3. Salvos de Si Mesmos

A Cruz como Início de Tudo

A jornada cristã começa na cruz. Este símbolo, longe de ser apenas um emblema religioso, representa o ponto de partida para uma nova vida em Cristo. Como mencionado no texto, "tudo começa na cruz" - ela é o início de tudo. Desde o princípio, antes mesmo da fundação do mundo, o sacrifício já estava planejado na mente de Deus.

A cruz exerce um poder de atração singular sobre aqueles que são chamados. Como Jesus mesmo disse:

"E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim" (João 12:32).

Há algo profundamente misterioso neste fenômeno - pessoas sendo atraídas não para o conforto ou para promessas de prosperidade, mas para um símbolo de sacrifício e entrega.

O povo da cruz é caracterizado por esta atração ao sacrifício, prontos para deixar para trás o que ficou para trás. Este abandono não é uma perda, mas um ganho incomparável. Paulo expressa esta realidade em Filipenses 3:8:

"Considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor."

Esta atração pela cruz não é natural ao ser humano. Normalmente, evitamos o sofrimento e buscamos conforto. No entanto, o paradoxo do evangelho é que encontramos vida através da morte - morte para o ego, para os desejos carnais, para a antiga maneira de viver. Este é o primeiro passo para entender o que significa ser o "povo da cruz" - reconhecer que tudo começa ali, no sacrifício perfeito de Cristo, planejado desde a eternidade e manifestado no tempo para nossa salvação.

O Conflito Interior: Paz e Guerra

Jesus proferiu palavras que, à primeira vista, parecem contraditórias:

"Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois eu vim para fazer que “o homem fique contra o seu pai; a filha, contra a mãe; a nora, contra a sogra. Os inimigos do homem serão os da sua própria família”. ― Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim; quem não toma a sua cruz e não me segue não é digno de mim. Quem acha a sua vida a perderá, mas quem, por minha causa, perde a própria vida a encontrará." (Mateus 10:34).

Esta declaração pode soar desconcertante para muitos, especialmente considerando que Jesus também é chamado de "Príncipe da Paz" (Isaías 9:6).

Este aparente paradoxo revela uma profunda verdade sobre a vida cristã. Quando encontramos Cristo, experimentamos uma paz interior que "excede todo entendimento" (Filipenses 4:7) - uma paz que vem do perdão, da misericórdia, da graça e da reconciliação com Deus. É uma paz que flui "de dentro para fora", resultado de nossa nova posição como filhos amados.

No entanto, simultaneamente, Cristo introduz um conflito em nossas vidas - não primariamente com o mundo exterior, mas conosco mesmos. Jesus não estava falando sobre uma guerra literal contra o Império Romano, como alguns de seus contemporâneos poderiam ter esperado. Em vez disso, referia-se a um conflito interior onde nossas paixões e tendências pecaminosas são confrontadas pelo Espírito de Deus.

Este conflito pode até se manifestar em nossas relações mais próximas, como Jesus adverte:

"Vim causar divisão entre o homem e seu pai, entre a filha e sua mãe, entre a nora e sua sogra" (Mateus 10:35).

Não que Jesus deseje a discórdia familiar, mas Ele está expondo uma verdade incômoda: quando alguém se compromete verdadeiramente com Cristo, suas prioridades mudam radicalmente, e isso pode criar tensão com aqueles que não compartilham da mesma fé.

O povo da cruz vive nesta tensão constante - experimentando a paz de Cristo enquanto batalha contra suas próprias inclinações pecaminosas. É um povo "em guerra consigo mesmo", constantemente questionando: "Por que sou assim? Por que fiz isso?" Esta guerra interior é, paradoxalmente, sinal de saúde espiritual e crescimento na graça.

Salvos do Antigo Jeito de Viver

Frequentemente, entendemos a salvação apenas como ser resgatado do inferno ou de um destino terrível após a morte. No entanto, o apóstolo Pedro apresenta uma perspectiva mais profunda e imediata da salvação:

"Pois vocês sabem que não foi mediante coisas perecíveis como prata ou ouro que vocês foram resgatados da vida inútil que seus pais lhes legaram, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula" (1 Pedro 1:18-19).

O texto destaca um aspecto crucial: fomos salvos "da vida inútil" ou "fútil". A salvação não é apenas uma realidade futura, mas uma transformação presente do nosso modo de vida. O sacrifício de Cristo nos resgatou de um estilo de vida vazio, sem propósito eterno, transmitido de geração em geração.

Esta libertação do antigo jeito de viver é o que caracteriza o povo da cruz como "salvo de si próprio". Há um reconhecimento profundo de que precisamos ser salvos não apenas de forças externas, mas de nossa própria natureza caída. Como Paulo expressou em Romanos 7:24:

"Miserável homem que eu sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?"

O verdadeiro cristão não se aceita como é. Após conhecer a graça, a misericórdia e o preço pago na cruz, ele descobre que também não quer mais permanecer em seu estado natural. Ao contemplar Cristo, reconhece nEle não apenas o Deus que não conseguia ver, mas também o ser humano ideal que não consegue ser.

Esta salvação de nós mesmos contrasta fortemente com a tendência contemporânea de buscar religiões que validem nosso comportamento atual. Muitos procuram um deus que os trate como se fossem deuses, que apenas confirme suas escolhas e desejos. O povo da cruz, porém, entende que Deus não nos aceita como somos - Ele nos ama demais para nos deixar assim. Em vez disso, Ele nos transforma à imagem de Seu Filho.

A Luta Contra Si Mesmo

O apóstolo Paulo descreve vividamente o conflito interno que todo cristão experimenta:

"Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito luta contra a carne; eles são opostos entre si, para que vocês não façam o que querem" (Gálatas 5:17).

Esta declaração revela uma verdade fundamental: existe uma oposição intrínseca entre nossa natureza humana pecaminosa e o Espírito de Deus que habita em nós.

O povo da cruz reconhece esta batalha interior como parte essencial de sua jornada espiritual. Não é uma luta imposta externamente ou uma restrição arbitrária, mas um conflito que surge naturalmente quando o Espírito Santo começa a transformar o coração. Paulo expressa esta tensão em Romanos 7:19-24:

"O bem que quero fazer não faço, mas o mal que não quero fazer, este eu continuo fazendo... Desventurado homem que sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte?"

Esta luta contra si mesmo não é motivada por obrigação legalista, mas por amor e paixão por Cristo. Paulo usa a metáfora do atleta olímpico que voluntariamente se submete a rigorosa disciplina - não por imposição externa, mas movido pelo desejo de alcançar o prêmio. O atleta renuncia a certos prazeres, segue uma dieta rigorosa e mantém um regime de treinamento exigente porque tem os olhos fixos no objetivo maior.

Da mesma forma, o cristão que entende o valor do prêmio - Cristo Jesus - está disposto a lutar contra suas próprias inclinações pecaminosas. Não é uma questão de "não poder" fazer certas coisas, mas de "não querer" fazê-las porque encontrou algo infinitamente mais valioso. Como Paulo afirma:

"Corro para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus" (Filipenses 3:14).

Esta batalha interna é contrária à cultura contemporânea que exalta a autoaceitação e a autoafirmação. O mundo diz "aceite-se como você é", enquanto o evangelho nos convida a morrer para quem somos naturalmente para que possamos nos tornar quem fomos criados para ser. É uma morte que leva à vida, uma perda que resulta em ganho inestimável.

Inimigos e Amigos da Cruz de Cristo

Paulo faz uma distinção clara em sua carta aos Filipenses:

"Pois muitos andam entre nós, dos quais repetidas vezes eu lhes dizia, e agora digo até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está naquilo que é vergonhoso, visto que só pensam nas coisas terrenas" (Filipenses 3:18-19).

Esta passagem revela que existe uma categoria de pessoas que, embora possam parecer religiosas, são na verdade hostis ao verdadeiro significado da cruz.

Os "inimigos da cruz" são caracterizados por uma rejeição à mensagem central do evangelho - a necessidade de morrer para si mesmo. Eles transformam a religião em um meio de autogratificação ("o deus deles é o ventre"), glorificam-se naquilo que deveria ser motivo de vergonha, e mantêm uma perspectiva exclusivamente terrena. Em essência, são pessoas que desejam os benefícios de Cristo sem o custo do discipulado.

Em contraste, os "amigos da cruz" abraçam a mensagem de auto-negação e transformação. Eles reconhecem que "a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo" (Filipenses 3:20). Esta orientação celestial não os torna inúteis para a vida terrena, mas redefine suas prioridades e valores.

Ser amigo da cruz significa aceitar o convite de Jesus:

"Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mateus 16:24).

É reconhecer que o caminho para a vida passa pela morte - morte para o ego, para a autonomia, para a autodeterminação. É entender que a verdadeira liberdade não consiste em "fazer o que quero", mas em ser libertado do domínio do pecado para servir a Cristo.

Os amigos da cruz não são pessoas que simplesmente admiram o sacrifício de Cristo de longe, mas que permitem que esse sacrifício molde suas vidas diariamente. Eles entendem que a cruz não é apenas um evento histórico, mas um padrão para a vida cristã - um chamado contínuo para morrer para o pecado e viver para a justiça.

Transformação do Ser: O Verdadeiro Evangelho

O cerne do evangelho não é primariamente sobre mudar o mundo exterior, mas sobre a transformação interior do indivíduo. Como destacado no texto, "Evangelho é sobre transformação de ser." Esta verdade fundamental frequentemente se perde em meio a tentativas de reformar estruturas sociais ou corrigir injustiças sistêmicas - esforços que, embora nobres, não constituem a essência da mensagem cristã.

Paulo expressa esta realidade transformadora em 2 Coríntios 5:17:

"Se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!"

Esta renovação não é superficial ou cosmética, mas uma recriação profunda do ser. O apóstolo também descreve este processo como uma metamorfose contínua:

"E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na sua própria imagem, pelo Espírito do Senhor" (2 Coríntios 3:18).

A transformação cristã ocorre de dentro para fora, não de fora para dentro. Não podemos mudar o mundo inteiro, mas podemos permitir que o Espírito de Deus nos transforme. Como mencionado no texto: "Se nós aqui vivermos o reino de Deus, quem entrar aqui vai ver o reino de Deus não porque transformamos o mundo, mas porque nós somos novas criaturas."

Esta perspectiva reorienta completamente nossa compreensão da missão cristã. Não fazemos boas obras para mudar o mundo, mas porque fomos mudados. Não agimos com compaixão para alcançar um objetivo externo, mas porque a compaixão de Cristo agora habita em nós. Como o texto afirma: "Eu não faço porque eu tenho um objetivo, eu faço porque eu tenho uma origem. Eu faço porque o sangue me lavou, eu não consigo mais reproduzir o comportamento vigente."

O verdadeiro evangelho nos liberta da pressão de "consertar tudo", reconhecendo nossas limitações humanas, enquanto simultaneamente nos capacita a viver como agentes de transformação em nossos círculos de influência. A mudança que Cristo opera em nós - mortificando o velho homem e fazendo surgir o novo - é o testemunho mais poderoso do evangelho em um mundo quebrado e confuso.

Esta transformação é contínua e muitas vezes dolorosa, envolvendo lutas constantes contra nossa natureza pecaminosa. No entanto, é uma guerra que travamos com alegria, sabendo que cada vitória sobre nós mesmos é um passo em direção à semelhança com Cristo, nosso objetivo final.


CASA DA ROCHA. 03 - Salvos de Si Mesmos - Zé Bruno - O povo da Cruz. YouTube, 19 de janeiro de 2025. 36min16s. Disponível em: https://www.youtube.com/live/F9Mmg6yNqVI. Acesso em: 17 de julho de 2025.

Avatar de diego
há 1 mês
Matéria: Religião
Artigo
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