Atos 2:42-43: O Espírito da Igreja que Nascia: Perseverança, Comunhão e Temor na Igreja Primitiva
Introdução: O que quero que você compreenda
Hoje quero ler com vocês os versículos 42 e 47, mas vou me deter especialmente sobre os versículos 42 e 43. Ainda assim, é fundamental que você entenda o que Lucas está dizendo em todo esse trecho:
"E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor, e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam o pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava, dia a dia, os que iam sendo salvos."
Antes de entrarmos no texto, preciso relembrar onde paramos, porque isso explica por que a narrativa continua desse jeito. No dia de Pentecostes, os discípulos estavam reunidos no cenáculo, orando e adorando. O Espírito se derramou sobre eles, e do lado de fora começou uma verdadeira confusão: cada pessoa que ali se encontrava passou a entender a pregação em sua própria língua materna. Havia gente dos quatro cantos da terra daquela época, e todos ouviam, simultaneamente, no seu próprio idioma.
Entendo que aquele derramamento do Espírito Santo teve um propósito tremendo: desfazer o que havia acontecido em Babel. Ali, uma língua só se tornou muitas, e o povo se dispersou. Aqui, muitas línguas se tornaram um só entendimento, e Deus uniu isso como sinal de que o Reino estava presente entre os homens.
Já falei também sobre a segunda parte dessa cena: com a multidão do lado de fora fazendo gozação, discutindo e se admirando, Pedro — que antes estava escondido, com medo — desce e começa a pregar. E o mais impressionante é que ele conecta aquele grande milagre com a palavra do profeta Joel e com diversos Salmos. Tudo aquilo que Pedro anuncia converge para um único resultado: a ressurreição de Cristo, a nova vida em Jesus como Messias, o Filho de Deus. E o texto diz que, naquele mesmo dia, quase três mil pessoas se agregaram àquela nova fé.
É exatamente aqui que Lucas, escrevendo para Teófilo, revela a "flor" que nasceu daquele evento no cenáculo. Ele mostra o que aconteceu depois de o Espírito ter sido derramado e de quase três mil pessoas terem se convertido. E é isso que quero explorar com você: como essa gente passou a viver a partir daquele dia. Qual era o espírito — com letra minúscula mesmo — que passou a habitar dentro de cada um deles?
Uso essa expressão propositalmente. Quando falamos em "espírito olímpico" ou "espírito natalino", estamos nos referindo a um sentimento que toma conta de um grupo de pessoas em determinado momento. É esse tipo de sentimento — porém motivado pelo próprio Espírito de Deus — que quero que você perceba operando na vida daquela igreja nascente.
É importante lembrar que Lucas não escreveu esse relato nos dias em que o Pentecostes estava acontecendo. Ele registrou esses fatos por volta do ano 60 depois de Cristo — cerca de 30 anos após os acontecimentos. Ele não estava simplesmente narrando um evento recente; ele acompanhou essa história ao longo de três décadas e, só então, voltou para contá-la a Teófilo. É com essa distância — e com essa maturidade de quem viu o fruto amadurecer — que ele nos conta o que aconteceu com aquele povo depois do fenômeno do Pentecostes.
Perseveravam — o verbo que revela um estilo de vida, não um evento
Quero que você preste atenção especial nessa palavra: "perseveravam". No português, ela já chega até nós como uma tradução simplificada, mas no texto original há algo muito mais denso por trás dela. Se eu tentasse traduzir literalmente o que está escrito, teria que dizer algo como: "eles, olhando para trás, Teófilo — essas pessoas que viveram no passado — insistiam, 24 horas por dia, em ser perseverantes." É claro que ninguém escreveria assim; a própria língua portuguesa não comporta bem essa construção. Mas é exatamente isso que está ali.
O que temos no original é uma conjugação perifrástica — para quem estuda a língua, isso significa dois verbos combinados para expressar um aspecto de força e continuidade muito grande. Essa construção não está dizendo apenas o que essas pessoas faziam ocasionalmente; ela está afirmando que elas eram, constantemente, gente de perseverança. Não é aquele esforço de "vou até aguentar", como quem atravessa um fim de semana difícil se apoiando uns nos outros e repartindo o pão como um evento pontual e bonito. Não. Esse era o jeito como elas viviam, dia após dia, 24 horas por dia.
Ou seja: essas pessoas morreram e nasceram de novo, verdadeiramente. E essa perseverança não era o tipo de coisa que a gente força com esforço, dizendo "eu não aguento mais, mas preciso perseverar". Não era esse o espírito por trás da palavra. Algo aconteceu dentro delas. Elas não estavam simplesmente praticando a perseverança — elas eram perseverantes. Essa diferença parece sutil, mas é enorme.
Lucas não está dizendo que essas pessoas perseveraram por alguns dias para alcançar algum objetivo específico. Ele está afirmando que foram tomadas pelo Espírito de Deus, e que a prática natural de suas vidas passou a ser a permanência constante nessas atitudes. E a primeira delas — a mais evidente no texto — era a perseverança no ensino dos apóstolos.
Perseverar na doutrina dos Apóstolos: por que só se pregava Cristo
O ensino dos apóstolos, aliás, só tinha um conteúdo: a ressurreição. A única coisa que os apóstolos pregavam e ensinavam era Jesus — suas palavras, seus discursos, seus sinais, seus ensinos, a maneira como ele interpretava a Lei. E com que base posso afirmar isso? Com base nos próprios Evangelhos. Os quatro que os escreveram — João, Marcos, Mateus e o próprio Lucas — só escreveram sobre Jesus. E a igreja abraçou justamente esses quatro relatos como fundamento.
Por que é preciso perseverar e permanecer no Evangelho? Porque somos tentados, o tempo todo, a desviar para muitas outras coisas. Estamos juntos, como igreja, há 13 anos, e em todo esse tempo vocês nunca me viram pregando sobre a vida de Davi, por exemplo, como quem diz: "você tem que ser como Davi", "você precisa ter a unção de Josué", "busque o poder que estava sobre Sansão". Isso nunca aconteceu — e não é por acaso. É porque eu estou perseverando na doutrina dos apóstolos, pregando sobre Cristo, porque somos cristãos.
Essa semana, inclusive, alguém me questionou sobre uma pregação antiga em que mencionei uma medalhinha de São Bento. Minha resposta foi simples: Bento foi um cristão como nós, um homem que andou com Deus e que deixou sua contribuição na teologia, no ensino, em seu testemunho de vida. Nossos irmãos católicos têm a prática de canonizar cristãos que se destacaram como figuras eminentes na fé. Nós, evangélicos, não fazemos isso — não veneramos essas figuras. Entendemos que todos eles são gente como nós. Só Jesus é diferente; só ele é o Filho de Deus.
Podemos até ler, aprender e reconhecer o valor da vida de outros cristãos — Paulo, Pedro, Tiago, Mateus, Marcos, Lucas, João foram homens incríveis, e também foram, de certa forma, canonizados ao longo da história. Acho maravilhoso o que Paulo escreveu, ainda que eu não seja devoto de São Paulo. Respeito profundamente a fé de quem crê dessa maneira, mas eu não creio assim. O que importa é reconhecer: essas pessoas andaram com Jesus, andaram com Deus — e isso está certo. Da mesma forma acontece com Agostinho: ler as Confissões é algo maravilhoso, ainda que eu não seja devoto de Santo Agostinho. Ele foi um servo de Deus, e o que uma vertente religiosa fez com sua memória não muda o que ele realmente foi e viveu.
O problema é que, hoje, dentro do que se chama de movimento evangélico, muita gente também tem suas próprias canonizações. "Quero imitar Josué." "Quero ser como Davi." "Quero levantar a espada como Josué." Mas o Evangelho não me ensina a imitar outras pessoas — ele me ensina a ser imitador de Cristo. Perseverar na doutrina dos apóstolos é perseverar em anunciar Jesus Cristo e o seu evangelho, que transforma a nossa vida.
Há muitas tentações no caminho: usar técnicas de coaching, táticas de neurolinguística, discursos sobre prosperidade, ganho, poder. Eu decidi que vou pregar sobre Cristo. Uma vez alguém me perguntou se eu só pregava sobre o Evangelho, propriamente dito, e minha resposta foi: pouco importa se está escrito no Antigo ou no Novo Testamento, porque o Antigo já está repleto de imagens que apontam para Cristo. Eu só vejo Cristo nas Escrituras, porque ele é o centro de tudo — o começo, o meio e o fim. Ele é o Alfa e o Ômega, o Rei que estava no princípio com Deus. Sem ele, nada do que foi feito se fez. Ele foi crucificado desde a fundação do mundo; é a razão da nossa existência, a água que mata nossa sede, a luz que ilumina todo homem, o pão que desce do céu e nos alimenta. Se isso não é suficiente, o que mais seria?
Perseverar na doutrina dos apóstolos é perseverar em Cristo, na sua ressurreição e na nova vida que ele oferece. E aonde essa perseverança nos leva? A lugar nenhum, em termos de conquista final — porque a vida cristã é uma jornada. Caminhamos até o dia em que partirmos, e o único repouso verdadeiro estará na eternidade. Nesta vida, não existe um ponto de chegada onde dizemos "conquistei, cheguei, terminei". Isso seria uma ilusão. Temos uma jornada com Cristo, e perseveramos com ele — constantemente, 24 horas por dia. Essa era uma das características centrais daquele povo: perseveravam apenas em Cristo.
Koinonia: a comunhão que não é o "tamo junto" do estádio
A outra marca constante daquele povo era a perseverança na comunhão, no partir do pão e nas orações. Quero me deter agora sobre essa palavra: comunhão, que no original é koinonia.
Koinonia não significa o "tamo junto" que vivemos hoje em dia. Não é aquele sentimento de quando você vai ao estádio assistir ao jogo do seu time, veste a mesma camisa de todo mundo ao redor e se sente em casa, ainda que cercado de estranhos. O legal de estar em um estádio é justamente isso: quando o time faz gol, você abraça qualquer pessoa ao seu lado, mesmo sem saber quem ela é. É uma espécie de comunhão — talvez uma pseudo-comunhão, porque você nem conhece verdadeiramente aquela pessoa. Ela pode pensar de um jeito completamente diferente do seu, pode ter valores opostos aos seus. Mas, naquele momento, com o time em campo, vocês estão juntos torcendo pela mesma causa.
A comunhão bíblica não é isso. Essa palavra, no Novo Testamento, é repetidas vezes traduzida como participação, como comparticipação. Não é um "tamo junto, valeu, até amanhã". É algo muito mais profundo: a sua vida cabe dentro da minha, e a minha deve caber dentro da sua. Eu não consigo dormir em paz sabendo que você tem alguma necessidade não suprida. Não consigo descansar porque, dentro de mim, habita a sua necessidade como se fosse minha. É uma participação de uma vida dentro da outra — e isso não tem relação com instrução ou regra.
Sempre uso este exemplo: já estamos juntos, como igreja, há 13 anos, e em nenhum momento eu disse: "irmãos, virem-se para quem está ao seu lado e diga tal frase". Há até quem venha à igreja só por causa desse tipo de dinâmica, ou que deixe de vir justamente porque não a encontra. Isso não significa que eu ache ruim que você converse com seu irmão — só não acredito que essa comunhão deva nascer de uma instrução minha.
O que não consigo aceitar é o seguinte: se o Espírito de Deus se derramou sobre aqueles homens, e eles foram cheios do Espírito a ponto de as pessoas ao redor entenderem cada um em sua própria língua, e se nós também somos cheios do mesmo Espírito e perseveramos em imitar a Cristo na doutrina dos apóstolos, no ensino deles, buscando ser como Jesus — a minha pergunta não é se você deve ou não falar com o irmão ao seu lado. A pergunta é: como é possível você ter esse mesmo Espírito habitando em você e conseguir sentar numa fileira de dez cadeiras sem ao menos dizer "bom dia" para quem está sentado ao seu lado? Que espírito é esse, então?
Tenho até um exemplo simples que gosto de contar: há crianças no nosso departamento infantil bem extrovertidas — um menino, em especial, que, quando entra na sala, exclama: "Oi, pessoal, cheguei!" Isso é comunhão de verdade. Não é o "nós" do futebol; é o "nós" genuíno. É um espírito que faz com que a minha vida esteja dentro da sua, e a sua dentro de mim — a ponto de eu não conseguir ficar em paz sem perguntar como você está, sem saber se está tudo bem, sem convidá-lo para tomarmos um café juntos. Sempre repito isso ao final do culto: dê um abraço no seu irmão, tome um café com ele, pague até o estacionamento dele se for o caso. Aproveitem-se uns dos outros com alegria — porque esse é o Espírito que habita em nós. Não é uma obrigação; é uma pergunta que eu faço: como você consegue viver sem isso, já que o Espírito da comunhão habita em você?
O Partir do Pão: memória viva do corpo entregue e do sangue derramado
Aquele povo também perseverava no partir do pão. Essa expressão carrega, aqui, dois significados. Primeiro, refere-se à ceia — ao ato de, constantemente, se lembrarem, em memória de Cristo, durante suas refeições, daquele que entregou o seu corpo e derramou o seu sangue por eles. É uma comunhão em torno da mesa, centrada no Evangelho e no Reino de Deus, que carrega esse sentido de perseverar como corpo de Cristo.
E aqui vale destacar algo importante: até esse ponto da história da igreja que estamos acompanhando, a palavra "igreja" ainda nem havia aparecido no texto. Eles iam para o templo — não havia um prédio, não havia essa estrutura de pastores, diáconos e presbíteros como conhecemos hoje. Não existia uma "regra da casa" dizendo como cada departamento deveria funcionar. Nada disso. E não estou dizendo que ter essas estruturas hoje seja errado — apenas destacando que havia algo dentro daquelas pessoas que as levava a partir o pão umas com as outras, sem que ninguém tivesse necessidade, porque se ajudavam mutuamente. Ninguém mandava.
É interessante pensar nisso: naquela época, eles ainda tinham obrigações religiosas ligadas à Lei. Precisavam fazer seus sacrifícios no templo — isso era uma exigência legal. Havia o imposto do templo, as duas dracmas que todo homem deveria entregar anualmente, além dos sacrifícios. E, para agravar, Jesus já havia denunciado os doutores da Lei, dizendo: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque colocais um peso enorme sobre os ombros das pessoas" — referindo-se à interpretação excessiva dos 613 mandamentos, que ditava até quantos passos alguém podia dar no sábado, o que podia carregar, como deveria cultuar.
Além disso, esse povo vivia sob o domínio de um império. Não tinham liberdade própria como nação; pagavam impostos a Roma e eram perseguidos por se recusarem a prestar culto ao imperador. Era um povo pressionado, sobrecarregado de obrigações por todos os lados. Diante disso, seria até compreensível que dissessem: "eu não quero ajudar mais ninguém, já tenho obrigações demais". Mas não foi isso que aconteceu. Algo os impulsionou a repartir o próprio pão, de casa em casa, a viver uma vida de pertencimento genuíno, um habitando dentro do outro. Ninguém os obrigava a permanecer em Cristo dessa forma.
Perseverantes nas orações: o que acontece no coração diante da dor do outro
Eles também oravam uns pelos outros; eram perseverantes na oração. Hoje, fazemos algo parecido — recebemos pedidos de oração e oramos por eles em conjunto. Mas quero que você pare e pense: o que acontece no seu coração quando você ouve um pedido de oração de alguém que está clamando de verdade — como aconteceu recentemente entre nós, quando pedimos oração por uma pessoa que está em estado terminal? Como deve estar o coração, a cabeça de quem está naquele leito, e de sua família, sabendo disso? Como isso entra no meu próprio coração? Com que tipo de espírito eu me apresento diante de Deus, intercedendo por essa pessoa?
O texto também diz que, além dessas coisas — a perseverança na doutrina dos apóstolos, no partir do pão, na comunhão e nas orações — havia, em toda alma, temor. É importante notar a sequência exata em que isso está escrito. O verbo usado aqui, no original, é egineto, um verbo que fala sobre aquilo que nasce, que brota. E veja como isso é interessante: quando você nasce, você não pratica nenhuma ação — o nascimento é sempre uma coisa que acontece na voz passiva. Ninguém diz "eu pratiquei o ato de nascer"; nós somos gerados, somos fruto de algo que nos antecede.
É exatamente esse verbo que Lucas emprega aqui. Ele está dizendo que, dentro daquelas pessoas, brotava, nascia, um fruto direto da obra do Espírito que havia sido derramado sobre elas. Além de toda essa perseverança, em todos eles havia temor — e muitos sinais eram feitos pelos apóstolos.
Em toda alma havia temor: uma igreja sem modelo para copiar
Quero usar estes últimos momentos para falar sobre esse trecho: um povo que não tinha prédio, nem nome de igreja, reunido em um cenáculo — que era, simplesmente, um lugar de jantar. Eles foram cheios do Espírito, voltaram para suas terras de origem levando o Evangelho de Deus, sem ordem, sem obrigatoriedade, sem que ninguém lhes dissesse o que fazer, sem organizarem ministérios e departamentos. Começaram a amar estar juntos, a compartilhar a vida uns com os outros, a repartir o pão como um impulso coletivo produzido pelo Espírito — sem que houvesse, aparentemente, um chefe por trás daquilo. Passaram a repartir de coração aberto.
Guarde bem isso, porque esse texto é fundamental para a ideia de igreja: o livro de Atos não nos apresenta um modelinho para copiarmos. Somos ávidos por copiar sistemas e métodos — "a igreja tem que ser igual à igreja dos apóstolos, vamos vender tudo". Calma. Já vimos historicamente aonde esse tipo de imitação literal pode levar — lembre-se do que aconteceu com Jim Jones, e sabemos no que deu. Não se trata de copiar um sistema; o espírito, o sentimento, o movimento de Deus deve ser o mesmo, guardadas as devidas proporções da nossa distância cultural, histórica e socioeconômica. Não é uma cópia — é um sentimento.
Havia muitos sinais acontecendo, e dentro de cada alma brotava temor. E aqui preciso ser claro sobre o que essa palavra significa, porque não é o medo que conhecemos hoje. Não é medo de regras, de exclusão, de perder posição ou status dentro de uma estrutura religiosa. É outra coisa.
O temor como reverência, não como medo (a lição da sarça de Moisés)
Quando leio esse texto, penso imediatamente em Êxodo 3 — Moisés fugindo do Egito, chegando a um lugar onde encontra uma sarça em chamas que não se consumia. Pense nisso: é como se você tocasse fogo em uma folha de papel e as chamas subissem, mas o papel permanecesse inteiro. Há fogo, há chama, há labareda — mas nada se consome. Moisés ficou perplexo diante daquilo, e Deus lhe disse: "Moisés, isso é um sinal. Tira a sandália dos teus pés, porque esta terra é santa." Não era brincadeira; era o próprio Deus dizendo: "sou eu que estou aqui, e isso é um sinal da minha presença. Tem que haver temor. Tira a sandália — respeite este lugar, respeite o que estou fazendo." Esse temor tem a ver com respeito, com reverência, com seriedade diante do que Deus está realizando.
E é interessante pensar: se aquele mesmo episódio da sarça acontecesse hoje, provavelmente alguém colocaria uma cerca ao redor, venderia ingressos e criaria uma fila para as pessoas assistirem ao "sinal". Isso não seria só engraçado — seria trágico, porque isso é exatamente o que costuma acontecer: nos tornamos devotos dos próprios sinais, quando, na verdade, o sinal existe para gerar temor de Cristo e nos levar a perseverar no ensino dos apóstolos.
Quando alguém me pergunta se eu creio em milagres, tenho uma tendência teológica um pouco "chata" de explicar que não posso crer simplesmente em milagres soltos — preciso crer em quem morreu na cruz por mim. Não foi um evento, não foi apenas um sinal: foi Cristo. Eu creio em Cristo. Sim, Cristo faz sinais, Cristo faz milagres, e cada vez que isso acontece, isso me une mais a ele — mas não para que eu crie um sistema de reprodução desses sinais. Pode parecer igual, mas é muito diferente.
Imagine como estava o coração daqueles apóstolos antes mesmo do Pentecostes — homens que caminharam com Jesus por três anos e meio, que o viram acalmar a tempestade e perguntaram: "quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?" Homens que viram Jesus ressuscitar Lázaro, andar sobre as águas; Pedro, que viu Jesus curar sua própria sogra bem diante dele; que entraram na casa de Jairo com a menina já morta e ouviram: "Talita cumi — menina, levanta-te." Eles olhavam para Cristo com toda reverência e respeito, tirando a sandália dos pés diante dele — não porque ele fosse um homem comum, não porque aquilo tivesse a ver com poder ou política, mas porque ali havia temor de Deus.
Sinais que apontam para Cristo, não para um sistema religioso
E o texto agora nos diz que os próprios apóstolos passaram a fazer sinais. Imagine o impacto disso sobre aquele povo: "você continua acreditando nisso?" "Eu tenho que acreditar, meu amigo — eu estava ali fora e vi aquelas pessoas falando na minha própria língua, e outras falando em outro idioma. Você não sabe o sinal que eu vi." E foi exatamente isso que os levou a Cristo. Isso é sério; ali havia temor. Esses sinais estavam mostrando que aquilo não era coisa de homem, que não era brincadeira de religião, que não era um esquema onde alguém pudesse comprar e vender bênçãos. Ninguém controlava aquilo; ninguém era dono. Era algo que o próprio Espírito estava fazendo — e isso gera respeito, temor, reverência.
Sei que somos leves entre nós — já deve ter percebido isso ao longo desses 13 anos de igreja. Não uso terno, e não tenho nada contra quem usa; você pode vir de chinelo e bermuda, sem problema algum. Você pode jogar bilhar, pingue-pongue, pebolim com seu filho, tomar um lanche na nossa cantina. É tudo muito livre, muito leve. Mas não podemos esquecer que precisa haver temor, porque não somos nós que fazemos essa obra — não é o Zé, nem a Maria, nem o João, nem o Gerson. Pense, por exemplo, nos quarenta irmãos que cuidam das nossas crianças no departamento infantil todo domingo, sem receber absolutamente nada por isso. Isso é temor, é respeito, é reverência.
Às vezes vemos alguém tratando mal um desses professores voluntários, como se estivesse pagando por um serviço de escola particular — e mesmo lá, onde há de fato uma relação comercial, ninguém tem o direito de maltratar quem cuida do seu filho. Imagine então aqui, onde é o Espírito Santo de Deus quem levanta pessoas dispostas a se doar gratuitamente, por amor, às nossas crianças. Isso não é coisa de gente; não há dinheiro, não há prosperidade, não há ninguém tentando tirar vantagem financeira dos fiéis. É a obra de Deus.
O mesmo vale para os irmãos que ficam na porta durante os momentos de oração, garantindo que possamos ter, aqui dentro, um ambiente de reverência e respeito — mesmo estando de chinelo. Isso não é brincadeira. E quando alguém maltrata os irmãos do apoio, que chegam às oito da manhã para nos receber com carinho e cuidado, isso fere algo profundo: este ambiente não pertence a mim, nem a você, nem a ninguém. Ele pertence ao Espírito.
Quando olho para os sinais, sou levado a Cristo, para dizer: "Senhor, eu tenho temor — temor de querer fazer as coisas segundo minha própria vontade, minha própria cabeça, quando isso é obra do teu Espírito." Em toda alma havia temor; era assim que essas pessoas se sentiam. E se aparecesse algum insensato querendo se tornar dono dos outros, cercando aquilo que Deus estava fazendo, tirando dinheiro das pessoas, transformando tudo em um conglomerado religioso — isso seria gravíssimo, porque Deus está agindo ali, e não podemos tratar com mentalidade corporativa e sistemática aquilo que o Espírito realiza livremente, com santidade, pureza e compromisso, no coração das pessoas.
Não podemos simplesmente copiar um modelo de prática da igreja nascente de Atos, porque, naquele momento, o próprio nome "igreja" ainda nem existia. Mas esse espírito, esse coração — isso é algo que o Espírito Santo de Deus produz em nós, se o tivermos. Entendo até quem não compreende santidade, reverência, amor, pertencimento e cuidado mútuo; talvez essa pessoa realmente não tenha o Espírito Santo de Deus operando nela — pode até ter algum outro tipo de espírito, mas não o de Deus.
Se, porém, somos um povo que nasceu a partir do derramamento do sangue de Cristo na cruz, e se, ao crermos nele, o seu Espírito passou a habitar em nós, então é preciso seriedade. Não dá para sistematizar essa obra e dizer: "vou abrir uma filial disso e ficar rico com isso." Isso seria quebrar o que o Espírito de Deus está movendo em vários corações. Não temos, entre nós, cobrança de dízimo ou recolhimento formal de oferta — quem visita percebe isso rapidamente. O fato de não falarmos muito sobre dinheiro não significa que o Espírito Santo não esteja movendo corações sinceros e puros que, sem chefe, sem obrigação, contribuem para que o corpo de Cristo continue avançando.
Conclusão: o mesmo espírito, hoje, na igreja de Cristo
Nessa comunidade que estava nascendo já surgiam vocações que nos abençoam até hoje: quem ensina, quem toca, quem canta, quem prega, quem reparte, quem exorta. Deus vai levantando pessoas, e vamos entendendo, aos poucos, que essas vocações são um presente para a comunidade — para servir na porta, para organizar um encontro ou um congresso, para amar de dentro para fora, movido pelo Espírito, sem nenhum outro interesse além de servir. Isso é a igreja. E cada um de nós é apenas uma peça nessa engrenagem — eu inclusive. Quem sou eu, na fila do pão? É o Espírito que age na vida de cada um, no caminho, no ônibus, que faz você acordar cedo num domingo para vir servir, com temor — mas um temor que é coisa de Deus, não um sistema.
Isso explica também por que aquele povo causava tanto espanto entre quem os observava de fora: "Quem é o chefe de vocês? Levem-me até o seu líder. Quem mandou vocês fazerem isso? Nós já matamos aquele que vocês seguem — ele morreu, e agora dizem que ressuscitou, mas provavelmente roubaram o corpo dele. Quem é que manda em vocês?" E os romanos logo descobriram que o sangue dos cristãos era semente: quanto mais perseguiam e matavam, mais cristãos surgiam — pessoas movidas pelo mesmo Espírito, conduzidas pela mesma direção de Deus, para realizarem o que o Reino necessitava naquela terra. Eles viviam pela subsistência, cuidavam de seus pequenos rebanhos, plantavam para o próprio sustento, e ainda assim acordavam pensando em repartir com o vizinho que sabiam estar precisando. Reuniam-se de casa em casa, perseveravam nas orações, no partir do pão, cuidavam uns dos outros, firmes na doutrina de Cristo, na sua ressurreição, firmes em Jesus e em sua igreja. Essa é a igreja de Jesus Cristo — mesmo sem nome, sem endereço fixo.
O temor de que fala esse texto é o temor de quem se aproxima de Cristo e conhece a ressurreição. Sei que existem extremos: há quem transforme a igreja num lugar de condenação, apontando o dedo e dizendo "você é pecador, vai para o inferno se não se converter"; e há quem vá para o outro lado, dizendo "faça o que quiser, o importante é ser feliz, Deus te ama do jeito que você é". O temor verdadeiro me ensina a viver de outro jeito: tudo me é lícito, mas nem tudo me convém. Não busco uma comunidade para que ela simplesmente aprove tudo o que eu quiser ser e fazer — mas também não encontro aqui alguém querendo me condenar ao inferno. Encontro, sim, o Espírito de Deus me dizendo: "morra para essa brincadeira; isso é a tua carne, o teu desejo, e vai te destruir."
Já dissemos isso muitas vezes: "nega-te a ti mesmo, toma a tua cruz e segue-me" — esse é o princípio do Evangelho do Reino. Por isso, quando alguém me pergunta se aqui as pessoas são aceitas como são, respondo: esta é uma reunião de pessoas que não se aceitam como são. Buscamos ser como Cristo quer que sejamos, não como somos por natureza. Existem inúmeras religiões e inúmeras interpretações — costumo dizer que ninguém crê exatamente na Bíblia, mas nas interpretações que fazemos dela. Você certamente encontrará quem lhe diga que pode ser quem quiser ser, sem problema algum — basta escolher outra religião. Nós escolhemos Cristo, com temor, quebrantados, dizendo: "não quero mais ser quem eu era; quero ser uma bênção, quero andar em comunhão, pertencendo aos teus sofrimentos, quero perseverar no que Cristo ensinou, na mensagem da cruz e da ressurreição, quero repartir meu pão e minhas orações com a dor do próximo."
Esse foi o espírito dessa igreja nascente, em seus primeiros passos logo após a ressurreição de Jesus. E que esta semana seja um convite para refletirmos: onde ainda lutamos para manter, em nossa carne, aquilo que precisa morrer? Onde ainda nos falta ser um povo temente?
Gosto de lembrar uma cena do filme Indiana Jones e a Última Cruzada, em que o protagonista precisa passar por vários desafios para alcançar o Santo Graal. Diante de um enigma, ele entende que "somente um penitente" — alguém que anda de joelhos — pode atravessar aquele caminho sem ser decapitado por uma lâmina. Isso me lembra exatamente o que estamos falando: não é subindo em tamancos, batendo no peito, dizendo "vou vencer, vou derrubar", que se atravessa esse caminho. É aquele que vai à cruz, cai de joelhos, e diz: "não a nós, Senhor, mas ao teu nome seja dada a glória." Um povo temente. Um povo de Deus. Que sejamos assim.
Meu caro amigo Teófilo, é isso: Lucas escreveu esse relato cerca de 30 anos depois dos fatos, quando a igreja já estava mais organizada, e Teófilo provavelmente já conhecia Cristo dentro de uma comunidade estabelecida. É como se Lucas dissesse: "olha o que você está vendo aqui — é exatamente como aquilo que vivemos hoje, todo domingo, começou." Que a misericórdia de Deus nos guarde para que, em nosso espírito, jamais nos afastemos desse sentimento: perseverança em Cristo e no seu Evangelho, perseverança em unir nossa vida à dos nossos irmãos, perseverança nas orações uns pelos outros, repartindo o pão como repartimos a própria vida — e que os sinais que o Senhor já operou entre nós possam se transformar, cada vez mais, em temor, em reverência, em respeito profundo diante daquilo que é santo.
Fonte: A Casa da Rocha. 06 - O espírito da Igreja que nascia - Zé Bruno - Meu Caro Amigo 2. https://www.youtube.com/watch?v=YnCFgpOA0-0
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