João 18:28–19:16: Eis o Homem: A Verdade Revelada no Julgamento de Jesus
Introdução: O Momento Crucial da Cruz
Se você está chegando agora, talvez não conheça a nossa série. Nós praticamos pregação expositiva, e há sessenta domingos estamos caminhando juntos pelo Evangelho de João. Começamos lá em João 1:1, e hoje aterrissamos entre os capítulos 18 e 19. Convido você a assistir aos episódios anteriores, porque o que compartilho hoje é um fragmento de um discurso maior — os vinte e um capítulos que compõem toda a mensagem de João. Estamos passeando por esse evangelho, entendendo pouco a pouco quem é Jesus.
O tema de hoje está diretamente ligado às últimas quatro mensagens — 57, 58, 59 e 60 —, que tratam desse momento específico que antecede a crucificação de Cristo. Mesmo que você não tenha acompanhado tudo, espero que consiga pegar o fio da meada. Estamos em João 18:28.
Na semana anterior, deixamos Jesus sendo enviado amarrado de Anás para Caifás, depois de um interrogatório. João não se demora nesse diálogo entre Caifás e Jesus — você encontra mais detalhes em Mateus —, talvez porque ele tenha entendido que aquilo não acrescentava muito ao que desejava nos ensinar. O evangelista prefere avançar: depois de levarem Jesus da casa de Caifás, conduziram-no ao pretório, o quartel-general de Pilatos.
Era ainda cedo da manhã. Os que levaram Jesus não entraram no pretório, para não se contaminarem — e para poderem comer a Páscoa. Esse detalhe pequeno guarda uma revelação enorme sobre a natureza da religião, e é exatamente aí que quero começar.
João está construindo, ao longo de todo o seu evangelho, uma sequência de situações, diálogos, embates, milagres e discursos que revelam quem é Jesus. Ele mesmo declarou que escreveu esse relato com esse propósito. E agora chegamos ao que talvez seja o ápice de todo o livro — o momento crucial, o momento da cruz —, onde Jesus revela quem ele verdadeiramente é. O mais surpreendente é que essa revelação não sai da boca de um profeta ungido, mas da boca de um governador romano corrupto, que nem imaginava o que estava dizendo.
A Contaminação que Não Vinha de Dentro
Os judeus levaram Jesus até o pretório, onde estava Pilatos, mas para eles entrar naquele ambiente gentio significava contaminação. Por isso, quando viajavam do norte para o sul, da Galileia para a Judeia, ou da Judeia para a Galileia, evitavam atravessar Samaria — território considerado gentio. Davam a volta, percorriam dezenas de quilômetros a mais, só para não passar por ali. Jesus nunca se importou com essa lógica.
Essa contaminação da qual eles fugiam não tinha nada a ver com a ideia que carregamos hoje quando falamos de "estar contaminado" — como se houvesse ali algo demoníaco. Não é isso. Era uma contaminação cerimonial: quem entrasse naquele ambiente ficaria impuro e precisaria se banhar para se purificar antes de participar das cerimônias. E eles estavam bem no dia da véspera da Páscoa — naquela noite começariam a comer a ceia pascal. É por isso, aliás, que entendemos que a última ceia de Jesus com os discípulos não foi propriamente a ceia da Páscoa, mas uma das refeições daquela semana pascal, compartilhada na quinta-feira à noite.
Dali, saímos para o Getsêmani, onde fui preso. Na noite de quinta para sexta, fui julgado — passei por Anás, por Caifás, pelo Sinédrio — e, logo pela manhã, fui levado a Pilatos. E ali estavam eles, do lado de fora, recusando-se a entrar para não se contaminarem, porque uma contaminação naquele ambiente romano exigiria, segundo eles, até sete dias de purificação. Não havia tempo para isso.
Eles estavam levando o Filho de Deus para ser morto — mas não queriam se contaminar.
A religião é bem assim. Ela se preocupa muito com as aparências e muito pouco com o que existe por dentro. Eu mesmo os chamei, em outro momento, de sepulcros caiados — bonitos por fora, mas carregando morte por dentro; cumpridores dos ritos, mas guardando ódio e maldade no coração.
Por isso Pilatos precisou sair para falar com eles. Você percebe, ao longo do relato, esse entra e sai constante — porque, como recusavam pisar no pretório, Pilatos ia até eles, voltava para interrogar Jesus, e saía de novo para conversar. Acredito que ele foi ficando cansado disso. Já não gostava dos judeus, e eles também não se bicavam muito com ele. Ainda assim, mantinham um acordo conveniente: Pilatos queria manter a paz, evitar revoltas; os saduceus queriam preservar o comércio do templo. Uma mão lavava a outra.
Foi então que Pilatos saiu e perguntou: "Que acusação trazeis contra este homem?" E eles responderam: "Se não fosse malfeitor, não o entregaríamos a ti." Se estamos trazendo, é porque ele é mau — como se isso bastasse. Mas para Pilatos, isso não servia como resposta. Quem disse a esses homens que ele estava sob as ordens deles? Que trouxessem o acusado e ele simplesmente sentenciasse porque assim desejavam? Não era bem assim que funcionava.
"Não Nos É Lícito Matar Ninguém"
Pilatos replicou: "Tomai-o vós outros e julgai-o segundo a vossa lei." E os judeus responderam: "A nós não nos é lícito matar ninguém." Espera aí — a nós não é lícito matar ninguém? Eu quase esqueci que vocês eram tão puros assim.
Na verdade, era uma verdade jurídica: apenas Roma podia sentenciar, condenar e executar alguém. Os representantes do povo judeu não tinham essa autoridade legal. Mas o que eles disseram ali, sem perceber, foi um juízo contra si mesmos. Vocês não estão ali para matar uma pessoa — vocês são sacerdotes. Vocês são gente do amor e da graça de Deus. Eles quiseram apenas esclarecer os limites da lei sobre o que podiam ou não fazer, mas, sem saber, estavam falando contra si próprios — e cumprindo a palavra que eu mesmo havia dito, no capítulo três, sobre o modo pelo qual eu seria entregue aos homens.
Pilatos voltou a entrar no pretório, chamou-me e perguntou: "És tu o rei dos judeus?" Eu respondi: "Vem de ti mesmo essa pergunta, ou outros te disseram isso a meu respeito?" Ele ficou irritado: "Por acaso sou eu judeu? A tua própria gente e os principais sacerdotes é que te entregaram a mim. Que fizeste?"
Eu respondi: "O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus servos lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas agora o meu reino não é daqui." Então Pilatos insistiu: "Logo, tu és rei?" E eu disse: "Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz." E Pilatos perguntou: "O que é a verdade?"
Ele saiu de novo e disse aos judeus: "Eu não acho nele crime algum. É costume entre vós que eu vos solte alguém por ocasião da Páscoa. Quereis, pois, que eu vos solte o rei dos judeus?" Mas todos gritaram: "Não, esse não! Barrabás!" E Barrabás era um salteador.
Vale a pena parar aqui e entender esse título com precisão. A palavra grega usada para "salteador" é lestés — não se trata apenas de um ladrão comum, um pequeno criminoso. Ele era um insurgente, um revolucionário, algo próximo do que hoje chamaríamos de terrorista. Estamos falando de alguém preso justamente por se insurgir contra Roma. E ainda assim, quando lhes foi oferecida a chance de soltar aquele que nada havia feito, escolheram libertar quem amanhã voltaria a atacar o próprio poder que os oprimia. Eles queriam Barrabás solto.
"Meu Reino Não É Deste Mundo"
Pare um instante e observe essa cena com atenção: eu disse a Pilatos quem eu era. "Você é rei?" — "Meu reino não é deste mundo, não é desse cosmos, não é dessa ordem. Eu vim para dar testemunho da verdade. Se eu fosse rei deste mundo, os meus servos me defenderiam dos judeus. Mas não sou dessa terra, não sou dessa ordem." Então, de certa forma, sim — eu sou um tipo de rei. Mas não segundo César, não segundo Pilatos, e nem segundo os sacerdotes. Eu reino, é verdade, mas não desse jeito.
Gosto muito de uma frase de uma música do Ira!: "Eu tentei fugir, não queria me alistar, eu quero lutar, mas não com essa farda." É quase antológica para descrever o que eu estava dizendo naquele momento. Eu também luto — mas não como vocês lutam. Não com essa farda, não com essas bases de pressupostos, não com essa cabeça e não com esse coração. Eu vim para dar testemunho da verdade, e quem é da verdade me entende.
Quando Pilatos perguntou "O que é a verdade?", talvez não fosse por real interesse, mas por desdém. Ele saiu de novo para conversar com os judeus: "Quer que eu solte o rei de vocês? Vocês sabem que estamos na Páscoa, e há o costume de libertar um prisioneiro para agradar o povo." Mas eles recusaram, e pediram Barrabás.
Pilatos sabia que eu não havia feito nada de errado. Havia ali apenas uma disputa de interesses — os saduceus temiam perder sua influência sobre o povo e sua posição privilegiada no templo, como já discutimos em domingos anteriores. O interesse deles nunca foi a justiça.
E a proposta que fizeram foi péssima para Pilatos, ainda que ele não pudesse recusá-la sem custo político: estavam pedindo que ele libertasse justamente um insurgente armado contra Roma para condenar alguém que nada havia feito. Era um contrassenso perigoso, mas o clamor da multidão pesava mais do que a lógica.
O Açoite e a Coroa de Espinhos
Diante da pressão, capítulo dezenove começa assim: por isso Pilatos me tomou e mandou açoitar-me. Foi uma tentativa de meio-termo — dar uma surra suficiente para depois dizer: "Crucificar, não. Já apanhou bastante, isso já basta."
Vale entender o que estava em jogo ali. Existiam três tipos de açoite na prática romana: o fustigatio, o flagellatio e o verberatio. O primeiro era o mais brando — tapas, uma forma de intimidação. O segundo já carregava um viés claro de punição, com chibatadas mais severas. O terceiro, o verberatio, era o mais cruel: usavam-se chicotes com pontas de ferro e de osso, que arrancavam pedaços de carne a cada golpe. Contam os relatos históricos que, nesse tipo de flagelação, era comum que partes dos ossos da vítima ficassem expostas, e os soldados se revezavam, batendo até ficarem cansados e passando a vez a outro.
Esse tipo mais severo de punição costumava ser aplicado a quem já estava destinado à crucificação — e alguns nem sobreviviam até a cruz, morrendo ainda durante o próprio castigo. Há uma discussão entre historiadores sobre qual dos três tipos eu teria sofrido. Alguns argumentam que, como inicialmente eu não estava designado primariamente para a cruz, talvez tenha recebido o mais leve. Mas quando chegou a hora de carregar minha própria cruz, eu não tinha forças sequer para ficar de pé. Isso sugere que a punição foi, de fato, a mais severa e cruel que um homem poderia suportar.
Os soldados teceram uma coroa de espinhos e a colocaram sobre minha cabeça, vestiram-me com um manto de púrpura — como se eu fosse um rei zombeteiramente coroado — e gritavam: "Salve, rei dos judeus!", enquanto me davam bofetadas.
Pilatos saiu outra vez e disse aos judeus: "Eis que vo-lo apresento, para que saibais que eu não acho nele crime algum." Não há nada de errado com ele — olhem a surra que já levou, já basta. Para Pilatos, eu era só mais um. Mais um judeu condenado, mais um corpo entre tantos que já haviam morrido sob o domínio romano. Ele já não faria o que os sacerdotes pediam — apenas achava que aquilo já era suficiente.
Então eu saí, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura, e Pilatos disse: "Eis o homem."
"Eis o Homem" — Et Homo
Eu queria que você repetisse essa frase. Pode falar em voz alta: "Eis o homem." Guarde essa expressão. Ao verem os principais sacerdotes e seus guardas, eles gritaram: "Crucifica-o, crucifica-o!" Pilatos respondeu: "Tomai-o vós outros e crucificai-o, porque eu não acho nele crime algum." E os judeus insistiram: "Temos uma lei, e de acordo com essa lei ele deve morrer, porque a si mesmo se fez Filho de Deus."
Ao ouvir essa declaração, Pilatos ficou ainda mais atemorizado. Voltou a entrar no pretório e me perguntou: "De onde és tu?" Não temos aqui evidência de que ele tenha vivido um verdadeiro momento de conversão, buscando entender a verdade — mas percebemos que, de alguma forma, algo nele se abalou. João não registra o detalhe, mas Mateus conta que a esposa de Pilatos teve um sonho na noite anterior a meu respeito, e o alertou: "Cuidado com esse homem, porque ele é justo." Mesmo sem esse detalhe explícito em João, fica claro que o medo o alcançou — ainda que a religião romana fosse profundamente sincrética, com um panteão repleto de deuses de todos os povos conquistados. Mesmo assim, tocar em algo ligado, de alguma forma, ao sagrado sempre representava um risco.
Eu não lhe dei resposta. Ele então insistiu: "Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te soltar e autoridade para te crucificar?" E eu disse: "Nenhuma autoridade terias sobre mim se de cima não te fosse dada. Por isso, quem me entregou a ti maior pecado tem." Não era ele quem detinha autoridade sobre mim — havia algo muito acima dele que me colocara ali.
A partir desse momento, Pilatos procurava me soltar, mas os judeus gritavam: "Se soltas este, não és amigo de César." Ser "amigo de César" era um tipo de jargão político corrente no império — uma categoria que definia quem estava dentro ou fora do favor imperial. E Pilatos ocupava uma posição que dependia inteiramente dessa relação de confiança com Roma. Os bastidores do Senado eram terreno de morte, assassinato e interesse profundo, e ser apontado como inimigo de César significava arriscar tudo.
É aqui que quero te convidar a olhar mais de perto para essa frase: "Eis o homem." Ecce homo. Você já deve ter visto essa expressão em pinturas, na tradição cristã. Existe até um livro do filósofo Friedrich Nietzsche — existencialista, autobiográfico — que se apropria dessa frase para falar sobre a formação do ser humano: como o homem se constrói a si mesmo, como chega a ser quem é. Na mente de Nietzsche, que nega a existência de Deus, a fé e a religião, o significado da vida é construído pelo próprio ser humano, a partir de suas observações, suas relações, sua história — um ser sem origem e sem destino. Isso não é tão diferente do que vemos no Éden, quando o homem come do fruto para decidir por si mesmo o que é bem e o que é mal, dispensando Deus.
Mas a tradição cristã nos oferece outra perspectiva. Dietrich Bonhoeffer, em seu livro Ética, escreve sobre a formação do homem dizendo que não somos formados — somos conformados com Cristo. Você já ouviu a expressão "momento crucial"? Momento da cruz. É um paralelo direto com essa imagem.
Pilatos nem imaginava o que estava fazendo. Ele não era profeta, não fora ungido por ninguém. Era um governador sanguinário, corrupto e corrompedor, preocupado com seu próprio ventre, seu dinheiro, suas guerras, seus acordos com os sacerdotes, o comércio daquele lugar — preocupado consigo mesmo, com sua vida, seu bolso, sua fama. Falava sem pensar no que dizia. Mas Deus falava através da boca daquele homem.
Bonhoeffer escreve que o mundo não é vencido pelo poder da força, da destruição, da demolição — ele é abalado pelo poder da reconciliação. O mistério de quem é o ser humano e de quem é Deus se encontram num único lugar, num único momento, numa única pessoa. O entendimento de quem somos e o entendimento de quem é Deus se resumem ali: em Jesus Cristo. Eu sou o ser da reconciliação entre o homem e Deus.
Quando Pilatos me pegou, todo ensanguentado, surrado, sangrando, machucado, com a coroa de espinhos e a túnica, e me empurrou diante dos judeus dizendo "Eis o homem" — ele não sabia, mas estava, na verdade, convidando a humanidade a levantar a mão e glorificar. Esse é o homem. Não é apenas um homem — esse é o ser humano.
Eu tomei o lugar de vocês. Quem me surrou foi o pecado de vocês. Quem me feriu foi a maldade, a injustiça, a inveja, o interesse humano, o poder humano corrompido. Ali estava todo o pecado da humanidade. Ali estavam vocês. Só que vocês não percebem. Estão entorpecidos. Estão anestesiados. E não conseguem perceber quem realmente são.
Naquela condição, eu estava mostrando a toda a humanidade quem ela é. Ecce homo — é isso aqui. Vocês ainda não perceberam? Olhem no espelho.
A Longa Lista do Que Nos Corrói
Maldade, brutalidade, violência, disputa por poder, disputa por domínio, mentira, ódio, inveja, agressões, desrespeito, corrupção, frieza, indiferença, abandono, traição, roubo, injustiça, maledicência, fofoca, promiscuidade, sensualidade descontrolada, pornografia, assassinato, destruição da honra, ganância, avareza, riqueza a qualquer custo, amor ao dinheiro como se fosse Deus, orgulho, desprezo, abuso de poder, comércio de influência, comércio da moral, comércio de sexo, comércio de seres humanos, escravidão, falsidade, hipocrisia, falta de amor, falta de perdão, falta de compreensão, falta de diálogo, falta de misericórdia, falta da graça, falta de Deus.
Não vou abrir espaço para você acrescentar mais itens a essa lista, porque ela simplesmente não acaba. Esse é o homem. Eu represento você e eu, que todos os dias apanhamos do pecado.
E não, o pecado não é uma conversa de religião sobre fazer ou não fazer determinadas coisinhas que agradam ou desagradam a Deus — um controle do que pode e do que não pode. Isso é coisa de infante, coisa de criança. O pecado é nosso algoz — o invisível algoz da nossa autodestruição, que opera através dos desejos que nos ocupam. O homem se acha livre porque pode fazer o que quer e dar vazão aos seus desejos, mas está apenas acelerando sua própria destruição enquanto se entorpece de prazer. Porque o prazer é a anestesia que o pecado produz para que não o rejeitemos.
A humanidade continua sendo surrada pelo pecado. Eis o homem.
Pilatos disse aquilo pensando em um coitado que havia apanhado demais — "solta essa desgraça aí, que não é ninguém, não é nada, não vou crucificar." Mas ele não sabia que estava dizendo a mais pura verdade. Quando ele me perguntou "O que é a verdade?", eu, ensanguentado diante dele, poderia ter respondido: "É isso aqui, olhe. Você não acorda, não percebe — isso aqui é você." Essa é a verdade.
Você tem dinheiro no bolso, tem poder, senta em uma boa cadeira, tem as costas quentes, ocupa uma posição de destaque, come bem, bebe bem, veste-se bem, tem quem sirva você — e não percebe que isso o corrói e o consome por dentro. Porque o pecado é muito mais do que uma lista de coisas permitidas ou proibidas. É um domínio de morte que nos destrói.
Homens que se dizem felizes porque têm dinheiro, prosperidade, bem-estar, sucesso, posição. Preocupados com o que têm e com o que não têm, se têm sucesso ou não. Essas são as perguntas que enchem nossas redes sociais, que lotam os programas de debate. Pode ser de direita, pode ser de esquerda, pode votar em branco, pode beber vinho, cerveja, conhaque — ou não pode beber? Pode se divorciar? Pode casar de novo? Pode ser rico ou tem que ser pobre? Pobreza é pecado ou riqueza é pecado? O homem tem que ser só homem, a mulher só mulher? Pode usar calça comprida? Tem que cortar o cabelo? A parede pode ser preta ou tem que ser branca?
Gente, nós estamos mortos. É sério isso que nos preocupa? Sério mesmo?
Uma vez, uma banda com a qual toco foi se apresentar num bar de rock. Já tocamos na Rua da Lama, em Belo Horizonte. Já fizemos um show de evangelismo bem no meio da chamada "boca do lixo", na Major Sertório. Tocamos em teatro, na rua, ao ar livre, em praça, em escola, e até em igreja — você acredita? E alguém perguntou: "Uma banda vai tocar num bar?" Como se aquilo fosse o problema. Como se o que realmente importasse fosse onde estamos fisicamente, e não a sujeira que habita dentro de nós.
Esse é o homem do sacerdote que diz: "Eu não posso entrar porque isso é impuro. Eu não posso sentenciar porque não me é lícito matar." Hipócrita. Olhe para esse homem ensanguentado. Isso aqui é você, que apanha do pecado todos os dias — só que está entorpecido pelo prazer que ele proporciona.
Eu revelo o que é o ser humano: pobre, nu, ensanguentado, surrado, eternamente insatisfeito, buscando todos os dias algum alívio para anestesiar suas feridas e seu vazio. Estou dizendo: "Isso aqui são vocês, pobre homem." Quando Pilatos disse Ecce homo, ele estava fazendo uma verdadeira revelação sem saber. Alguém poderia ter dito: "Vai, Pilatos, deixa Deus te usar, varão, dá lugar." Ecce homo, aleluia — essa é a maior revelação que Deus poderia fazer sobre o homem.
"Eis Aqui o Vosso Rei" — A Verdadeira Realeza
Mas eu disse uma segunda frase. Ali, surrado, Pilatos declarou: "Eis o vosso rei." Olhem para esse coitado — a coroa dele, hein? O rosto sequer se distinguia direito, inchado, faltando dentes, rasgado, dilacerado, deixando entrever parte dos ossos. "Essa tranqueira aqui é o rei de vocês", ele dizia.
Segundo Roma, eu realmente não poderia ser rei. Eu não tinha a pompa e a influência de um romano. Não conquistei poder transitando pelos bastidores e corredores do Senado. Nunca participei das conquistas territoriais do império, não ganhei prestígio em campanhas militares com destacamentos do exército romano, não acumulei território, ouro ou prata para a República que me rendesse um título ou uma terra para governar. Dentro do modelo romano, eu simplesmente não conseguia ser rei.
Para os judeus também não. Eu não agradava a classe aristocrática dos saduceus. Não era reconhecido como mestre pelas escolas dos fariseus e dos escribas. Não tinha o estereótipo esperado de quem ocuparia a posição de rei — vindo, como vim, da Galileia dos gentios. Mesmo carregando ascendência davídica, nunca fui guerreiro. Não tinha plano estratégico para derrubar o império romano e restabelecer o governo judaico. Aliás, nunca fui ungido rei — nenhuma cerimônia, nenhum sacerdote fez esse gesto sobre mim. E nunca arregimentei os judeus numa milícia para se levantar contra Roma.
Eu não sirvo para ser o rei deles. Não sirvo para os romanos. E, para quem olha de fora, sou apenas mais um pobre judeu na lista infinita daqueles que morrem desconhecidos e anônimos, aos milhares, sob as ocupações de Roma.
Só que o nosso Rei derramou sangue, e o nosso Rei foi para a cruz.
Em Isaías 53 encontramos essa mesma imagem, embora você já conheça o texto: ele subiu como renovo diante de Deus, como raiz de uma terra seca. Não tinha aparência nem formosura para que o desejássemos; era desprezado e rejeitado entre os homens, homem de dores, familiarizado com o sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso. Mas ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores; nós, porém, o consideramos como aflito, ferido de Deus e oprimido. Ele foi traspassado pelas nossas transgressões, esmagado pelas nossas iniquidades, e o castigo que nos traz a paz recaiu sobre ele. Pelas suas feridas fomos sarados. Andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviando pelo seu próprio caminho — mas Deus fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca — como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda diante dos seus tosquiadores.
Pela opressão e pelo juízo foi tirado; quem se importou com sua descendência? Ele foi cortado da terra dos viventes, ferido pela transgressão do meu povo. Designaram-lhe sepultura com os ímpios, mas esteve com o rico na sua morte — embora não tivesse cometido violência nem houvesse engano em sua boca. Ainda assim, agradou ao Senhor esmagá-lo, fazendo-o sofrer. Quando ele der a sua alma como oferta pelo pecado, verá sua descendência, prolongará seus dias, e a vontade do Senhor prosperará em suas mãos. Ele verá o fruto do trabalho penoso de sua alma e ficará satisfeito. Pelo seu conhecimento, o meu servo justo justificará muitos, porque levará sobre si as iniquidades deles. Por isso, ele receberá herança entre os grandes, repartirá o despojo com os poderosos — porque derramou sua alma até a morte e foi contado entre os transgressores. Ainda assim, levou sobre si o pecado de muitos e intercedeu pelos transgressores.
"Eis aqui o vosso rei" é exatamente isso. O nosso Rei não tem contornos de startup ou de multinacional. Não fala a língua da programação neurolinguística, nem oferece banho de bactéria com frases de autoajuda. Não vem como um grande executivo corporativo, não se apresenta em grandes púrpuras nem sobre um grande trono. Não está preocupado com coroa de ouro nem com o trono de César. O nosso Rei foi para a cruz.
O nosso Rei é o Rei da humildade. É o Rei da paz, Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. É o Rei do amor, Rei de Salém, Rei da misericórdia. Ele morreu no lugar de Barrabás — e morreu no lugar de todos nós, mas de Barrabás, literalmente, ensinando-nos a amar até os nossos inimigos. É Rei de justiça, que levou sobre si o nosso pecado. Sua glória é carregar a nossa culpa. Em Jesus, as duas realidades se encontram: a revelação de quem é o homem e a revelação de quem é Deus — porque a sua atitude de amor nos mostra que tipo de Deus ele é.
"Não Temos Rei Senão César"
Diante dessa declaração, os homens responderam: "Esse não é nosso rei. Nosso rei é César." Talvez quisessem apenas intimidar Pilatos com bajulação, garantindo-lhe: "Estamos com você. César é nosso rei também." Mas, sem perceber, declararam uma verdade profunda. César era, de fato, o rei dos sacerdotes.
E quando falo de César aqui, não me refiro a um ser humano específico, mas a uma lógica romana — a lógica do negócio, a lógica do acordo, a lógica do governo da maldade, a lógica da corrupção, a lógica do reino que se opõe a Deus. Era exatamente isso que estavam fazendo comigo. A lógica de César é a garantia do sucesso dos sacerdotes. César representa a paixão pelas coisas da terra e a busca incessante de realizá-las.
Tanto Pilatos quanto Anás e Caifás tinham, na prática, César como senhor — ainda que sentados dentro de um templo ou de um sinédrio. O pressuposto que governava suas intenções e dava vazão à sua maldade era a lógica de César, não a lógica da cruz, não a lógica do Reino.
Bonhoeffer diz que meu nome inclui a humanidade inteira e a totalidade de Deus. O homem surrado e ensanguentado grita para que vocês acordem para quem realmente são, e ao mesmo tempo os sacode para que entendam que tipo de Deus de amor eu sou. Muita gente pensa que Deus vai destruir tudo isso aqui porque está cheio de pecado. Não é assim. Ele não rejeita a sua criação, apesar de ter todas as prerrogativas para fazê-lo. Ele amou a sua criação. Ele tomou o nosso lugar e levou sobre si aquilo que nós não conseguíamos nem enxergar, que pesava sobre nós.
Quando é que vamos acordar para entender que precisamos negar a nós mesmos, tomar a nossa cruz e seguir?
Qual Rei Nos Governa? — Uma Aplicação Pastoral
No momento crucial, foi revelado quem somos e quem é Deus. Em todo o escrito de João, esse talvez seja o ponto mais alto. Pilatos, a verdade é essa: você não está percebendo. Sacerdotes, vocês são isso aqui — estão sendo surrados pelo pecado e ainda não perceberam.
Talvez por isso Paulo tenha dito: "Eu não vivo mais, é Cristo que vive em mim. Estou crucificado com Cristo." Imagino essa cena como quem sobe uma escadinha até a cruz e pede licença: "Jesus, eu tô subindo. Dá para bater uma estaca aqui e outra ali? Eu mereço. Esse lugar era para ser meu." Porque essa pequena lista de maldades que li antes está dentro de todos nós. Se você é um ser humano normal, homo sapiens sapiens como eu, toda essa inveja e toda essa maldade moram dentro de você também.
Isso destrói nossa casa, nosso lar, nosso casamento, nossa relação com os filhos, nossa irmandade. Estamos apanhando do pecado dia e noite, e ainda assim insistimos em discutir quem está certo, quem está errado, o que pode ou não pode ser feito — em vez de matarmos aquilo que somos, para recomeçarmos como filhos de Deus.
Eu me incluo nisso. Estudando este texto nesta semana, percebi o quanto eu mesmo apanho.
Quem vai nos governar? Qual rei nos governa? A sede que sentimos dentro de nós existe porque ainda queremos mais do reino de César. O que nos identifica? Somos mais parecidos com o homem do nosso tempo, movidos pelo espírito da nossa época, ou somos, de fato, a imagem do Filho? Em que estado está o nosso orgulho, a nossa humildade, a nossa simplicidade — sabendo que fomos encontrados entre o pó e feitos um com a Trindade?
Qual é o nosso modelo de liderança e gestão: César, ou a figura de Cristo ensanguentado e surrado, Ecce homo? Gente, acordem. Isso aqui é o ser humano. Mas César, Anás, Caifás nos oferecem luzes e glória. Gente, acordem — esse é o nosso Rei.
A Ceia em Memória Dele
Daqui a alguns minutos, celebraremos a ceia juntos. Nosso papel hoje é simplesmente dizer: "Senhor, perdoa mais um pouco. Tem muita coisa em mim que ainda precisa ir para a cruz." Essa é a verdade. E eu quero te seguir.
Não vamos dividir a ceia em grupos separados hoje. Vamos celebrar juntos, como igreja. Quem tem pão, vá repartindo com quem está ao lado.
Aquela noite, na última ceia, eu disse: "Este pão é o meu corpo." Naquele momento, os discípulos não entenderam bem o que aquilo significava. Consigo imaginar João, anos depois, escrevendo o que viveu — depois de ter visto o pão mergulhado no sangue, depois de ter visto o corpo banhado no vinho. Ele foi o único apóstolo que esteve aos pés da cruz na hora da crucificação, e essa imagem nunca mais o abandonou. Quando ele se sentava à mesa, pão e vinho deixaram de ser algo trivial — ele olhava e dizia: "Obrigado, Senhor. Obrigado."
Este momento não é místico nem mágico — é memorial. Não há nenhum poder mágico no pão, nenhuma unção especial no cálice. Ele pediu que isso fosse feito em memória. É para olharmos para isso e dizer: "Obrigado, Jesus, porque eu era um pedaço de pão mergulhado no sangue, e o Senhor me tirou dali, deu-me um novo corpo e se colocou no meu lugar. E eu estou aqui, vivo, para te dizer que vivo para o Senhor."
Depois de comer o pão, tomamos o cálice: "Isto é o meu sangue, que derramarei por vocês." Cada gota é vida. E hoje estamos aqui com um simples suco de uva na mão, para lembrar.
Obrigado. Eis o homem. Estamos aqui, Senhor. Eis o Senhor, vosso Rei. Estamos aqui, Jesus. Em memória de ti, celebramos juntos o pão e o cálice, gratos pela manhã de adoração, de louvor, de oração, de sermos alimentados pela tua palavra e de celebrarmos a vida em tua memória.
A ti, Senhor, toda honra e toda glória, para sempre. Tu és o nosso Rei.
Fonte: A Casa da Rocha. 60 - Este é o homem, este é Deus - Zé Bruno - Quem é Jesus? https://www.youtube.com/watch?v=WWT5iJqsxDA
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