O Choque de Realidade: O Evangelho é Impossível de Viver?
Ao nos depararmos com o capítulo 6 do Evangelho de Lucas, especificamente a partir do versículo 27, somos confrontados com uma das passagens mais perturbadoras e radicais de toda a Escritura. Não se trata de uma teologia complexa ou de um mistério escatológico indecifrável, mas de uma ordem prática que colide frontalmente com a natureza humana e com o senso comum de justiça e sobrevivência.
Jesus, em seu discurso, estabelece um padrão de conduta que, à primeira vista, parece não apenas difícil, mas humanamente impossível de ser cumprido.
"Mas a vós, que ouvis, digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam; Bendizei aos que vos maldizem, e orai pelos que vos caluniam. Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses." (Lucas 6:27-29)
A leitura honesta destes versículos provoca uma reação visceral. A tendência natural não é a de submissão a este mandamento, mas a de rejeição. Surge o pensamento imediato de que, se esta é a condição inegociável para ser um seguidor de Cristo, então a continuidade da instituição religiosa ou da própria caminhada de fé se torna inviável. É neste momento que surge a provocação: "É hora de fechar a igreja".
Se o Cristianismo se resume a cumprir esta ordem — amar quem nos odeia, abençoar quem nos amaldiçoa e oferecer a outra face a quem nos agride —, a conclusão lógica para muitos é a desistência. A maioria das pessoas, inclusive dentro das comunidades de fé, não está disposta a viver sob tal regência. Existe uma preferência velada por um evangelho que ofereça conforto, prosperidade ou regras litúrgicas, em detrimento de um evangelho que exige a morte do ego e a anulação do direito de vingança.
A Dissonância entre o Culto e a Vida
Há uma discrepância notável entre a liturgia de domingo e a realidade da segunda-feira. No ambiente controlado do templo, fala-se de amor, entoam-se cânticos de entrega e realizam-se rituais de adoração. No entanto, diante da ofensa real, da calúnia no ambiente de trabalho ou da traição pessoal, a resposta automática é a retaliação, e não a graça.
O texto de Lucas remove a possibilidade de uma fé apenas cerimonial. Ele coloca o ouvinte diante de um espelho moral. Se alguém bate em seu rosto, a reação instintiva do ser humano não é oferecer a outra face; é revidar com maior intensidade para garantir que a agressão não se repita. A lógica da sobrevivência humana baseia-se na defesa e no ataque, não na vulnerabilidade voluntária.
Portanto, o mandamento de Cristo soa como uma loucura. Ele desafia a lógica da autopreservação. Se levarmos o texto a sério, somos forçados a admitir nossa incapacidade e nossa falência moral. A igreja, enquanto reunião de pessoas que supostamente seguem este Mestre, muitas vezes falha em ser o reflexo desta mensagem.
"E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira fazei-lhes vós também." (Lucas 6:31)
A "Regra de Ouro" é frequentemente citada, mas raramente compreendida em sua totalidade no contexto do amor ao inimigo. Não se trata apenas de reciprocidade com quem nos trata bem, mas de iniciar um ciclo de bondade mesmo diante da hostilidade.
Diante de tamanha exigência, a tentação é ignorar esta parte dos Evangelhos e focar em passagens mais palatáveis. No entanto, ignorar o cerne ético do ensino de Jesus é esvaziar o próprio significado de ser cristão. O choque de realidade que Lucas 6 proporciona é necessário: ou o Evangelho é uma transformação radical do caráter, que nos leva a fazer o impossível através da graça, ou é apenas um clube social religioso que deveria, de fato, fechar as portas por falta de propósito.
A Heresia Oculta: Ainda Somos Marcionitas?
Para compreender a resistência humana ao mandamento de amar os inimigos, é útil revisitar um conflito teológico dos primórdios do Cristianismo. Por volta do ano 140 d.C., um homem chamado Marcião de Sinope propôs uma visão que, embora condenada como heresia pela Igreja, revela muito sobre a psicologia religiosa.
Marcião acreditava na existência de dois deuses distintos. Para ele, o Deus do Antigo Testamento era uma divindade inferior, cruel, vingativa e sanguinária — o Demiurgo criador da matéria. Em contrapartida, o Deus revelado por Jesus no Novo Testamento seria o Deus bom, amoroso e espiritual. A "solução" de Marcião foi simples e drástica: ele removeu todo o Antigo Testamento de sua Bíblia e manteve apenas partes de Lucas e as cartas de Paulo que lhe convinham.
Hoje, vivemos um fenômeno curioso que poderia ser classificado como um "marcionismo invertido". Embora a igreja contemporânea aceite oficialmente toda a Bíblia, na prática, o comportamento de muitos cristãos sugere uma preferência seletiva pelo "Deus da vingança" em detrimento do "Deus da graça".
A Conveniência do "Deus dos Exércitos"
Quando nos sentimos ofendidos, injustiçados ou ameaçados, a figura do Jesus que ordena oferecer a outra face torna-se inconveniente. Ela nos desarma e nos deixa vulneráveis. Em busca de justificativa para o nosso desejo de retaliação, recorremos às narrativas do Antigo Testamento que retratam Deus como um guerreiro implacável.
É comum ouvir em discursos religiosos a invocação do "Deus de Elias", que faz descer fogo do céu para consumir os inimigos, ou citações dos Salmos imprecaterios (aqueles que pedem julgamento e destruição dos adversários).
"Porque se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam." (Lucas 6:32)
O cristão moderno, muitas vezes, age como um "ciborgue teológico": possui a aparência externa de seguidor de Cristo, mas opera internamente com o software da Lei de Talião ("olho por olho, dente por dente"). Há uma rejeição velada aos ensinos diretos de Jesus porque eles exigem a morte do "eu". É muito mais fácil e satisfatório para o ego apegar-se a uma leitura descontextualizada do Antigo Testamento para legitimar o ódio contra quem pensa diferente ou contra quem nos feriu.
A Bíblia como Buffet
Essa postura revela uma abordagem utilitária das Escrituras. Trata-se a Bíblia como um buffet self-service, onde se escolhe apenas o que agrada ao paladar do momento.
- Se o desejo é prosperidade, buscam-se textos de promessas de terra e riqueza dos patriarcas.
- Se o desejo é vingança, buscam-se as guerras de Josué.
- Mas quando o prato oferecido é "amai os vossos inimigos", a tendência é ignorá-lo ou racionalizá-lo para que perca sua força.
A heresia atual não é rasgar as páginas da Bíblia fisicamente, como fez Marcião, mas ignorar a supremacia da revelação de Cristo. Jesus não veio apenas para ser mais um profeta; Ele veio para revelar o caráter exato do Pai, corrigindo as distorções de interpretação e elevando o padrão moral a um nível que a lei antiga não alcançava.
Ao preferirmos o modelo de justiça retributiva do passado em vez da graça radical do presente, declaramos, na prática, que o caminho de Jesus é ineficiente para lidar com a realidade da vida. Escolhemos o deus que guerreia por nós e matamos o Deus que morre por nós.
Israel e a Igreja: Entendendo os Tempos e a Progressão da Revelação
Para resolver a aparente tensão entre o Deus que ordena guerras no Antigo Testamento e o Cristo que ordena o amor aos inimigos no Novo, é fundamental compreender a distinção de propósitos entre a nação de Israel e a Igreja, bem como a progressão da revelação divina na história.
Muitos conflitos de interpretação surgem quando tentamos aplicar as regras de sobrevivência de uma nação física e tribal a uma realidade espiritual e universal.
A Preservação Física da Nação
No Antigo Testamento, Deus estava lidando com a formação e a preservação de um povo específico, Israel. O objetivo primário era garantir que, através desta linhagem, o Messias viesse ao mundo. Israel era uma nação geográfica, política e étnica, cercada por impérios hostis e culturas bárbaras que desejavam sua extinção.
Nesse contexto histórico de brutalidade, a lei de talião ("olho por olho") não era uma licença para a vingança desmedida, mas um limite jurídico para impedir que a violência escalasse ao infinito. Da mesma forma, as guerras e a rigidez militar tinham o propósito de sobrevivência física. Se Israel fosse aniquilado, a promessa da redenção mundial através do Messias seria frustrada. A espada de Israel protegia o berço onde nasceria o Salvador.
A Revelação Plena em Cristo
Com a chegada de Jesus, o cenário muda drasticamente. O Reino de Deus deixa de ser identificado com uma fronteira geográfica ou uma etnia específica. O Reino agora é "dentro de vós" (Lucas 17:21), uma realidade espiritual acessível a todas as nações.
Jesus não vem para revogar a Lei, mas para cumpri-la e revelar a essência do caráter de Deus que estava, até então, obscurecida pela dureza do coração humano e pela pedagogia necessária de tempos anteriores.
"Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho..." (Hebreus 1:1)
Esta passagem indica que Jesus é a palavra final e definitiva de Deus. Ele é a "expressão exata do seu Ser" (Hb 1:3). Portanto, se queremos saber como Deus realmente é e como Ele deseja que ajamos, não devemos olhar para Josué destruindo Jericó como o padrão final, mas para Jesus na cruz perdoando seus algozes.
O Erro do Retrocesso
O problema teológico de muitos cristãos hoje é a tentativa de viver no Novo Testamento com a mentalidade do Antigo. É querer usufruir da Graça para a salvação, mas manter a Espada para a convivência.
A Igreja não é chamada para defender um território físico ou para eliminar inimigos carnais. A luta da Igreja não é contra "carne e sangue". Tentar justificar o ódio ou a violência hoje, usando versículos do Antigo Testamento, é cometer um anacronismo espiritual. É como ter a luz do sol (Cristo) disponível, mas preferir viver guiado pela luz de uma vela (a sombra das coisas futuras).
Quando Jesus ordena "amai os vossos inimigos", Ele está inaugurando a ética do Reino dos Céus, onde a vitória não se dá pela aniquilação do oponente, mas pela sua redenção através do amor sacrificial. A sobrevivência da Igreja não depende da força militar ou política, mas da fidelidade ao testemunho da cruz.
A Hipocrisia Religiosa: O "Santo" de Domingo e o Ódio Semanal
Uma das críticas mais contundentes presentes no discurso de Jesus em Lucas 6 é direcionada à superficialidade da prática religiosa que não transforma o caráter. Existe um fenômeno observável nas comunidades de fé: a facilidade com que se substitui a obediência ética pela performance ritualística.
É infinitamente mais fácil frequentar um culto, cantar hinos, dizimar e cumprir uma agenda de atividades eclesiásticas do que perdoar alguém que nos ofendeu. A religião, quando desprovida da graça transformadora, torna-se um refúgio para a hipocrisia. O indivíduo pode ser considerado um "santo" no domingo, cumprindo todos os protocolos sagrados, e transformar-se em um agente de ódio e discórdia durante a semana, sem sentir qualquer contradição nisso.
O Comércio da Fé
Essa desconexão ocorre porque, para muitos, a relação com Deus foi reduzida a um contrato comercial. A lógica opera da seguinte forma: "Eu faço a minha parte (vou à igreja, dou dinheiro, evito vícios óbvios) e Deus faz a parte Dele (me abençoa, me protege e destrói meus inimigos)".
Neste modelo de barganha, o "outro" — o próximo, e especialmente o inimigo — torna-se irrelevante. O foco é exclusivamente vertical e egoísta. No entanto, Jesus desmonta essa estrutura de mérito ao questionar a validade de uma bondade que é apenas recíproca.
"E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto." (Lucas 6:33-34)
Jesus estabelece um paralelo desconfortável. Ele afirma que, se o nosso amor se limita àqueles que nos amam (nossa família, nossos amigos, nossa "bolha" ideológica), não estamos fazendo nada de extraordinário. Mafiosos amam seus filhos; ditadores são gentis com seus aliados; corruptos protegem seus parceiros. A reciprocidade é um instinto natural de preservação e aliança, não uma virtude espiritual.
A Marca Distintiva do Cristão
O que define o cristão não é a capacidade de amar o amável, mas a disposição de amar o não-amável. Se a igreja é apenas um clube onde pessoas que pensam igual se reúnem para reforçar suas próprias convicções e rejeitar quem está fora, ela perdeu sua razão de existir.
A "graça" é, por definição, um favor imerecido. Se nós, que nos dizemos portadores dessa graça, apenas a dispensamos a quem "merece" (ou seja, quem nos trata bem), anulamos o próprio conceito que nos salvou.
A hipocrisia se manifesta quando celebramos o perdão de Deus para os nossos pecados gigantescos, mas nos recusamos a perdoar as dívidas minúsculas do nosso próximo. O texto de Lucas nos força a encarar que a verdadeira espiritualidade é medida pela nossa reação diante da ofensa, e não pela intensidade do nosso louvor. Se o culto não nos capacita a amar o inimigo, o culto foi em vão.
O Caminho Estreito da Cruz: Reconhecendo Nossa Própria Miséria
A conclusão inevitável a que chegamos, ao enfrentar honestamente o texto de Lucas 6, é que o Evangelho não é um manual de autoajuda para pessoas boas se tornarem melhores. É uma sentença de morte para o nosso ego. O mandamento de "amar os inimigos" funciona como um ultimato que expõe a nossa total incapacidade de produzir justiça própria.
Enquanto nos enxergarmos como os "heróis" da história — os justos, os corretos, os defensores da verdade — jamais conseguiremos amar aqueles que consideramos os "vilões". O amor ao inimigo só é possível quando reconhecemos que a distância moral entre nós e eles não é tão grande quanto nossa vaidade gostaria de acreditar.
Jesus nos lembra de nossa natureza caída com uma franqueza brutal em outro momento: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos..." (Lucas 11:13). Ele não diz "vós que sois imperfeitos", ele diz "vós que sois maus". A partir do momento que assumimos a nossa própria miséria e a nossa dependência desesperada da misericórdia divina, o olhar sobre o outro muda.
O Fim do Orgulho Espiritual
O caminho estreito da cruz não é estreito porque é cheio de regras arbitrárias sobre o que vestir ou comer. Ele é estreito porque não cabem nele o nosso orgulho e a nossa vontade de ter razão. Para passar por essa porta, é preciso deixar para trás o direito de vingança e a fantasia de superioridade moral.
"Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso." (Lucas 6:36)
A base para amar o inimigo não é a bondade do inimigo, nem a nossa própria força de vontade. A base é a imitação do Pai. Se Deus, sendo Santo, estende sua misericórdia a nós (que éramos seus inimigos por causa do pecado), quem somos nós para reter o perdão?
Conclusão: Fechar para Abrir
Talvez, de fato, seja "hora de fechar a igreja" — mas não a instituição física. É hora de fechar a "igreja" do nosso orgulho, a "igreja" da religiosidade de aparência, a "igreja" que seleciona quem merece amor. Precisamos encerrar as atividades do nosso "eu" vingativo para que o verdadeiro Evangelho possa, finalmente, abrir suas portas em nossos corações.
Ser cristão é aceitar o fracasso da nossa tentativa de sermos deuses de nós mesmos. É olhar para o mandamento impossível de Jesus e dizer: "Senhor, eu não consigo amar meu inimigo. A minha natureza quer destruí-lo. Por isso, preciso que o Teu Espírito viva em mim o que eu não consigo viver sozinho".
Nesse ponto de quebra, onde acaba a nossa justiça e começa a graça de Deus, é que o Cristianismo deixa de ser um fardo insuportável e se torna o poder de Deus para a salvação e transformação do mundo.
A Casa da Rocha. #16 - É hora de fechar a igreja - Zé Bruno - Meu Caro Amigo. https://www.youtube.com/live/8SrDcdWX1CE?si=h6yPdQ2kDCBjIeWF