9. Por Que Jesus Não Confia em Nós? Uma Análise Profunda da Natureza Humana à Luz da Fé

1. Introdução: O Ponto de Partida em João 2:24-25

No Evangelho de João, encontramos uma passagem curta, mas de profunda densidade teológica, que serve como um portal para a compreensão da condição humana. Após realizar sinais em Jerusalém e muitos crerem em seu nome, o texto afirma sobre Jesus:

"Mas o próprio Jesus não se confiava a eles, porque os conhecia a todos. E não precisava de que alguém lhe desse testemunho a respeito do homem, porque ele mesmo sabia o que havia no homem" (João 2:24-25).

Uma análise mais atenta das traduções bíblicas revela nuances significativas. Algumas versões dizem que Jesus "não confiava neles", enquanto outras, como a citada, afirmam que ele "não se confiava a eles". Ambas as leituras são textualmente possíveis e convergem para uma mesma verdade central. O verbo grego em questão, pisteuō, é a raiz da palavra para "fé" (pistis) e carrega o sentido de crer, confiar ou entregar-se. Portanto, a passagem indica que Jesus, mesmo diante da aparente fé da multidão, mantinha uma reserva fundamental, não se entregando nem depositando sua confiança neles.

A razão para essa postura é explicitada de forma inequívoca: Ele conhecia a natureza humana em sua totalidade. Não se tratava de uma desconfiança baseada em experiências passadas, mas de um conhecimento divino e intrínseco sobre a essência do ser humano.

Este ponto estabelece um abismo intransponível entre a humanidade de Cristo e a nossa. Embora a fé cristã afirme que Jesus foi plenamente humano, a sua condição era única. A teologia, especialmente nos concílios dos primeiros séculos, consolidou a doutrina de que Ele era, simultaneamente, totalmente homem e totalmente Deus. A sua humanidade não pode ser equiparada à nossa. Enquanto Cristo representa a união perfeita do divino e do humano, a humanidade comum é descrita nas Escrituras como uma natureza que, por si só, luta com suas próprias inclinações e limitações.

A complexidade da encarnação, que envolve mistérios como o "esvaziamento" de si mesmo mencionado pelo apóstolo Paulo em Filipenses 2:5-7, apenas reforça essa distinção. Jesus não precisava de testemunho sobre as pessoas porque Ele é o próprio Criador que sonda mentes e corações. Essa percepção divina sobre a fragilidade e as inclinações da natureza humana é o ponto de partida para entendermos por que a redenção se faz necessária e qual é, de fato, a nossa condição fundamental.


2. A Origem da Queda: Gênesis 3 e a Escolha Ontológica

Para compreender a profundidade do Evangelho e a necessidade da redenção, é indispensável retornar ao seu ponto de partida narrativo: o capítulo 3 do livro de Gênesis. Este relato não é apenas uma história sobre uma fruta proibida, mas a descrição de um evento que redefiniu a condição humana. Sem entender o que aconteceu no Éden, a vinda de Cristo perde parte de seu significado crucial.

A narrativa da queda oferece uma resposta a uma das mais antigas questões filosóficas: o que é o mal e de onde ele vem? Segundo essa perspectiva, o mal não é uma força autônoma ou uma substância criada, mas a ausência de Deus. Como afirma o apóstolo Paulo em Atos 17:28, "pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos". Fora dessa esfera divina, onde todo o bem habita, resta apenas o vazio, a negação da vida – o mal. Antes da queda, Adão e Eva conheciam apenas o bem, pois viviam imersos na presença de Deus.

Muitos questionam por que Deus colocaria a árvore do conhecimento do bem e do mal no jardim, parecendo criar uma armadilha. Contudo, a teologia, em especial com pensadores como Agostinho de Hipona, argumenta que sem a árvore, a humanidade seria "escrava da virtude". O amor genuíno pressupõe liberdade. Para que a relação entre Deus e o homem fosse baseada em um compromisso livre e não em uma imposição, a opção de conhecer a vida fora de Deus precisava existir. A árvore era, portanto, um símbolo da liberdade concedida ao homem.

A transgressão no Éden foi mais do que uma simples desobediência; foi uma decisão ontológica — uma escolha que alterou a própria natureza do ser (do grego ontos, "ser"). Ao comer do fruto, o homem não apenas desobedeceu a uma ordem, mas buscou para si o direito de definir o que é bom e o que é mau, independentemente de seu Criador. Foi uma tentativa de se tornar o seu próprio deus.

Essa escolha o lançou para fora da esfera onde a vida — que é o próprio Deus — impera. Ao escolher conhecer a existência na ausência de Deus, ele escolheu, em essência, a morte. Sua própria constituição como ser foi alterada, passando de uma existência vivida à imagem e semelhança de Deus para uma existência marcada pela finitude, pela corrupção e pela malícia. Essa mudança fundamental na essência humana é o que a teologia chama de "queda", um evento que estabeleceu a base para a condição decaída de toda a humanidade.


3. O Estado Decaído: A Natureza Humana Pós-Éden

A decisão ontológica de viver à parte de Deus, iniciada em Gênesis, resultou no que a teologia cristã denomina "estado decaído". Essa não é apenas uma condição moral, mas uma alteração fundamental na constituição do ser humano. O teólogo Dietrich Bonhoeffer, em sua obra Ética, oferece uma perspectiva esclarecedora sobre essa mudança. Ele argumenta que, antes da queda, o homem conhecia a Deus e, a partir de Deus, conhecia todo o resto. Após a queda, o homem passa a conhecer tudo "fora de Deus e contra Deus", estabelecendo a si mesmo como o juiz final do bem e do mal.

Essa nova condição é uma espécie de "downgrade" ou degeneração. O ser humano não é mais aquele originalmente criado; ele se tornou uma versão corrompida. O mal deixou de ser uma possibilidade externa para se tornar um elemento intrínseco, entranhado na essência humana. Não é como um vírus que infecta um corpo saudável, mas uma condição que passa a fazer parte da própria definição desse corpo.

Nesse contexto, é crucial fazer uma distinção: a humanidade pós-Adão não é "criada" por Deus da mesma forma que o primeiro homem foi. Adão foi criado do pó da terra, mas seus descendentes são "gerados" a partir dele. Essa geração implica a transmissão de sua natureza já decaída. O pecado, portanto, torna-se análogo a uma característica hereditária, parte do "DNA" espiritual da humanidade.

O apóstolo Paulo descreve vividamente essa realidade na carta aos Efésios, capítulo 2. Ele afirma que estávamos "mortos em nossas transgressões e pecados" (v. 1), mesmo enquanto respirávamos fisicamente. Essa morte é um estado espiritual, uma separação de Deus. Paulo continua, explicando que vivíamos "segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos", e conclui com uma afirmação contundente: "e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais" (v. 3). A expressão "por natureza" reforça que essa condição não é apenas resultado de ações individuais, mas é o estado inato de todo ser humano desde o seu nascimento.


4. Anomia: A Rebelião Interior e o Desejo como Soberano

A condição decaída da humanidade se manifesta em uma tendência fundamental que o apóstolo Paulo, em sua segunda carta aos Tessalonicenses, chama de "iniquidade". Ao falar sobre os eventos do fim dos tempos, ele menciona a revelação do

"homem da iniquidade, o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, apresentando-se como se fosse o próprio Deus" (2 Tessalonicenses 2:3-4).

A palavra grega traduzida como "iniquidade" neste trecho é anomia, um termo de imensa profundidade teológica. É formada pela junção de nomos (lei) com o prefixo "a", que indica negação ou ausência. Literalmente, anomia significa "ausência de lei". No entanto, seu significado vai além da simples ilegalidade. Anomia descreve a disposição interior de rejeitar qualquer autoridade externa e divina, estabelecendo o "eu" como a única fonte de moralidade e propósito. É a atitude que declara: "Ninguém manda em mim; eu faço o que eu quero".

Nesse estado, o ser humano efetivamente ocupa o lugar de Deus em sua própria vida, criando suas próprias regras e definindo o bem e o mal com base em seus próprios desejos e percepções. Essa autonomia autoimposta leva a uma consequência paradoxal: a escravidão ao próprio desejo. A noção popular de que a liberdade consiste em poder fazer tudo o que se quer é, sob a ótica cristã, a definição de aprisionamento. Quando uma pessoa é governada por suas vontades, reações e impulsos, ela não é verdadeiramente livre, mas escrava de sua própria natureza.

A perspectiva bíblica inverte essa lógica. A verdadeira liberdade não é a capacidade de satisfazer todos os desejos, mas o poder de vencê-los e ser livre deles para tomar a decisão correta. Liberdade é a capacidade de, ao receber uma ofensa, transcender o desejo instintivo de revidar e escolher um caminho superior. É a libertação do domínio do "eu" para viver sob a vontade de Deus. A anomia, portanto, representa o ápice da condição humana desvinculada de seu Criador: um estado onde a busca pela autonomia absoluta resulta na mais profunda forma de servidão interior.


5. A Luta Interior: A Carne Contra o Espírito

Esta condição decaída se traduz, na experiência diária, em uma batalha interna incessante. Ninguém descreveu este conflito de forma mais visceral que o apóstolo Paulo na carta aos Romanos. No capítulo 7, ele expõe sua própria luta com uma honestidade desconcertante:

"Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto" (Romanos 7:15).

Paulo reconhece que, em sua mente, ele se deleita na lei de Deus, mas percebe "outra lei" em seu corpo, "guerreando contra a lei da minha mente, que me faz prisioneiro da lei do pecado" (v. 22-23). Ele identifica que o problema não é externo, mas interno:

"Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum" (v. 18).

Sua conclusão é revolucionária: o ser humano não se torna pecador porque comete pecados; ele comete pecados porque sua natureza já é pecadora. As ações são apenas o sintoma da condição essencial. O grito de desespero de Paulo — "Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?" (v. 24) — ecoa a experiência de todos que tomam consciência dessa guerra interior.

Essa tensão é sintetizada em Gálatas 5:17:

"Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne; e estes se opõem um ao outro, para que não façais o que quereis".

É fundamental compreender que essa "carne" (sarx, no grego) não se refere apenas ao corpo físico, mas à totalidade da natureza humana decaída, com seus desejos e inclinações contrários a Deus.

Isso significa que o mal contra o qual se luta não é primariamente um "demônio a ser expulso", mas uma força intrínseca. Embora a teologia cristã reconheça a existência de forças espirituais malignas, a batalha mais fundamental e constante ocorre dentro do próprio indivíduo. Se o problema fosse meramente externo, a solução seria mais simples. Contudo, por ser parte da constituição humana decaída, a luta é permanente e exige uma dependência contínua de um poder superior. Não há uma "oração" que remova de vez a natureza pecaminosa; há uma jornada de submissão diária ao Espírito.


6. O Caminho da Redenção: Negação, Cruz e o Amor Incondicional

Diante de uma natureza em conflito e inclinada à autodeterminação, a solução apresentada por Cristo é radical e contraintuitiva. Não é um caminho de autoaperfeiçoamento ou de realização pessoal nos moldes do mundo, mas um chamado à morte: "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mateus 16:24). Este é o cerne da proposta cristã: a rendição da vontade própria e a submissão à vontade de Deus.

Esta proposta colide frontalmente com vertentes teológicas que apresentam a fé como um meio para a realização dos desejos pessoais. A pregação que promete que Deus satisfará as vontades e ambições humanas é, sob essa ótica, um perigoso reforço da anomia — a mesma tendência de ser o seu próprio deus que caracteriza o estado decaído. O Evangelho não chama as pessoas para terem o que querem, mas para deixarem de querer o que querem, a fim de desejar o que Deus quer.

O que, então, motiva alguém a seguir um caminho de abnegação? A resposta está na natureza do amor de Deus. Este amor não se baseia no valor inerente do ser humano. A ideia de que Deus morreu na cruz porque a humanidade "tinha valor" é subvertida pela lógica bíblica. A Escritura, em passagens como Efésios 2, argumenta o oposto. O apóstolo Paulo é explícito:

"Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores" (Romanos 5:8).

A grandeza do amor divino não é revelada ao morrer por alguém digno, mas ao entregar-se por aqueles que não valiam nada e não mereciam nada. É um amor de pura graça, que não busca retorno nem se baseia em mérito. É precisamente porque a humanidade é vista como decaída e sem valor próprio que o sacrifício de Cristo se torna uma demonstração de amor de magnitude incompreensível.

A compreensão dessa dinâmica resulta, inevitavelmente, na humildade. Quando um indivíduo reconhece a profundidade de sua própria condição pecaminosa e a imensidão do amor imerecido que recebeu, a arrogância e a autossuficiência são desmanteladas. A postura correta diante de Deus não é a de quem exige, mas a de quem agradece por uma salvação que jamais poderia alcançar por si mesmo.


7. Conclusão: A Humildade Diante daquele que Sonda os Corações

A afirmação de que Jesus "não se confiava" ao ser humano porque "sabia o que havia no homem" serve como uma moldura para toda a teologia da condição humana. Ele, o Criador, conhece a obra de suas mãos e a subsequente degeneração causada pela escolha da autonomia. Por fora, podemos parecer justos, mas por dentro, como "sepulcros caiados" — uma imagem que o próprio Cristo usou —, reside uma natureza decaída, governada pela anomia e travando uma batalha constante contra si mesma.

A grande e transformadora verdade do Evangelho reside neste paradoxo: Aquele que não confia em nós é o mesmo que nos ama incondicionalmente. Ele não deposita fé na nossa capacidade, mas morreu por nossa incapacidade. Seu amor não é uma resposta ao nosso valor, mas a fonte de todo valor que podemos vir a ter.

A resposta a essa realidade não é o orgulho espiritual ou a busca por uma divindade que valide nossos desejos, mas uma humildade profunda e transformadora. O ambiente da fé, portanto, não é uma assembleia de pessoas perfeitas, mas uma comunidade de indivíduos que reconheceram sua própria falência. É um lugar para aqueles que pararam de acreditar em si mesmos para depositar toda a sua confiança em Cristo; para aqueles que entenderam que a verdadeira vida não está em ser o que se é, mas em lutar para se tornar aquilo que Deus os chama a ser.

A jornada cristã é, em essência, uma luta diária contra a própria natureza, um processo de negar a si mesmo e tomar a cruz. É um caminho percorrido não com a confiança em si mesmo, mas com a total dependência daquele que, conhecendo o pior de nós, ainda assim nos oferece o melhor de si: a Sua graça, o Seu amor e a Sua vida.


Fixação de Conteúdo

Imagine que Jesus consegue olhar para dentro do nosso coração como se ele fosse de vidro. Ele vê tudo o que está lá: as coisas boas, os medos e também uma baguncinha. É por isso que o texto diz que Ele não confiava totalmente nas pessoas, pois sabia que, por dentro, somos um pouco "quebrados".

Essa parte "quebrada" começou há muito tempo, quando as primeiras pessoas, Adão e Eva, escolheram seguir suas próprias regras em vez de ouvir a Deus. A partir daí, todos nós nascemos com essa vontade de sermos os nossos próprios chefes, gritando "eu faço o que eu quero!".

Por causa disso, parece que sempre existe uma briga de cabo de guerra dentro de nós. Um lado quer fazer o certo, ser bom e amar os outros. O outro lado nos puxa para o egoísmo e para as vontades que, às vezes, machucam a gente e os outros.

E o mais incrível de tudo é que, mesmo sabendo dessa nossa bagunça interna, Deus nos amou de um jeito gigantesco. Ele não esperou a gente se consertar para nos amar. Ele enviou Jesus para nos resgatar no meio da nossa bagunça e nos mostrar o caminho certo.

Esse caminho não é sobre ter tudo o que queremos, mas sobre aprender a soltar o nosso lado do cabo de guerra e deixar Deus nos guiar. É por isso que não podemos ser orgulhosos. Somos todos como crianças aprendendo a andar, que caem e levantam, mas que têm um Pai amoroso que nunca desiste de nos ensinar a caminhar direito.


Frase para reflexão: O amor de Deus não encontra valor em nós para nos amar; ele cria valor em nós porque nos ama.



CASA DA ROCHA. 09 - Compreendendo a natureza humana - Zé Bruno - Quem é Jesus. YouTube, 29 de junho de 2025. 51min17s. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nX27FL_g1JA. Acesso em: 23 de julho de 2025.

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há 1 mês
Matéria: Religião
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