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56. No Mundo, Mas Não do Mundo: A Última Oração de Jesus e a Missão da Igreja (Jo. 17:6-26; Ap. 21:1-5)

A oração de Jesus a caminho do Getsêmani: o relato exclusivo de João

Há orações que resumem uma vida inteira. Quando alguém percebe que se aproxima o fim de sua jornada, as palavras que dirige a Deus tendem a revelar aquilo que verdadeiramente importa. É nesse ponto de gravidade espiritual que se encontra o texto de João 17: uma oração pronunciada por Jesus a caminho do Getsêmani, poucas horas antes de sua prisão, julgamento e crucificação.

Os evangelhos sinóticos — Mateus, Marcos e Lucas — registram a oração de Jesus já dentro do jardim do Getsêmani, no momento em que os discípulos adormeciam enquanto Ele orava em agonia. A oração de João 17, contudo, parece anteceder aquele instante. João é o único evangelista a relatá-la, e essa exclusividade não é acidental. Há um propósito especial na escolha de preservar justamente estas palavras, pronunciadas na fronteira entre a última ceia e o caminho rumo à cruz.

A narrativa sugere que os discípulos testemunharam essa oração. Ao menos João a presenciou e a registrou. E aqui vale uma observação sobre o método teológico: em muitos pontos, a teologia trabalha com probabilidades. Não temos a data exata, o horário preciso, o momento em que Jesus se levantou da mesa e partiu para o jardim. Diante da ausência de certeza cronológica, é honesto e prudente dizer "provavelmente". E, provavelmente, esta foi uma das últimas vezes — talvez a última — em que Jesus orou perto de seus discípulos e intercedeu por eles dessa maneira.

O texto que abre essa seção da oração se estende do versículo 6 ao 19:

"Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra. [...] Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E a favor deles eu me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na verdade." (João 17:6, 15-19)

O peso dessas palavras está no que elas escolhem pedir. Jesus sabia o que O aguardava. Sabia que, a partir do Getsêmani, seria preso, levado ao Sinédrio, entregue a Pilatos e conduzido à cruz. Diante desse horizonte, o conteúdo de sua oração se torna extraordinariamente revelador. Não há pedidos por si mesmo em termos de conforto ou fuga. Há intercessão. Há cuidado com aqueles que ficariam.

Essa constatação inicial nos conduz a uma pergunta que atravessa todo o restante da meditação sobre este capítulo: o que passava na mente de Jesus para que Ele, tão próximo do próprio sofrimento, dedicasse aquele momento a orar pelos seus? E, por extensão, o que revelaria de nós aquilo que pediríamos a Deus, em favor de quem amamos, na última hora de nossas vidas?


O que se pede na última hora: prioridades reveladas diante da morte

Há uma pergunta que raramente fazemos a nós mesmos, mas que talvez devêssemos: que tipo de oração faríamos ao fim de nossa vida? A morte nem sempre chega de modo abrupto. Às vezes ela se anuncia, avança lentamente, e concede tempo para que se pense, se ore e se despeça. Jesus, naquele momento, sabia que a hora se aproximava. Sabia o caminho: o jardim, a prisão, o julgamento, a cruz.

Diante desse conhecimento, vale perguntar o que passava em sua mente para que escolhesse orar por seus discípulos. E, num movimento de aplicação inevitável, cabe transferir a pergunta para nós: o que pediríamos a Deus, em favor daqueles que amamos, se soubéssemos que restam poucas horas?

É provável que, nesse limiar, muitas das coisas com que tanto nos preocupamos deixem de parecer importantes. Dificilmente alguém, à beira da morte, oraria por dinheiro, por fama, por prestígio social ou por recolocação profissional. Essas preocupações, que consomem tantas de nossas energias diárias, tendem a se dissolver diante da consciência da finitude. O que permanece é outra ordem de prioridade — mais essencial, mais humana, mais espiritual.

A oração de Jesus revela justamente essa ordem. Sua intenção era objetiva: que Deus guardasse os seus. E o motivo dessa súplica está ligado a uma transição que Ele mesmo descreve. Assim como o Pai O havia enviado ao mundo, Ele agora enviava os discípulos. E, enquanto antes estivera fisicamente presente entre eles, agora partiria. A ausência iminente é o pano de fundo de todo o pedido.

"É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus." (João 17:9)

O contraste com a oração humana comum é gritante. Aquilo que costuma ocupar o centro de nossas ansiedades — segurança material, reconhecimento, realização pessoal — não aparece. No lugar disso, surge um cuidado pastoral profundo: que os discípulos permaneçam guardados, unidos e cheios da alegria que só o próprio Cristo pode conceder.

Essa inversão de prioridades funciona como um espelho. Ela não serve apenas para admirarmos o caráter de Jesus, mas para nos confrontar. Se a proximidade da morte tem o poder de revelar o que realmente importa, então talvez o exercício espiritual mais sábio seja viver, desde já, à luz dessa clareza. Ordenar a vida a partir daquilo que permaneceria valioso na última hora é, em certo sentido, aprender a orar como Jesus orou — colocando pessoas, comunhão e fidelidade a Deus acima das coisas que o tempo consome e leva.

E é precisamente essa distinção entre "as pessoas" e "o mundo" que Jesus torna explícita em seguida, ao afirmar que não roga pelo mundo. Esse ponto, que à primeira vista pode soar surpreendente, merece atenção cuidadosa.


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