14. Além das Barreiras: O Encontro Transformador de Jesus com a Samaritana

A Importância de Conhecer o Verdadeiro Jesus

Quando não sabemos quem realmente estamos seguindo, não sabemos para onde estamos indo. Esta é uma verdade fundamental que precisa ser compreendida por todos que desejam trilhar um caminho espiritual autêntico. A busca por entender quem é Jesus não é uma questão meramente teológica ou acadêmica, mas uma necessidade vital para quem deseja segui-lo verdadeiramente.

Uma vez que Jesus não está fisicamente presente entre nós, nossa compreensão sobre ele vem principalmente através dos textos bíblicos. A maneira como interpretamos esses textos molda profundamente nossa visão de quem ele é e, consequentemente, direciona o caminho que seguimos.

Se enxergamos Jesus apenas como um carpinteiro, nossa tendência será buscar nele apenas ensinamentos práticos sobre trabalho e ofício. Se o vemos exclusivamente como um revolucionário político, usaremos sua imagem para justificar nossas próprias agendas ideológicas. Se o interpretamos como um sábio ermitão, podemos nos isolar do mundo em busca de iluminação pessoal. Porém, se compreendermos quem ele realmente é e qual sua verdadeira missão, estaremos no caminho que Deus deseja para nós.

É perfeitamente possível que duas pessoas afirmem seguir a Jesus e estejam em caminhos completamente diferentes. Isso acontece porque, sem conhecer verdadeiramente quem ele é, não podemos entender para onde ele vai, nem compreender o propósito de suas ações.

O evangelho representa a maior libertação que o ser humano pode experimentar. Esta libertação não consiste em nos aproximarmos de Deus pensando no que podemos obter dessa relação. Pelo contrário, trata-se de nos despirmos completamente do que pensamos ser, do que temos e do que queremos, para reconhecer quem ele é, o que ele faz, para onde ele nos conduz e como ele nos transforma diariamente.

Conhecer o verdadeiro Jesus significa, portanto, abrir mão de nossas próprias interpretações limitadas e estar disposto a ser transformado pela verdade que ele representa. Este é o primeiro passo para uma jornada autêntica de fé.


O Contexto Histórico entre Judeus e Samaritanos

Para compreender plenamente o impacto revolucionário do encontro entre Jesus e a mulher samaritana, é essencial conhecer o contexto histórico de hostilidade entre judeus e samaritanos. Esta animosidade não era uma simples rivalidade entre povos vizinhos, mas um profundo abismo religioso, cultural e étnico que remontava a séculos de conflitos.

Os samaritanos eram considerados pelos judeus como um povo impuro, resultado de casamentos mistos entre israelitas remanescentes e povos estrangeiros após a queda do Reino do Norte para a Assíria em 722 a.C. Embora os samaritanos também adorassem o Deus de Israel e aceitassem o Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia), eles rejeitavam o restante das escrituras hebraicas e tinham seu próprio local de adoração no Monte Gerizim, em oposição ao Templo de Jerusalém.

A inimizade era tão intensa que os judeus frequentemente faziam longos desvios em suas viagens para evitar passar pelo território de Samaria. Não dirigiam a palavra aos samaritanos, não comiam com eles, não utilizavam os mesmos utensílios e consideravam qualquer contato com eles como fonte de impureza ritual. Um judeu não beberia água de um recipiente tocado por um samaritano, nem aceitaria alimento preparado por mãos samaritanas.

O poço de Jacó, onde ocorreu o encontro narrado no Evangelho de João, possuía um significado histórico profundo. Situado nas proximidades da antiga Siquém, este poço estava associado ao patriarca Jacó, uma figura ancestral comum tanto para judeus quanto para samaritanos. No entanto, mesmo este patrimônio compartilhado não era suficiente para superar as barreiras de separação entre os dois povos.

É neste cenário de divisão extrema que Jesus, cansado da viagem, senta-se junto ao poço por volta do meio-dia. O texto bíblico enfatiza que "era necessário" que Jesus passasse por Samaria, embora a maioria dos judeus evitasse essa rota. Esta necessidade não era meramente geográfica, mas parte do propósito divino de quebrar barreiras e demonstrar a universalidade de sua mensagem.

Quando a mulher samaritana se aproxima do poço para tirar água, ela encontra Jesus sozinho, pois seus discípulos haviam ido à cidade comprar alimentos. O momento escolhido por Jesus para este encontro também é significativo: o meio-dia, horário incomum para buscar água, sugere que a mulher provavelmente estava evitando o contato com outras pessoas devido à sua condição social marginalizada.

Este contexto de separação e preconceito torna ainda mais extraordinário o pedido inicial de Jesus: "Dá-me um pouco dessa água". Com estas simples palavras, Jesus rompe deliberadamente múltiplas barreiras sociais, religiosas e de gênero que prevaleciam em sua época, preparando o terreno para uma das mais profundas revelações de sua identidade e missão.


O Plano Universal de Deus

O encontro de Jesus com a mulher samaritana não foi um evento isolado, mas parte de um plano divino muito mais amplo que se desenrola ao longo de toda a narrativa bíblica. Este plano, desde o princípio, sempre teve um caráter universal, destinado a alcançar todas as nações, tribos, povos e línguas – não apenas os judeus.

Em Gênesis 12:1-3, encontramos a primeira grande revelação deste propósito universal quando Deus chama Abraão:

"O Senhor disse a Abraão: 'Sai da tua terra, da tua parentela, da casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrarei. Farei de ti uma grande nação, e te abençoarei e engrandecerei o teu nome. Seja você uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Em ti serão benditas todas as famílias da terra'".

Esta última frase é crucial: a bênção prometida a Abraão não era exclusiva para ele ou seus descendentes diretos, mas destinada a se tornar um canal de bênção para todas as famílias da terra.

O profeta Zacarias, falando ao povo que retornava do exílio, reforça esta visão universalista em Zacarias 8:20-23:

"Assim diz o Senhor dos Exércitos: 'Ainda virão povos e moradores de muitas cidades, e os moradores de uma cidade irão à outra, dizendo: Vamos depressa suplicar o favor do Senhor e buscar o Senhor dos Exércitos. Eu também irei. Muitos povos e nações poderosas virão a Jerusalém buscar o Senhor dos Exércitos e suplicar o favor do Senhor'. Assim diz o Senhor dos Exércitos: 'Naquele dia, dez homens de todas as línguas das nações pegarão na borda da roupa de um judeu e dirão: Queremos ir com vocês, porque ouvimos que Deus está com vocês'".

Esta profecia visualiza um tempo em que pessoas de todas as nações seriam atraídas ao Deus de Israel, não para se tornarem etnicamente judeus, mas para adorarem o verdadeiro Deus.

Em Deuteronômio 4:6-8, Moisés explica que o propósito da lei não era criar um sistema exclusivista, mas servir como testemunho para as nações:

"Portanto, guardem e cumpram essas leis, porque isso será a sabedoria e o entendimento de vocês aos olhos dos povos, que ouvindo todos esses estatutos, dirão: 'De fato, esse grande povo é gente sábia e inteligente'. Pois que grande nação há que tenha a Deus tão chegado a si como o Senhor, nosso Deus, todas as vezes que o invocamos? E que grande nação há que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que hoje vos proponho?"

A lei deveria atrair as nações para Deus, não afastá-las.

Esta visão universal encontra sua culminação no livro do Apocalipse, onde João (o mesmo autor do evangelho que narra o encontro com a samaritana) descreve a cena final da redenção em Apocalipse 7:9-12:

"Depois dessas coisas vi, e eis grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestes brancas, com ramos de palmeira nas mãos; e clamavam com grande voz, dizendo: 'A salvação pertence ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro!' Todos os anjos estavam de pé rodeando o trono, os anciãos e os quatro seres viventes; e diante do trono se prostraram sobre o seu rosto, e adoraram a Deus, dizendo: 'Amém! O louvor, e a glória, e a sabedoria, e as ações de graça, e a honra, e o poder, e a força sejam ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Amém!'"

Estes textos revelam que o plano de Deus sempre foi inclusivo, não exclusivo. A eleição de Israel nunca teve como objetivo a exclusão das outras nações, mas sim criar um canal através do qual a bênção divina pudesse fluir para toda a humanidade. Como alguém bem observou: "O papel de Israel na história era trazer o menino (Jesus) à terra. O papel da igreja é levar o menino para todo lugar."

Quando Jesus se senta à beira do poço e pede água a uma mulher samaritana, ele não está meramente quebrando tabus sociais de sua época – está demonstrando na prática o caráter universal do plano divino que sempre esteve presente nas Escrituras, mas que havia sido obscurecido por interpretações exclusivistas e nacionalistas da fé.


O Diálogo Revolucionário no Poço

O diálogo entre Jesus e a mulher samaritana, registrado em João 4:6-26, representa um dos encontros mais profundos e transformadores dos evangelhos. Este intercâmbio não apenas quebra múltiplas barreiras sociais, mas também revela gradualmente a identidade de Jesus e o caráter revolucionário de sua mensagem.

O texto nos situa no poço de Jacó, por volta do meio-dia. Jesus, cansado da viagem, está sentado junto ao poço quando uma mulher samaritana se aproxima para tirar água. É significativo que Jesus esteja sozinho neste momento, pois seus discípulos haviam ido à cidade comprar alimentos. Este detalhe cria o espaço para um diálogo íntimo e sem interferências.

Jesus inicia a conversa com um simples pedido: "Dá-me um pouco dessa água". Este pedido, aparentemente trivial, é na verdade extraordinário, como a própria mulher reconhece imediatamente: "Como, sendo o Senhor um judeu, pede água a mim, que sou mulher samaritana?" Sua surpresa é compreensível, pois, como o evangelista explica, "os judeus não se dão com os samaritanos".

A resposta de Jesus eleva a conversa a um novo patamar:

"Se você conhecesse o dom de Deus e quem é que está lhe pedindo água para beber, você pediria e ele lhe daria água viva".

Com estas palavras, Jesus desloca o foco da água física para uma realidade espiritual mais profunda, introduzindo o conceito de "água viva" – uma metáfora para a vida espiritual que ele oferece.

A mulher, ainda pensando em termos literais, questiona a capacidade de Jesus de fornecer água sem ter um balde, observando que o poço é fundo. Ela também pergunta se ele se considera maior que Jacó, o patriarca que havia dado o poço. Esta referência a Jacó é significativa, pois tanto judeus quanto samaritanos reivindicavam descendência deste patriarca.

Jesus então esclarece a natureza da água que ele oferece:

"Quem beber dessa água voltará a ter sede. Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna".

Esta é uma das primeiras grandes declarações de Jesus sobre a natureza da vida espiritual que ele veio trazer – uma vida que satisfaz permanentemente a sede espiritual humana.

Intrigada, a mulher pede esta água, ainda parcialmente presa à compreensão literal. É neste momento que Jesus muda abruptamente o rumo da conversa: "Vá, chame seu marido e volte aqui". Este pedido aparentemente desconcertante revela o conhecimento sobrenatural de Jesus sobre a vida da mulher. Quando ela responde que não tem marido, Jesus confirma: "Você tem razão ao dizer que não tem marido, porque já teve cinco, e esse que agora tem não é seu marido. O que você disse é verdade".

Esta revelação impressiona profundamente a mulher, que reconhece: "Senhor, vejo que és profeta". Ela então levanta uma questão teológica controversa entre judeus e samaritanos – o local apropriado para adoração: "Nossos pais adoravam neste monte, mas vocês dizem que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar". Esta pergunta reflete o conflito central entre as duas tradições religiosas, já que os samaritanos adoravam no Monte Gerizim, enquanto os judeus insistiam que Jerusalém era o único local legítimo de adoração.

A resposta de Jesus transcende completamente esta antiga disputa: "Mulher, acredite no que eu digo. Vem a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém vocês adorarão o Pai... Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque são esses que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito, e é necessário que seus adoradores o adorem em espírito e em verdade".

Com estas palavras revolucionárias, Jesus anuncia o fim da adoração baseada em locais geográficos específicos. Ele declara que a verdadeira adoração não depende de estar no Monte Gerizim ou em Jerusalém, mas da qualidade espiritual do adorador. Esta declaração efetivamente invalida a base da disputa religiosa entre judeus e samaritanos, apontando para uma forma de adoração que transcende as divisões étnicas e geográficas.

A mulher, percebendo a profundidade destas palavras, faz referência à esperança messiânica compartilhada tanto por judeus quanto por samaritanos: "Eu sei que virá o Messias, chamado Cristo, e quando ele vier, nos anunciará todas as coisas". É neste momento culminante que Jesus faz uma das suas mais claras auto-revelações nos evangelhos: "Eu sou o Messias. Eu que estou falando com você".

Esta declaração direta e inequívoca de sua identidade messiânica é notável, especialmente considerando que Jesus frequentemente evitava tais proclamações públicas entre os judeus. O fato de ele revelar-se tão claramente a uma mulher samaritana, socialmente marginalizada, demonstra o caráter inclusivo e revolucionário de sua missão.

O diálogo é interrompido pelo retorno dos discípulos, que se admiram ao ver Jesus conversando com uma mulher samaritana, embora nenhum deles questione diretamente sua atitude. A mulher, transformada pelo encontro, deixa seu cântaro – simbolizando talvez o abandono de suas preocupações anteriores – e retorna à cidade para compartilhar sua experiência: "Venham comigo e vejam um homem que me disse tudo que eu já fiz. Não seria ele, por acaso, o Cristo?"

Este diálogo no poço não apenas transformou a vida de uma mulher marginalizada, mas estabeleceu um novo paradigma para a adoração e o relacionamento com Deus que transcende barreiras étnicas, geográficas, de gênero e de status social – um paradigma que continua desafiando e inspirando os seguidores de Jesus até hoje.


Graça versus Justiça na Perspectiva do Reino

O encontro de Jesus com a mulher samaritana ilumina uma das tensões mais profundas e transformadoras do evangelho: a relação entre graça e justiça. Esta tensão não é meramente teórica, mas central para compreendermos a natureza revolucionária do reino de Deus que Jesus veio estabelecer.

Em um sentido profundo, a graça pode ser vista como uma forma de "injustiça divina". Quando consideramos o caso do ladrão na cruz que, após uma vida de crimes, recebe de Jesus a promessa "Hoje estarás comigo no paraíso" (Lucas 23:43), reconhecemos algo que desafia nossa compreensão convencional de justiça. De acordo com um sistema puramente meritocrático, este homem não merecia salvação. No entanto, Jesus lhe concede gratuitamente o que ele não poderia jamais merecer.

A graça é, portanto, uma aparente injustiça quando vista através da lente do mérito humano. Ela só não nos parece injusta quando nós mesmos somos os beneficiários – quando, depois de todas as nossas falhas, recebemos perdão e aceitação que não merecemos. É precisamente esta "injustiça" da graça que nos leva à gratidão profunda: reconhecemos que Deus, em Cristo, tomou sobre si a ofensa e colocou sobre nós a purificação de seu sangue.

Por outro lado, o que compreendemos como justiça humana opera necessariamente dentro de um mundo marcado pelo pecado. Na eternidade, onde reina o Espírito e a bondade de Deus, não há pecado, e portanto não há necessidade de justiça retributiva. Deus, em sua essência, não precisa de justiça – nós é que precisamos dela para regular as relações em um mundo corrompido pelo mal.

Quando mantemos alguém sob cárcere como punição por um crime, estamos, em certo sentido, praticando uma "maldade retributiva" – restringindo a liberdade de alguém como resposta a um mal que foi cometido. No entanto, esta resposta não deve ser motivada pelo ódio ou vingança, mas administrada sob o "governo da graça" – com a maior coerência possível com os princípios de misericórdia e restauração.

Jesus ilustra esta tensão de forma radical em Mateus 5:38-48, quando desafia diretamente o princípio de "olho por olho, dente por dente" que era central na lei mosaica: "Vocês ouviram o que foi dito: 'Olho por olho e dente por dente'. Eu, porém, vos digo: não resistam ao perverso. Se alguém lhe der um tapa na face direita, ofereça também a face esquerda... Vocês ouviram o que foi dito: 'Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo'. Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos e orem por aqueles que perseguem vocês, para demonstrarem que são filhos do Pai de vocês que está nos céus. Porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons e vir chuva sobre justos e injustos."

Estas palavras são profundamente desafiadoras porque vão contra nossa inclinação natural de retribuir mal com mal. Jesus está estabelecendo um padrão de vida que reflete a natureza do Pai celestial, que demonstra graça indiscriminadamente, fazendo "nascer o sol sobre maus e bons e vir chuva sobre justos e injustos".

Quando a mulher samaritana questiona por que Jesus, sendo judeu, está falando com ela, está essencialmente perguntando: "Por que você não está seguindo o sistema de justiça retributiva estabelecido pela tradição religiosa?" A resposta implícita de Jesus é que ele opera sob um sistema diferente – o sistema da graça que transcende as barreiras erguidas pela justiça humana.

É significativo que Jesus, conhecendo a situação moral da mulher (tendo tido cinco maridos e vivendo com um homem que não era seu marido), não a condena nem exige que ela "coloque sua vida em ordem" antes de receber a água viva. Ele não diz: "Deixe o sexto homem, volte para o primeiro marido, e então venha a mim". Ao invés disso, ele a encontra onde ela está, oferecendo-lhe graça e transformação a partir daquele ponto.

Este encontro nos ensina que, embora a justiça seja necessária para regular as relações humanas em um mundo caído, ela deve sempre ser administrada sob o governo da graça. Quando transformamos princípios bíblicos em sistemas de exclusão e condenação, estamos distorcendo a mensagem central do evangelho. Como Jesus demonstrou no poço de Jacó, o reino de Deus opera primariamente através da graça que acolhe, transforma e restaura – não através de uma justiça que exclui e condena.

No final, a verdadeira justiça de Deus se revela não através de sistemas retributivos, mas através da fé na graça daquele que morreu por nós. Como Paulo escreveu: "Mas agora, sem a lei, se manifestou a justiça de Deus... pela fé em Jesus Cristo para todos os que creem" (Romanos 3:21-22). Esta é a revolução do evangelho que Jesus exemplificou em seu encontro com a mulher samaritana.


A Verdadeira Adoração no Reino de Deus

Um dos aspectos mais revolucionários do diálogo entre Jesus e a mulher samaritana está na redefinição radical do conceito de adoração. Quando a mulher levanta a questão teológica que dividia judeus e samaritanos – "Nossos pais adoravam neste monte, mas vocês dizem que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar" – ela toca em um dos conflitos religiosos mais antigos e acirrados de sua época.

Os samaritanos insistiam que o Monte Gerizim era o local legítimo de adoração, baseando-se em sua versão do Pentateuco. Os judeus, por outro lado, afirmavam que Jerusalém era o único lugar aceitável para o culto a Deus, conforme estabelecido nas escrituras e na tradição. Esta disputa não era meramente teológica, mas estava profundamente enraizada nas identidades étnicas e culturais de ambos os grupos.

A resposta de Jesus transcende completamente esta controvérsia secular: "Mulher, acredite no que eu digo. Vem a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém vocês adorarão o Pai. Vocês adoram o que não conhecem. Nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque são esses que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito, e é necessário que seus adoradores o adorem em espírito e em verdade."

Com estas palavras, Jesus anuncia o fim da adoração baseada em localizações geográficas específicas. Ele declara que a verdadeira adoração não depende de estar no Monte Gerizim ou em Jerusalém, mas da qualidade espiritual do adorador. Esta declaração efetivamente invalida a base da disputa religiosa entre judeus e samaritanos, apontando para uma forma de adoração que transcende as divisões étnicas e geográficas.

É importante notar que Jesus não está simplesmente propondo um compromisso entre as posições judaica e samaritana, nem está sugerindo que todas as formas de adoração são igualmente válidas. Ele reconhece que "a salvação vem dos judeus", afirmando o papel histórico de Israel no plano divino de redenção. No entanto, ele anuncia que este arranjo estava chegando ao fim – "vem a hora, e já chegou" – com a inauguração de uma nova era de adoração.

O que significa adorar "em espírito e em verdade"? Adorar "em espírito" significa que a verdadeira adoração não é primariamente uma questão de rituais externos ou localizações físicas, mas de engajamento espiritual interno. É uma adoração que brota do espírito humano regenerado pelo Espírito de Deus. Adorar "em verdade" significa que esta adoração deve estar alinhada com a revelação verdadeira de quem Deus é, culminando na pessoa e obra de Jesus Cristo, que declarou: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (João 14:6).

É significativo que Jesus declare que estes são os adoradores que "o Pai procura". Deus não está primariamente interessado em rituais elaborados, locais sagrados ou afiliações denominacionais, mas em corações sinceros que o adoram com autenticidade e em conformidade com sua revelação. Como observado por um comentarista, "Jesus não disse que estava procurando adoração, mas adoradores". Deus não busca bajulação ou rituais vazios, mas relacionamento genuíno com pessoas.

A afirmação de que "Deus é espírito" fundamenta esta nova compreensão da adoração. Como ser espiritual, Deus não está confinado a templos feitos por mãos humanas (Atos 17:24). Portanto, a adoração verdadeira não pode ser limitada a locais específicos ou rituais externos, mas deve envolver todo o ser do adorador em um relacionamento espiritual com Deus.

Esta revelação sobre a verdadeira adoração tem implicações profundas. Ela desmantela as barreiras religiosas que frequentemente dividem a humanidade. Ela liberta a adoração das limitações geográficas, culturais e rituais. Ela coloca o foco não nas formas externas de religiosidade, mas na qualidade do relacionamento espiritual com Deus.

Jesus está anunciando à mulher samaritana, e através dela a todos nós, que o reino de Deus não é sobre "a placa da instituição na frente do prédio, nem a fotografia do pastor com a esposa segurando o cálice da ceia" – não é sobre denominações, tradições ou estruturas religiosas. É sobre "a simplicidade da comunhão" – o relacionamento direto e pessoal com Deus através de Jesus Cristo.

Esta mensagem foi tão revolucionária no primeiro século quanto é hoje. Ela desafia todas as formas de religiosidade que colocam barreiras entre as pessoas e Deus. Ela questiona todas as tentativas humanas de construir "torres de Babel" religiosas para "tornar o seu nome grande na terra". E ela nos convida a uma adoração que transcende lugares, formas e tradições, centrando-se no relacionamento espiritual com Deus revelado em Jesus Cristo.


O Chamado para Sentar-se no Poço com os "Samaritanos"

O encontro de Jesus com a mulher samaritana não é apenas uma narrativa histórica, mas um chamado urgente para os seguidores de Cristo em todas as épocas. Este episódio nos desafia a "sentar-nos no poço" com os "samaritanos" contemporâneos – aqueles que a sociedade e, muitas vezes, as instituições religiosas marginalizaram, excluíram e consideraram indignos.

Quando a mulher samaritana questiona por que Jesus, sendo judeu, fala com ela, está expressando sua consciência dolorosa de ser considerada "impura" e indigna de interação. Sua pergunta revela o peso de carregar um estigma social e religioso – a experiência de ser vista não como uma pessoa, mas como uma categoria a ser evitada. "Como, sendo o Senhor um judeu, pede água a mim, que sou mulher samaritana?" Esta pergunta ecoa através dos séculos nas vozes daqueles que se sentem excluídos das comunidades de fé.

Jesus não apenas fala com esta mulher – ele a vê verdadeiramente. Ele conhece sua história completa, incluindo seus cinco casamentos anteriores e sua situação atual de viver com um homem que não é seu marido. No entanto, ao contrário do que poderíamos esperar, Jesus não usa este conhecimento para condená-la ou para estabelecer condições para seu acolhimento. Ele não diz: "Deixe o sexto homem, volte para o primeiro marido, e então você será digna da água viva que ofereço." Ao invés disso, ele a encontra onde ela está e oferece transformação a partir daquele ponto.

Este encontro nos confronta com uma pergunta desafiadora: estamos prontos para o evangelho? Estamos preparados para a radicalidade do amor e da inclusão que Jesus demonstrou? Como ele mesmo ensinou em Mateus 5, amar aqueles que nos amam não tem nada de extraordinário – até os "publicanos" (coletores de impostos, frequentemente desprezados) fazem isso. O chamado distintivo dos seguidores de Jesus é amar os inimigos, orar pelos perseguidores, e assim refletir a natureza do Pai celestial que "faz nascer o sol sobre maus e bons e vir chuva sobre justos e injustos".

Em nossos dias, há "samaritanas no poço" em toda parte – pessoas que a sociedade e as instituições religiosas marginalizaram por causa de sua etnia, status social, histórico de vida, orientação sexual, escolhas passadas ou presentes, ou inúmeras outras razões. O chamado do evangelho não é usar o texto bíblico como uma arma para "meter bala" nestas pessoas, nem para afirmar que "nada mais é pecado". O chamado é sentar-se no poço – entrar em relacionamento genuíno, ver a pessoa além do rótulo, oferecer dignidade, respeito e a possibilidade de transformação através do encontro com Jesus.

Este chamado frequentemente nos coloca em posições desconfortáveis. Pode nos colocar em tensão com tradições religiosas estabelecidas, como aconteceu com Jesus. Pode nos levar a ser questionados, como os discípulos provavelmente queriam questionar Jesus quando o encontraram conversando com a samaritana. Pode nos colocar em conflito com aqueles que preferem linhas claras de separação entre os "puros" e os "impuros".

O evangelho nos desafia a examinar nossas próprias vidas e a reconhecer que todos nós somos como a mulher samaritana – necessitados da graça transformadora de Cristo. Esta consciência deveria nos impedir de "torcer o nariz" para aqueles que consideramos menos dignos. Como podemos recusar sentar-nos no poço com outros quando Cristo se dignou a sentar-se no poço conosco?

Seguir Jesus significa estar disposto a ter a mente "mortificada" – não apenas nossos pecados, mas também nossas ideias preconcebidas, nossos conceitos limitados, nossa segurança ideológica terrena. O evangelho frequentemente nos coloca em tensão com os extremos do espectro político e ideológico, mas nos aproxima do Filho de Deus.

O evangelho não é um poder que nos é dado para controlar os outros, mas o poder de Deus que deveria controlar cada um de nós para nos tornarmos mais semelhantes a Cristo. É sobre comunhão – a família da fé reunida à mesa, partilhando o pão, reconhecendo nossa humanidade comum e nossa necessidade compartilhada de graça.

Quando participamos da Ceia do Senhor, celebramos precisamente esta realidade – a união dos pecadores que foram redimidos pelo mesmo sangue. A mesa da comunhão é uma prefiguração do banquete final onde pessoas "de todas as nações, tribos, povos e línguas" estarão reunidas diante do trono de Deus. Como podemos celebrar esta visão enquanto mantemos barreiras de exclusão em nossas comunidades?

O chamado para sentar-se no poço com os "samaritanos" contemporâneos não é fácil. Requer humildade para reconhecer nossos próprios preconceitos, coragem para desafiar tradições excludentes, e sabedoria para navegar questões complexas de verdade e graça. Mas este é o caminho de Jesus – o caminho que ele demonstrou ao cruzar deliberadamente por Samaria, sentar-se no poço, e oferecer água viva a uma mulher que a sociedade havia marginalizado.

A pergunta que permanece para cada um de nós é: estamos dispostos a seguir Jesus até o poço, mesmo quando isso nos coloca em tensão com nossas tradições, conforto e segurança? Estamos prontos para ver além dos rótulos e categorias, para enxergar pessoas como Jesus as vê? Estamos preparados para oferecer não condenação, mas a possibilidade de transformação através do encontro com a graça?

Como Jesus nos lembra, "o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido" (Lucas 19:10). Se queremos seguir verdadeiramente a Jesus, devemos estar dispostos a ir onde ele vai, amar quem ele ama, e sentar-nos no poço com aqueles que a sociedade rejeita.## O Chamado para Sentar-se no Poço com os "Samaritanos"

O encontro de Jesus com a mulher samaritana não é apenas uma narrativa histórica, mas um chamado urgente para os seguidores de Cristo em todas as épocas. Este episódio nos desafia a "sentar-nos no poço" com os "samaritanos" contemporâneos – aqueles que a sociedade e, muitas vezes, as instituições religiosas marginalizaram, excluíram e consideraram indignos.

Quando a mulher samaritana questiona por que Jesus, sendo judeu, fala com ela, está expressando sua consciência dolorosa de ser considerada "impura" e indigna de interação. Sua pergunta revela o peso de carregar um estigma social e religioso – a experiência de ser vista não como uma pessoa, mas como uma categoria a ser evitada. "Como, sendo o Senhor um judeu, pede água a mim, que sou mulher samaritana?" Esta pergunta ecoa através dos séculos nas vozes daqueles que se sentem excluídos das comunidades de fé.

Jesus não apenas fala com esta mulher – ele a vê verdadeiramente. Ele conhece sua história completa, incluindo seus cinco casamentos anteriores e sua situação atual de viver com um homem que não é seu marido. No entanto, ao contrário do que poderíamos esperar, Jesus não usa este conhecimento para condená-la ou para estabelecer condições para seu acolhimento. Ele não diz: "Deixe o sexto homem, volte para o primeiro marido, e então você será digna da água viva que ofereço." Ao invés disso, ele a encontra onde ela está e oferece transformação a partir daquele ponto.

Este encontro nos confronta com uma pergunta desafiadora: estamos prontos para o evangelho? Estamos preparados para a radicalidade do amor e da inclusão que Jesus demonstrou? Como ele mesmo ensinou em Mateus 5, amar aqueles que nos amam não tem nada de extraordinário – até os "publicanos" (coletores de impostos, frequentemente desprezados) fazem isso. O chamado distintivo dos seguidores de Jesus é amar os inimigos, orar pelos perseguidores, e assim refletir a natureza do Pai celestial que "faz nascer o sol sobre maus e bons e vir chuva sobre justos e injustos".

Em nossos dias, há "samaritanas no poço" em toda parte – pessoas que a sociedade e as instituições religiosas marginalizaram por causa de sua etnia, status social, histórico de vida, orientação sexual, escolhas passadas ou presentes, ou inúmeras outras razões. O chamado do evangelho não é usar o texto bíblico como uma arma para "meter bala" nestas pessoas, nem para afirmar que "nada mais é pecado". O chamado é sentar-se no poço – entrar em relacionamento genuíno, ver a pessoa além do rótulo, oferecer dignidade, respeito e a possibilidade de transformação através do encontro com Jesus.

Este chamado frequentemente nos coloca em posições desconfortáveis. Pode nos colocar em tensão com tradições religiosas estabelecidas, como aconteceu com Jesus. Pode nos levar a ser questionados, como os discípulos provavelmente queriam questionar Jesus quando o encontraram conversando com a samaritana. Pode nos colocar em conflito com aqueles que preferem linhas claras de separação entre os "puros" e os "impuros".

O evangelho nos desafia a examinar nossas próprias vidas e a reconhecer que todos nós somos como a mulher samaritana – necessitados da graça transformadora de Cristo. Esta consciência deveria nos impedir de "torcer o nariz" para aqueles que consideramos menos dignos. Como podemos recusar sentar-nos no poço com outros quando Cristo se dignou a sentar-se no poço conosco?

Seguir Jesus significa estar disposto a ter a mente "mortificada" – não apenas nossos pecados, mas também nossas ideias preconcebidas, nossos conceitos limitados, nossa segurança ideológica terrena. O evangelho frequentemente nos coloca em tensão com os extremos do espectro político e ideológico, mas nos aproxima do Filho de Deus.

O evangelho não é um poder que nos é dado para controlar os outros, mas o poder de Deus que deveria controlar cada um de nós para nos tornarmos mais semelhantes a Cristo. É sobre comunhão – a família da fé reunida à mesa, partilhando o pão, reconhecendo nossa humanidade comum e nossa necessidade compartilhada de graça.

Quando participamos da Ceia do Senhor, celebramos precisamente esta realidade – a união dos pecadores que foram redimidos pelo mesmo sangue. A mesa da comunhão é uma prefiguração do banquete final onde pessoas "de todas as nações, tribos, povos e línguas" estarão reunidas diante do trono de Deus. Como podemos celebrar esta visão enquanto mantemos barreiras de exclusão em nossas comunidades?

O chamado para sentar-se no poço com os "samaritanos" contemporâneos não é fácil. Requer humildade para reconhecer nossos próprios preconceitos, coragem para desafiar tradições excludentes, e sabedoria para navegar questões complexas de verdade e graça. Mas este é o caminho de Jesus – o caminho que ele demonstrou ao cruzar deliberadamente por Samaria, sentar-se no poço, e oferecer água viva a uma mulher que a sociedade havia marginalizado.

A pergunta que permanece para cada um de nós é: estamos dispostos a seguir Jesus até o poço, mesmo quando isso nos coloca em tensão com nossas tradições, conforto e segurança? Estamos prontos para ver além dos rótulos e categorias, para enxergar pessoas como Jesus as vê? Estamos preparados para oferecer não condenação, mas a possibilidade de transformação através do encontro com a graça?

Como Jesus nos lembra, "o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido" (Lucas 19:10). Se queremos seguir verdadeiramente a Jesus, devemos estar dispostos a ir onde ele vai, amar quem ele ama, e sentar-nos no poço com aqueles que a sociedade rejeita.


A Transformação da Mulher Samaritana: De Marginalizada a Missionária

Um dos aspectos mais inspiradores do encontro no poço de Jacó é a transformação radical que ocorre na vida da mulher samaritana. Em questão de minutos, ela passa de uma pessoa socialmente marginalizada a uma evangelista eficaz que conduz toda uma comunidade a Jesus. Esta transformação ilustra o poder do evangelho para não apenas mudar vidas individuais, mas também para inverter completamente os valores e estruturas sociais estabelecidos.

Quando a narrativa começa, a mulher é apresentada como alguém que vive à margem de sua própria sociedade. O fato de ela vir buscar água ao meio-dia, no calor mais intenso do dia, quando normalmente ninguém estaria no poço, sugere que ela estava evitando o contato com outras pessoas. As mulheres tipicamente buscavam água nas horas mais frescas da manhã ou da tarde, transformando esta tarefa em uma atividade social. Sua presença solitária ao meio-dia indica seu status de excluída social.

A revelação de Jesus sobre sua história pessoal – "você teve cinco maridos, e o homem com quem você vive agora não é seu marido" – confirma que ela tinha um histórico que a tornava objeto de escândalo e rejeição em sua comunidade. Seja por escolha própria ou por circunstâncias além de seu controle (como a morte de maridos ou o abandono), esta mulher carregava um estigma social que a isolava.

É notável que Jesus não use seu conhecimento sobrenatural da vida dela para condená-la, mas para estabelecer credibilidade e abrir caminho para uma revelação mais profunda. A resposta da mulher – "Senhor, vejo que és profeta" – demonstra que ela reconhece nele uma autoridade espiritual, mas ainda não compreende plenamente quem ele é.

À medida que o diálogo avança e Jesus revela verdades cada vez mais profundas sobre a adoração e, finalmente, declara abertamente ser o Messias, ocorre uma transformação notável. A mulher, que inicialmente abordou Jesus com cautela e surpresa, agora está tão impactada pelo encontro que deixa seu cântaro de água – o propósito original de sua vinda ao poço – e corre de volta à cidade.

O texto nos diz: "A mulher deixou seu cântaro, foi à cidade e disse ao povo: 'Venham comigo e vejam um homem que me disse tudo que eu já fiz. Não seria ele, por acaso, o Cristo?'" Este momento marca uma transformação dramática em sua identidade e propósito. A mesma mulher que veio ao poço sozinha, evitando contato social, agora se torna uma proclamadora pública, abordando ativamente as pessoas da cidade que provavelmente a haviam rejeitado anteriormente.

É significativo que ela convide as pessoas a "virem e verem" por si mesmas, em vez de simplesmente declarar suas próprias conclusões. Esta abordagem reflete humildade e sabedoria – ela reconhece que sua palavra sozinha pode não ser suficiente para convencer os outros, dada sua reputação, mas confia que um encontro pessoal com Jesus será tão transformador para eles quanto foi para ela.

O impacto de seu testemunho é impressionante: "Muitos samaritanos daquela cidade creram nele por causa do testemunho da mulher, que declarou: 'Ele me disse tudo o que eu já fiz'". Aquela que era anteriormente marginalizada agora se torna um instrumento eficaz para levar outros a Cristo. Sua história pessoal, que antes era motivo de vergonha e exclusão, torna-se parte de seu testemunho poderoso sobre o conhecimento sobrenatural e a aceitação incondicional demonstrados por Jesus.

A transformação continua a se desenrolar quando os samaritanos, respondendo ao testemunho da mulher, vêm a Jesus e o convidam a permanecer com eles. Jesus fica na cidade por dois dias, e muitos mais passam a crer. Eles então dizem à mulher: "Já não cremos apenas por causa do que você disse; agora, nós mesmos o ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo".

Este comentário final é profundamente significativo. Os samaritanos reconhecem Jesus não apenas como o Messias esperado pelos judeus, mas como o "Salvador do mundo" – uma compreensão surpreendentemente universal que transcende as expectativas nacionalistas comuns naquela época. Esta visão mais ampla da missão de Jesus ecoa o tema central do Evangelho de João, que enfatiza repetidamente o alcance global da salvação trazida por Cristo.

A transformação da mulher samaritana ilustra várias verdades poderosas sobre o evangelho:

  1. A graça de Jesus alcança os marginalizados e excluídos, não apenas os socialmente respeitáveis.

  2. Nosso passado e presente, por mais problemáticos que sejam, não nos desqualificam para sermos usados por Deus.

  3. O encontro genuíno com Jesus não apenas transforma nossa identidade pessoal, mas também nosso propósito e relacionamentos.

  4. Aqueles que experimentam a graça transformadora de Cristo frequentemente se tornam seus testemunhos mais eficazes.

  5. O testemunho pessoal autêntico – "venham e vejam" – é uma forma poderosa de evangelismo que respeita a jornada espiritual dos outros.

A história da mulher samaritana nos lembra que o evangelho não apenas salva indivíduos, mas também inverte os valores do mundo. Aquela que era "a última" em sua sociedade torna-se "a primeira" a reconhecer Jesus como o Messias em Samaria e a levar outros a ele. Como Jesus ensinou, "muitos primeiros serão últimos, e muitos últimos serão primeiros" (Mateus 19:30). Esta inversão de status é uma marca distintiva do reino de Deus que Jesus veio inaugurar.


Conclusão: O Poço como Símbolo da Revolução do Reino

O encontro entre Jesus e a mulher samaritana no poço de Jacó representa um dos momentos mais emblemáticos e revolucionários do ministério de Jesus. Este episódio, registrado com riqueza de detalhes no Evangelho de João, não é apenas uma narrativa histórica, mas um paradigma que continua a desafiar e inspirar a igreja em todas as gerações.

O poço, em si mesmo, carrega um profundo simbolismo. Na tradição bíblica, os poços eram frequentemente locais de encontros significativos. Foi junto a um poço que o servo de Abraão encontrou Rebeca para ser esposa de Isaque (Gênesis 24). Foi junto a um poço que Moisés conheceu sua futura esposa Zípora e encontrou refúgio após fugir do Egito (Êxodo 2). Os poços eram lugares de provisão, vida, encontro e novas possibilidades.

O poço de Jacó, especificamente, representava um patrimônio compartilhado entre judeus e samaritanos, um raro ponto de conexão entre tradições que se haviam tornado hostis. Quando Jesus escolhe este local para seu encontro com a mulher samaritana, ele está simbolicamente estabelecendo um terreno comum onde barreiras podem ser derrubadas e novas formas de comunhão podem emergir.

Ao longo deste estudo, exploramos várias dimensões revolucionárias deste encontro:

  1. A quebra de barreiras sociais, étnicas e religiosas - Jesus deliberadamente cruza fronteiras que separavam judeus e samaritanos, homens e mulheres, religiosamente "puros" e "impuros". Ele demonstra que o reino de Deus não opera segundo as linhas divisórias estabelecidas pela sociedade humana.

  2. A revelação do plano universal de Deus - Jesus mostra que a salvação, embora tenha vindo historicamente através dos judeus, destina-se a todas as nações. O particularismo da revelação divina a Israel sempre teve como objetivo final a bênção universal prometida desde Abraão.

  3. A redefinição radical da adoração - Jesus anuncia o fim da adoração baseada em localizações geográficas específicas, substituindo-a por uma adoração "em espírito e em verdade" que transcende lugares, formas e tradições.

  4. A tensão entre graça e justiça - Jesus demonstra que a graça divina frequentemente parece "injusta" quando vista através da lente do mérito humano, mas é precisamente esta "injustiça" da graça que nos leva à gratidão profunda e à transformação.

  5. O chamado para "sentar-se no poço" com os marginalizados - Jesus nos desafia a seguir seu exemplo de aproximação intencional daqueles que a sociedade e as instituições religiosas excluíram e consideraram indignos.

  6. A transformação da identidade e propósito - Jesus transforma uma mulher socialmente marginalizada em uma evangelista eficaz, demonstrando o poder do evangelho para inverter completamente os valores estabelecidos.

Este encontro no poço nos convida a reexaminar nossas próprias vidas e comunidades à luz do evangelho revolucionário de Jesus. Ele nos desafia a perguntar:

  • Quais são as "Samarias" que deliberadamente evitamos em nossas vidas e ministérios?
  • Quem são os "samaritanos" contemporâneos com quem nos recusamos a compartilhar água do mesmo cântaro?
  • Como nossas tradições religiosas, por mais valiosas que sejam, podem às vezes se tornar barreiras que impedem a adoração "em espírito e em verdade"?
  • De que maneiras nossa compreensão de justiça pode estar obscurecendo a radicalidade da graça que recebemos e somos chamados a estender aos outros?
  • Estamos dispostos a ter nossas mentes "mortificadas" – não apenas nossos pecados, mas também nossas ideias preconcebidas e nossa segurança ideológica terrena?

O evangelho que Jesus proclamou e demonstrou no poço de Jacó não é uma mensagem domesticada que simplesmente reforça nossas preferências culturais, políticas ou denominacionais. É uma mensagem revolucionária que continuamente desafia nossos preconceitos, expande nossas fronteiras e nos chama a uma visão mais ampla do reino de Deus.

Como a mulher samaritana, somos convidados a deixar nossos cântaros – símbolos de nossas preocupações limitadas e agendas pessoais – e correr para compartilhar a notícia transformadora de que encontramos alguém que "nos disse tudo o que já fizemos" e, ainda assim, nos ofereceu água viva.

E como os samaritanos que vieram ver Jesus por causa do testemunho da mulher, somos chamados a uma experiência direta com Cristo que nos leva a declarar: "Já não cremos apenas por causa do que outros disseram; agora, nós mesmos o ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo".

Este é o poder revolucionário do encontro no poço – um poder que continua a transformar vidas, comunidades e o mundo, dois mil anos depois.


Resumo do Estudo: O Encontro de Jesus com a Mulher Samaritana

Seção Principais Pontos
A Revolução do Poço • Jesus cruza deliberadamente barreiras sociais, étnicas e religiosas<br>• O encontro desafia normas culturais estabelecidas<br>• Jesus demonstra um novo paradigma de ministério inclusivo
O Chamado para Sentar-se no Poço • Convite para interagir com os "samaritanos" contemporâneos<br>• Jesus vê a pessoa além do rótulo social<br>• Oferecer dignidade e transformação, não condenação<br>• Disposição para ter a mente "mortificada" - desafiada em preconceitos
De Marginalizada a Missionária • Transformação da identidade da mulher samaritana<br>• De excluída social a evangelista eficaz<br>• Uso do testemunho pessoal ("venham e vejam")<br>• Inversão dos valores do mundo: a última torna-se primeira
O Poço como Símbolo • Poço representa um ponto de encontro transformador<br>• Água viva simboliza a satisfação espiritual permanente<br>• A revolução do reino inverte valores estabelecidos<br>• Chamado a uma adoração que transcende lugares e formas
Aplicações Práticas • Cruzar fronteiras intencionalmente<br>• Reconhecer a sede espiritual universal<br>• Praticar adoração em espírito e verdade<br>• Equilibrar graça e verdade<br>• Capacitar testemunhas improváveis<br>• Construir comunidades inclusivas
Contexto Histórico-Cultural • Origens da divisão entre judeus e samaritanos<br>• Significado do Poço de Jacó na história bíblica<br>• Barreiras de gênero na cultura do primeiro século<br>• Simbolismo da água na tradição bíblica
Conexões Teológicas • Água como símbolo recorrente no Evangelho de João<br>• Revelações progressivas da identidade de Jesus<br>• Universalidade da salvação ("Salvador do mundo")<br>• Transformação da adoração para além de locais geográficos
Perguntas para Reflexão • Identificação de barreiras pessoais e comunitárias<br>• Exploração da sede e satisfação espiritual<br>• Compreensão da adoração autêntica<br>• Equilíbrio entre graça e verdade<br>• Transformação pessoal e testemunho<br>• Aplicação prática dos princípios do encontro
Recursos Adicionais • Comentários bíblicos recomendados<br>• Livros temáticos para estudo aprofundado<br>• Artigos acadêmicos sobre aspectos específicos do texto

Princípios Fundamentais do Encontro no Poço

Princípio Descrição Aplicação Contemporânea
Intencionalidade Missionária Jesus "precisava passar por Samaria" - uma necessidade teológica, não geográfica Identificar e buscar intencionalmente grupos marginalizados
Quebra de Barreiras Jesus transcende divisões étnicas, religiosas e de gênero Examinar e desafiar preconceitos pessoais e institucionais
Graça Primária Jesus oferece aceitação antes de abordar questões morais Priorizar relacionamento e dignidade antes de correção moral
Sede Universal Todos buscam satisfação espiritual, frequentemente em lugares errados Reconhecer necessidades espirituais subjacentes às questões superficiais
Adoração Transformada Adoração verdadeira transcende lugares e formas Focar na autenticidade espiritual, não apenas em tradições
Testemunho Pessoal A mulher usa sua própria história para apontar outros a Cristo Compartilhar experiências pessoais como ponte para o evangelho
Transformação de Identidade A mulher passa de excluída a evangelista Ver potencial em todos, independente de seu passado ou presente
Comunidade Renovada Uma cidade inteira é transformada através de um encontro Buscar transformação comunitária, não apenas individual

Cronologia do Encontro e Suas Implicações

Momento do Encontro Significado Lição para Hoje
Jesus senta-se no poço Disposição para entrar no território do "outro" Sair da zona de conforto para encontrar os marginalizados
Pedido de água Vulnerabilidade e iniciativa de Jesus Iniciar relacionamentos através de pontos de conexão humana
Oferta de água viva Redirecionamento para necessidades espirituais Discernir e abordar a sede espiritual subjacente
Revelação do conhecimento sobre a vida da mulher Demonstração de onisciência sem condenação Combinar verdade com graça no confronto
Discussão sobre adoração Elevação da conversa a questões espirituais profundas Transcender debates superficiais para chegar ao cerne da fé
Revelação messiânica "Eu sou" - primeira auto-revelação explícita de Jesus Conduzir pessoas a um encontro pessoal com Cristo
Abandono do cântaro Liberação de preocupações anteriores Deixar para trás agendas limitadas para abraçar a missão
Testemunho na cidade Transformação de identidade e propósito Usar a própria história como ponte para o evangelho
Resposta comunitária Muitos samaritanos creem Buscar transformação comunitária, não apenas individual
Confissão de fé universal "Salvador do mundo" - visão expandida do Messias Abraçar a visão universal da missão de Cristo

"No poço onde as diferenças deveriam dividir, Jesus transformou uma barreira em ponte, revelando que nossa sede mais profunda não é por água, mas por sermos verdadeiramente conhecidos e ainda assim amados — um encontro revolucionário que continua a desafiar-nos a abandonar nossos cântaros de preconceito para levar outros à mesma água viva que nos transformou."



A Casa da Rocha. #14 - Há mais samaritanas no poço - Zé Bruno - Quem é Jesus?. Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6Iv_swd5Npo. Acesso em: 25/08/2025.

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há 5 dias
Matéria: Religião
Artigo
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