Mateus 2:1 - 3:1-10: O Rei do Reino Chegou: Os Magos, a Fuga para o Egito e o Machado à Raiz das Árvores
A Dobradiça Entre Dois Testamentos
Agora vamos entrar propriamente no texto de Mateus, nos capítulos 2 a 4. Em nossa jornada por este Evangelho, já vimos que Mateus foi escrito especificamente para o povo judeu. E, mais recentemente, vimos como o capítulo primeiro funciona como uma dobradiça — assim como a dobradiça de uma porta une duas partes, o capítulo 1 de Mateus une todo o Antigo Testamento ao Novo Testamento.
É por isso que, quando lemos o Antigo Testamento, o encontramos repleto de genealogias. Já no Novo Testamento, temos apenas duas: a de Mateus 1, que funciona como essa dobradiça, mostrando que todas as genealogias do Antigo Testamento existiam com um único propósito — trazer o Cristo, o Messias, para dentro da história.
Essa era a missão do povo de Deus no Antigo Testamento. A partir da promessa que Deus fez a Abraão, o primeiro patriarca, toda uma linhagem de gerações se desenrola com o objetivo de trazer à história a consciência de que Deus estava conduzindo o seu povo — formando, primeiro, uma família; depois, uma nação, por meio dos reis. E toda essa nação existia para, no tempo certo, trazer à história o Senhor Jesus.
Por isso a genealogia de Mateus 1 está dividida em três grupos de catorze gerações. O primeiro grupo mostra os patriarcas — e ali vemos que Deus estava presente, apesar de todas as falhas que eles tinham. O segundo grupo mostra os reis de Israel — e, mesmo com todos os problemas e dificuldades que enfrentaram, Deus continuava conduzindo a nação. E o terceiro grupo atravessa o período do exílio, até chegar, finalmente, ao Senhor Jesus.
Quando o Senhor Jesus vem, Ele se torna a materialização de uma grande promessa que remonta a Gênesis 3:15 — a promessa de que, quando o homem pecou, Deus disse à serpente que o filho da mulher lhe pisaria a cabeça. Esse filho era o próprio Filho de Deus, o Senhor Jesus.
Assim, quando chegamos ao capítulo primeiro de Mateus, é como se a história estivesse se descortinando diante de nós. Uma história que, ao longo de todo o Antigo Testamento, estava de certa forma encoberta pelas genealogias — mas que já anunciava que algo estava para acontecer. Agora, a genealogia definitiva se cumpre: o Senhor Jesus nasce, e com Ele vem o Rei do Reino para dentro da história.
E é justamente isso que passaremos a observar agora: o que acontece quando o Rei do Reino entra na história.
Os Magos e os Sinais do Universo (Mt. 2:1-2)
No capítulo segundo de Mateus, versos 1 e 2, encontramos um texto de extrema importância para a compreensão de todo este trecho — dos capítulos 2 ao 4. Ele diz:
"Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia nos dias de Herodes, eis que vieram os magos do Oriente a Jerusalém e perguntavam: Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo."
Esse é um texto fascinante, porque nos mostra que o universo inteiro estava, de certa forma, em movimento para o nascimento de Jesus. Todo o cosmos se preparava para a chegada do Rei do Reino, o Senhor de toda a história — Aquele de quem o Evangelho de João dirá que, no princípio, era o Verbo, o Verbo estava com Deus, o Verbo era Deus, e nós vimos com nossos próprios olhos o Senhor da glória.
Imagine, então, o universo inteiro se preparando para a chegada do Messias, a chegada de Cristo. E os sinais que Deus dava eram sinais transmitidos por meio da Escritura Sagrada — da revelação especial que Ele foi concedendo ao longo de toda a formação da nação de Israel. Mas o povo judeu, de modo geral, não conseguiu ler esses sinais.
Houve, porém, um outro grupo que não se pautava apenas pela revelação especial, mas também pela revelação geral — pela observação da natureza, das estrelas. Eram os magos, que este texto nos apresenta chegando do Oriente a Jerusalém. Eles eram estudiosos das estrelas, e alguns pesquisadores sugerem que fossem medos ou persas, possivelmente originários da região da Babilônia — o que hoje corresponderia ao Irã.
Vale destacar algo importante: não sabemos ao certo quantos magos eram. A tradição popular fala em três, e até lhes atribui nomes e origens — um da Índia, outro da Grécia, outro do Egito. Mas, na realidade, o texto bíblico não nos diz nem o número nem os nomes deles. Sabemos apenas que eram do Oriente e que eram magos.
E esses homens, lendo as estrelas — porque o universo inteiro se movimentava para trazer Jesus ao mundo —, conseguiram discernir a história. Perceberam que algo extraordinário estava acontecendo, a ponto de saírem de suas terras e empreenderem uma longa viagem até Belém, até Jerusalém, para se apresentarem diante de Herodes, o rei da época, e perguntarem: "Onde está o menino?" Aquele menino, o filho da mulher que pisaria a cabeça da serpente, havia nascido. Eles viram os sinais nas estrelas, viram os sinais do universo, viram os sinais presentes na revelação geral — e vieram até Jerusalém em busca do recém-nascido rei dos judeus.
É interessante notar que a narrativa não afirma que esses magos fossem judeus, nem que possuíssem um conhecimento profundo do Antigo Testamento. Ainda assim, eles creram — e a Bíblia nos diz que vieram adorar o Rei do universo.
Isso nos ensina algo valioso: muitas vezes, os teólogos ficam tão concentrados em decifrar e compreender o texto bíblico que acabam não observando os sinais que estão bem ao seu lado — os sinais que acontecem na natureza, na sociedade, na história. É certamente excelente estudarmos o texto bíblico com profundidade, mas esse estudo precisa caminhar lado a lado com o discernimento dos sinais históricos.
Walter Brueggemann, em seu livro A Imaginação Profética, afirma que o profeta é aquele que compreende o texto do Antigo Testamento, que entende o que foi revelado — mas que também compreende o que acontece nos dias atuais. Para ele, o profeta é aquele que possui conhecimento da Escritura, mas também discernimento da realidade.
Por isso é tão relevante compreendermos que esses magos, embora não fossem religiosos nem doutores da lei, conseguiram discernir a realidade de um modo mais profundo do que os próprios doutores da lei. Essa é a graça que chamamos de graça comum — uma graça disponível a todas as pessoas, independentemente de sua condição religiosa.
E há ainda outro elemento profundamente significativo nas palavras desses magos: eles tocam numa verdade mais profunda a respeito do Senhor Jesus — a de que Ele era rei. Não um rei meramente humano, mas um Rei divino, o Rei dos reis. E é justamente esse título, "rei dos judeus", que vamos ver ecoar mais adiante, de um modo muito diferente.
"Rei dos Judeus": Da Adoração dos Magos ao Escárnio dos Soldados
É interessante notar que, quando o Senhor Jesus nasce e Herodes toma conhecimento de que havia surgido um possível opositor a ele — alguém que poderia, no seu entendimento, disputar o seu próprio título de rei dos judeus —, ele toma uma medida drástica: ordena a morte de todos os meninos, todas as crianças do sexo masculino, na tentativa de eliminar também aquele menino. Mas Jesus é preservado, como veremos mais adiante. E aquele menino cresce, torna-se o grande Messias, começa a realizar milagres, a curar pessoas, a proclamar o evangelho do Reino.
Quando o Senhor Jesus cumpre o seu ministério, encontramos um texto extremamente relevante a respeito dessa questão de "rei dos judeus" — desta vez, no momento da sua morte. Em Mateus 27:27-29, lemos:
"Logo a seguir, os soldados do governador, levando Jesus para o pretório, reuniram em torno dele toda a tropa. Tiraram a roupa de Jesus e o vestiram com um manto escarlate. E, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-na na cabeça dele e colocaram um caniço em sua mão direita. E, ajoelhando-se diante dele, zombavam, dizendo: Salve, rei dos judeus!"
A mesma expressão de adoração que estava na boca dos magos agora está na boca dos soldados que zombam de Jesus. E esse contraste é revelador: ele mostra que Jesus era, de fato, o rei dos judeus — mas um rei destituído de todo poder humano e, ao mesmo tempo, revestido de todo o amor por nós.
Para zombar dele como "rei dos judeus", os soldados colocam sobre ele um manto, um caniço na mão direita — com o qual, segundo a narrativa, chegam a golpeá-lo — e uma coroa de espinhos sobre a sua cabeça. Os historiadores nos dizem que os espinhos usados eram longos, capazes de perfurar profundamente o crânio.
E aqui vale resgatar um detalhe do relato da queda, em Gênesis: quando Deus fala ao homem sobre a maldição que recairia sobre a terra por causa do pecado, Ele diz que ela produziria cardos e abrolhos — isto é, espinhos e ervas daninhas. Desde então, o espinho tornou-se um símbolo da queda, um sinal do pecado.
Assim, quando os soldados intitulam Jesus como "rei dos judeus" — repetindo a acusação levantada pelos próprios judeus de que ele se autodenominava rei —, eles o coroam, sim, mas com um sinal de maldição: a coroa de espinhos. Colocam em sua mão o caniço, símbolo do seu sofrimento e da sua tortura. E sobre ele lançam esse título: rei dos judeus.
Mais adiante, ainda no capítulo 27, o texto relata que, depois de o crucificarem, os soldados se assentaram para vigiá-lo e colocaram sobre a sua cabeça a acusação escrita contra ele: "Este é Jesus, o rei dos judeus."
Um rei, normalmente, é alguém cercado de toda pompa e honra. Mas Jesus foi aquele que recebeu sobre si toda a nossa maldição. E ele sofreu calado — como diz o profeta Isaías, no capítulo 53: foi como ovelha levada ao matadouro, como ovelha muda diante dos seus tosquiadores, sem reclamar. Por isso, era uma verdadeira afronta, aos olhos daquela sociedade, reconhecer Jesus como rei dos judeus — e, ainda assim, foi exatamente isso que Deus revelou, primeiro por meio dos magos, e depois, de forma trágica e irônica, por meio dos próprios soldados que o crucificaram.
O Paralelo Entre Moisés e Jesus (Mt. 2:13-23)
Há ainda outro elemento importante neste texto de Mateus 2: a tentativa de Herodes de matar Jesus, ordenando a morte de todos os meninos, como já mencionamos. E esse episódio nos revela um paralelo fascinante entre Moisés e Jesus.
Em Êxodo, o Faraó ordena que todas as crianças judias do sexo masculino sejam mortas. Séculos depois, a mesma cena se repete — agora não é o Faraó, mas Herodes quem determina que todas as crianças do sexo masculino sejam eliminadas. E, em ambos os casos, Deus concede livramento.
No caso de Moisés, Deus orienta sua mãe a fazer um cesto, revesti-lo de betume e colocá-lo no rio Nilo. Deus dirige o curso daquele menino até que ele chegue às mãos da própria filha do Faraó, sendo criado como filho dela. Assim, Moisés é livrado da morte por uma determinação real da mesma época que decretara sua morte.
O mesmo acontece com Jesus. Quando seus pais recebem a notícia de que a vida do menino estava em perigo por causa do decreto de matança das crianças, eles fogem com ele para o Egito. E aqui está a beleza do paralelo: Moisés estava no Egito para, futuramente, libertar o seu povo dali; Jesus foge para o Egito, e será Ele quem, no tempo determinado, libertará definitivamente o seu povo.
Moisés foi aquele que libertou o povo e escreveu o fundamento do Antigo Testamento — os cinco primeiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Moisés libertou o povo do cativeiro egípcio para conduzi-lo à terra prometida, Canaã. Jesus, por sua vez, é aquele que nos liberta definitivamente e nos conduz à Canaã celestial. E Jesus se torna o fundamento de todo o Novo Testamento, que depois os apóstolos e discípulos escreveriam nos Evangelhos e nas cartas.
É por isso que, em Mateus 2, os versos 13 a 15 narram a fuga para o Egito; os versos 16 a 18, a matança dos meninos de Belém; e os versos 19 a 23, o retorno de Jesus à Galileia, a Nazaré.
João Batista: O Sumo Sacerdote Que Deveria Estar no Templo, Mas Estava no Deserto
Quando Jesus retorna a Nazaré, chegamos ao capítulo terceiro de Mateus, e agora a mensagem que ecoa é que o Reino está próximo — anunciada por João Batista. O verso primeiro deste capítulo diz:
"Naqueles dias apareceu João Batista, pregando no deserto da Judeia. Ele dizia: Arrependam-se, porque está próximo o reino dos céus. Pois é a João que se refere o que foi dito por meio do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto, preparem o caminho do Senhor, endireitem as suas veredas."
A vinda de João Batista é um marco extraordinário, porque ele rompe um silêncio de quatrocentos anos. Depois do último profeta, Malaquias, Deus havia silenciado. Não falou mais nada durante esse longo período, que chamamos de período interbíblico.
É justamente nesse contexto de silêncio que a voz de João Batista se levanta — a voz que clama no deserto, preparando o caminho do Senhor.
E aqui está algo profundamente significativo: João Batista deveria ser, por direito, o sumo sacerdote de Deus. Ele deveria ser o grande homem responsável por representar a religião judaica, aquele a quem cabia apontar para o cordeiro pascal. Uma vez por ano, o sumo sacerdote tinha a responsabilidade de fazer uma oferta pelo pecado de toda a nação, apontando para o cordeiro e realizando o sacrifício.
Mas a religião, naquela época, havia se corrompido. Os judeus estavam em conluio com os romanos, e eram os próprios romanos quem determinavam quem ocuparia o posto de sumo sacerdote. Havia um verdadeiro conchavo político. Existiam alguns critérios para essa escolha: era necessário ser filho de sacerdote e descender da tribo de Arão, o primeiro sumo sacerdote. João Batista atendia a ambos os critérios — era filho de sacerdote, e sua mãe, Isabel, era da linhagem araônica.
Ou seja: João Batista era, por linhagem e por direito, o sumo sacerdote de Deus. O problema é que esse sumo sacerdote legítimo não podia exercer sua função no templo, porque o templo havia se corrompido pelos conchavos políticos, e havia outros ocupando esse posto — Anás e Caifás —, uma contradição em si mesma, já que só poderia haver um sumo sacerdote, e agora havia mais de um.
Como o verdadeiro sumo sacerdote de Deus não podia estar no templo, ele estava no deserto. Como não podia se alimentar da gordura da libação — comida destinada ao sumo sacerdote —, ele comia gafanhotos e mel silvestre. Como não podia vestir as roupas talares, a vestimenta sacerdotal, ele vestia peles de camelo. O texto de Mateus 3:4-6 registra:
"João usava uma roupa feita de peles de camelo e um cinto de couro. O seu alimento era gafanhotos e mel silvestre. Então, os moradores de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão iam até onde ele estava e, confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão."
E, justamente por carregar essa vocação de sumo sacerdote — cuja grande atribuição era apontar para o cordeiro pascal —, quando João Batista olha para Jesus, ele proclama: "Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo." Só o verdadeiro sumo sacerdote de Deus podia fazer essa declaração. E é exatamente isso que ele faz em relação ao Senhor Jesus.
João Batista rompe um silêncio de quatrocentos anos fazendo, com a própria vida, uma denúncia contra a religião de sua época — uma religião que havia se transformado em comércio, numa plataforma usada por muitos para enriquecer financeiramente, para se empoderar manipulando pessoas, ou para ampliar sua influência política junto aos romanos. A plataforma religiosa deixara de existir para elevar as pessoas a Deus, para conduzi-las ao arrependimento, para levá-las a reconhecer sua humanidade diante da graça divina. Havia se tornado um jogo de poder.
Por isso, ao romper esse silêncio, João Batista o faz também com sua própria vida: em vez de lutar pelas roupas talares, veste peles de camelo; em vez de disputar a gordura da libação, come gafanhotos e mel silvestre; em vez de buscar os melhores lugares no templo, habita o deserto. Sua vida inteira era uma denúncia.
"Raça de Víboras": O Confronto com Fariseus e Saduceus
Na continuidade do texto, encontramos algo extraordinário quando João Batista se depara com os religiosos da época — os fariseus e os saduceus. O relato diz:
"Quando João viu que muitos fariseus e saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem deu a entender que vocês podem fugir da ira que está por vir? Produzam fruto digno de arrependimento. E não pensem que podem dizer uns aos outros: Temos por pai Abraão, porque eu afirmo a vocês que Deus pode fazer com que destas pedras surjam filhos a Abraão."
É impressionante notar que, naquela sociedade, ninguém tinha coragem de falar dessa forma a um fariseu ou a um saduceu — homens de grande importância e prestígio social. Mas João Batista não tinha compromisso algum com o poder, não tinha compromisso com recursos financeiros, não tinha compromisso com conchavos políticos. João Batista tinha compromisso apenas com o Senhor. Por isso, ao olhar para aqueles homens que haviam pervertido a religião e deturpado o coração do povo, ele não hesita: aponta diretamente para os religiosos de sua época, para aqueles que haviam corrompido a graça de Deus, e diz: "Raça de víboras, produzam frutos dignos de arrependimento."
O arrependimento precisa ser o caráter mais profundo da vida cristã, porque arrepender-se significa olhar para nossa própria humanidade e não encontrar nela mérito algum. Significa reconhecer nossa fragilidade — e mais do que isso, reconhecer nossa pecaminosidade, nosso distanciamento de Deus, e o fato de que não há mérito nenhum em nós. Apesar dos nossos deméritos, Deus age em graça e misericórdia por nós. Por isso, nos arrependemos de quem somos diante do Deus que Ele é. O arrependimento é, portanto, um dos passos mais essenciais para a fé cristã.
E João Batista revela algo que deveria estremecer profundamente aqueles fariseus e saduceus:
"E o machado já está posto à raiz das árvores."
Irmãos, o machado já foi posto. Isso nos leva a um ponto crucial: havia, naquela época — e deveria ter havido, ao menos, uma inversão na mentalidade dos religiosos e do povo — a percepção equivocada de que o Reino de Deus era simplesmente a nação de Israel. Para um judeu ortodoxo daquele tempo, pertencer ao Reino de Deus era uma questão de descendência: se você era descendente de Abraão, você já pertencia ao Reino de Deus. Não havia necessidade de "entrar" nele — você já pertencia por direito de nascimento.
Era uma lógica nacionalista, uma lógica sanguínea: se você é filho de peixe, peixinho é; se você é filho de crente, crentinho também é. A pessoa entendia que tinha um direito adquirido simplesmente por ter, por assim dizer, um "sangue azul" religioso — e que o problema de quem não tinha essa condição era exclusivamente dessa pessoa, que teria que correr atrás por conta própria.
João Batista desmonta essa lógica por completo: "Não, não é nada disso. O machado já foi posto à raiz das árvores." Agora, o que revela quem verdadeiramente somos é o que produzimos. Uma árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo. Não se trata mais de uma questão nacionalista, mas de uma questão de nascer de novo — de compreender que o Rei do Reino chegou, e que esse Reino, agora inaugurado em Jesus Cristo, não está mais contido em uma única nação. Ele se torna universal — um Reino para todas as nações, que será expandido até os confins da terra.
O Machado Posto à Raiz das Árvores
João Batista continua sua pregação com palavras que aprofundam ainda mais essa mensagem de juízo e purificação:
"Eu batizo vocês com água para arrependimento, mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de carregar as sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele tem a pá em suas mãos, limpará a sua eira e recolherá o seu trigo no celeiro; porém, queimará a palha num fogo que nunca se apaga."
Esse texto de juízo, proferido por João Batista logo no início de seu ministério e dirigido justamente aos religiosos da época, marca uma virada decisiva. Quando esse Rei do Reino chega — trazido à história desde a genealogia do capítulo primeiro, uma genealogia de pessoas falhas que, apesar de seus deméritos, foram usadas pela graça e misericórdia de Deus —, Ele vem, sobretudo, para denunciar o estado calamitoso em que a sociedade vivia.
Era uma sociedade de máscaras. Políticos, religiosos, os poderosos daquele tempo manipulavam o povo, usando plataformas — inclusive religiosas — para controlar as pessoas. E é justamente esse Rei do Reino que inicia seu ministério com o machado já posto à raiz das árvores.
Porque o Rei do Reino que chegou traz a boa notícia do evangelho: a redenção, a salvação, agora está disponível para todas as pessoas. Mas Ele também traz uma má notícia. E qual é essa má notícia? É que o Rei chegou.
Agora, o que importa verdadeiramente é o que está no nosso coração. O machado foi posto à raiz da árvore — não há mais como esconder o que se passa internamente em nós, não há mais como se camuflar atrás de títulos, de recursos financeiros ou de poderes religiosos. Não há mais como esconder quem realmente se é.
Porque o Rei do Reino exige frutos dignos de arrependimento — frutos reais de uma vida genuína, sincera e honesta diante de Deus. Já não se aceita apenas a aparência. Agora, o que Ele desvenda em nosso coração não é a fachada, mas a essência.
Um Reino Que Se Torna Universal
É por isso que considero tão importante compreendermos esses capítulos 2 e 3 de Mateus — porque, muitas vezes, podemos pensar que os Evangelhos são apenas um livro bonito contando a história de Jesus, sem relação direta com os nossos dias. Mas eles têm tudo a ver com a nossa realidade.
Esses capítulos — e ainda veremos, mais adiante, o capítulo quarto — revelam um Deus que nos ama tão profundamente que Ele é capaz de vir à Terra, de se aproximar de nós, de dar a sua própria vida por nós. Mas esse mesmo Deus também denuncia todas as mazelas em que vivemos — mazelas internas, das quais precisamos nos arrepender, e mazelas externas, sociais, políticas e culturais, que igualmente precisam de uma voz de denúncia.
Quando olhamos para o panorama desses capítulos, vemos primeiro a chegada de Jesus, o Rei do Reino, anunciada por meio de uma genealogia composta por pessoas falhas — mas que, apesar de seus deméritos, foram instrumentos da graça e da misericórdia de Deus. Em seguida, vemos esse Rei denunciar o estado calamitoso da sociedade de sua época: uma sociedade de máscaras, em que políticos, religiosos e poderosos manipulavam o povo usando, inclusive, a própria plataforma religiosa para esse fim.
E, então, esse Rei do Reino inicia seu ministério com o machado já posto à raiz das árvores — porque Ele traz consigo tanto a boa quanto a má notícia do evangelho. A boa notícia é que a salvação chegou para todas as pessoas. A má notícia é que o Rei chegou, e agora não há mais como esconder o que está no coração.
Esse Rei não nasce em um palácio, não vem de uma família da realeza ou do governo — nasce em uma manjedoura, em uma família simples. E, ainda assim, os magos vêm do Oriente e o reconhecem como rei dos judeus, enquanto o rei humano de sua época tenta eliminá-lo. Esses capítulos denunciam toda a perversão política e religiosa daquele tempo: o verdadeiro sumo sacerdote de Deus, João Batista, que deveria estar servindo no templo conforme as determinações da Escritura, havia sido expulso por causa dos conchavos políticos — e agora pregava arrependimento a partir do deserto.
O Reino que chega com Jesus não está mais contido em uma única nação. Ele se torna universal, um Reino que se estenderá até os confins da terra, alcançando todos os povos. Que Deus abençoe a sua vida e a minha, e que possamos, cada vez mais, permitir que esse Rei desvende em nosso coração não a aparência, mas a essência — para que, reconhecendo nossa fragilidade diante d'Ele, possamos produzir frutos verdadeiramente dignos de arrependimento.
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