10 - O novo nascimento e o reino - Zé Bruno - Quem é Jesus?

Introdução: O Contexto do Encontro Noturno

Poucos diálogos na narrativa bíblica são tão densos e transformadores como o encontro entre Jesus e Nicodemos, registrado no capítulo 3 do Evangelho de João. Esta passagem não é apenas um relato histórico, mas uma profunda exploração teológica sobre a natureza da salvação e o ingresso no Reino de Deus. Para compreender plenamente sua riqueza, é fundamental entender que este capítulo não se apresenta de forma isolada. Na estrutura narrativa do evangelista João, o diálogo com Nicodemos forma um par complementar com o encontro de Jesus com a mulher samaritana, descrito no capítulo 4.

Essas duas conversas, embora distintas, são como duas faces da mesma moeda, revelando a universalidade e a profundidade da mensagem de Cristo. De um lado, temos Nicodemos: um homem, fariseu, mestre da lei e membro da elite religiosa judaica, que busca Jesus sob o manto da noite. Do outro, uma mulher, samaritana, com uma complexa história pessoal e marginalizada pela sociedade, que encontra Jesus em plena luz do dia, junto a um poço.

Juntos, esses dois episódios demonstram como o evangelho se destina a todos, independentemente de sua posição social, conhecimento teológico ou histórico de vida. Eles estabelecem o alicerce para um dos temas centrais do Evangelho de João: a necessidade de uma transformação espiritual radical, um "novo nascimento", como condição indispensável para experimentar a vida em Deus. Ao analisar a conversa com Nicodemos, mergulhamos na primeira parte desta revelação fundamental sobre quem é Jesus e o que Ele veio oferecer à humanidade.


Quem era Nicodemos? Um Mestre em Israel em Busca de Respostas

Para compreender a profundidade do diálogo que se segue, é essencial primeiro entender quem era o interlocutor de Jesus. O texto o apresenta como Nicodemos, "um homem dentre os fariseus" e "um dos principais dos judeus" (João 3:1). Essas descrições são carregadas de significado. Como fariseu, ele pertencia a um grupo religioso conhecido por sua estrita observância da Lei de Moisés e das tradições orais. A designação "principal dos judeus" sugere fortemente que ele era um membro do Sinédrio, a suprema corte religiosa e civil de Israel. Portanto, Nicodemos não era um mero curioso, mas uma autoridade, um pilar do sistema religioso estabelecido.

O fato de ele procurar Jesus "de noite" (João 3:2) é igualmente simbólico e tem gerado diversas interpretações. Poderia indicar um receio de ser visto com um mestre popular cujos ensinamentos já começavam a desafiar a ordem vigente, ou talvez a busca por um momento de tranquilidade, longe das multidões, para uma conversa mais profunda e sem interrupções. Independentemente da motivação, o cenário noturno cria uma atmosfera de confidencialidade e seriedade.

A abordagem de Nicodemos é respeitosa e reveladora. Ele se dirige a Jesus como "Rabi", um título de honra que significa "Mestre", reconhecendo a autoridade de Seus ensinamentos. Sua declaração inicial é crucial:

"Rabi, sabemos que o senhor é Mestre vindo da parte de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que o senhor faz, se Deus não estiver com ele" (João 3:2).

O uso do plural "sabemos" pode indicar que ele não falava apenas por si, mas representava um sentimento de curiosidade e reconhecimento que existia entre outros líderes religiosos.

Contudo, a base para esse reconhecimento estava nos "sinais" — os milagres que Jesus realizava. Nicodemos, como muitos na época, estava impressionado com as manifestações de poder, mas sua compreensão ainda era superficial. Ele via a evidência externa, mas, como Jesus estava prestes a revelar, ainda não conseguia enxergar a realidade espiritual mais profunda que esses sinais apontavam: o próprio Reino de Deus.


O Conceito Central: A Necessidade de Nascer de Novo

Diante do reconhecimento de Nicodemos, que se baseava nos milagres visíveis, Jesus redireciona a conversa de forma abrupta e profunda. Ele não valida a observação de Nicodemos nem se aprofunda na discussão sobre os sinais. Em vez disso, vai diretamente ao cerne da questão espiritual, apresentando uma condição inegociável para a verdadeira compreensão: o novo nascimento.

Com a solenidade que caracteriza seus ensinamentos mais importantes, Jesus declara:

"Em verdade, em verdade lhe digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus" (João 3:3).

Essa afirmação desloca o foco do que se pode fazer para o que se deve ser. Não se tratava mais de seguir preceitos ou interpretar a lei com rigor, como um fariseu faria, mas de passar por uma transformação fundamental na própria essência do ser.

A reação de Nicodemos expõe a imensa distância entre o pensamento humano, mesmo o mais erudito, e a lógica do Reino de Deus. Sua mente, treinada na literalidade da lei e na observação do mundo físico, não consegue processar a metáfora. Ele questiona com uma lógica puramente carnal:

"Como pode um homem nascer, sendo velho? Será que pode voltar ao ventre materno e nascer uma segunda vez?" (João 3:4).

A pergunta, embora pareça ingênua, é crucial para o desenvolvimento do diálogo. Ela revela que Nicodemos, o "mestre em Israel", estava cego para a realidade espiritual que Jesus apresentava. Ele pensava em um renascimento físico, um ato impossível, enquanto Jesus falava de uma regeneração espiritual, uma obra divina. Esse contraste estabelece o cenário para que Jesus aprofunde seu ensinamento, explicando que esse nascimento não é da carne, mas de uma fonte completamente diferente.


Aprofundando o Mistério: Nascer da Água e do Espírito

Diante da perplexidade de Nicodemos, Jesus não recua, mas aprofunda o conceito do novo nascimento, desdobrando-o em dois elementos essenciais: a água e o Espírito. Ele esclarece que a entrada no Reino de Deus exige uma transformação que transcende a lógica humana. Sua resposta é enfática:

"Em verdade, em verdade lhe digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus" (João 3:5).

Aqui, Jesus eleva o discurso, passando da condição de "ver" o Reino para a de "entrar" nele, indicando uma participação ativa e real.

A expressão "nascer da água e do Espírito" tem sido objeto de diversas interpretações teológicas. A visão mais consistente, considerando o contexto judaico e os ensinamentos de João Batista, associa a "água" ao batismo de arrependimento. Era um símbolo externo de purificação e rompimento com a vida antiga, algo que Nicodemos certamente conhecia. No entanto, Jesus deixa claro que esse rito externo, por si só, é insuficiente. Ele precisa ser acompanhado pelo nascimento "do Espírito", que representa a regeneração interna e sobrenatural operada pelo Espírito Santo.

Para dissipar qualquer dúvida sobre a natureza desse processo, Jesus estabelece uma distinção fundamental:

"O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito" (João 3:6).

O nascimento natural, da carne, gera uma vida terrena e limitada. Já o novo nascimento, gerado pelo Espírito, origina uma vida espiritual, eterna e alinhada com Deus. Não se trata de um aprimoramento do ser humano, mas da criação de algo inteiramente novo.

Para ilustrar a ação soberana e misteriosa do Espírito Santo, Jesus utiliza a analogia do vento:

"O vento sopra onde quer, você ouve o barulho que ele faz, mas não sabe de onde ele vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito" (João 3:8).

Assim como o vento, a obra do Espírito é real e perceptível em seus efeitos, mas sua origem e seu modo de operar estão além do controle e da plena compreensão humana. É uma ação divina, que não pode ser manipulada ou produzida por esforço próprio.

A expressão grega usada para "de novo", anothen, também carrega o duplo sentido de "novamente" e "do alto". Ambas as traduções são válidas e complementares. É um nascimento que ocorre uma segunda vez, mas sua origem não é terrena; é celestial. É um ato que vem "do alto", diretamente de Deus, reforçando a ideia de que a salvação é uma iniciativa divina, e não uma conquista humana.


A Serpente no Deserto: Uma Prefiguração da Cruz

Ainda perplexo com a ideia do novo nascimento, Nicodemos pergunta: "Como pode ser isso?" (João 3:9). Em resposta, Jesus utiliza uma das mais ricas analogias do Antigo Testamento para ilustrar a natureza de sua missão salvadora, recorrendo a uma história que, para um mestre da lei, deveria ser profundamente familiar. Ele conecta o abstrato conceito de regeneração espiritual a um evento concreto e redentor que estava por vir.

Jesus declara:

"E assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja levantado" (João 3:14).

A referência remete ao episódio narrado no livro de Números (21:4-9), quando os israelitas, impacientes em sua jornada, murmuraram contra Deus e Moisés. Como consequência, foram atacados por serpentes venenosas, e muitos morreram. Arrependido, o povo clamou por salvação, e Deus instruiu Moisés a fazer uma serpente de bronze e erguê-la em uma haste. Aquele que fosse picado e olhasse para a serpente de bronze, viveria.

Nessa analogia, Jesus se apresenta como o antítipo daquela serpente. A serpente, um símbolo da maldição e do pecado que afligia o povo, ao ser levantada, tornou-se o paradoxal instrumento de cura. De modo semelhante, Jesus, o "Filho do Homem", seria "levantado" na cruz, assumindo sobre si o pecado e a maldição da humanidade para oferecer a cura definitiva: a salvação. No Evangelho de João, o verbo "levantar" (em grego, hypsoō) possui um duplo significado: refere-se tanto à elevação física na cruz quanto à exaltação e glorificação de Cristo através de sua ressurreição e ascensão. A cruz, portanto, não é vista apenas como um instrumento de tortura, mas como o trono a partir do qual Jesus reina e atrai todos a si.

A analogia se completa no versículo seguinte, que revela o propósito desse ato:

"para que todo o que nele crê tenha a vida eterna" (João 3:15).

Assim como os israelitas precisavam apenas olhar com fé para a serpente para serem curados fisicamente, a humanidade é convidada a crer em Cristo levantado para receber a vida eterna. A salvação, portanto, não é alcançada por rituais ou méritos, mas por um ato de fé direcionado ao sacrifício redentor de Jesus na cruz.


Conclusão: Da Visão dos Sinais à Compreensão do Reino

O diálogo entre Jesus e Nicodemos em João 3 é uma jornada transformadora que nos leva do superficial ao essencial. Ele começa com o reconhecimento dos "sinais" visíveis e culmina na revelação da necessidade de uma "nova vida" invisível e espiritual. A trajetória de Nicodemos, de um mestre seguro em seu conhecimento a um aprendiz humilde diante de um mistério divino, ilustra a diferença crucial entre "ver" e "entrar" no Reino de Deus.

Inicialmente, Nicodemos "vê" o poder de Jesus através dos milagres e, com base nisso, conclui que Ele vem de Deus. Sua fé está ancorada no que é externamente verificável. No entanto, Jesus o confronta com uma verdade mais profunda: para "entrar" no Reino, para participar de sua realidade, é preciso "nascer de novo". Este novo nascimento não é um ato de esforço humano ou de aprimoramento moral, mas uma obra soberana do Espírito Santo, um presente que vem "do alto".

A poderosa imagem da serpente de bronze levantada no deserto serve como a chave final para o entendimento. Assim como a cura no passado dependia de olhar com fé para o símbolo da maldição, a vida eterna é concedida àqueles que creem no Filho do Homem levantado na cruz. O foco é desviado de qualquer ato que possamos realizar para o ato redentor que Cristo realizou por nós.

Portanto, a conversa com Nicodemos transcende um simples debate teológico. É um convite universal a abandonar a confiança em rituais, conhecimento ou méritos próprios e a abraçar uma fé que se fundamenta na obra regeneradora de Deus e no sacrifício redentor de Cristo. É a passagem da religião para o relacionamento, do natural para o sobrenatural, e o único caminho para, de fato, não apenas ver, mas entrar no Reino de Deus.



BRUNO, Zé. 10 - O novo nascimento e o reino - Zé Bruno - Quem é Jesus?. Youtube, A Casa da Rocha, Brasília/DF. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vlCAt5mAZh8. Acesso em: 22/07/2025.

Avatar de diego
há 1 mês
Matéria: Religião
Artigo
46

0 Comentários

Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar!

Você precisa entrar para comentar.