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Mateus 5:1-48: O Sermão do Monte e a Lei em Seu Sentido Completo

  1. O Monte das Bem-Aventuranças: o Novo Sinai — o cumprimento das profecias de Isaías 2 e Miqueias 4 em Jesus subindo ao monte.
  2. Macário: a Felicidade que Vem de Deus — o sentido da palavra grega por trás de "bem-aventurados".
  3. Os Paradoxos das Bem-Aventuranças — pobres de espírito, os que choram, os mansos, os famintos de justiça, os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores e os perseguidos (v. 3-12).
  4. Sal da Terra e Luz do Mundo: o Evangelho Vivido na Prática — a natureza transformada do cristão e sua vida em meio ao mundo (v. 13-16).
  5. Não Vim Revogar a Lei, mas Cumpri-la — o propósito de Jesus em relação à Lei e aos Profetas (v. 17).
  6. "Ouvistes... Mas Eu Vos Digo": A Lei Levada ao Coração — as antíteses sobre homicídio, adultério e divórcio (v. 21-32).
  7. Juramentos, Não-Resistência ao Mal e a Superação do Olho por Olho — v. 33-42.
  8. Amai os Vossos Inimigos: Sede Perfeitos como o Pai — o clímax do capítulo e o chamado à santidade (v. 43-48).
  9. Uma Palavra que Confronta: Reflexões Finais — o exame de consciência pessoal proposto ao encerrar o ensino.

O Monte das Bem-Aventuranças: o Novo Sinai

Estamos diante de um dos textos mais conhecidos e mais profundos de todo o Evangelho de Mateus: o Sermão do Monte, que se estende pelos capítulos 5, 6 e 7. É um texto que merece toda a nossa atenção, porque nele encontramos não apenas ensinamentos morais, mas o próprio coração da mensagem de Jesus sobre o Reino de Deus.

Para compreendermos bem o capítulo 5, precisamos antes olhar para trás, para o Antigo Testamento, e recordar um paralelo importante entre os textos do profeta Isaías e do profeta Miqueias. Tanto em Isaías 2 quanto em Miqueias 4, encontramos uma mesma promessa dirigida ao povo:

"Muitos povos virão e dirão: Subamos ao monte do Senhor."

Essa palavra profética, anunciada séculos antes, ecoa e se cumpre justamente aqui, em Mateus 5, quando Jesus sobe ao monte. Não se trata do monte do templo, mas do monte das bem-aventuranças — e o povo todo sobe com Ele. Ali, diante daquela multidão, temos o cumprimento visível daquilo que Isaías e Miqueias haviam anunciado.

Há ainda uma outra camada de significado que não podemos deixar passar. Se voltarmos nosso olhar para o Antigo Testamento, lembramos que a Lei foi dada a Moisés no Monte Sinai. Pois bem: se agora olharmos para o Novo Testamento, é precisamente no monte das bem-aventuranças que o Sinai se manifesta novamente. É como se aquele monte fosse o Sinai do Novo Testamento — o lugar onde uma nova revelação da Lei de Deus é dada, agora pela boca do próprio Filho.

É a partir desse cenário — Jesus vendo as multidões reunidas ao seu redor — que Ele começa a ensinar. E o ensino começa com uma palavra que vai definir todo o tom do sermão: felizes.


Macário: a Felicidade que Vem de Deus

Quando Jesus abre o seu ensino dizendo "felizes", Ele está usando uma palavra grega riquíssima: macário. Essa palavra é traduzida por nós como "felizes", "bem-aventurados" ou "benditos" — e vem, no latim, de beatus, de onde herdamos o termo "beatitude". Mas preciso deixar claro: essa não é a alegria superficial que conhecemos hoje em nossa língua portuguesa. Não é o tipo de felicidade passageira, ligada a circunstâncias favoráveis da vida.

Macário é uma alegria que vem de Deus. É o mesmo termo que o anjo utiliza ao se dirigir a Maria, no anúncio do nascimento de Jesus Cristo. Em diversos outros textos bíblicos, esse termo descreve aquele que encontrou a graça de Deus, a alegria de Deus, a bênção de Deus sobre sua vida. Não é uma emoção que nasce de circunstâncias boas, mas uma condição espiritual concedida por Deus àquele que Ele escolhe abençoar.

E é justamente esse tipo de bem-aventurança que Jesus vem revelar aos discípulos: quem é essa pessoa que recebe essa alegria, essa beatitude, esse ser bendito diante de Deus? Que tipo de pessoa é essa que Deus chama de feliz?

A resposta que Jesus dá é surpreendente, e é sobre ela que vamos nos debruçar a seguir — porque Ele começa invertendo completamente a lógica que o mundo espera ouvir.


Os Paradoxos das Bem-Aventuranças

Jesus começa dizendo algo verdadeiramente surpreendente: "Felizes, benditos, bem-aventurados são os pobres de espírito." Jamais um pobre de espírito diria, por si mesmo: "Eu sou bendito de Deus, eu sou feliz." Pelo contrário — ele se julgaria triste por ser pobre de espírito. Mas Jesus afirma que o Reino de Deus consiste justamente de pessoas assim. É como se Ele estivesse invertendo os conceitos, colocando o mundo de cabeça para baixo. Feliz é aquele que, no seu espírito, é contrito — aquele que precisa de Deus, que busca Deus, que deseja Deus, que não encontra em nenhum outro lugar uma riqueza capaz de enriquecê-lo verdadeiramente. Deles é o Reino.

"Felizes são os que choram." Aqui temos outro paradoxo. Como pode ser feliz aquele que chora, se o choro só existe porque a pessoa passou por algum tipo de flagelo, alguma situação que a levou às lágrimas? A resposta é esta: feliz é o que chora porque é justamente ele quem encontrará o consolo que vem do Altíssimo. É um paradoxo, mas é uma verdade — era para aquele povo, e é para nós, hoje.

"Felizes os mansos, porque são eles que herdarão a terra." Como assim os mansos herdarão a terra? O manso, aparentemente, não herda nada. Ele fica ali, quieto, e por sua mansidão não conquista coisa alguma. São os fortes que costumam herdar a terra, os beligerantes, os mais agressivos. Mas Jesus diz que não — são os mansos que herdarão. Assim como Cristo, em sua encarnação e em sua humanidade, se mostrou humilde, Deus está chamando os mansos, porque são eles que herdarão.

"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça." Se estou com fome e sede de justiça, é porque, de alguma forma, estou sendo injustiçado, estou passando por uma situação que não deveria enfrentar. Como posso ser feliz nessa condição? Porque é justamente ali que encontrarei fartura em Deus. É bem provável que as pessoas reunidas ao redor de Jesus naquele monte não fossem a aristocracia romana, nem a elite da religião judaica. Eram pessoas simples, pessoas pobres, pessoas que tinham fome e sede de justiça. E Jesus lhes diz: são vocês que são felizes, porque serão fartos por Deus.

"Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia." Em nossa cultura atual, parece que ser uma pessoa misericordiosa e bondosa é, com o perdão da expressão, ser um "trouxa". Quer ser bom, quer ajudar? Hoje em dia parece que o esperto, o feliz, é quem engana todo mundo. Mas Jesus afirma o contrário: é quem exerce misericórdia que também receberá misericórdia. Esse é o verdadeiro feliz.

"Felizes os limpos de coração, porque verão a Deus." Isso é algo incrível. O salmista já perguntava: quem entrará no templo do Senhor e terá acesso a Ele? E ele mesmo responde: aqueles que têm mãos santas, que levantam as mãos no santuário. São os limpos de coração que verão a Deus. Jesus está dizendo isso a uma comunidade distante da elite judaica, do templo — e está afirmando que Deus olha para o coração. É a mesma verdade que se repete na casa de Davi, quando Samuel entra para ungir um rei e Jessé lhe apresenta o filho mais velho, depois os outros — mas somente quando Davi entra, Samuel diz: "É esse." Porque Deus olha o coração, enquanto o homem olha para as aparências externas.

"Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus." Vivemos hoje em um mundo de polos tão opostos e separados, em que as pessoas brigam por suas opiniões — não em busca de diálogo, mas querendo calar a voz do outro, impor sua ideia sobre o outro. Deus nos diz: felizes não são os que impõem, nem os que oprimem. Felizes são os pacificadores. Eles serão reconhecidos como filhos de Deus. É isso que o mundo precisa — de pacificadores, de promotores da paz, capazes de levar brandura aonde há fervura.

E, por fim: "Felizes os perseguidos." Como pode ser feliz aquele que é perseguido? Ele pode estar angustiado, ansioso, preocupado com muitas coisas — mas dificilmente feliz. Ainda assim, Jesus afirma: bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus. Parece que participar do Reino dos céus significa que, nesta terra, seremos sempre, de alguma maneira, perseguidos pelo sistema deste mundo e pelas tentações do inimigo. Mas é justamente nisso que está a nossa alegria: somos participantes do Reino, não pertencemos a este mundo, somos peregrinos.

A partir do versículo 11, o texto continua falando sobre essa perseguição: "Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a sua recompensa nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês." O povo a quem Jesus se dirige naquele monte é comparado aos profetas do Antigo Testamento — o povo que abre a boca e denuncia as injustiças deste mundo. Esse povo não pode esperar outra coisa senão a perseguição, mas é justamente nessa circunstância que encontrará a alegria e a bem-aventurança do Senhor.


Sal da Terra e Luz do Mundo: o Evangelho Vivido na Prática

A partir do versículo 13, Mateus dá uma virada em seu ensino e traz algo muito interessante: a vida de um discípulo de Jesus Cristo é o evangelho vivido na prática. O cristianismo é o evangelho vivido na prática. Ele não é uma filosofia à qual alguém aderiu, não é uma série de ensinamentos que estou seguindo, não é a religião que escolhi adotar. O cristianismo é uma natureza transformada — uma metanoia. É morrer e nascer de novo. É uma vida vivida na prática — óbvio que é vivida, pois se fosse "morrida" não seria vida, mas é vida prática.

Não dá para anunciar o evangelho sem viver o evangelho. Não dá para ser cristão se a nossa vida não refletir a Cristo. Vivemos dias em que muitas pessoas se denominam cristãs, mas, quando observamos suas vidas, percebemos que não são: não tratam o cônjuge como um cristão trataria, não educam os filhos como um cristão educaria, não são honestas no trabalho como um cristão seria — porque sua natureza não foi transformada.

Como entendemos isso nas palavras de Mateus? Encontramos a resposta nos versículos 13 e 14:

"Vocês são o sal da terra; mas, se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens."

Na sociedade do primeiro século, o sal não era usado apenas para efeitos culinários. Ele também salgava os alimentos para que fossem preservados — não havia geladeira naquela época, e por isso o sal era extremamente importante. Mas, se o sal perdesse sua característica essencial, para nada mais serviria; seria como poeira ao vento, areia, algo que não serve para absolutamente nada.

O que Jesus está dizendo é que o cristão deve exercer sua vida cristã misturado ao mundo, para salgar o mundo. Não há outra maneira de sermos cristãos senão vivendo o cristianismo no meio do mundo em que estamos inseridos. Durante a Idade Média, a igreja, de maneira equivocada, entendeu que o ápice da espiritualidade estava na reclusão em mosteiros e conventos, como se ali estivesse a verdadeira santidade, e que o cristão deveria separar-se do mundo para viver essa condição. Mas não é possível viver o cristianismo sem sermos sal misturados ao mundo, levando vida, salgando, vivendo como novas criaturas em meio à realidade que nos cerca.

"Vocês são a luz do mundo", continua o texto.

"Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte, e também ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo da cama."

Acendemos uma lâmpada para iluminar o ambiente. E é importante observarmos o que Jesus diz a respeito dessa vida prática do cristão:

"Quem acende uma lâmpada a coloca no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês que está nos céus."

Quando acendemos uma lâmpada num quarto escuro, não é para ficarmos olhando para ela — é para as outras coisas que olhamos. Estamos procurando algo, queremos nos sentar, deitar-nos. A luz, na verdade, apenas ilumina; ela em si não é o objeto da nossa busca. Isso parece simples, quase óbvio, mas carrega um significado profundo: a luz que nós, cristãos, devemos resplandecer no mundo não é para chamar atenção sobre nós mesmos. De forma alguma. O texto afirma que, quando essa luz se acende, ela deve mostrar ao mundo uma vida prática e boas obras.

Aqui a coisa fica mais exigente, porque, quando essa luz ilumina, é para que as pessoas vejam em nós as boas obras produzidas pelo Espírito Santo como fruto na vida de cada cristão — e, ao verem isso, glorifiquem a Deus. A única forma de vida que Jesus apresenta aos discípulos é, portanto, uma vida transformada: uma vida que muda o que está ao seu redor porque é sal; uma vida vivida para a glória de Deus porque ilumina e revela boas obras. E, assim, as pessoas glorificarão a Deus e dirão: "Graças a Deus."

Às vezes falamos isso sem pensar de fato no que estamos dizendo. Vou compartilhar algo pessoal aqui. Há um tempo, precisei de um médico, e acabei — por uma sorte do destino, um acaso que preferimos chamar de bênção de Deus — me deparando com um médico cristão. E, em minha oração, eu disse: "Senhor, graças a Deus por aquele médico, graças a Deus por tê-lo encontrado." Na verdade, quem estava sendo glorificado ali era Deus, pela prática da boa obra daquela pessoa. É exatamente isso que o texto está nos dizendo. Quando nós, cristãos, vivermos dessa forma no mundo, esse mundo será salgado — verá o que realmente é a bênção de Deus manifesta na vida de um ser humano.

Antes de avançarmos para o tema da Lei, vale registrar um princípio importante. Quando Deus escolhe Israel no Antigo Testamento, não é porque quisesse salvar apenas Israel e descartar todo o restante das nações. Observe o que Deus diz em Deuteronômio 4:5-6:

"Eis que vos tenho ensinado estatutos e juízos, como me mandou o Senhor meu Deus, para que assim façais no meio da terra que passais a possuir. Guardai-os, pois, e cumpri-os, porque isto será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos que, ouvindo todos esses estatutos, dirão: Certamente esse grande povo é gente sábia e inteligente."

Quando Deus chama Israel e lhe dá a Lei, é para que o povo resplandecesse entre as nações, e as nações se encontrassem com Deus a partir da fidelidade daquele povo à sua Lei. É exatamente a mesma dinâmica no Novo Testamento, com Jesus Cristo no Sermão do Monte. O que Deus espera de sua igreja hoje é que ela resplandeça — para que todos sejam alcançados pela graça salvadora de Jesus Cristo.


Não Vim Revogar a Lei, mas Cumpri-la

A partir do versículo 17, encontramos um trecho que merece toda a nossa atenção. Antes, porém, quero voltar ao final do sermão, ao último versículo do capítulo 7, onde o texto registra a reação do povo:

"Quando Jesus acabou de dizer essas coisas, as multidões estavam maravilhadas com o seu ensino, porque ele as ensinava como quem tem autoridade, e não como os mestres da lei."

Quando Jesus encerra o Sermão do Monte, o povo fica admirado: nunca haviam ouvido alguém falar assim da Lei. Os mestres da lei não ensinavam daquela maneira — aquele Jesus tinha uma autoridade diferente.

É com essa reação em mente que devemos voltar ao capítulo 5, a partir do versículo 17. Nós, cristãos, muitas vezes temos a noção de que somos do Novo Testamento, da graça, e que o Velho Testamento é da lei, e que não estamos mais debaixo dela, mas debaixo da graça. E é justamente nesse ponto que Jesus, no Sermão do Monte, declara:

"Não pensem que eu vim destruir, demolir ou revogar a Lei, ou os Profetas. Não vim para isso. Eu vim para dar à Lei o seu sentido completo."

Numa tradução livre que eu mesmo proponho para o versículo 17: Ele não veio demolir, não veio cancelar, não veio destruir a Lei — veio dar à Lei um sentido completo. E é a partir dessa afirmação que Jesus começa a expor aos discípulos a diferença que eles próprios haviam percebido ao final do sermão. Porque, sempre que alguém ensinava naquela época, dizia: "Está escrito assim, vocês ouviram dos nossos antepassados, façam isso." Mas, quando Jesus ensina, é diferente. Enquanto os rabis, os mestres, os escribas e os doutores da lei diziam: "Prestem atenção ao que vocês ouviram, atenção ao que está escrito", Jesus vai dizer: "Vocês ouviram... mas eu vos digo." E essa fórmula se repete diversas vezes ao longo do capítulo 5 — e é sobre ela que vamos nos debruçar a seguir.


"Ouvistes... Mas Eu Vos Digo": A Lei Levada ao Coração

O versículo 21 do capítulo 5 traz a primeira dessas antíteses:

"Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: Não matarás; e quem matar estará sujeito a julgamento."

Sim, isso é o que todo mundo já tinha ouvido. Mas Jesus continua: "Eu, porém, vos digo que qualquer que se irar contra o seu irmão estará sujeito a julgamento." Que revolução é essa! Vocês ouviram o que foi dito, vocês conhecem a Lei — a Lei diz "não matarás". Todos já ouviram isso. Mas eu, Jesus, vos digo: se você odiar o seu irmão, você já é um assassino.

Isso é uma reviravolta na Lei. É tirá-la da pedra, do papel, das atitudes externas, e introjetá-la no coração, no sentimento, no pensamento, na alma. Não se trata mais apenas do que eu faço, mas do que eu vivo internamente. Não importa mais se você não cometeu o ato — se, no seu coração, você deseja, se no seu coração você odeia, então o pecado já está consumado. É por isso que as pessoas diziam: "Que ensino diferente é esse? Que autoridade é essa?" Ninguém jamais tinha ensinado por esse ponto de vista. O mandamento "não matarás" ganha um contorno completamente diferente. Não se trata apenas de puxar o gatilho. Quando ignoro alguém, quando excluo alguém, quando odeio, quando desprezo — estou cometendo esse mesmo pecado. Esse é o sentido completo da Lei que Jesus revela: não adianta apenas não praticar o ato, se o coração está inclinado a ele.

Jesus prossegue, no versículo 27, mudando de assunto:

"Vocês ouviram o que foi dito: Não adulterarás. Mas eu lhes digo que qualquer que olhar para uma mulher e desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração."

Aqui a exigência se aprofunda ainda mais. Vocês ouviram o que foi dito, está escrito na Lei: "Não adulterarás." Mas eu vos digo: se, no seu coração, você olhar para uma mulher com olhos de desejo, de cobiça, se na sua mente, no seu coração, você conceber esse pecado, já pecou. Não se trata de uma religião de ordenanças que posso ou não cumprir externamente. É uma religião que sonda o coração, e somente um coração transformado internamente pode se refletir numa vida exteriorizada de fato.

Dentro desse mesmo tema do adultério, Jesus aborda também a questão do divórcio, pois era comum, naquela época, que os homens dessem carta de divórcio às esposas. A mulher, no tempo de Jesus, não tinha valor algum na sociedade, e os maridos costumavam divorciar-se com facilidade. Jesus entra nesse assunto e afirma que a única possibilidade legítima para o divórcio é o adultério. Mas, se esse adultério já se consuma no pensamento, como vimos, a exigência se torna ainda mais rigorosa. Percebemos, assim, como Jesus dá uma completude radical à Lei — algo que aquele povo jamais havia ouvido.


Juramentos, Não-Resistência ao Mal e a Superação do Olho por Olho

No versículo 33, Jesus continua:

"Vocês ouviram o que foi dito: Não jure falsamente, cumpra os seus juramentos diante do Senhor. Mas eu lhes digo: não jurem de forma alguma, nem pelos céus, porque é o trono de Deus, nem pela terra, porque é o estrado dos seus pés, nem por Jerusalém, nem por nada. Seja a vossa palavra sim, sim; não, não; porque o que passa disso é do maligno."

A completude que Jesus traz à Lei é algo que aquele povo não estava acostumado a ouvir — na verdade, até para nós, hoje, soa quase como uma explosão em nossa mente. Que a nossa palavra seja justa, precisa, correta, verdadeira, sincera — sem necessidade de juramentos ou reforços, porque o que ultrapassa isso já vem do inimigo.

Jesus prossegue, no versículo 38:

"Vocês ouviram o que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Mas eu lhes digo: não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça também a esquerda. Se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar uma milha, vá duas. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado."

Meu Deus! A lei do "olho por olho, dente por dente" cai por terra diante de Jesus Cristo. Com Ele, a lógica se inverte completamente: se te bateram, não revide; se querem a capa, dê também a túnica; se te obrigam a andar uma milha, ande duas; não volte as costas para quem pede algo emprestado. São palavras incríveis, verdadeiramente radicais.

Paramos aqui para pensar: se vivêssemos assim, seríamos realmente sal, porque seríamos muito diferentes da realidade ao nosso redor. E, se começássemos a viver dessa maneira em nosso ambiente de trabalho, em nossa família, provavelmente começariam a nos chamar de exagerados, começariam a nos perseguir, porque, afinal, esse tipo de pessoa é diferente demais. E é exatamente isso que Jesus está nos dizendo.


Amai os Vossos Inimigos: Sede Perfeitos como o Pai

Jesus encerra o capítulo 5 — que trata das bem-aventuranças e desse comparativo entre a Lei e o Evangelho, e da necessidade de Israel, pela fidelidade à Lei, resplandecer, assim como a igreja deve resplandecer pela sua vida vivida na prática — com as palavras do versículo 43:

"Vocês ouviram o que foi dito: Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo. Mas eu lhes digo: amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos do Pai que está nos céus, porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa vocês receberão? Até os publicanos fazem isso. E, se saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo demais? Até os pagãos fazem isso. Portanto, sejam perfeitos, como é perfeito o Pai celestial de vocês."

Amar quem nos ama é fácil — mas amar o inimigo, amar quem nos persegue? Aí já não parece tão simples. O que Jesus transmite nesse trecho, com certeza, fazia explodir a cabeça daquele povo que o escutava. E, assim como fez com eles, esse texto deve explodir a minha cabeça e a sua hoje, enquanto lemos, para que nos perguntemos: tenho sido alguém capaz de amar os meus inimigos? Tenho sido capaz de olhar para o próximo sem julgamento, sem punição? Tenho sido capaz de amar as pessoas que discordam de mim, ou só quero me cercar de quem concorda comigo? Consigo amar pessoas que julgo serem diferentes de mim?

É algo para refletirmos neste mundo tão raivoso em que vivemos. Nós, cristãos, muitas vezes tentamos impor ao mundo a nossa forma de vida — queremos que o mundo seja santo, mas essa é uma exigência que Deus faz ao seu próprio povo. E, quando as pessoas não correspondem ao que julgamos que somos, acabamos odiando, excluindo, brigando com elas. Somos capazes de amar quem nos odeia? Somos capazes de retribuir, não da mesma forma que fomos atingidos, mas com amor diante de uma atitude de raiva ou vingança? Quando estamos dirigindo, somos capazes de uma atitude de tolerância, de mansidão, de graça diante da investida do outro contra nós?


Uma Palavra que Confronta: Reflexões Finais

Somos nós, hoje, pessoas capazes de andar em santidade diante de Deus, sem nos inflamarmos pela sensualidade e pela sexualidade destes dias — não por uma falsa religiosidade, por uma aparência religiosa vazia, mas por um coração sincero? Somos nós pessoas dispostas a não "assassinar" os marginalizados, os excluídos, os vulneráveis, seja pelo desprezo, seja pela indiferença? Somos capazes de salgar esta terra, produzindo e dando vida — pois, se o sal preserva, talvez essa seja uma característica que nos cabe, como igreja: preservar a vida ao nosso redor. Ou somos pessoas que deveriam estar resplandecendo, mas não estão; que deveriam estar salgando, mas não estão?

Será que acreditamos que a alegria e a bênção da vida estão nas coisas que podemos ter? Será que, em nossas orações, esperamos de Deus principalmente as coisas boas desta vida — a casa, o carro, o dinheiro, a viagem, a carreira, o sucesso, o "dar certo"? Será que atribuímos a essas coisas a nossa felicidade, quando elas são justamente o contrário de tudo o que Jesus ensina no Sermão do Monte? Bem-aventurados os pobres de espírito, bem-aventurados os que choram, bem-aventurados os misericordiosos. Parece que Jesus está dizendo que a felicidade não está naquilo que temos ou desejamos ter, mas naquilo que somos. Parece que Ele está muito mais preocupado com o ser humano do que costumamos imaginar — e que nós, por outro lado, estamos muito mais preocupados com as coisas do que gostaríamos de admitir.

Que este capítulo 5 de Mateus nos abra os olhos e nos conduza a uma busca de santidade, a uma relação com Deus muito mais profunda do que talvez tenhamos percebido nestes dias. Que o nosso coração se apegue à Lei — isso mesmo, que o nosso coração se apegue à Lei, que o nosso coração se apegue ao Senhor. Que andar nos caminhos do Senhor, viver em fidelidade e agir segundo a sua Lei seja algo iluminado em nós, de modo que as pessoas olhem e digam: "Glória a Deus! Ainda existe alguém honesto, alguém com ética, alguém com compaixão, alguém com misericórdia, alguém correto." E, assim, o nome do nosso Pai seja honrado e glorificado.

É por isso que creio, de certa forma, num evangelho integral. O evangelho não é apenas aquilo que eu falo — porque, se o que falo não for confirmado por aquilo que vivo, de nada vale. Mas, se o que falo e anuncio vem reafirmado pela minha vida, então é isso que o Senhor espera de nós. O nosso evangelho precisa ser evangelho pregado e evangelho vivido, em todos os aspectos. Que Deus nos ajude a ser esse tipo de povo, esse tipo de igreja, esse tipo de gente — cujas palavras sejam condizentes com o tipo de vida que se leva. Que sejamos, então, sal e luz neste mundo tão corrompido. Que o Senhor nos abençoe.

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