarnação e missão messiânica, a prerrogativa de possuir e distribuir essa vida autônoma. Portanto, a voz de Jesus não é apenas um convite; é o veículo da própria vida divina, capaz de transformar a existência humana "agora", no tempo presente, transportando o indivíduo de um estado de condenação para um estado de justificação e vida.
A Autoridade Exclusiva do Filho para Executar o Julgamento
A revelação de Cristo em João 5 não se limita apenas ao Seu poder vivificador; ela avança para estabelecer a Sua soberania judicial. Jesus declara que o Pai não apenas Lhe concedeu ter a vida em Si mesmo, mas também Lhe outorgou a autoridade suprema para executar o julgamento.
"E lhe deu autoridade para julgar, porque é o Filho do Homem." (João 5:27)
Este versículo contém uma das chaves hermenêuticas mais importantes do Novo Testamento: o título "Filho do Homem". Embora à primeira vista possa parecer uma referência à humanidade de Jesus — indicando que Ele é apto para julgar os homens porque também é humano e compreende suas fraquezas —, o significado bíblico é muito mais profundo e remonta à profecia de Daniel.
No capítulo 7 do livro de Daniel, o profeta tem uma visão de alguém "como um filho do homem" que se aproxima do Ancião de Dias (Deus Pai) e recebe domínio, glória e um reino que jamais será destruído.
"Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino..." (Daniel 7:13-14)
Ao reivindicar este título, Jesus está afirmando ser o cumprimento dessa profecia messiânica. Ele é o Rei-Juiz designado por Deus para governar sobre todas as nações e povos. A delegação do juízo ao Filho tem um propósito teológico claro: honrar o Filho da mesma maneira que se honra o Pai. A autoridade de julgar é a prerrogativa divina por excelência; ao transferi-la para Jesus, o Pai declara a divindade absoluta de Cristo.
Esta exclusividade tem implicações terríveis e consoladoras. É consoladora para o crente, pois o Juiz que se assentará no tribunal final é o mesmo Salvador que morreu na cruz para redimi-lo. Não é um juiz desconhecido ou indiferente à condição humana, mas alguém que experimentou a tentação e o sofrimento, embora sem pecado.
Por outro lado, é uma verdade terrível para aqueles que rejeitam o Evangelho. A ideia popular de que, no final, cada um prestará contas a um "Deus genérico" ou a uma "força superior" é desconstruída aqui. O confronto final da humanidade será com a pessoa de Jesus Cristo. Não haverá corte de apelação acima dEle. Aquele que foi enviado como Salvador retornará como Juiz, e a base desse julgamento está intrinsecamente ligada à resposta que cada indivíduo deu à Sua voz. A rejeição ao Filho implica, inevitavelmente, na rejeição ao Pai e na aceitação da condenação justa.
A Ressurreição Futura: O Destino Final dos Que Estão nos Túmulos
Após discorrer sobre a ressurreição espiritual que ocorre no presente momento da salvação, Jesus projeta o olhar de Seus ouvintes para o horizonte escatológico final. Ele antecipa a surpresa e o espanto que tal autoridade poderia causar, ampliando a magnitude de Sua reivindicação.
"Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo." (João 5:28-29)
Diferentemente da ressurreição espiritual (v. 25), que é seletiva — "os que a ouvirem viverão", implicando que há aqueles que rejeitam o chamado —, a ressurreição física futura é universal e compulsória. A expressão "todos os que se acham nos túmulos" não deixa margem para exceções. Crentes e incrédulos, justos e injustos, todos atenderão ao chamado soberano do Filho de Deus. A morte física não é o fim da existência, nem um estado de aniquilação eterna, mas um estágio temporário que será interrompido pela voz de Cristo.
Entretanto, embora o evento da ressurreição seja universal, o destino é bifurcado e definitivo. Jesus estabelece duas categorias finais: a ressurreição da vida e a ressurreição do juízo.
Aqui surge uma questão teológica sensível que requer atenção cuidadosa. À primeira leitura, o versículo 29 parece sugerir uma salvação baseada em obras ("os que tiverem feito o bem"). Contudo, interpretar este texto isoladamente criaria uma contradição direta com o versículo 24, onde Jesus afirma categoricamente que a vida eterna é dada àquele que "ouve a palavra e crê".
A harmonia bíblica reside na compreensão da relação entre fé e obras. No contexto da teologia joanina e do Novo Testamento, as "boas obras" não são a causa da salvação, mas a evidência indispensável dela. Aquele que "fez o bem" é aquele que, previamente, já havia passado da morte para a vida através da fé. Suas obras são o fruto visível de uma raiz invisível regenerada.
Por outro lado, "os que tiverem praticado o mal" são aqueles que permaneceram em seu estado natural de morte espiritual, rejeitando a luz e a verdade. Suas más obras são a evidência externa de um coração que nunca foi transformado pela graça.
Portanto, o Juízo Final será um julgamento segundo as obras, pois as obras revelam a verdadeira natureza da fé (ou a falta dela) de cada indivíduo. A ressurreição corporal confirmará eternamente o estado espiritual escolhido em vida: a comunhão plena com Deus para os redimidos ou a separação definitiva sob o juízo divino para os impenitentes.
A Urgência da Decisão: Ouvir o Salvador Hoje para não Enfrentar o Juiz Amanhã
A exposição de Jesus em João 5 culmina numa realidade inescapável: o tempo de decisão é o presente. A distinção feita entre a "hora que vem e já chegou" (o tempo da graça e da pregação do Evangelho) e a "hora que vem" (o tempo do julgamento escatológico) elimina qualquer esperança de uma "segunda chance" após a morte.
Muitas filosofias e crenças populares sugerem a possibilidade de evolução espiritual pós-morte ou de ciclos reencarnatórios que permitiriam o aperfeiçoamento contínuo. No entanto, o ensino de Cristo é linear e urgente. O destino eterno é forjado na história temporal. A ressurreição futura não é o momento de alterar o status espiritual de alguém, mas apenas o momento de revelar e selar publicamente o que foi decidido em vida.
A periculosidade da procrastinação espiritual torna-se evidente. A indiferença à voz de Cristo hoje não é uma postura neutra; é uma confirmação da morte espiritual. Aquele que adia o arrependimento corre o risco de endurecer o coração a tal ponto que a voz do Filho de Deus deixa de ser percebida como um convite gracioso e passa a ser apenas o som terrível da sentença final.
O texto bíblico apresenta uma escolha binária clara, sem zonas cinzentas:
"Quem ouve a minha palavra... não entra em juízo, mas passou da morte para a vida." (João 5:24)
O contraste é absoluto. Ou se aceita a oferta de vida agora, através da audição fértil da Palavra, ou se enfrenta o juízo inevitável depois. Encontrar Jesus como Salvador no presente é a única maneira de não ter que enfrentá-Lo como Juiz condenatório no futuro. No tribunal final, presidido pelo próprio Filho do Homem, não haverá advogados de defesa, pois a oportunidade de advocacia está restrita ao tempo da graça, onde Ele intercede por aqueles que creem.
Portanto, a mensagem de João 5:25-29 é, em última análise, um ultimato de amor. A autoridade de Jesus para julgar é apresentada lado a lado com o Seu poder para vivificar, justamente para que o ouvinte corra para a vida enquanto há tempo. A voz que um dia ressuscitará os mortos dos seus túmulos para o julgamento é a mesma voz que hoje clama através do Evangelho: "Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará". Ouvir essa voz hoje é a diferença literal entre a vida eterna e a condenação perpétua.
Conclusão
A passagem de João 5 oferece uma das visões mais abrangentes e sóbrias sobre a autoridade de Jesus Cristo e o destino humano. Começando com a analogia da impotência humana no tanque de Betesda, passando pela necessidade de uma ressurreição espiritual imediata e culminando na promessa da ressurreição física universal, o texto desmantela qualquer pretensão de autossuficiência humana.
O leitor é confrontado com a realidade de que a morte física não é o fim, e que a justiça divina será executada com precisão perfeita pelo Filho do Homem. A salvação, portanto, depende inteiramente de "ouvir a voz" de Cristo no tempo presente — uma audição que gera fé, vida e boas obras. Diante de tal soberania, a única resposta racional e segura é a submissão imediata Àquele que detém as chaves da morte e da vida.
Alistair Begg, Matter of Death and Life. https://www.youtube.com/watch?v=OXaWM462SeM