1. Introdução: O Contexto do Evangelho de João
O Evangelho de João, com seu profundo propósito teológico de revelar a identidade de Jesus, constrói sua narrativa através de uma série de encontros e sinais significativos. Para compreender plenamente a riqueza do testemunho de João Batista no final do capítulo 3, é fundamental revisitar os eventos que o precedem, que servem como alicerce para os ensinamentos subsequentes.
No capítulo 2, a narrativa apresenta o primeiro "sinal" de Jesus: a transformação da água em vinho nas bodas de Caná da Galileia. Este milagre não foi apenas uma demonstração de poder, mas um ato simbólico que apontava para a sua missão messiânica. Ao prover um vinho de qualidade superior, Jesus sinalizava a chegada de algo novo e excelente, a inauguração de uma nova aliança que superava os rituais de purificação judaicos, representados pelas talhas de pedra vazias.
Logo em seguida, no início do capítulo 3, o cenário muda para um diálogo noturno e denso com Nicodemos, um mestre da lei em Israel. A conversa introduz um dos conceitos mais cruciais do evangelho: a necessidade de "nascer de novo" para ver o Reino de Deus. A expressão original em grego, anōthen, carrega uma rica ambiguidade, podendo significar tanto "de novo" quanto "do alto". Enquanto o fariseu compreende a declaração em seu sentido literal e terreno ("de novo"), a ênfase teológica recai sobre a origem celestial dessa nova vida ("do alto"). Este novo nascimento não é um esforço humano, mas uma obra divina, um renascimento espiritual que vem de Deus.
Com essa base teológica estabelecida — a da transformação messiânica e do nascimento espiritual vindo do céu — o evangelista nos conduz à cena seguinte, onde o testemunho sobre a identidade de Jesus é aprofundado, desta vez, pela voz do próprio João Batista.
2. Ministérios Paralelos e uma Controvérsia (João 3:22-25)
Após o profundo diálogo teológico com Nicodemos, a narrativa se desloca para o interior da Judeia. Ali, Jesus, acompanhado de seus discípulos, inicia um ministério que espelha a atividade que até então era a marca de seu precursor: ele também começa a batizar. Simultaneamente, João Batista continuava seu próprio ministério em Enom, perto de Salim, um local estrategicamente escolhido pela abundância de água, necessária para os batismos em massa que realizava.
O evangelista faz questão de inserir uma nota cronológica crucial: "Pois João ainda não havia sido preso" (João 3:24). Essa observação é fundamental, pois estabelece um período de sobreposição entre os ministérios dos dois, criando o cenário para uma comparação inevitável e, consequentemente, para um conflito.
A tensão latente se manifesta em uma controvérsia específica. O texto relata que "surgiu uma discussão entre os discípulos de João e um judeu a respeito da purificação" (João 3:25). O tema da "purificação" era central para a vida religiosa judaica, envolvendo uma série de rituais para restaurar a pureza cerimonial. O batismo de João era, em si, um rito de purificação ligado ao arrependimento. Com Jesus também batizando, surge uma questão natural e competitiva: qual batismo é mais eficaz? Qual ritual realmente purifica? Essa disputa sobre a validade e a autoridade dos ritos de purificação se torna o estopim que leva os seguidores de João, tomados por uma lealdade zelosa, a procurarem seu mestre com uma preocupação crescente.
3. O Ciúme dos Discípulos e a Resposta de João (João 3:26-28)
Movidos por uma lealdade protetora e uma percepção humana de rivalidade, os discípulos de João Batista se aproximam de seu mestre com uma queixa que revela sua preocupação. Eles relatam:
“Mestre, aquele que estava com o senhor no outro lado do Jordão, do qual o senhor deu testemunho, está batizando, e todos vão até ele” (João 3:26).
A frase carrega um tom de ciúme e perplexidade. Para eles, o sucesso do ministério de Jesus parecia diminuir a importância do trabalho de João, como se estivessem em uma competição pela atenção do povo.
A resposta de João Batista, no entanto, transcende a lógica da competição terrena e oferece uma lição fundamental sobre propósito e soberania divina. Sua primeira declaração é uma âncora teológica:
“Ninguém pode receber coisa alguma se não lhe for dada do céu” (João 3:27).
Com essa afirmação, João remove qualquer base para a inveja ou o orgulho. Ele entende que tanto o seu ministério quanto o de Jesus não são conquistas humanas, mas atribuições divinas. Cada um recebe do céu a sua medida e a sua função. O sucesso de Jesus não era uma ameaça ao seu, mas a confirmação do plano de Deus se desdobrando.
Em seguida, ele recorda aos seus seguidores a essência de sua própria identidade e missão, algo que ele havia deixado claro desde o início:
“Vocês mesmos são testemunhas de que eu disse: ‘Eu não sou o Cristo, mas fui enviado como o seu precursor’” (João 3:28).
João não estava surpreso com a ascensão de Jesus; ele a esperava. Seu papel nunca foi o de ser o destino final, mas o de preparar o caminho. Ao ver as multidões se dirigindo a Cristo, ele não via o fracasso de seu ministério, mas o seu exato cumprimento. Sua resposta é um poderoso exemplo de humildade e de uma profunda compreensão de seu lugar na história da redenção.
4. A Alegoria do Noivo: O Papel do Amigo (João 3:29)
Para ilustrar sua posição com clareza inquestionável, João Batista recorre a uma das mais belas e universais alegorias: a de um casamento. Esta metáfora, profundamente enraizada na tradição judaica e que seria amplamente utilizada na teologia cristã, serve para definir perfeitamente os papéis de Jesus e o seu próprio.
Nesta poderosa imagem, os papéis são distintos e carregados de significado:
- O Noivo: É Jesus Cristo, a figura central e o protagonista da história da redenção, que veio para se unir ao seu povo.
- A Noiva: Representa o povo de Deus, a comunidade de crentes que o Noivo veio buscar.
- O Amigo do Noivo: É a posição que João Batista assume para si.
Na cultura da época, o "amigo do noivo" desempenhava uma função de honra e confiança, auxiliando nos preparativos e celebrando a união. Sua maior satisfação não era ser o protagonista, mas garantir que o foco permanecesse no noivo. João Batista ecoa esse sentimento ao declarar:
"O que tem a noiva é o noivo; o amigo do noivo que está presente e o escuta se alegra muito por causa da voz do noivo. Pois essa alegria já se cumpriu em mim" (João 3:29).
A alegria de João não provém de sua própria popularidade ou do tamanho de seu ministério, mas de ouvir a "voz do noivo" — ou seja, de testemunhar a presença e a obra crescente de Jesus. Seu contentamento é completo e sua missão se realiza não ao reter seguidores para si, mas ao vê-los se voltando para a figura principal. Essa alegria desinteressada e focada em Cristo é o que permite a João fazer sua declaração mais radical e definitiva, que se tornaria um lema para a humildade cristã ao longo dos séculos.
5. O Ponto Central: "Convém que Ele Cresça e que Eu Diminua" (João 3:30)
Chegamos ao ápice do testemunho de João Batista, uma declaração concisa e de profundidade teológica avassaladora que resume toda a sua vida e ministério: "Convém que ele cresça e que eu diminua". Esta frase não é um lamento, nem um sinal de resignação, mas uma proclamação de propósito cumprido e de alegria genuína.
A expressão "convém" (em grego, dei) denota uma necessidade divina, uma inevitabilidade dentro do plano de Deus. Não se trata de uma preferência pessoal de João, mas do reconhecimento da ordem correta e soberana dos eventos da salvação. Era necessário e divinamente ordenado que a era da preparação, representada por João, desse lugar à era da consumação, inaugurada por Cristo.
O "crescer" de Jesus não se refere a um desenvolvimento pessoal, mas à manifestação pública de Sua glória e à centralidade de Sua pessoa e mensagem. A luz do Messias, que antes era anunciada, agora brilhava com intensidade própria, e era natural que todos os olhares se voltassem para Ele.
Em contrapartida, o "diminuir" de João é a aceitação consciente e jubilosa de que sua missão preparatória estava chegando ao seu glorioso fim. Ele era a voz que clamava no deserto, o dedo que apontava para o Cordeiro de Deus. Uma vez que o Cordeiro está presente e sendo reconhecido, a voz pode se silenciar e o dedo pode se recolher. Não há tragédia nisso, mas a realização plena de seu chamado.
Esta frase transcende a figura histórica de João e se torna um princípio fundamental para a vida cristã. O processo de santificação é, em essência, um contínuo diminuir do "eu" — com suas ambições, orgulho e autossuficiência — para que Cristo possa crescer em nós e através de nós. É a reorientação radical do propósito, onde a alegria não é encontrada na autoexaltação, mas na exaltação de Cristo.
6. O Testemunho da Superioridade de Cristo (João 3:31-35)
Após estabelecer seu papel como precursor, João Batista — ou o evangelista, ecoando o mesmo espírito — articula uma das mais claras declarações sobre a natureza e autoridade incomparáveis de Jesus. O argumento é construído sobre um contraste fundamental: a origem celestial de Cristo versus a origem terrena de todos os outros.
A passagem inicia afirmando:
"Quem vem das alturas certamente está acima de todos; quem vem da terra é terreno e fala da terra" (João 3:31).
Esta distinção é absoluta. João Batista, apesar de sua importância profética, se inclui entre os que são "da terra". Sua perspectiva e mensagem, por mais inspiradas que fossem, estavam limitadas por sua natureza humana. Jesus, ao contrário, "vem das alturas", indicando sua origem divina e, consequentemente, sua autoridade suprema sobre toda a criação.
Essa autoridade se baseia em seu testemunho direto e infalível. Ele "dá testemunho daquilo que viu e ouviu" (João 3:32). Diferente dos profetas que recebiam uma revelação parcial, Jesus fala a partir de sua comunhão eterna com o Pai. No entanto, o texto lamenta a incredulidade humana: "mas ninguém aceita o seu testemunho". A aceitação dessa verdade, porém, é um ato de fé que sela a veracidade de Deus: "Quem, porém, aceita o testemunho que ele dá certifica que Deus é verdadeiro" (João 3:33).
A singularidade de Jesus é reforçada pela forma como Ele recebe o Espírito Santo. Enquanto os profetas recebiam o Espírito para missões específicas e de forma limitada, Deus "não dá o Espírito por medida" a Jesus (João 3:34). Nele reside a plenitude do Espírito, pois Ele é o enviado de Deus que fala as próprias palavras de Deus.
Finalmente, a soberania de Cristo é declarada de forma inequívoca, fundamentada na relação de amor dentro da Trindade: "O Pai ama o Filho e entregou todas as coisas nas mãos dele" (João 3:35). Esta não é uma autoridade delegada temporariamente, mas uma soberania inerente à sua identidade como Filho amado, a quem toda a criação está sujeita.
7. A Decisão Final: Vida Eterna ou a Ira de Deus? (João 3:36)
O capítulo 3 do Evangelho de João, que se iniciou com a necessidade do novo nascimento, culmina em uma declaração final que estabelece as consequências eternas da resposta humana a Jesus Cristo. Não há meio-termo; a posição de cada indivíduo em relação ao Filho determina seu destino.
O versículo 36 apresenta duas vias claras e opostas: "Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna". A fé em Jesus não é meramente um assentimento intelectual, mas uma confiança ativa e contínua que resulta na posse presente da vida eterna. A vida eterna não é apenas uma promessa futura, mas uma realidade que começa no momento da fé, uma nova qualidade de vida em comunhão com Deus.
Em contraste direto, a segunda parte do versículo adverte: "quem se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus". A palavra traduzida como "rebelde" ou "desobediente" (em grego, apeithōn) implica uma recusa deliberada e persistente em crer. Não se trata de uma dúvida momentânea, mas de uma postura de rejeição à autoridade e à pessoa de Cristo.
A consequência dessa rebeldia não é a criação de uma nova condenação, mas a permanência em um estado já existente. A "ira de Deus" não é um capricho divino, mas a justa e santa oposição de Deus a todo pecado e incredulidade. Para aqueles que rejeitam o Filho, a única provisão para a salvação, essa ira "permanece" sobre eles.
Dessa forma, o testemunho de João Batista e a conclusão do evangelista servem como um chamado urgente e definitivo. A superioridade de Cristo não é um mero tópico de debate teológico, mas a verdade central sobre a qual a eternidade de cada pessoa depende. A resposta a Jesus — seja de fé obediente ou de recusa rebelde — é a decisão mais crucial que qualquer ser humano pode tomar.
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BRUNO, Zé. 12 - Nosso papel na história da redenção - Zé Bruno - Quem é Jesus?. Youtube, A Casa da Rocha, Brasília/DF. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=w2hPSAq8RDU. Acesso em: 21/07/2025.