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Lucas 5:17-26: O Paradoxo do Reino: Perdão e Cura na Cena do Paralítico

Um Evangelho Escrito para um Amigo Cético

Voltamos hoje ao Evangelho de Lucas, e se você está chegando agora nesta jornada, eu o convido a voltar ao primeiro domingo desta série e acompanhar a sequência desde o início. Estamos no capítulo 5, e hoje vamos do versículo 17 ao 26 — encerrando, aliás, quase todo este capítulo.

Antes de entrarmos no texto, preciso que você compreenda algo essencial sobre este livro: Lucas não escreveu este Evangelho como um relato solto, sem destinatário. Ele escreveu este pergaminho para um amigo chamado Teófilo, um grego recém-convertido que tinha dúvidas sobre Cristo e sobre o seu Reino. Entender isso muda tudo. Lucas está, o tempo todo, respondendo às perguntas de um homem que não era judeu — que não carregava o mesmo pano de fundo cultural e religioso dos discípulos de Jesus.

E é exatamente por isso que este Evangelho é tão importante para nós, hoje, como igreja. Nós também não somos judeus. Nós também estamos lendo esta carta de Lucas ao seu amigo Teófilo e tentando compreender o que um homem como Lucas — que conheceu Paulo, viajou com ele em suas jornadas missionárias, conheceu Marcos e viajou com ele na primeira viagem, era próximo de Barnabé e dos apóstolos, especialmente de Pedro — quis dizer sobre Jesus e sobre o Reino.

Lucas tinha um profundo conhecimento, ainda que não fosse um dos apóstolos. E é com essa abertura, com essa intenção de mostrar a Teófilo quem é Jesus e o que é o seu Reino, que ele nos conduz até o texto de hoje.

Estamos diante do segundo evento de uma sequência de três episódios que Lucas narra especificamente para mostrar como o Reino de Deus abraça os excluídos. Na semana passada, falamos sobre o leproso. Hoje, falamos sobre o paralítico.

O texto diz assim:

"Aconteceu que, num daqueles dias, Jesus estava ensinando, e achavam-se ali assentados fariseus e mestres da lei, vindos de todas as aldeias da Galileia, da Judeia e de Jerusalém."

Quero que você leia esse versículo devagar, mastigando cada palavra. Jesus estava nas aldeias, ensinando nas sinagogas — provavelmente em Cafarnaum. E havia ali, sentados entre o povo, fariseus e mestres da lei. Esses homens conheciam profundamente a Palavra de Deus — a lei, os profetas, os salmos —, e tinham vindo da Galileia, da Judeia e de Jerusalém só para ouvi-lo.

Mas repare no que Lucas escreve em seguida:

"E o poder do Senhor estava com ele para curar."

Ele estava ensinando. Lucas não diz que ele estava curando. Guarde esse detalhe — ele será a chave para entendermos tudo o que vem a seguir.


Ensinando com Poder para Curar

Preciso que você fixe bem esse detalhe que Lucas registrou com tanto cuidado: o texto diz que Jesus estava ensinando, e que o poder do Senhor estava com ele para curar. Não diz que ele estava curando. Essa distinção não é acidental — é a chave para compreendermos toda a cena que se desenrola a seguir.

Enquanto Jesus ensinava, chegaram alguns homens carregando um paralítico deitado num leito. Eles procuravam levá-lo para dentro e colocá-lo diante de Jesus, mas não encontravam uma forma de fazer isso por causa da multidão. Marcos, que também conta essa história, diz que Jesus estava dentro de uma casa. Deve ter sido uma cena impressionante: gente na sala, gente no quintal, gente na janela, gente na calçada, gente na rua. Não havia como chegar até lá.

Então esses homens subiram ao telhado, abriram um vão por entre as telhas e desceram o paralítico, no seu leito, bem no meio das pessoas, diante de Jesus. Imagine a cena: poeira caindo, gente olhando para cima, vendo o telhado sendo desmontado, e um homem descendo amarrado numa cama, por cordas, enquanto a multidão abre espaço.

E o texto diz algo fundamental: quando Jesus viu a fé desses homens. O poder de Deus estava sobre ele para curar — mas ele estava ensinando. Só que quando o paralítico desce, pronto para ser curado, Jesus, que tinha o poder para curar, diz a ele algo que ninguém esperava:

"Homem, os teus pecados estão perdoados."

Por que Lucas escreveu dessa forma? Ele havia acabado de nos dizer que Jesus estava ensinando, que o poder estava sobre ele para curar, e que ali estavam os fariseus e os mestres da lei — era um momento de ensino, ele estava falando sobre o seu Reino e sobre a Palavra de Deus, com toda aquela multidão ouvindo. Então trazem o paralítico para ser curado, o poder está sobre Jesus para isso — e, em vez de dizer "levanta-te e anda", ele diz: "os teus pecados estão perdoados."

Essa aparente desconexão não é um deslize de Lucas. É proposital. E é sobre isso que vamos nos debruçar a seguir.


A Fé que Desce pelo Telhado

Pare comigo por um instante nessa cena, porque ela merece ser saboreada com calma. Imagine a experiência de quem estava lá dentro daquela casa. Jesus ensina, sentado, com fariseus e mestres da lei ao seu redor, atentos a cada palavra. De repente, um pouco de pó começa a cair. As pessoas olham para cima. Estão mexendo no telhado, arrancando telhas, abrindo um vão bem ali, sobre a cabeça de todos.

E então, amarrado por cordas, um homem começa a descer — deitado em seu leito, sendo baixado devagar, entre gritos de "segura, vai, vai, solta com cuidado" — até pousar exatamente no meio da multidão, diante de Jesus. Jesus, por sua vez, apenas observa. Ele não interrompe, não reclama do transtorno, não pede que parem. Ele vê.

E o que ele vê é fé. Não a fé do paralítico apenas — mas a fé daqueles homens que o carregaram. Homens que, diante de um obstáculo aparentemente intransponível — a multidão que bloqueava a porta —, não desistiram. Subiram, abriram caminho por onde ninguém mais pensaria em abrir, e fizeram de tudo para colocar aquele amigo diante de Jesus.

Essa é uma das lições mais silenciosas — e mais poderosas — desse texto: às vezes a fé que move o milagre não é apenas a fé de quem precisa ser curado, mas a fé de quem se dispõe a carregar o outro até o lugar onde o encontro com Jesus pode acontecer. Há pessoas que, sozinhas, jamais chegariam até ali. Precisam de mãos que as levem, de amigos dispostos a subir no telhado, a rasgar o previsível, a se sujeitar ao ridículo de uma cena inusitada, para que o encontro aconteça.

E foi diante dessa fé — a fé coletiva daqueles que se recusaram a aceitar que não havia caminho — que Jesus se voltou para o paralítico e disse a primeira palavra que mudaria tudo: não uma ordem para que se levantasse, mas uma declaração sobre o seu pecado. E é justamente aí, nesse ponto, que a cena se aprofunda — porque, para entendermos o peso dessas palavras, precisamos voltar um pouco no tempo e compreender o que a lei dizia sobre pessoas como aquele homem.


O Defeito Segundo a Lei: Levítico 21 e a Exclusão do Paralítico

Para entendermos o peso do que Jesus fez naquele dia, precisamos voltar até a lei que moldava a mentalidade de todo aquele povo — inclusive dos fariseus e mestres da lei que estavam ali sentados. Em Levítico 21, o Senhor havia dado a Moisés uma instrução específica sobre o sacerdócio:

"Nenhum dos seus descendentes, em quem houver algum defeito, se aproximará para oferecer o pão do seu Deus... seja homem cego, coxo, de rosto mutilado, desproporcionado, ou que tiver o pé quebrado, a mão quebrada, que for corcunda, anão, que tiver defeito nos olhos, sarna, feridas na pele, ou que tiver testículo esmagado — nenhum homem da descendência de Arão, o sacerdote, em quem houver algum defeito, se aproximará para oferecer as ofertas queimadas ao Senhor."

Se você é cristão e ainda não estudou os livros de Hebreus e Romanos, precisa fazê-lo — eles são fundamentais para a sua compreensão do evangelho. Hebreus nos ensina que o templo e tudo o que acontecia nele eram uma parábola, uma figura da verdade que se cumpriria em Cristo. A exigência de que o sacerdote fosse puro e sem defeito físico ao oficiar diante do Senhor era um símbolo: o verdadeiro defeito não era o defeito físico, mas o pecado. Era o pecado que criava separação entre o homem e Deus — e a lei, com sua exigência de pureza corporal, apontava para essa realidade maior.

O problema é que, nos dias de Jesus, essa lei — que dizia respeito especificamente ao sacerdote no templo — havia se tornado, na mentalidade popular, uma regra geral aplicada a todo o povo. Sempre que alguém via uma pessoa paralítica, aleijada, ou cega de nascença, acreditava-se que aquilo era punição por algum pecado.

Isso fica evidente em João 9:1-3. Ali, enquanto Jesus caminhava, viu um homem cego de nascença, e os discípulos perguntaram: "Mestre, quem pecou, para que este homem nascesse cego? Ele ou os seus pais?" E Jesus respondeu: "Nem ele pecou, nem os pais dele, mas isso aconteceu para que nele se manifestassem as obras de Deus."

Essa pergunta dos discípulos revela algo comum ao pensamento do primeiro século: os intérpretes da lei chegavam a acreditar que o feto, ainda no ventre da mãe, já poderia pecar. Era uma crendice profundamente enraizada — ou havia maldição porque a criança pecara no ventre, ou havia maldição porque os pais haviam pecado.

Por isso, o paralítico que desceu pelo telhado carregava consigo mais do que uma limitação física. Ele carregava uma exclusão social e espiritual. Na mente daquela cultura, na crença daqueles que o cercavam, algum pecado — dele ou de seus pais — havia acontecido para que ele nascesse ou se tornasse daquele jeito. Ele não servia para o serviço no templo. As pessoas olhavam para ele e se perguntavam: quem pecou?

E é exatamente sobre essa ferida — mais profunda do que a paralisia das pernas — que Jesus vai falar primeiro.


"Os Teus Pecados Estão Perdoados": A Cura Mais Profunda

Agora você já entende o peso cultural e espiritual que aquele paralítico carregava. E é diante desse peso que a primeira coisa que Jesus diz a ele não é uma ordem para se levantar, mas uma declaração sobre a sua condição mais profunda: "Filho, os teus pecados estão perdoados."

Se isso acontecesse hoje, imagino muita gente reagindo com frustração: "Eu não vim à igreja para ouvir isso. Vim para ver um sinal, vim para ver o milagre acontecer, e o pregador só fala de pecado perdoado? Que culto frio." Mas Jesus estava fazendo, ali, a coisa mais poderosa que pode acontecer a um ser humano: arrancá-lo do reino dos homens e inseri-lo no Reino de Deus. Essa é a verdadeira vida tomando conta de alguém.

Porque eu preciso te dizer uma coisa: tudo isso que vivemos aqui vai acabar. Um dia eu não estarei mais aqui pregando — outra pessoa estará. E no dia em que o Senhor nos chamar, essa será a cura definitiva. Ele pode curar o meu braço que está dolorido hoje. Pode. Mas a cura que Ele promove aqui, nesta vida, é paliativa — é enxugar gelo para melhorar um pouco a nossa condição. A cura que realmente importa é aquela em que este corpo se tornará incorruptível, como disse Paulo em 1 Coríntios 15: revestido de incorruptibilidade, não mais mortal, não mais um corpo que se degenera e se desgasta, sem maldade, sem pecado, no Reino eterno.

Essa é a maior cura que o ser humano pode receber. Paulo disse que enfrentamos inimigos aqui nesta terra, e o último inimigo a ser enfrentado é a morte. Mas nós não somos derrotados quando morremos — somos vencedores, porque prosseguimos eternamente no Reino de Deus.

O que Jesus fez por aquele rapaz — a coisa mais importante que um ser humano pode encontrar — não foi apenas a cura do seu corpo, embora Jesus também a tenha concedido. Foi ser abraçado pelo Reino. Foi tornar-se parte da família de Deus. O perdão é o mais alto grau da cura.

E o nosso problema é que, como nos consideramos perfeitos, não encontramos graça nenhuma no perdão. Como nos sentimos melhores do que aqueles que não são crentes, o perdão perde a sua beleza para nós. Sentamo-nos nas cadeiras dos juízes para julgar os pecados dos outros, e dizemos: "quero outra coisa, me dá uma cura, me dá um milagre, me dá um sinal, para a gente fazer uma festa."

Mas somente os verdadeiros filhos de Deus se enxergam como pecadores — como o leproso da semana passada, que disse: "Senhor, eu sou impuro, se o senhor puder, me purifica." Ou como Pedro, que disse: "Retira-te de mim, porque eu sou um pecador." Somente aqueles que se reconhecem imperfeitos, que dizem: "Miserável homem que sou, quanta besteira passa pela minha cabeça, quanta maldade, quanta inveja, quanta fofoca, quanta sensualidade, quanto pecado passa por dentro de mim, Senhor — eu sou um poço de lixo, preciso da tua misericórdia todos os dias" — somente esses são capazes de dizer: "Aleluia, eu era impuro, e Deus nem podia ficar perto de mim, e eu não podia nem me aproximar dele. Mas ele disse: teus pecados estão perdoados, chega aqui, senta na minha mesa."

Essa é a maior cura. E se você não entende isso, o perdão de Jesus para aquele paralítico não tem graça nenhuma. Se você não compreende o Evangelho do Reino, o ponto central desta passagem, para você, será apenas o fato de o rapaz ter se levantado e andado. Mas se você entende a mente do Deus que entregou o seu Filho para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna, você vai entender que o perdão de Jesus para aquele homem foi a coisa mais poderosa que aconteceu naquele dia.


A Indignação Silenciosa dos Fariseus e Mestres da Lei

Enquanto Jesus pronunciava essas palavras de perdão, algo se movia silenciosamente na mente daqueles fariseus e mestres da lei que estavam sentados ali. Eles não falaram nada em voz alta — apenas pensaram. E o pensamento era este: "Quem é esse que profere blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, a não ser um, que é Deus?"

Imagino a cena: cada um daqueles doutores da lei, individualmente, pensando consigo mesmo, sem saber que os outros pensavam a mesma coisa. E Jesus, conhecendo os pensamentos deles, respondeu diretamente ao que estava em seus corações: "Por que vocês estão pensando assim em seu coração?"

Consigo imaginar o espanto desses homens: "Como é que ele sabe o que estamos pensando? Como é que ele sabe, individualmente, o que cada um de nós está pensando?"

Mas há uma segunda camada nessa indignação silenciosa, que precisamos compreender. Por que a ideia de perdoar pecados provocava tanto incômodo? Porque existia, naquele tempo, um sistema religioso inteiro construído em torno do perdão. Perdão não era algo que se recebia gratuitamente — era algo que se pagava. Chegar ao templo, oferecer o sacrifício, levar o animal sem defeito, ser puro, ser perfeito diante da lei; ou, para quem morava longe, comprar a pomba ou a rolinha no templo, ou entregar o dinheiro correspondente. Esse era o sistema. E quem coordenava esse comércio da reconciliação com Deus era a religião — eram eles.

Por isso, quando Jesus, um homem simples, filho de um carpinteiro, disse "os teus pecados estão perdoados" sem exigir sacrifício, sem exigir oferenda, sem passar pelo sistema, a reação daqueles doutores da lei fazia todo sentido dentro da lógica deles: primeiro, só Deus pode perdoar pecados; segundo, quem deu autorização para esse homem vender perdão fora do nosso sistema, do nosso mercado das indulgências?

Jesus estava, sem que ninguém dissesse uma palavra, colocando o dedo exatamente na ferida mais sensível daquele sistema religioso: o monopólio humano sobre o perdão de Deus.


"O Que É Mais Fácil?" — Jesus Revela os Pensamentos e Demonstra Autoridade

Jesus, porém, conhecendo os pensamentos daqueles homens, não os deixou apenas remoendo a indignação em silêncio. Ele foi direto ao ponto: "O que é mais fácil dizer: os teus pecados estão perdoados, ou dizer: levanta-te e anda?"

Consigo imaginar aqueles doutores da lei, diante dessa pergunta, pensando: "Caramba, como é que ele sabe o que a gente está pensando?" E, no fundo, eles sabiam a resposta. Dizer "perdoados são os teus pecados" é fácil — ninguém está vendo nada, ninguém pode verificar se realmente aconteceu. Difícil mesmo é dizer "levanta-te e anda", porque ali, diante de todos, ficaria evidente se havia poder real ou não.

E Jesus, antecipando exatamente esse raciocínio, disse:

"Mas isso é para que vocês saibam que o Filho do Homem tem autoridade na terra para perdoar pecados..."

Em outras palavras: "Se vocês acham que o mais difícil é mandar alguém se levantar e andar, então eu vou fazer o mais difícil, para que vocês entendam que eu também posso fazer o que consideram mais fácil." E então, virando-se para o paralítico, disse:

"Eu digo a você: levante-se, pegue o seu leito e vá para casa."

Preste atenção no que Jesus estava fazendo ali. Ele não estava apenas realizando um milagre físico para impressionar a multidão. Ele estava demonstrando, diante dos próprios especialistas na lei — homens que conheciam profundamente as Escrituras —, que a sua autoridade para curar era a mesma autoridade para perdoar. Não eram dois poderes distintos, um mais fácil e outro mais difícil de comprovar. Eram manifestações da mesma autoridade divina, apenas uma visível aos olhos humanos e outra não.

Jesus estava, ali, respondendo à pergunta que ecoava silenciosamente no coração daqueles fariseus — "quem é esse que perdoa pecados, senão Deus?" — com uma demonstração que ninguém poderia contestar.


Levanta-te, Toma o Teu Leito e Vai para Casa

Preste atenção nos dois últimos versículos desta cena, porque eles carregam um detalhe que costumamos deixar passar despercebido:

"Imediatamente ele se levantou diante de todos e, pegando o leito em que até então estava deitado, voltou para casa, glorificando a Deus."

Nós damos muita importância — e com razão — ao fato de que ele voltou para casa curado. Mas Lucas não escreveu apenas isso. Ele escreveu que o homem voltou para casa glorificando a Deus. Esse detalhe não é decorativo. Ele nos mostra que aquele homem havia compreendido, no fundo do seu ser, que o que acabara de acontecer com ele não era apenas a restauração das suas pernas — era a restauração da sua relação com Deus.

E o versículo 26 completa a cena:

"Todos ficaram muito admirados e davam glórias a Deus e, cheios de temor, diziam: hoje vimos coisas extraordinárias."

Imagine o que deve ter sido aquele momento. Depois de toda a tensão silenciosa entre Jesus e os fariseus, depois da pergunta retórica, depois da ordem dada — o homem simplesmente se levanta, dobra o próprio leito, e sai andando por entre a multidão. As pessoas que estavam do lado de fora, na calçada, que nem sequer conseguiram entrar na casa por causa do aglomerado de gente, só tinham visto aqueles homens subindo pelo telhado com o paralítico. Agora, veem esse mesmo homem saindo andando, carregando o próprio leito nas mãos.

Ninguém mais perguntaria dali em diante: "Foi ele que pecou, ou foi o pai dele?" Porque Jesus já havia dito: os teus pecados acabaram. E ninguém mais o veria como indigno, como alguém excluído da sociedade ou impuro — porque Jesus nunca o havia visto assim. No momento em que Jesus disse "perdoados estão os teus pecados", o amor de Deus já havia se derramado sobre aquele homem, e ele já estava inserido no Reino de Deus, aleijado ou não. Porque Deus não vê o homem como os homens veem.

A cura física, ali, foi um sinal — um sinal para que os outros pudessem recebê-lo de volta na sociedade. Mas, para Jesus, o que realmente havia acontecido foi o perdão. E o mais interessante é que a multidão, tomada de temor, começou a dar glórias a Deus — ainda que, naquele momento, muitos deles talvez nem compreendessem plenamente a Trindade, nem entendessem que dar glórias a Deus, ali, era reconhecer que o que Jesus fizera era, de fato, obra do próprio Deus.


"Hoje Vimos Paradoxos" — O Sentido do Termo Grego Paradoxos

Quero encerrar essa parte da reflexão me detendo num detalhe que costuma passar despercebido quando lemos essa passagem rapidamente. O versículo 26 diz que o povo, tomado de temor, exclamou: "hoje vimos coisas extraordinárias." Em algumas traduções, você vai encontrar "hoje vimos prodígios"; em outras, "hoje vimos milagres". Mas eu gastei um pouco de tempo estudando essa passagem com mais calma, porque, confesso, meu grego ainda é bastante rudimentar, e queria entender exatamente o que está escrito ali.

A expressão original traz duas palavras: sḗmeron, que significa "hoje", e parádoxa — palavra que, na sua forma declinada no texto, vem de paradoxos. E é exatamente dessa palavra grega que herdamos o nosso termo "paradoxo".

Ou seja: o que o povo estava dizendo, literalmente, era: "hoje nós vimos um paradoxo." Eles estavam reconhecendo que algo inexplicável, algo que contrariava toda a lógica esperada da realidade, havia acontecido bem ali, diante dos seus olhos.

E de fato, era um paradoxo. Ali estava um mestre que falava e agia como Deus, lendo pensamentos, algo que nenhum dos mestres da lei jamais conseguira fazer — e, ainda assim, esse mesmo mestre era um homem simples, filho de um carpinteiro, sem os títulos e as credenciais que aqueles doutores da lei ostentavam. Era um paradoxo porque, enquanto aqueles que se sentavam nos lugares de honra da sinagoga devoravam as casas das viúvas, esse homem simples alimentava as pessoas. Era um paradoxo porque, enquanto os líderes religiosos colocavam cargas pesadas sobre o povo — seiscentos e treze mandamentos e todas as suas interpretações —, esse homem aliviava o peso de quem se aproximava dele.

Era um Deus-homem. Como pode Deus ser homem? Como pode um carpinteiro ser Deus? Ali estava uma realidade paralela, uma outra lógica se manifestando dentro da lógica conhecida — e é justamente esse choque de realidades que vamos explorar a seguir.


O Reino que Contraria o Sistema: Cristo Versus o Culto ao Imperador

Esse paradoxo que a multidão percebeu naquele dia não ficou preso ao primeiro século. Ele continua se manifestando ao longo da história, sempre que colocamos lado a lado dois reinos que operam em lógicas completamente opostas.

Estamos acostumados a ver pessoas orbitando os seus sonhos em torno de lobos, pastores fraudulentos, falsos profetas e líderes inescrupulosos. Isso, infelizmente, é o que nos parece normal. O incomum — o verdadeiro paradoxo — é encontrar uma multidão reunida em torno de alguém que ensina e cura por dentro, e que não é um lobo devorador vestido de pele de cordeiro.

O comum é vermos gente sugada, mastigada até perder o gosto, cuspida, pisada, usada e abusada por aqueles que deveriam servi-la. O paradoxo é encontrar alguém que vem para dar e repartir, uma liderança completamente diferente da que estamos acostumados a testemunhar.

Naquela época, havia um sistema de liderança religiosa entrelaçado com o Império Romano e com a vontade de César — um sistema que escolhia até o sumo sacerdote. Mas a perspectiva que Jesus trazia estava rompida com essa ligação. Era uma outra realidade, uma outra lógica, tão distinta quanto água e óleo, que não se misturam.

Eu já vi muita gente subir pelas paredes para conseguir a atenção ou a misericórdia de um líder religioso ou político. Mas ali, naquela cena, eu vejo gente descendo pelo teto — não subindo pelas paredes. Estou acostumado a ver gente pagando caro para ser perdoada e aceita pelo sistema. Mas ali, eu vejo alguém dando de graça. Há um paradoxo diante dos nossos olhos.

E o mais interessante é que essas pessoas que sobem pelas paredes, que pagam para serem perdoadas ou incluídas, muitas vezes são desprezadas pelos próprios líderes a quem tanto servem. Aquele, porém, não despreza ninguém — aquele nos ama. E o mais incrível é que, mesmo sendo sugados, rejeitados, tendo que implorar e pagar pelo perdão, ainda assim continuamos louvando esses líderes. Cristo, porém, não nos leva a adorar a esses homens — ele nos leva a adorar a Deus.

Naquela época, existia o culto ao imperador. Havia a saudação a César, em que todo romano levantava a mão com a palma para baixo e dizia "Ave César". E, se você acha que isso é coisa distante da nossa realidade, saiba que essa dinâmica se repetiu ao longo de toda a história humana, independentemente de ideologia ou regime. Quando Franco foi ditador na Espanha, muitos cristãos gritavam "Franco, Franco, Franco". Quando Mussolini imitou a saudação romana na Itália, fazendo com que as pessoas gritassem "Duce, Duce" — palavra da qual vem o nosso termo "duque", no sentido de liderança —, muitos cristãos também gritaram. Quando Hitler, inspirado por Mussolini, criou a saudação com a mão erguida e a palma para baixo, muitos cristãos gritaram "Heil Hitler". E essa dinâmica não pertence apenas à direita política: cristãos também gritaram "Che, Che, Che", cristãos também gritaram "Viva Fidel". E, mais perto de nós, cristãos gritam "Lula livre" ou gritam "mito, mito" com a mesma intensidade.

Isso não é novidade, e não pertence a nenhuma ideologia específica. É uma realidade humana: a religião tende a se acomodar a qualquer sistema político que se apresente como divino ou messiânico. Na época de Jesus, acreditava-se que César era divino — havia moedas cunhadas com a inscrição "César Augusto, Filho do Divino Augusto". Quando Jesus perguntou de quem era a imagem gravada na moeda, essa era exatamente a inscrição ali presente. Para os judeus, essa ideia não era totalmente estranha, porque eles também acreditavam que seus próprios reis, como Davi e Salomão, haviam sido ungidos por Deus — e muitos acomodavam essa lógica ao poder de César, chegando a se perguntar se ele também não teria sido colocado ali por Deus. Alguns até usavam o ensinamento de Paulo — de que toda autoridade é instituída por Deus — para justificar a submissão irrestrita a césares, saduceus, fariseus e ditadores de toda espécie, esquecendo que exercer autoridade segundo a vontade de Deus é bem diferente de exercer autoridade segundo os interesses de qualquer poder humano.

Mas naquele dia, no meio de tudo isso, aconteceu um paradoxo: tanto aquele homem que carregava o próprio leito quanto o povo ao redor dele não gritaram o nome de nenhum César. Eles disseram: "glória a Deus."


Conclusão: Hosana ao Rei Verdadeiro

A única saudação verdadeiramente legítima que encontramos nas Escrituras é "Hosana": "Salve, Filho de Deus, bendito o que vem em nome do Senhor." Hosana, que significa algo como "ó, salvador, chegou" — é a única aclamação que não termina em decepção, porque não é dirigida a nenhum César, nenhum Franco, nenhum Duce, nenhum Führer, nenhum líder político ou religioso de ocasião.

Estamos falando aqui de um Evangelho escrito, provavelmente, entre os anos 60 e 70 depois de Cristo — já mais de trinta anos depois da sua morte. Não sabemos exatamente a data, há quem diga que alguns escritos do Novo Testamento sejam posteriores ao ano 70, mas, de qualquer forma, aquela era uma época em que o culto ao imperador, a perseguição, a opressão das leis religiosas e políticas eram uma realidade viva e presente. E, se você parar para pensar, parece que isso foi escrito ontem.

Lucas está dizendo a Teófilo: chegou um outro Rei, e chegou um outro Reino. E é esse Reino que deve orientar toda a sua vida — aquele que perdoa, que retira os nossos defeitos, que são os nossos pecados, e que nos insere no seu abraço de amor e de graça. É a comunidade de Cristo, sem barreiras, sem pátrias. É o Reino de Deus na terra.

Teófilo, o Rei está aqui. E eu espero que você também esteja dentro desse Reino.

Ao longo dos séculos, os escritos de Lucas foram copiados, preservados e chegaram até nós. E hoje, entendendo aquele cenário, colocando essa cena dentro do nosso próprio contexto, aprendemos algo essencial: eu quero, em primeiro lugar, buscar o Reino de Deus e a sua justiça. Eu só vou me curvar diante do Senhor. Eu só vou saudar com "Hosana" aquele que vem em nome do Senhor. A César, apenas a moeda, que é de vida curta — mas a Deus, toda a minha vida.

Que ele cuide de nós, cuide do seu povo, cuide daqueles que são a sua igreja. E que, no meio de tanta loucura, em que césares e Herodes disputam a fatia dos seus interesses, nós possamos viver neste Reino paralelo, este Reino paradoxal, lembrando sempre que o nosso Reino não é deste mundo. Que ele nos mantenha saudáveis, íntegros, limpos, até o dia em que ele nos chamar — porque o seu Reino, para nós, já chegou, e esta vida será apenas uma passagem para a eternidade. E, enquanto estivermos aqui, que ele nos dê forças para continuarmos anunciando que o Senhor é o Rei, e que o Reino é dele, em nome de Jesus. Amém.


Fonte: A Casa da Rocha. 10 - Reino para todos 2: O Paralítico - Zé Bruno - Meu Caro Amigo. https://www.youtube.com/watch?v=C59XRVqOrrM

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