2. O Povo da Cruz: Atraidos pelo Sacrifício, não pelo Ganho

1. A Misteriosa Atração pela Cruz

Existe uma misteriosa atração que puxa os seguidores de Cristo para a cruz, ao mesmo tempo em que os leva a negar a si mesmos. O povo da cruz é aquele que é atraído por ela e para ela, descobrindo que a cruz está no início de tudo. Nossa identidade cristã, tudo o que somos, vem da cruz - é dela que viemos e é para ela que vamos.

Esta atração contraria a lógica humana natural. Jesus mesmo demonstrou isso quando, próximo ao momento de sua crucificação, expressou:

"Agora a minha alma está angustiada, e o que eu direi? Pai, salva-me desta hora? Não, pois foi precisamente com esse propósito que eu vim para esta hora" (João 12:27).

A cruz não foi um acidente na vida de Jesus, mas seu propósito central. Mesmo diante do sofrimento iminente, ele não pediu para ser livrado, pois compreendia que sua missão era justamente aquela. Como ele mesmo declarou:

"A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra." (João 4:34)

Essa atração pela cruz vai contra o que o mundo nos ensina. Enquanto a sociedade nos diz que a vida plena vem de fazer o que queremos, Jesus nos mostra que a verdadeira vida vem do sacrifício, da entrega, da negação. Ele não nos chamou para uma vida de facilidades, mas para uma vida de entrega e serviço, onde encontramos nossa verdadeira identidade.

Os que são atraídos pela cruz descobrem que ela não é apenas um símbolo, mas o centro de sua existência. Como um déjà vu espiritual, reconhecem na cruz seu verdadeiro lar, o lugar onde tudo começou e para onde tudo se direciona.

2. Quando Perder é Ganhar: A Inversão de Valores no Reino

Jesus apresentou um dos paradoxos mais profundos do evangelho quando disse:

"Quem ama a sua vida perde-a, mas aquele que odeia a sua vida nesse mundo vai preservá-la para vida eterna" (João 12:25).

Esta declaração desafia completamente nossa lógica humana que busca preservar, acumular e proteger.

No reino de Deus, os valores são invertidos. Jesus ilustrou isso com a parábola do grão de trigo: assim como a semente precisa "morrer" na terra para produzir fruto, também nós precisamos morrer para nós mesmos para encontrar a verdadeira vida. A vida não está no que possuímos agora, mas no que entregamos.

Vemos esta inversão de valores na história dos discípulos. Quando Jesus os chamou dizendo:

"Venham comigo e eu os farei pescadores de homens" (Mateus 4:19)

Eles responderam prontamente:

"Deixaram imediatamente as redes e o seguiram" (Mateus 4:20).

Não foram atraídos pela promessa de sucesso ou prosperidade, mas pelo chamado ao sacrifício.

É revelador que após a ressurreição, quando os discípulos voltaram momentaneamente à pesca e não pegaram nada, Jesus providenciou uma pesca milagrosa (João 21). Mas este não era um sinal de que deveriam continuar pescando - era uma demonstração de que, embora Deus proveja nossas necessidades, nosso chamado vai além da provisão material.

Paulo reforçou este princípio quando escreveu aos filipenses:

"Vocês receberam a graça de sofrer por Cristo, não somente de crer nele" (Filipenses 1:29).

Na economia do reino, o sofrimento por Cristo não é uma desgraça, mas uma graça - um presente que nos permite participar da obra redentora.

Os cultos mais cheios costumam ser os "cultos da vitória", quando deveriam ser os "cultos da derrota" - onde celebramos não o que ganhamos, mas o que deixamos para trás por amor a Cristo. O povo da cruz entende que a verdadeira vida não está no acúmulo, mas na entrega.

3. O Verdadeiro Significado do Sacrifício na Vida Cristã

O sacrifício na vida cristã vai muito além de meras doações financeiras ou participação em atividades religiosas. Trata-se de uma luta interna constante contra nossa própria natureza. Paulo descreveu esta batalha em suas cartas, afirmando que lutava contra o pecado que habitava nele:

"Eu esmurro o meu próprio corpo... vejo nos meus membros uma vontade e um desejo que lutam contra a minha consciência" (Romanos 7).

Esta luta envolve crucificar diariamente o "velho homem" com seus desejos e paixões. Não é uma batalha contra forças externas, mas contra nossos próprios impulsos egoístas. O sacrifício cristão significa resistir à tentação de colocar nossos desejos acima da vontade de Deus.

Jesus foi claro ao advertir seus seguidores sobre o custo do discipulado. Ele não prometeu uma vida fácil, mas uma vida de perseguição:

"Bem-aventurados são vocês quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vocês" (Mateus 5:11).

Ao invés de fugir dessas dificuldades, Jesus instruiu seus seguidores a se alegrarem, pois grande seria sua recompensa nos céus.

O apóstolo Paulo exemplificou esta vida de sacrifício. Ele, que era respeitado e tinha autoridade para perseguir cristãos, trocou tudo isso pela perseguição. Em Filipenses, ele declarou:

"O que para mim era lucro, eu reputei por perda... para alcançar a Cristo e nele ser reconhecido, não com justiça própria, mas pela graça de Deus."

O verdadeiro sacrifício não é motivado por obrigação, mas por amor. Assim como pais fazem sacrifícios pelos filhos não por dever, mas por amor, também o cristão sacrifica-se por amor a Cristo e ao próximo. O sacrifício cristão não é um peso quando entendemos que estamos apenas respondendo ao sacrifício maior que Cristo fez por nós.

Enquanto o mundo valoriza o acúmulo, o cristão valoriza a renúncia. Não por masoquismo espiritual, mas por compreender que nossa verdadeira vida está em Cristo, não nas coisas que possuímos ou nas posições que ocupamos.

4. A Vida como Culto: Apresentando-se como Sacrifício Vivo

Paulo revolucionou o conceito de adoração quando escreveu:

"Apresentem o vosso corpo como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o vosso culto racional" (Romanos 12:1).

Esta declaração transformou completamente a compreensão do que significa adorar a Deus.

No Antigo Testamento, o culto estava intrinsecamente ligado ao templo e à oferta de sacrifícios. As pessoas iam ao templo para oferecer um animal como sacrifício - este era o único propósito do culto. Não havia louvor organizado, pregação ou outras atividades que associamos hoje às reuniões de igreja. Cultuar significava oferecer um sacrifício.

Paulo explica que agora existe uma nova lógica: não precisamos mais oferecer sacrifícios de animais porque Cristo já foi o sacrifício definitivo. Agora, nós mesmos somos o sacrifício. Nossa vida diária, nossa ética, nossa conduta - tudo isso constitui nosso verdadeiro culto a Deus.

Esta perspectiva muda radicalmente nossa compreensão das reuniões dominicais. O que chamamos de "culto" aos domingos seria melhor descrito como uma "celebração" - um momento em que todos os "sacrifícios vivos" (os crentes) se reúnem para celebrar juntos. Mas o verdadeiro culto acontece quando saímos do edifício da igreja e vivemos nossas vidas como sacrifícios agradáveis a Deus.

Deus não está interessado apenas em nossos cânticos de domingo ou em nossas ofertas financeiras. Ele observa nossa vida como um todo - nossa honestidade nos negócios, nossa integridade nas relações, nossa ética no trabalho. É isso que verdadeiramente O glorifica. Como Paulo disse:

"Seja que comais, seja que bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (1 Coríntios 10:31).

"Nós vivemos de morte em morte e de ressurreição em ressurreição". Cada dia morremos um pouco mais para nosso velho homem e renascemos mais semelhantes a Cristo. Este processo contínuo de mortificação e renovação é o verdadeiro culto que agrada a Deus.

5. A Cruz como Origem e Destino do Cristão

A cruz de Cristo não é apenas um evento histórico ou um símbolo religioso. Para o cristão, ela é tanto a origem quanto o destino. A cruz é o ponto de partida da nossa vida espiritual e o lugar para onde somos continuamente atraídos.

O conceito de déjà vu espiritual pode ser aplicado aqui. Quando nos aproximamos da cruz, sentimos que encontramos nosso verdadeiro lar. É como se já tivéssemos estado ali antes, porque, de fato, tudo começou na cruz. A cruz é onde nossa velha vida termina e uma nova vida em Cristo começa.

Paulo, o apóstolo, viveu essa realidade intensamente. Quando chamado para seguir a Cristo, ele deixou para trás sua posição de prestígio e as honrarias que tinha como fariseu. Ele declarou aos filipenses:

"Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro" (Filipenses 1:21).

Entendendo que a verdadeira vida estava em Cristo, Paulo não hesitou em abraçar a cruz, mesmo que isso significasse sofrimento e perseguição.

Este entendimento nos leva a uma postura de entrega contínua. Somos chamados a viver cada dia como um sacrifício, a morrer um pouco mais para nós mesmos e permitir que Cristo viva em nós. A cruz é o lugar onde renunciamos nossos próprios desejos e abraçamos a vontade de Deus.

O povo da cruz sabe que seu destino final está ligado à cruz. Como Jesus disse:

"Quem quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mateus 16:24).

Este chamado é um convite à entrega total, à confiança absoluta naquele que morreu por nós.

Ser atraído pela cruz é estar disposto a seguir o caminho de Cristo, sabendo que, embora envolva sofrimento e renúncia, culmina em vida e ressurreição. É um caminho de perda aos olhos do mundo, mas de ganho eterno no reino de Deus. Assim, somos constantemente atraídos para a cruz, onde encontramos nossa verdadeira identidade e destino em Cristo.


CASA DA ROCHA. 02 - Atraídos pela Cruz - Zé Bruno - O povo da Cruz. YouTube, 12 de janeiro de 2025. 46min59s. Disponível em: https://www.youtube.com/live/8TT7zyVLFfA. Acesso em: 14 de julho de 2025.

Avatar de diego
há 1 mês
Matéria: Religião
Artigo
48

0 Comentários

Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!

Você precisa entrar para comentar.