Marcos 6:30-31: O Convite: Aprendendo a Não se Distrair, Desacelerar e Descansar em Jesus
Introdução: O convite pessoal de Jesus
Todo pastor de igreja tem uma gaveta cheia de sermões guardados — alguns já usados dezenas de vezes, outros que nunca saíram do papel. Este é um deles. Mas há um tempo, Deus falou comigo através dessa passagem, e eu não preguei nem na minha própria igreja. Hoje quero compartilhar com vocês aquilo que tenho me alimentado nos últimos dias, e se eu pudesse dar um nome a essa mensagem, eu a chamaria de o convite.
O texto está em Marcos, capítulo 6, versículos 30 e 31:
"Os apóstolos reuniram-se a Jesus e relataram tudo que tinham feito e ensinado. Havia muita gente indo e vindo ao ponto de eles não terem tempo para comer. Jesus disse: 'Venham comigo para um lugar deserto e descansem um pouco.'"
Antes de entrar nesse texto, preciso dizer uma coisa que carrego no coração: o relacionamento com Jesus é pessoal, não religioso. Nós não temos um relacionamento de domingo em domingo com Ele. Esse tipo de vínculo — que só acontece uma vez por semana — é o que vivemos com os irmãos, na comunidade, no espaço onde os dons se manifestam. Mas o relacionamento com Jesus é diário. Todo vínculo que só existe de domingo em domingo é frágil, limitado, típico de quem ainda está no começo da fé. O relacionamento verdadeiro com Jesus exige mais — exige uma caminhada.
Em Mateus 11, Jesus faz um convite semelhante:
"Vinde a mim, vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. O meu jugo é suave, o meu fardo é leve."
É interessante que ali também há um convite: vinde. E é exatamente isso que encontramos no texto de Marcos. Os discípulos chegam empolgados, radiantes, contando tudo o que fizeram e ensinaram. Eles estão motivados com tudo o que viveram na missão. Em Lucas 10:17, vemos essa mesma cena: eles voltam dizendo "Senhor, até os demônios se submetem a nós em teu nome!" Há tanta coisa acontecendo, tanto para contar, e eles falam com alegria genuína.
Então Jesus responde: "Eu vi Satanás cair do céu como um relâmpago. Vocês estão felizes porque os demônios se submetem?" Jesus não está jogando um balde de água fria sobre a euforia deles. Ele não está dizendo "pare com isso, é mentira" ou "vocês não deveriam ser usados por mim". Jesus está dizendo: "Eu preciso calibrar o coração de vocês para o lugar certo — porque constantemente o nosso coração se desloca para o lugar errado."
E é exatamente sobre isso que quero conversar com você nesta mensagem: sobre um convite que Jesus faz, não para nos afastar do que fazemos por Ele, mas para nos aproximar d'Ele antes de qualquer coisa que façamos.
Quando o Sucesso se Torna um Ídolo
Constantemente nós fabricamos deuses no nosso coração. João Calvino já disse que nosso coração é uma fábrica de ídolos — e eu concordo plenamente. Nós construímos ídolos o tempo todo. O microfone pode se tornar um ídolo. Os likes podem se tornar um ídolo. Você não consegue ficar meia hora sem checar um comentário. Se alguém comentou algo novo na sua postagem, aquilo já pode se transformar num ídolo silencioso, ocupando um espaço que não deveria ocupar.
Formamos ídolos no coração o tempo todo, e um dos mais perigosos é o sucesso no ministério. O perigo não está no barco vazio — está no barco cheio. Um barco cheio pode nos dar a sensação de que somos bons, de que estamos no caminho certo por conta própria, e é justamente aí que um ídolo pode nascer dentro de nós.
Quando Jesus vê os discípulos radiantes com os resultados, Ele não está dizendo "vocês não podem expulsar demônios" ou "vocês não deveriam se alegrar". Ele está dizendo: "Deixa eu calibrar vocês. Podem se alegrar com isso, mas alegrem-se mais porque o vosso nome está escrito no livro da vida." Não percamos o foco. Não saiamos do alvo.
Tenho repetido isso para mim mesmo constantemente: cuidado para a bênção não tirar você do Abençoador. Cuidado para a conta cheia não tirar você daquele que fez a conta ficar cheia. Corremos o risco de perder o farol todos os dias — e quando digo "corremos", é porque eu mesmo corro esse risco.
Hoje tenho mais dificuldade de ficar a sós com Deus, de viver o secreto com Ele. Por quê? Porque a igreja cresceu. E quando a igreja cresce, os números chegam. Tem pastores que dizem: "Nossa, que lindo, vocês batizaram 1.500 pessoas no ano passado!" E sim, é uma coisa linda — quem não se alegraria com isso? Mas preciso ser honesto: é também desesperador para um pastor que leva a sério o Evangelho. Não é romântico para quem quer apenas números. É romântico para quem ama pessoas — e para quem ama pessoas de verdade, aquilo é, ao mesmo tempo, uma responsabilidade enorme.
Quero que você imagine comigo uma cena: você abre a porta do seu apartamento amanhã de manhã e encontra cem bebês-conforto, com cem bebês chorando. Não estou falando de gêmeos ou trigêmeos — estou falando de cem crianças e um bilhete grande dizendo apenas: "Cuida." Qual seria o seu sentimento? Desespero. Vai precisar de doula, de babá, de leite, de fralda para cada uma delas. Da mesma forma, 1.500 pessoas se batizando é desesperador para quem leva a sério o Evangelho — porque cada uma delas precisa ser cuidada, discipulada, acompanhada.
Minha oração constante é: "Senhor, onde estão os pastores para cuidar de tudo isso?" Ter uma igreja grande não é romântico — é, na verdade, um dos lugares mais perigosos de se estar, porque, afinal, o sucesso chegou. Mas o que é sucesso, de verdade?
Os discípulos chegaram relatando o sucesso da missão. Mas irmãos, sabem quem estava ali, esperando por eles? Não era o apóstolo Paulo. Não era Pedro. Era Jesus. E os discípulos estavam tão tomados pela euforia do que haviam feito que nem perceberam que não tinham comido. O próprio texto diz: não deram tempo nem para o lanche. E é diante disso que Jesus os olha e diz: "Venham comigo para o deserto e descansem."
Conhecer ou Apenas Servir?
Há uma verdade que preciso deixar bem clara: não há problema algum em se alegrar por ser usado, em se alegrar por ser abençoado. O problema é perder o Abençoador de vista. Quando o "ser usado" sobrepuja o relacionamento, corremos o risco de não conhecê-Lo de verdade.
Não podemos esquecer de um texto duríssimo que Jesus vai dizer para alguns:
"Apartai-vos de mim, malditos, porque eu não vos conheço."
Arrisco dizer — e não gostaria que nenhum de nós ouvisse isso um dia — que talvez algumas pessoas entre nós ouçam essa sentença. E o interessante é que essas mesmas pessoas terão um currículo pronto para apresentar antes: "Eu ministrei louvor na igreja, preguei nas nações, tinha célula, evangelizei, tenho teologia, tenho três pós-graduações, eu, eu, eu..." E a resposta será: "Você fez tudo isso sem mim. Eu não conheço você."
Conhecer é relacionamento. Você pode, em nome de Jesus, ter algum acesso a Ele e falar alguma coisa — mas isso não significa que você O conhece de verdade. Deixa eu ilustrar: quem aqui conhece o Neymar? Praticamente todo mundo levanta a mão. Mas conhece mesmo? Você tem acesso ao talão de cheque dele para assinar? Você é amigo pessoal dele? Não. Você o vê na internet — isso não é conhecer.
É exatamente isso que Jesus está dizendo aos discípulos: "Muito legal tudo isso que vocês fizeram, mas venham para o deserto comigo. Deixa eu alinhar o coração de vocês." Porque o convite de Jesus não é para que paremos de servir — é para que não confundamos servir com conhecer.
Primeiro Convite: Não se Distrair
Há um convite aqui, e dentro desse texto eu identifico quatro convites principais que Jesus nos faz. O primeiro é: não nos distrairmos.
No Brasil, existe uma distração muito forte chamada política. Sei que ao tocar nesse assunto já há quem se arrepie — mas infelizmente há muita confusão nessa área. Na comunidade onde sou pastor, tomamos uma decisão há doze anos: nenhum político sobe ao púlpito da igreja. Nenhum. Não interessa se é de direita ou de esquerda — púlpito é lugar de pregar o Evangelho, não de fazer politicagem.
Uma das coisas mais impressionantes que tenho observado é como a igreja está distraída — tão distraída que a política se tornou mais assunto do que o próprio Evangelho. Nossas redes sociais revelam do que o nosso coração está cheio, e muitas vezes ele está cheio de política e vazio de Evangelho. Se falássemos mais do Evangelho, talvez o Brasil fosse diferente. Mas nossa confiança está depositada num homem ou em outro homem, num político ou em outro político — e se nossa confiança está no homem, já perdemos.
Não estou dizendo que você não deve pensar e votar de forma inteligente, nem que não devemos ter cristãos na política — devemos, porque é uma esfera de governo e precisamos de pessoas lá. Mas não podemos nos distrair com isso. Não podemos nos distrair com o dólar subindo ou descendo. São distrações — e nem estou falando de coisas ruins, estou falando de assuntos do dia a dia que roubam nosso foco.
Há outra distração sutil: o nosso coração está muito envolvido com a vida alheia. Antigamente, a inveja e a cobiça nasciam daquilo que estava perto de nós — o carro do vizinho, a casa do vizinho, a grama do vizinho. Bastava mudar para o interior, longe de vizinhos, para resolver isso. Mas hoje não é assim. Hoje você abre o celular e o Neymar é seu vizinho. A vida alheia — bonita, editada, aparentemente perfeita — bate à porta do seu coração todos os dias pedindo para entrar.
Estamos tão distraídos que a Copa do Mundo nos fez esquecer de mais de 60 mil venezuelanos enterrados. Não tenho nada contra a Copa do Mundo — amo futebol, sofro pelo meu time. Mas pergunto: que resposta a igreja está dando ao mundo? A igreja de Jesus sempre foi uma resposta. Ela não fica apenas fazendo perguntas — ela responde.
Quando a pandemia bateu no Brasil, fiquei isolado, apavorado. Eu havia deixado 22 anos de carreira no Exército Brasileiro para viver exclusivamente do ministério — queimei minhas carroças, não tinha mais como voltar. Poucos meses depois, tudo fechou. Cheguei a pensar: "Que besteira eu fiz." Fiquei apavorado por duas semanas. Mas depois fui orar, fui ler a história da igreja, fui relembrar o que ela fez durante a peste negra, durante o ebola — em todas as épocas de pandemia. E descobri que a igreja nunca ficou trancada num quarto. Ela colocou máscara e foi para a rua evangelizar, alimentar o pobre, o faminto.
Naquele dia, Deus falou comigo: "Você é uma resposta. A igreja é uma resposta." Eu poderia ter me distraído com o medo, com a possibilidade de contrair um vírus e morrer — e tudo isso era real. Mas eu não podia me distrair do meu chamado, que é cuidar de pessoas. Para dar uma dimensão: em seis meses, a prefeitura da nossa cidade entregou 35 toneladas de alimento. A igreja entregou 800 toneladas. Oitocentas toneladas a mais do que a prefeitura — porque a igreja de Jesus é relevante quando sabe o que está fazendo e para onde está indo.
Agora pergunto a você: está atento ou distraído? O que tem tomado o seu tempo? Confesso um pecado meu: o celular mostra quanto tempo passamos em cada aplicativo por dia. Um dia, há seis meses, descobri que havia ficado 12 das 24 horas no celular. Duas dessas horas foram só no Instagram — e nesse tempo eu não resolvi problema nenhum. Fiquei apenas olhando a vida dos outros, comentando, sendo alimentado pelo algoritmo, comendo aquilo que ele queria me oferecer, não aquilo que Deus queria que eu me alimentasse.
Quando percebi isso, pedi perdão a Jesus, fui ao meu quarto e tirei o aplicativo do celular. Passei o acesso para uma equipe cuidar por mim, só para continuar evangelizando através dele, sem me perder ali dentro. Porque eu só tenho uma vida para viver. Saiu uma pesquisa em Harvard — sériíssima — dizendo que 100% das pessoas morrem. Isso inclui você. É uma taxa bem elevada.
A Bíblia diz que há mais sabedoria numa casa de luto do que numa casa de festa. Toda vez que faço um velório, saio de lá pensando na vida. Jesus não tinha problema em falar sobre a morte — Ele sabia que Seu dia se aproximava, e estava resolvido com isso. Se a gente vivesse consciente de que talvez restem poucas horas, será que não diríamos "eu te amo" com mais frequência? Será que não mandaríamos flores mais vezes? Por que esperamos?
Toda vez que um cristão entrega a vida a Jesus, ele já foi cancelado pelo mundo — o mundo não é mais dele. Então por que ainda temos vergonha de falar de Jesus? Esse é o convite: não se distraia. Preste atenção.
Perder ou Abandonar a Salvação?
Sei que este assunto é polêmico e entra na área da teologia, mas quero compartilhar o que penso: será que dá para perder a salvação? Eu não acredito, porque "perder" é uma palavra fraca demais. O que seria "perder"? Cadê, estava salvo, agora não estou mais? Você acorda de manhã, faz uma oração bonita, está salvo. Ao meio-dia, briga na mesa de almoço, está desviado, está no inferno. À tarde, alguém corta você no trânsito, você xinga, está no inferno de novo. À noite, faz uma oração pelo alimento, está no céu outra vez. Esse vaivém de entrar e sair do céu e do inferno o tempo todo — eu não acredito nisso.
Eu não acredito que ninguém perde a salvação. Acredito que a gente abandona. E abandonar é diferente de perder. Eu decido cultivar o relacionamento, ou decido não cuidar dele porque quis cultivar outra coisa em seu lugar.
Amo o Evangelho de João, capítulo 15, onde a palavra "permanecer" aparece doze vezes. Aquele que permanece, aquele que permanece — não interessa se tem muita fé ou pouca fé, ele permaneceu. Não interessa se ele acertou ou errou, ele permaneceu. Não interessa se ele escorregou e depois voltou, ele permaneceu. Porque todos nós teremos quedas, todos nós teremos acertos — estamos, cada um de nós, num processo contínuo de santificação.
Você é um pecador. E posso provar isso: quem aqui já viu jovens empinando moto e torceu, mesmo que por um segundo, para que caíssem? Deixa eu falar uma verdade sem querer machucar ninguém: imagine se eu pegasse tudo o que você pensou, imaginou, viu e leu nos últimos quinze dias e colocasse num telão. Quem sairia correndo por aquela porta comigo? Eu mesmo sairia correndo junto.
Sabe por que você continua de pé? Pela graça e pela bondade de Deus que o sustentam. Por isso Jesus está dizendo: não se distraia, não se empolgue demais — nem com os elogios, nem com as críticas. Fique firme com Ele, porque os elogios passam, as críticas passam, mas o Senhor permanece.
Segundo Convite: Desacelerar
Há um segundo convite no texto: um convite para desacelerarmos. A passagem diz que havia muita gente indo e vindo, um verdadeiro trânsito de pessoas, ao ponto de os discípulos não conseguirem nem comer. Quando a correria nos impede de simplesmente estar, quando a urgência dos outros rouba as nossas prioridades, ali existe um convite para desacelerar.
Me perdoem, eu não sou coach, sou pastor. Então não vou dizer "você é um general, avance, acelere, pise fundo". Não. Prefiro o Salmo 90: "Senhor, ajuda-nos a contar os nossos dias e a encontrar sabedoria." O segredo não está em correr — está na velocidade que Jesus quer para nós.
Deus tem pedido a muitos de nós: "Tira a velocidade dois do WhatsApp." Estamos acelerados, e isso rouba nossas prioridades. Quando a correria do fazer nos impede de estar, quando as urgências alheias tomam o lugar do que realmente importa, algo se perde pelo caminho.
Quero contar algo pessoal. Eu e minha esposa passamos por um momento difícil no casamento, com apenas dois anos de união — ficamos quatro meses separados, morando longe um do outro. Deus começou a restaurar. E aqui uma verdade que aprendi: Deus não restaura casamentos, Ele restaura pessoas. Pessoas restauradas é que restauram casamentos.
Um dos motivos da nossa distância foi que, quando me converti, transferi para Deus a mesma dinâmica que eu vivia com meu pai — um relacionamento de meritocracia. Quando eu tirava nota boa, meu pai gostava de mim; quando tirava nota ruim, ele me batia. Então pensei: "Se eu fizer tudo certo, Deus vai me amar." E me enfiei na igreja sete dias por semana, achando que assim conquistaria o amor de Deus. Minha esposa passou a ter o diácono, o pastor, o presbítero — mas não tinha mais o marido. Foi ali que meu casamento entrou em crise.
Lembro de uma vez jantando com ela, numa mesa para dois. Uma coisa que aprendemos: quando saímos para jantar, ela verifica se "Jesus deixou algum recado" — porque os crentes não têm noção nenhuma. Se veem o casal de pastores jantando em algum lugar, sentam junto sem pensar duas vezes. "Pastor, estou com uma tribulação..." Não é hora, estou jantando com minha esposa! Mas eu convidava as pessoas para sentar mesmo assim, e o jantar ia por água abaixo. As urgências dos outros, somadas à minha própria correria, roubavam a minha prioridade — que era minha esposa.
Hoje entendi: se num domingo minha esposa está doente, eu não vou pregar. Fico em casa. Cinco cultos, doze mil pessoas — não importa. Ela só tem um marido, que sou eu. Demônio qualquer um pode expulsar; cuidar da minha esposa, só eu posso fazer.
Jesus faz esse convite para desacelerarmos porque o ativismo religioso, a busca exagerada por conhecimento e reconhecimento podem nos adoecer. Os discípulos mal tinham tempo de comer — e quando não nos alimentamos corretamente, em todos os sentidos, ficamos fracos e enfermos. Existe uma síndrome perigosa na igreja que chamo de síndrome do circo: o mesmo que vende o ingresso é quem recebe na porta, é o palhaço, é quem doma o leão, é quem vende a pipoca. Como há pouca gente disposta a servir, os poucos que servem acabam servindo demais — e nunca têm tempo de sentar e receber alimento espiritual.
Lá na nossa igreja, houve momentos em que não tínhamos louvor no culto, justamente para não sacrificar o próprio time de louvor. Eu começava com uma oração e já pregava. Prefiro que o grupo de louvor também receba a Palavra, porque o que fazemos não é mais importante do que quem somos. Também criamos uma cultura de presentear os líderes que servem com um jantar — não porque mereceram pelo trabalho, mas porque Deus não nos vê como trabalhadores, nos vê como filhos. Quem é pai ou mãe entende: seu filho não vale pela nota que tira na escola, vale pelo fato de ser seu filho.
Deus não despreza você por não estar servindo como acha que deveria. Mas Ele pode corrigir quando estamos fora do alinhamento que Ele planejou — e esse alinhamento envolve desacelerar. Estamos, inclusive, acelerando a criação dos nossos filhos, pulando etapas da infância deles, antecipando processos que deveriam respeitar seu tempo próprio.
Gosto muito de um episódio em Gênesis 32, quando Jacó vai se reconciliar com seu irmão Esaú. No caminho, ele diz: "Estou na velocidade dos bois e das crianças, não posso correr. Pode ir na frente." Se entendêssemos isso, diríamos com mais frequência: "Pode ir na frente — eu estou na velocidade dos meus filhos, na velocidade da minha casa." Muitos pastores — no Brasil e nos Estados Unidos — precisam sair do púlpito, voltar para casa e recuperar os filhos que ficaram para trás enquanto eles avançavam em alta velocidade no ministério.
Tenho um grupo de cerca de trezentos pastores no WhatsApp, e um dos conselhos que mais dou é: "Feche a igreja, passe para outra pessoa, e vá recuperar seu casamento — porque você está em alta velocidade, mas sua esposa ficou para trás." A velocidade que Deus quer para nós é a velocidade da Sua palavra e da Sua vontade para nossa vida — ainda que seja no ritmo dos nossos filhos. E é justamente aí, nessa velocidade específica, que podemos ser usados por Deus e aprovados por Ele. De nada adianta sermos usados sem sermos aprovados.
A Celebração do Ordinário
Corremos o risco de buscar satisfação e alegria apenas em grandes eventos, datas especiais, nomes conhecidos — assim como os religiosos da época de Jesus, que corriam o risco de não perceber o próprio Jesus numa simples manjedoura. Lá na nossa igreja, tenho tentado implementar uma cultura diferente: a celebração do ordinário.
Deixa eu usar um exemplo bem pessoal. Minha mãe biológica faleceu há dezessete anos. Depois, meu pai se casou com uma mulher maravilhosa, a Teresa. Durante a pandemia, ela também partiu. Eu tinha o hábito de, no final do dia, passar na casa dela para tomar um café — um simples café da tarde. Hoje, quando penso no que sinto falta, não é dos aniversários dela, não são as festas. Sinto falta daquele café do final do dia. Porque a beleza está no ordinário.
Tenho ensinado a igreja a celebrar o ordinário: o pequeno grupo durante a semana, a ação social, a visita simples, o café no fim da tarde, o açaí compartilhado, o tempo de mesa, as flores fora de época. Uma das práticas que adotei pessoalmente é um lema que chamo de "flores em vida". Não quero receber coroa de flores no dia em que eu morrer — prefiro que aquele dinheiro vire cesta básica para quem precisa. Se alguém quer me dar uma flor, que me dê agora, enquanto estou vivo. Se quer escrever um texto bonito sobre mim, que escreva agora. Por que sempre esperamos o extraordinário para celebrar, e deixamos o ordinário passar despercebido?
Em alta velocidade, ninguém consegue ler um outdoor na estrada. Da mesma forma, em alta velocidade espiritual, não percebemos a beleza da própria estrada da vida. Normalmente, quem corre demais é quem só quer chegar ao destino — e quem só quer chegar não aproveita a viagem. E estamos correndo tanto que não estamos aproveitando nada.
Quanto tempo ainda teremos nossa mãe viva? O que é mais precioso: um dia na presença de Deus, ou um dia em qualquer outro lugar? Por que abandonamos o devocional, aqueles vinte minutos com Deus antes de sair para o trabalho? Porque estamos distraídos, acelerados, em alta velocidade — e não percebemos a beleza ao nosso redor.
Há um convite para percebermos Jesus na manjedoura, não no palácio. Jesus está no simples. Vejo Jesus, por exemplo, na vida da Ana — uma mulher que perdeu o marido durante a pandemia e decidiu não se casar novamente, para se dedicar a cuidar das outras viúvas da igreja. Ela é uma viúva cuidando de viúvas. Enquanto muitos de nós lutamos com nossos próprios sonhos, a Ana tenta ajudar as outras pessoas com os seus — porque percebeu, na sua própria dor, a dor do outro. Normalmente, quem sofre passa a enxergar melhor o sofrimento alheio.
Também temos um ministério de inclusão para crianças neuroatípicas, com espectro autista e outras condições. Ele nasceu de um casal que tinha uma filha autista e me procurou dizendo que não havia nada na igreja para acolhê-la. Perguntei o que eles gostariam, e eles propuseram criar uma sala sensorial. Tudo o que fiz foi autorizar o dinheiro — quem construiu de fato foi esse casal, porque o fato de terem uma filha assim os fez enxergar todas as outras crianças na mesma situação. Não percebemos essas coisas porque vivemos em alta velocidade demais. Às vezes, Deus permite que um pneu fure, que o carro capote, só para nos fazer parar um pouco — não é o diabo interferindo na viagem, é Deus nos freando, porque, na velocidade em que vamos, corremos o risco de nos perdermos de vez.
Terceiro Convite: Estar com Ele
Os discípulos voltaram de uma grande missão e estavam prestes a presenciar um dos maiores milagres de suas vidas. Qual milagre? Simplesmente ficar com Jesus. Ele calibra os nossos corações, avalia nossas motivações, nos desacelera e nos convida a contemplar a viagem, avaliar riscos e reorganizar valores. Jesus celebra os resultados e os frutos dos Seus discípulos — mas antes de tudo, Ele quer os corações deles.
Jesus não quer o nosso resultado antes de nos ter. E se for para perder a nós, Ele abandona os resultados, porque a obra de Deus não é nossa. Não pensemos que Ele quer apenas aquilo que fazemos — Ele nos quer, a nós mesmos. Jesus estabiliza o nosso coração dizendo: "Venham comigo." O segredo não é ir para o deserto sozinho, mas com quem se vai para lá. O segredo não é apenas chorar, mas para quem choramos. O segredo não é apenas orar, mas para quem oramos.
O convite de Jesus é pessoal. Não é evangélico, não é religioso — é pessoal. Jesus é maravilhoso, é lindo, é apaixonante, é aconchegante, é alívio. Ele nos percebe. Ele não olha para nós e vê apenas dízimo, ou missão na África — mesmo que espere de nós, como filhos que trabalham com Ele, esse tipo de fruto. Mas Ele nos quer antes de qualquer coisa que fazemos por Ele. Colocamos Jesus num patamar apenas religioso, como se houvesse só regras a cumprir, e Ele está dizendo: "Fique comigo, venha comigo." É como se dissesse: "Estou com saudade de você." Não importa quantas pessoas você batizou, quantas almas você alcançou — o trabalho não pode roubar você de mim, filho. Venha comigo.
Jesus não está dizendo "venha para a minha igreja" ou "venha para a minha denominação". Ele está dizendo "venha comigo, fique comigo". A comunidade de fé é a segunda estação — a primeira é pessoal. Conheço muita gente que quer Jesus, mas poucos que querem a nossa religião. E muitas vezes é porque a nossa religião impõe coisas que Jesus não impõe.
Lá na nossa igreja, há um movimento interessante: muitas pessoas homossexuais têm ido ao culto, entrando, sentando entre os irmãos, levantando a mão em adoração. E, por tradição religiosa, muitas vezes as tratamos como se fossem pecadoras "piores" do que nós — como se nós, heterossexuais, fôssemos automaticamente melhores. Ser homossexual é pecado, sim — assim como ser hétero e desejar a mulher do próximo também é. Só que colocamos uns num lugar mais perigoso do que os outros, como se fossem mais impuros.
A igreja é um hospital — entre suas várias facetas (exército, família, corpo), ela também é isso. E seria injusto exigir que todos no hospital já estivessem curados; estão ali justamente para serem curados. Muitos de nós já passamos por esse hospital em diferentes áreas da vida. Jesus não diz a ninguém "saia daqui porque você é homossexual", "saia porque você usa drogas". Ele diz: "Fique, porque sou poderoso para te receber como você está e poderoso para te transformar naquilo que desejo que você se torne." Jesus recebe todo mundo, aceita todos — mas não aceita tudo. E, à medida que nos aproximamos d'Ele, Ele vai nos transformando.
Quero contar dois testemunhos. Uma irmã me procurou pedindo para se batizar. Perguntei qual pecado a atormentava, e ela respondeu que, na igreja anterior, não a deixaram batizar por vinte anos porque ela era fumante — viciada, duas carteiras de cigarro por dia, já havia tentado se libertar sem sucesso. Perguntei se ela amava Jesus, se era apaixonada por Ele havia vinte anos, se tinha certeza de que seu nome estava escrito no livro da vida. Ela respondeu que sim a tudo. Eu disse: "Então no próximo batismo você vem, e eu vou te batizar com cigarro e tudo."
Ali, propus uma reflexão à igreja: quem concorda que fumar é pecado? Quase todos levantaram a mão. Quem concorda que Coca-Cola também prejudica o templo do Espírito Santo? Poucos levantaram — inclusive alguns que haviam concordado com o primeiro ponto ficaram incomodados. O ponto não é liberar tudo, mas reconhecer que não podemos ser hipócritas, filtrando o pecado alheio e ignorando o nosso. Pecado é pecado, ponto final — e por pecado, nenhum de nós teria condição própria de se batizar. É a graça e a bondade de Deus, é a cruz do Calvário que nos trouxe até ali. A salvação não é mérito nosso, é misericórdia de Deus; a santificação, sim, é um processo contínuo. Ela foi batizada. Dois meses depois, me ligou dizendo que nunca mais havia fumado.
O segundo testemunho é de uma moça de trinta anos que me procurou antes do batismo dizendo ser homossexual, ter sido casada com uma mulher até um ano antes, separada, mas ainda sentindo atração por mulheres — algo que não vivia antes dos dezenove anos. Ela começou a contar sua história: a ausência paterna, uma série de vivências dolorosas. Eu a escutei com calma, mesmo havendo fila de pessoas esperando, porque ela era importante naquele momento. Quando ouvimos de verdade as pessoas, passamos a compreendê-las — e é justamente a falta de escuta que costuma gerar nossa falta de compreensão.
Ela me disse: "Pastor, eu já orei pedindo a Jesus para tirar isso de mim." Percebi ali uma pessoa sincera, que não estava tentando me agradar, mas que genuinamente havia buscado a Deus. Disse a ela: "Filha, há homens aqui que vão se batizar sendo héteros, mas que têm amantes — e eles também terão que abandonar o pecado, não importa o sentimento envolvido. Você também terá que lutar com o seu. Mas você é bem-vinda do jeito que está." No batismo, ao sair das águas, ela me procurou dizendo: "Pastor, Jesus entrou na minha vida, Deus está me transformando de dentro para fora. Vou ser mãe. Deus vai me dar um marido, vou gerar filhos, vou ter uma família." Jesus é poderoso para transformar quem se aproxima d'Ele.
Nosso problema é que estamos acelerados demais e não estamos com Ele. Vivemos de respostas prontas de teólogos de internet que não têm vida com a igreja local, que ditam o certo e o errado sem chorar com o órfão, com a viúva, com quem pranteia. Quem só está na internet, sem viver a igreja local, não tem autoridade para falar dela. Há três semanas, fiz o velório de um menino de um ano e meio, e de uma moça de trinta anos. O que se diz num velório assim? Às vezes, nada — apenas se chora. E se estivermos distraídos demais, achando que temos coisas mais importantes a fazer, perdemos a beleza do consolo — a beleza de consolar e de ser consolado.
Quarto Convite: Descansar Nele
Se descansar fosse fácil, não seria necessário um mandamento sobre isso. Vou repetir algo que considero fundamental: só descansamos verdadeiramente com Jesus. Sem Ele, apenas dormimos — não descansamos. Sem Ele, tiramos férias, mas continuamos sem trabalhar de verdade no que importa. Jesus sabe que, descansando somente com Ele e n'Ele, os resultados seriam muito maiores em nossa vida. Descansar apenas fisicamente não é, de fato, descansar.
"Vinde a mim, e encontrareis descanso para as vossas almas."
Só Jesus dá descanso para a alma cansada. Assim como Ele fez com Marta e Maria, creio que vivemos numa geração de "Martas" — muitas Martas, poucas Marias. Estamos perdendo a beleza do ordinário, a beleza do singular. Temos números em abundância, mas já não celebramos o simples. Estamos corridos demais.
Todos os dias digo às minhas filhas e à minha esposa que as amo. Não mando flores diariamente porque é caro, mas mando todo mês — para a escola da minha filha, para minha esposa. Não quero esperar uma data especial para isso. O dia de Deus se chama hoje. E o convite de Jesus para mim é: fique perto de mim. Vamos ficando parecidos com quem caminha ao nosso lado.
Não quero ser lembrado como parecido com nenhum apóstolo, nem com nenhum dos grandes reformadores da história — pessoas que admiro profundamente e que cavaram trincheiras para que estivéssemos aqui hoje. Mas quero andar com Jesus, quero ser parecido com Jesus. Naquele dia final, quero ouvir: "Vinde, benditos de meu Pai. Tive fome, e me destes de comer. Estive preso, e me visitastes. Estava nu, e me vestistes." E não quero responder: "Mas Senhor, eu não tive tempo — estava numa correria ganhando dinheiro, tinha tanta coisa para fazer na igreja, eu era o presidente, o campo era meu."
Quando Deus quer fazer alguma coisa, Ele faz — não depende de nós. Um exemplo: Ele colocou um livro chamado "Mulheres Improváveis" dentro de mais de 142 penitenciárias femininas do Brasil, alcançando mais de 30 mil mulheres — algo que jamais conseguiríamos fazer sozinhos, por mais esforço que empenhássemos. Ele nos usa, nos dá o privilégio de fazer parte do processo. Mas, se eu perder Ele no meio do caminho, terei perdido tudo.
Alegremo-nos não porque os demônios se submetem, não porque a igreja é batizada no Espírito Santo quando tocamos um instrumento, não porque nossas postagens recebem curtidas — alegremo-nos porque o nosso nome está escrito no livro da vida. Deixa eu lembrar você mais uma vez: seu nome está no livro da vida. Não há campeão de Copa do Mundo, não há Messi, não há ninguém que conquiste um troféu como esse — ele vem pelo sangue do Cordeiro. É a coisa mais linda que possuímos: um dia moraremos com Ele para sempre.
Mas, enquanto estamos aqui, nosso trabalho é andar com Ele:
"Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós."
Gosto muito da forma como a versão King James traduz Mateus 11: "Tomai sobre vós o meu jugo." A palavra ali é "canga" — quem já trabalhou na roça sabe que a canga é aquela madeira colocada sobre os dois bois, unindo-os para puxar juntos o arado. Jesus está dizendo: "Vocês estão cansados, sobrecarregados com a correria, com os likes, com as aprovações que tanta gente espera de vocês? Larguem essa canga pesada e tomem a minha, que é suave e leve."
Andar com Jesus é maravilhoso. Minha luta diária é não deixar que a bênção de ter uma igreja grande, de ser usado por Deus, me roube d'Ele. Eu entregaria tudo isso amanhã se fosse preciso — mas não posso entregar Ele. Preciso andar na velocidade d'Ele, na velocidade da minha filha, na velocidade da minha esposa. Quando tentei ir à frente dessa velocidade, quase perdi minha casa.
Temos, na nossa igreja, um projeto chamado Mercado Solidário: as famílias recebem uma quantia numa moeda que criamos — os "solidários" — e vão às gôndolas comprando itens básicos: arroz, feijão, shampoo, carne, fraldas, cada um com seu valor em solidários. Um dia, uma mãe parou na frente das prateleiras de shampoo e começou a chorar. Perguntei o motivo, e ela respondeu: "Há três anos não lavo a cabeça da minha filha com shampoo — lavo só com sabão."
Cenas como essa me confrontam: será que ainda estou rápido demais para perceber o que está bem diante de mim? Preciso perceber a menina na fila querendo se batizar. Preciso perceber se minha esposa está enfrentando um momento difícil. Preciso perceber se minha filha está usando manga longa no verão porque está se ferindo. Estamos tão corridos que deixamos de perceber o essencial.
Minha oração nesta noite é que você desacelere e perceba a beleza daquilo que Deus lhe deu — mesmo que não pareça perfeito. Não existem filhos ideais, existem filhos reais. Não existe marido ideal, existe o marido real que você tem. Não existe esposa ideal, existe aquela que está ao seu lado agora. Fique com Jesus. Vá ao coração d'Ele, que Ele devolverá você para sua casa, para sua família, para as obras que Ele mesmo preparou.
Qual é a sua agenda? Já consultou a agenda de Deus? Talvez, se você abrir, esteja escrito: "Saia com sua filha." Tenho um compromisso assim — chamo de "dia pai e filha". Uma vez, mesmo estando de férias com minha família, lembrei à minha filha que era segunda-feira, e segunda-feira é dia pai e filha — não importa onde estejamos, o compromisso permanece. Certa vez, um pastor conhecido no Brasil me procurou querendo tomar um café justamente num dia assim. Respondi: "Hoje é dia pai e filha." Minha filha, surpresa, perguntou: "Pai, mas é o fulano?" E respondi: "Filha, ele não é mais importante que você."
Minha filha mais velha se casou recentemente, com um rapaz que admiro profundamente. No altar, ela me presenteou com o primeiro beijo — algo que jamais pedi, apenas fruto de estar perto, de amar, de acompanhar sua velocidade ao longo dos anos. Não quero ser aprovado apenas como pregador. Quero ser aprovado como discípulo de Jesus, como pai, como marido — na velocidade d'Ele.
Vocês estão correndo muito, estão cansados, muitos nem sequer comeram. Esta é a palavra de Jesus para mim e para você hoje: "Venham comigo para o deserto, e descansem um pouco." E essa palavra não foi dita para os que não creem — foi dita para os discípulos. Se você está me ouvindo agora, essa palavra é para você.
Descansem um pouco. Descansem em mim.
Fonte: Temo Martinello. Quem aceita esse convite descobre algo lindo | Pr Telmo Martinello. https://www.youtube.com/watch?v=HuE9WkykXUc
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