A Obediência Inquestionável em Contraste com a "Fé de Mercado"
A narrativa bíblica de Atos, especificamente no capítulo 8, apresenta um momento crucial de transição na expansão do Evangelho. Após a perseguição que dispersou os discípulos de Jerusalém, Filipe encontra-se em Samaria, onde seu ministério obtém êxito notável. No entanto, em meio a esse cenário de sucesso ministerial, surge uma ordem divina que desafia a lógica humana e o senso comum de estratégia.
"Um anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Dispõe-te e vai para o lado do Sul (ou meio-dia), no caminho que desce de Jerusalém a Gaza; este se acha deserto." (Atos 8:26)
A diretriz para deixar uma região onde o Evangelho florescia para dirigir-se a uma estrada desértica — e possivelmente no horário mais inóspito do dia — representa um teste severo de obediência. A reação natural seria questionar o propósito de ir a um lugar onde "não há ninguém". Contudo, a postura de Filipe contrasta vivamente com o que se pode observar em muitas vertentes da espiritualidade contemporânea.
Atualmente, é comum observar o fenômeno da "fé de consumo". Neste modelo, a escolha de uma comunidade religiosa assemelha-se à seleção de produtos em uma prateleira ou à escolha de um restaurante: busca-se aquilo que satisfaz o paladar pessoal, que valida o ego e que promete a realização de sonhos individuais. Vive-se em uma era marcada pelo hedonismo e pelo relativismo, onde a fé é frequentemente moldada para servir ao indivíduo, e não o contrário.
O verdadeiro Evangelho, entretanto, não é um produto desenhado para o conforto ou para a autoafirmação. Pelo contrário, as Escrituras apresentam uma mensagem que confronta o ser humano, deslocando-o do eixo de seu próprio comodismo. O texto bíblico não hesita em apontar a condição pecaminosa do homem, a necessidade de morte para o "eu" e a urgência de um novo nascimento.
"Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me." (Mateus 16:24)
A obediência de Filipe ilustra que a vida cristã não se trata de Deus obedecendo aos caprichos humanos, mas do ser humano submetendo-se à vontade soberana, mesmo quando esta parece ilógica. O texto original sugere uma urgência na ordem dada a Filipe — uma convocação para levantar e ir imediatamente. Ele não questiona se o "Deus está errado" ou se a ordem é uma punição; ele simplesmente se levanta e vai.
Essa disposição para obedecer cegamente à direção divina, em detrimento da lógica pessoal ou da busca por satisfação, é a marca distintiva de um discípulo. Enquanto o "mercado da fé" promete um gênio da lâmpada pronto para conceder desejos, o Evangelho bíblico convoca para uma jornada de serviço, onde o crente é guiado por um Senhor, muitas vezes por caminhos áridos e solitários, para propósitos que transcendem a compreensão imediata.
O Perfil do Eunuco: Devoção Além das Barreiras Religiosas
Na sequência da narrativa, Filipe encontra um personagem singular: um homem etíope, eunuco e alto oficial de Candace, rainha dos etíopes. Este homem não era um viajante comum; ele exercia a função de superintendente de todo o tesouro real, uma posição equivalente à de um Ministro da Fazenda moderno.
É importante contextualizar historicamente a origem deste oficial. A "Etiópia" mencionada no texto bíblico não corresponde exatamente à nação moderna situada no Chifre da África (Abissínia), mas refere-se à região de Cuxe, localizada ao sul do Egito, no atual Sudão. O termo "Candace", por sua vez, não era um nome próprio, mas um título dinástico atribuído às rainhas-mães que governavam aquela região, semelhante ao título de "Faraó" no Egito.
O aspecto mais fascinante desta passagem é a motivação religiosa deste homem. Ele havia percorrido cerca de dois mil quilômetros, uma viagem exaustiva de carruagem, para adorar em Jerusalém. Isso indica que, embora fosse um gentio, ele encontrou no Deus de Israel um sentido para sua vida, provavelmente influenciado pela diáspora judaica que existia no sul do Egito, como na comunidade da ilha de Elefantina.
No entanto, havia um obstáculo intransponível perante a Lei Mosaica para a plena participação deste homem no culto: sua condição física. Como oficial da corte responsável pelo harém ou por serviços íntimos da realeza, ele havia sido castrado. A Torá era explícita quanto à restrição imposta a homens nessa condição:
"Aquele a quem forem trilhados os testículos ou cortado o membro viril não entrará na assembléia do SENHOR." (Deuteronômio 23:1)
Aqui reside o paradoxo da devoção do eunuco. Ele viaja uma distância colossal para a "Cidade do Grande Rei" (Salmos 48:2), sabendo que, tecnicamente, sua entrada na assembleia solene estaria vedada. Ele busca um Deus cuja lei, em uma leitura literal, o excluía.
Ainda assim, sua piedade era evidente. O judaísmo antigo possuía um forte apelo ético de acolhimento aos vulneráveis — o órfão, a viúva e o estrangeiro. É provável que esse oficial, homem de posses e poder em sua terra, mas incompleto fisicamente, tenha enxergado no Deus único um refúgio que os deuses pagãos não ofereciam. Sua busca por Deus superava as barreiras institucionais e religiosas que poderiam tê-lo afastado, revelando um coração que, genuinamente, ansiava pelo Criador, independentemente das restrições impostas pelos homens ou pela interpretação da lei vigente.
A Verdadeira Comunidade de Fé e o Dilema da Polarização Atual
Ao refletir sobre a acolhida e a barreira enfrentada pelo eunuco, torna-se inevitável traçar um paralelo com as tensões contemporâneas vividas no ambiente religioso, especialmente no que tange às guerras culturais e ideológicas. O cenário atual apresenta uma divisão acentuada, onde extremos opostos disputam a narrativa pública sobre fé e moralidade.
De um lado, observa-se um conservadorismo extremo que, muitas vezes, adota uma postura combativa contra grupos específicos, transformando a fé em uma ferramenta de exclusão e julgamento moral. Do outro, surge uma vertente de extrema permissividade, que, sob o pretexto de que "Deus é amor", remove a necessidade de transformação e arrependimento, validando todos os comportamentos humanos sem critério escriturístico.
Entretanto, o conceito bíblico de amor divino difere substancialmente do amor humano. O amor humano é frequentemente falho, possessivo, ciumento e interesseiro. O amor de Deus, por sua vez, é perfeito e santo. Ele acolhe o pecador, mas não o deixa em seu estado original. O Evangelho não é uma validação do "eu", mas um convite à morte do "eu" para que Cristo viva.
A verdadeira comunidade da fé não se define por guerras políticas ou pela imposição de comportamentos a uma sociedade laica. Ela possui uma identidade espiritual muito específica e profunda:
"A comunidade da fé é a comunidade das pessoas que não querem mais ser como são. É a comunidade daqueles que negaram a si mesmos, que se arrependeram e que disseram: 'Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim'." (Gálatas 2:20)
Esta definição remove a igreja do lugar de tribunal e a coloca no lugar de hospital e escola de transformação. É um grupo formado não por pessoas perfeitas, mas por indivíduos que:
- Não se aceitam como são: Reconhecem sua natureza pecaminosa e a necessidade de mudança.
- Negaram a si mesmos: Lutam diariamente contra seus próprios desejos e vontades que militam contra o Espírito.
- Morreram e Renasceram: Experimentaram a mortificação da carne para viverem a novidade de vida em Cristo.
Neste contexto, o papel do cristão na sociedade não é tentar impor uma teocracia ou coagir o comportamento alheio através da lei dos homens, mas sim viver o Evangelho com tal autenticidade que a transformação ocorra pelo Espírito Santo na vida daqueles que creem. O respeito à individualidade e à liberdade de crença (ou descrença) do outro é fundamental em um Estado democrático, enquanto a igreja preserva sua mensagem inegociável de arrependimento e novo nascimento para todos, indistintamente.
Tratar o próximo apenas como um representante de uma ideologia desumaniza o indivíduo. A abordagem de Filipe, e consequentemente a do Evangelho, é o encontro pessoal, o diálogo e a apresentação de Cristo como a resposta para a inquietação da alma, independentemente de quem seja a pessoa ou de qual bagagem ela traga.
Cristo: A Chave Hermenêutica de Toda a Escritura
A interação entre Filipe e o eunuco revela um princípio fundamental para a leitura e compreensão da Bíblia. O oficial etíope, um homem culto e abastado, possuía um rolo do profeta Isaías — um item raro e valioso na época. Ele lia em voz alta a passagem que hoje conhecemos como o capítulo 53 de Isaías, mas admitiu sua incapacidade de decifrar o enigma central do texto sem orientação.
"Foi levado como ovelha ao matadouro; e, como um cordeiro mudo perante o seu tosquiador, assim ele não abriu a sua boca. Na sua humilhação, foi tirado o seu julgamento; quem contará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra." (Atos 8:32-33; citando Isaías 53:7-8)
A pergunta do eunuco — "De quem diz isto o profeta? De si mesmo ou de algum outro?" — expõe a necessidade de uma chave de interpretação correta. Filipe, então, "começando por esta Escritura, anunciou-lhe a Jesus".
Este episódio confronta diretamente uma tendência hermenêutica popular na atualidade, onde o texto bíblico é frequentemente distorcido para colocar o leitor no centro da narrativa. Em muitas pregações contemporâneas, busca-se aplicar as histórias do Antigo Testamento diretamente ao ego do ouvinte: diz-se que o crente é Davi derrotando os gigantes de seus problemas, ou que é Sansão em suas vitórias. A ordem é para que o indivíduo "tome posse" da bênção, como se os profetas estivessem escrevendo sobre o sucesso pessoal do leitor moderno.
No entanto, a abordagem apostólica e a própria teologia bíblica apontam para uma direção oposta. O Antigo Testamento — a Lei, os Salmos e os Profetas — não é um manual de autoajuda ou uma coletânea de alegorias sobre o potencial humano. Ele é uma grande seta apontando para Cristo.
- Não é sobre nós: A Bíblia nos lê e nos expõe, em vez de servir como espelho para nossa vaidade.
- É sobre Ele: As Escrituras testificam de Jesus (João 5:39). O "servo sofredor" de Isaías não é o profeta, nem o leitor em seus momentos de angústia, mas o Messias que carregou sobre si as iniquidades de todos.
Ao explicar que aquele texto falava de um outro — o Cordeiro de Deus —, Filipe ofereceu ao eunuco não uma promessa de empoderamento pessoal, mas a revelação do sacrifício redentor. É possível que o eunuco também tivesse em mente a promessa futura de Isaías 56, que garantia aos eunucos fiéis um "lugar e um nome melhor do que o de filhos e filhas", mas foi a compreensão do sacrifício vicário de Cristo em Isaías 53 que abriu seus olhos para a Salvação. A verdadeira interpretação bíblica sempre desagua na pessoa de Jesus e em Sua obra na cruz, nunca na exaltação do homem.
Conversão Genuína: Do Arrependimento à Alegria da Missão
A resposta do eunuco à exposição do Evangelho foi imediata e prática. Ao avistarem água, ele não hesitou: "Eis aqui água; que impede que seja batizado?". Essa atitude demonstra que a compreensão genuína das Escrituras leva à ação e à obediência. Embora o versículo 37 ("É lícito, se crês de todo o coração... Eu creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus") não conste nos manuscritos alexandrinos mais antigos, ele reflete a teologia da igreja primitiva e a verdade essencial do Evangelho: a fé precede o sacramento, e a confissão de Cristo é a base da salvação.
O batismo ocorre, selando publicamente a fé daquele homem. Imediatamente após saírem da água, acontece um fenômeno sobrenatural: "o Espírito do Senhor arrebatou a Filipe, e não o viu mais o eunuco". Filipe é transportado fisicamente para Azoto, a dezenas de quilômetros de distância.
Aqui, o texto nos oferece uma lição preciosa sobre a maturidade espiritual, contrastando novamente com a "fé de mercado" contemporânea. Se um evento dessa magnitude ocorresse hoje, é provável que o foco se desviasse totalmente do Evangelho para o fenômeno. Poderíamos ver o surgimento da "unção do teletransporte" ou a busca frenética pelo "profeta que desaparece" para resolver problemas logísticos ou migratórios.
No entanto, a narrativa bíblica destaca a reação do eunuco: "e, jubiloso, continuou o seu caminho". Ele não ficou procurando Filipe, não se desesperou pelo desaparecimento do mensageiro, nem tentou replicar o milagre para benefício próprio. Ele seguiu viagem cheio de alegria porque havia encontrado algo maior que o sinal: ele encontrou o Salvador.
Há uma metáfora pertinente para descrever o perigo de focar no sobrenatural em detrimento do essencial: o perigo de se "encantar mais com a rede do que com o mar". O milagre, o sinal, o mensageiro (a rede) são apenas instrumentos; a imensidão de Deus e do Seu Reino (o mar) é o verdadeiro destino. O eunuco compreendeu que o milagre era apenas um detalhe diante da grandiosidade da salvação que ele agora portava.
A história termina com uma dispersão frutífera. Filipe continua pregando até Cesareia, e o eunuco retorna para a Etiópia, levando consigo a semente do Evangelho para uma nação inteira. A igreja se expande não através de estratégias humanas de marketing, mas através de indivíduos — sejam judeus, prosélitos, samaritanos ou eunucos estrangeiros — que foram capturados pelo amor de Deus.
Em última análise, esta narrativa de Atos nos convida a fazer parte desta comunidade singular: um povo que não se apoia em sua própria justiça, que não negocia a verdade para agradar a cultura vigente, mas que, arrependido e transformado, vive a alegria indizível de pertencer a Cristo. É a comunidade daqueles que morreram para o mundo para poderem, finalmente, viver para Deus.
18 - Filipe e o Eunuco - Zé Bruno - Meu Caro Amigo 2. https://youtu.be/aFJB9vRG4vQ