Introdução: A Incerteza Após o Ataque ao Programa Nuclear Iraniano
Na complexa arena da geopolítica contemporânea, poucas questões geram tanta especulação quanto o futuro do programa nuclear iraniano. Após recentes ataques militares contra suas instalações, a pergunta imediata que surge é sobre a extensão do dano e o tempo necessário para uma possível reconstrução. Contudo, uma análise mais profunda revela uma questão ainda mais crucial: como essa ação militar impactará as dinâmicas de poder internas do Irã e, consequentemente, sua estratégia de segurança nacional?
Longe de ser uma solução definitiva, a ofensiva pode ter gerado um efeito paradoxal. Em vez de extinguir as ambições nucleares de Teerã, há indicativos de que a operação pode ter incentivado o regime a abandonar vias de cooperação internacional e, de forma secreta, intensificar seus esforços. Ao forçar o Irã a um isolamento estratégico, os ataques criaram um perigoso cenário de incerteza sobre os próximos passos do país, um eco de eventos históricos que já demonstraram como a pressão externa pode, inadvertidamente, fortalecer a determinação de um adversário.
O Precedente Histórico: O Ataque Israelense ao Reator Iraquiano em 1981
Para compreender o cenário atual do Irã, é fundamental revisitar um episódio histórico que oferece um paralelo instrutivo: o ataque de Israel ao programa nuclear do Iraque. No final da década de 1970, impulsionado por um período de prosperidade econômica devido ao petróleo, o Iraque iniciou seu próprio programa nuclear. O primeiro passo concreto foi a aquisição de um reator de pesquisa civil da França em 1976, batizado de Osirak.
A transação, no entanto, gerou apreensão internacional. O fato de a França concordar em fornecer urânio enriquecido a 93% para abastecer o reator levantou o temor de que o regime de Saddam Hussein pudesse desviar o plutônio gerado na instalação para a fabricação de uma arma atômica. Apesar dessas preocupações, a realidade do programa iraquiano na época era mais modesta. O projeto do reator tornava a extração de plutônio tecnicamente complexa, a instalação era relativamente pequena e estava sob rigoroso monitoramento internacional. Na prática, o programa tinha um caráter exploratório, e os cientistas envolvidos não possuíam um mandato político claro para o desenvolvimento de armas.
Ignorando essas nuances, Israel optou pela ação preventiva. Em um ataque aéreo surpresa no dia 7 de junho de 1981, caças israelenses destruíram completamente o reator de Osirak antes que ele pudesse ser abastecido e se tornar operacional. A missão foi celebrada por Israel como um sucesso retumbante, estabelecendo um precedente para ações militares preventivas contra ameaças nucleares emergentes. Anos mais tarde, essa narrativa foi reforçada por autoridades americanas, que afirmaram que o ataque de 1981 havia sido crucial para impedir que Saddam Hussein obtivesse armas nucleares antes da Guerra do Golfo de 1991.
A Consequência Inesperada: A Aceleração do Programa Secreto do Iraque
A narrativa de sucesso em torno do ataque a Osirak obscureceu uma consequência muito mais perigosa e duradoura. Longe de sufocar as ambições nucleares do Iraque, o bombardeio teve o efeito oposto: acelerou drasticamente o desejo de Saddam Hussein de obter uma arma atômica. O regime, já obcecado com sua própria segurança, concluiu que a única forma de garantir sua sobrevivência era desenvolver uma capacidade de dissuasão nuclear, e que isso só seria possível através de um programa totalmente secreto e independente.
Essa nova diretriz transformou o que antes era um esforço exploratório e politicamente inconsistente em uma prioridade nacional de máxima urgência. O ataque israelense galvanizou engenheiros e cientistas, que agora se viam engajados em uma missão patriótica. Poucos meses após o bombardeio, Saddam Hussein aprovou formalmente o lançamento de um programa clandestino de armas nucleares, apoiado por um financiamento estatal massivo, mesmo com o país em meio a uma guerra desgastante com o Irã.
Os números ilustram essa mudança radical. Entre 1983 e 1991, o quadro de cientistas do programa saltou de 400 para 7.000, e o orçamento anual disparou de aproximadamente 400 milhões para 10 bilhões de dólares. Empoderados com recursos e um mandato claro, os cientistas mudaram o foco técnico da produção de plutônio para o enriquecimento de urânio. Embora mais complexo e caro, este método era menos dependente de insumos estrangeiros e, crucialmente, mais fácil de ser ocultado. Para adquirir a tecnologia necessária, o Iraque estabeleceu uma sofisticada rede de aquisição clandestina, utilizando empresas de fachada e diplomatas para comprar equipamentos de fornecedores na Europa e no Japão.
No final da década de 1980, o programa secreto estava próximo da maturidade, com projeções para realizar testes de um artefato nuclear até 1993. Foi apenas a invasão do Kuwait em 1990 e a subsequente Guerra do Golfo que levaram à descoberta do programa, quando o Iraque foi forçado a aceitar inspetores internacionais que se surpreenderam ao encontrar um país à beira de obter capacidade nuclear.
Traçando Paralelos: As Semelhanças Entre o Iraque de 1981 e o Irã Contemporâneo
Embora existam diferenças evidentes entre o contexto do Iraque nos anos 80 e o do Irã hoje, os paralelos são difíceis de ignorar e oferecem um roteiro preocupante. De forma semelhante ao que ocorreu com o Iraque, os recentes bombardeios contra o programa nuclear iraniano podem levar o país a optar pela clandestinidade, intensificando seus esforços para desenvolver uma arma atômica em vez de abandoná-los. Para a ala mais radical em Teerã, a lição extraída é inequívoca: apenas a posse de uma arma nuclear pode, em última análise, garantir a soberania e evitar futuros ataques.
Assim como o ataque a Osirak forjou um consenso político no Iraque e alinhou o regime com seus empreendedores nucleares, declarações recentes de líderes iranianos indicam que as ações militares encorajaram os setores mais intransigentes do governo. Muitos analistas observam que o conflito acelerou uma mudança de poder em Teerã, com uma transferência de influência dos clérigos religiosos para os generais militares. Estes novos líderes, embora possam ser vistos como mais pragmáticos em certos aspectos, são também mais céticos em relação à diplomacia e mais inclinados a priorizar a sobrevivência do regime por meio da dissuasão militar, e não da negociação.
Adicionalmente, os ataques podem provocar uma nova sensação de urgência entre os cientistas e engenheiros nucleares iranianos, um espelho do que aconteceu com seus colegas iraquianos após 1981. O que antes poderia ser um trabalho técnico, agora pode ser encarado como uma missão de defesa nacional, reforçando a determinação e o comprometimento com o avanço do programa a qualquer custo.
A Desconfiança na Diplomacia e a Nova Dinâmica de Poder em Teerã
Um dos efeitos mais imediatos e danosos dos ataques militares é a profunda erosão da confiança na via diplomática. O regime iraniano, agora, possui poucos incentivos para buscar um acordo nuclear. Para regimes autoritários na região, a história recente oferece lições sombrias sobre os perigos do desarmamento. O destino do líder líbio Muammar Gaddafi, que desmontou seu programa de armas de destruição em massa apenas para ser derrubado após uma intervenção da OTAN, é um exemplo frequentemente citado. Da mesma forma, Saddam Hussein já não possuía um programa nuclear ativo quando seu regime foi deposto e ele foi executado após a invasão de 2003.
Esses precedentes pesam fortemente nas decisões em Teerã. A desconfiança foi exacerbada pela tática que antecedeu os ataques mais recentes, quando uma nova rodada de negociações foi agendada, criando uma falsa sensação de segurança para mascarar as intenções bélicas. Tal manobra não apenas torna futuras conversas extremamente difíceis, mas também desacredita fatalmente as figuras moderadas dentro do Irã, fortalecendo a ala radical que há muito tempo alega que o Ocidente nunca age de boa fé.
Este cenário se alinha a uma mudança de poder já em curso em Teerã, onde a influência parece se deslocar dos clérigos para os generais. Essa nova liderança militar, embora possa ser pragmática, tende a ser mais agressiva, cética em relação a acordos e mais inclinada a garantir a sobrevivência do regime através da força e da dissuasão, em vez da negociação.
Conhecimento Técnico vs. Vulnerabilidades: A Balança do Programa Iraniano
Independentemente da extensão dos danos físicos às instalações e da perda de pessoal qualificado, o Irã detém o ativo mais crucial: o conhecimento técnico. A expertise acumulada ao longo de décadas não pode ser destruída por bombas. Se o regime decidir, possui a base intelectual necessária para retomar e reconstruir seu programa nuclear. A expulsão de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) agrava o problema, pois o mundo perde a capacidade de monitorar as atividades do país. Isso troca um problema conhecido e supervisionado por um desconhecido e clandestino, aumentando a dificuldade de localizar futuras instalações secretas, como a de Fordo, que foi descoberta no passado justamente por meio de inteligência.
No entanto, o Irã também enfrenta fraquezas estruturais significativas que podem dificultar essa reconstrução. A campanha militar expôs uma vulnerabilidade alarmante do regime: a profunda capacidade de infiltração de serviços de inteligência estrangeiros, como o Mossad, em suas instituições de segurança. Essa fragilidade interna provavelmente desencadeará uma intensa caça às bruxas, com prisões e expurgações que podem gerar instabilidade.
Além disso, o Irã encontra-se mais isolado diplomaticamente. Seus aliados tradicionais, como a Rússia, e até mesmo seus representantes regionais, como o Hezbollah, ofereceram pouco mais do que apoio retórico. Contudo, a longo prazo, até mesmo essas desvantagens podem, paradoxalmente, reforçar a lógica da dissuasão nuclear. Os líderes em Teerã certamente observam o exemplo da Coreia do Norte, um regime que sobrevive apesar do isolamento e das dificuldades econômicas, protegido pela posse de um arsenal atômico.
Conclusão: Um Problema Adiado e Potencialmente Agravado
Ações militares, como os ataques ao programa nuclear iraniano, podem parecer decisivas em seu impacto imediato, mas suas consequências geopolíticas se desdobram lentamente e de maneiras complexas. A história, especialmente o precedente iraquiano, sugere que, embora o programa possa ter sido atrasado, a determinação do regime em obter a capacidade nuclear pode ter sido, na verdade, fortalecida. Se o regime não for derrubado, seus líderes continuarão a buscar formas de garantir sua sobrevivência, e a conclusão lógica a que podem chegar é que, mais do que nunca, a posse de uma arma atômica é o único caminho viável.
A resposta iraniana pode não ser imediata. Ela pode se manifestar em decisões silenciosas: o abandono definitivo da diplomacia, a reconstrução de instalações em locais secretos e mais protegidos, e a busca intensificada pelo que agora consideram a garantia final de sua soberania. O ataque pode ter resolvido a ameaça iminente de o Irã estar à beira de construir uma bomba, mas trocou essa urgência por um problema de longo prazo potencialmente mais perigoso.
A certeza do regime iraniano sobre a necessidade de uma arma nuclear é, talvez, maior hoje do que antes da ofensiva. Portanto, a questão não foi resolvida, mas adiada. Em alguns meses ou anos, o mundo pode se deparar novamente com um programa nuclear iraniano, desta vez mais clandestino, mais resiliente e conduzido por um regime ainda mais convencido de que a dissuasão nuclear é sua única opção. O paradoxo é que a tentativa de eliminar a ameaça pode ter garantido sua persistência.
Fonte: O IRÃ AINDA PODE TER A BOMBA: LIÇÕES DA HISTÓRIA E O EXEMPLO IRAQUIANO I Professor HOC