Romanos Cap. 6
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2. A Regeneração: O Significado de Nascer de Novo e a Simbologia do Batismo
Enquanto a justificação trata da posição legal do indivíduo diante de Deus (livre de condenação), o segundo benefício da salvação, a Regeneração, lida com a natureza e a vida interior do ser humano. A justificação, por si só, não garante a transformação moral imediata do caráter; é necessário que ocorra um "novo nascimento" para que virtudes espirituais possam ser desenvolvidas.
A necessidade da regeneração decorre da condição decaída da humanidade. Desde o pecado original, a consequência primária para o ser humano foi a morte espiritual. Conforme descrito em Romanos 5:12, a morte passou a todos os homens por meio do pecado. Portanto, natural e espiritualmente, a humanidade encontra-se morta em seus delitos.
"E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados." (Efésios 2:1)
A regeneração é, portanto, o ato de Deus vivificar aquele que estava morto, concedendo-lhe uma nova vida. Esta é a aplicação prática da ressurreição de Cristo na vida do crente: Ele morreu para garantir o perdão, mas ressuscitou para garantir a nossa justificação e vivificação.
O Conceito de "Nascer de Cima" (Anōthen)
O episódio central para a compreensão deste tema é o diálogo entre Jesus e Nicodemos, registrado no Evangelho de João, capítulo 3. Nicodemos, um fariseu e príncipe dos judeus, reconhece Jesus como um mestre vindo de Deus. A resposta de Jesus, contudo, vai direto ao ponto central da existência humana:
"Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus." (João 3:3)
Para compreender a profundidade desta afirmação, é essencial analisar o termo grego utilizado pelo apóstolo João: anōthen. Segundo os léxicos gregos, esta palavra possui um significado que vai além de simplesmente "de novo" ou "novamente"; ela significa literalmente "de cima", "de um lugar mais alto", ou "de Deus".
Portanto, a regeneração não é uma reencarnação, nem apenas uma segunda oportunidade de viver a mesma vida, mas sim a aquisição de uma nova fonte de vida. Enquanto o nascimento biológico provém dos pais terrenos, o novo nascimento provém de Deus. Aquele que é regenerado passa a ter uma origem celestial. Isso explica a ênfase das Escrituras em afirmar que "aquele que é nascido de Deus não vive na prática (continua) do pecado" (1 João 3:9), pois agora possui uma nova natureza que não se entrega à corrupção do mundo.
A Universalidade da Ignorância Espiritual
O Evangelho de João constrói uma narrativa interessante ao contrastar Nicodemos (capítulo 3) com a Mulher Samaritana (capítulo 4). As diferenças são gritantes:
- Ele é homem, judeu, tem nome, tem boa fama, é religioso e procura Jesus à noite.
- Ela é mulher, samaritana, anônima, tem má fama (vários maridos) e encontra Jesus ao meio-dia.
Apesar das disparidades sociais e morais, ambos compartilham uma característica comum: a ignorância espiritual. Nicodemos questiona como um homem velho pode voltar ao ventre materno; a Samaritana questiona como Jesus tiraria água viva sem ter um balde. O ensino bíblico aqui é claro: seja rico ou pobre, religioso ou imoral, todo ser humano sem Cristo é espiritualmente morto e necessita nascer de cima.
A Simbologia do Batismo e o Mar Vermelho
A regeneração e a nova vida são frequentemente associadas ao batismo. Em Marcos 16:16, a fé e o batismo aparecem interligados na promessa de salvação. Para entender a função simbólica do batismo na regeneração, o apóstolo Paulo utiliza a tipologia da travessia do Mar Vermelho em 1 Coríntios 10:2, afirmando que "todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar".
Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado. (Marcos 16:16)
A geografia bíblica do Êxodo revela um detalhe crucial: Israel, ao chegar em Etã, já estava na entrada do deserto e poderia ter seguido viagem. No entanto, Deus ordenou que voltassem e acampassem diante do mar (Êxodo 14). O propósito divino era estratégico. Se o povo entrasse diretamente no deserto, o exército de Faraó poderia persegui-los e alcançá-los.
Ao fazer o povo atravessar o mar, Deus colocou uma barreira intransponível entre Israel e o Egito. O mar que se abriu para o povo de Deus se fechou sobre os egípcios. Assim, a travessia serviu para aniquilar o perseguidor e impedir o retorno à escravidão.
Espiritualmente, o batismo cumpre esse papel. Quando cremos, somos libertos, mas o "mundo" (tipificado pelo Egito e Faraó) tenta nos perseguir. O batismo representa o rompimento definitivo com o velho homem e com o sistema mundano.
"Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo ressuscitou dentre os mortos pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida." (Romanos 6:4)
Assim como o Mar Vermelho separou Israel do Egito, o batismo marca a separação do crente em relação ao mundo, inaugurando uma nova realidade de vida.
Água e Espírito: Os Meios da Regeneração
Jesus afirmou ser necessário nascer "da água e do Espírito" (João 3:5). Teologicamente, estes elementos representam:
- A Água (A Palavra de Deus): A Bíblia refere-se a si mesma como a semente incorruptível que gera vida (1 Pedro 1:23) e como a lavagem da regeneração (Tito 3:5). É a Palavra que instrui e traça o novo caminho.
- O Espírito (O Espírito Santo): É a habitação divina no interior do homem. A carne não pode agradar a Deus, mas o Espírito Santo capacita o crente a viver em santidade e a mortificar as obras da carne.
A regeneração é, portanto, o milagre interior onde a Palavra de Deus e o Espírito Santo produzem uma nova criatura, apta a viver uma vida que agrada ao Criador.
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A Morte para a Lei e a Liberdade no Espírito
Ao avançarmos dos Evangelhos para as Epístolas, encontramos no apóstolo Paulo uma elaboração teológica detalhada sobre a mudança de relacionamento entre o crente e a Lei Mosaica. Especialmente na carta aos Romanos, Paulo desconstrói a noção de continuidade normativa da Antiga Aliança, apresentando um argumento jurídico e espiritual sobre a liberdade do cristão.
Frequentemente, interpreta-se a expressão "estar debaixo da lei" como uma referência ao legalismo (a tentativa de salvação pelas obras) ou apenas à maldição da lei. No entanto, uma exegese cuidadosa revela que Paulo se refere ao regime da Lei em si. A libertação não é apenas da condenação, mas da tutela da própria administração mosaica.
Não Debaixo da Lei, mas da Graça
Em Romanos 6, o apóstolo trata da santificação e da luta contra o pecado. A base para a vitória sobre o domínio do pecado não é um retorno ao rigor da lei, mas, paradoxalmente, a libertação dela.
"Pois o pecado não os dominará, porque vocês não estão debaixo da lei, mas debaixo da graça." (Romanos 6:14)
Se a ausência da lei significasse licensiosidade ("pecar à vontade"), o argumento de Paulo não faria sentido. Pelo contrário, ele afirma que estar "debaixo da graça" é a condição necessária para que o pecado não domine o crente. A Lei, embora santa, não possuía o poder de transformar o interior humano; ela apenas apontava o dever. A graça, operante na Nova Aliança, fornece o poder para a transformação real.
Veja Romanos 7:2-3
Amarre o Seu Boi Selvagem Custe o Que Custar: O Poder do Domínio Próprio (Êx. 21:28-30; Pv. 25:28)
A Graça Como Ferramenta de Educação e Controle (Tt. 2:11-12)
A visão popular sobre a graça divina muitas vezes a reduz a um mero perdão incondicional, uma espécie de salvo-conduto que encobre falhas contínuas e irresponsabilidades. Contudo, uma análise mais profunda e madura revela que a graça possui um caráter essencialmente pedagógico. Ela não atua apenas como um agente de salvação, mas como uma força educadora que capacita o indivíduo a exercer o domínio próprio e a manter o seu "boi selvagem" sob rigoroso controle.
O texto bíblico, ao instruir sobre a conduta cristã, apresenta de forma cristalina essa dimensão transformadora e disciplinadora:
"Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente." (Tito 2:11-12)
A palavra "educar", neste contexto, carrega o peso prático de instruir, corrigir, estabelecer limites e estruturar o comportamento. A graça divina atua, metaforicamente, como o fornecimento de cordas mais resistentes, pregos e madeiras para que o indivíduo construa uma cerca cada vez mais alta e intransponível ao redor de seus piores instintos. Quando a vontade desenfreada tenta se manifestar — seja através de vícios, desvios éticos, explosões emocionais ou qualquer outra paixão mundana —, é essa educação da graça que fornece a estrutura moral e a força espiritual para negar o impulso.
É fundamental compreender que a ação da graça não elimina magicamente os desejos da carne. O "boi selvagem" não desaparece; a tentação e a inclinação natural para o erro continuam existindo e exigindo vigilância diária. O verdadeiro poder da mensagem cristã não reside na utopia de erradicar o desejo, mas na concessão de autoridade para não ser subjugado por ele.
"Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça." (Romanos 6:14)
Ter a graça como ferramenta de controle é entender que, embora as fraquezas e os impulsos de outrora ainda tentem se rebelar no interior, eles perdem o direito de ditar as ações. O pecado perde a sua soberania. A pedagogia da graça ensina que é perfeitamente possível sentir o ímpeto da ira, da cobiça ou da retaliação e, ainda assim, escolher de forma consciente e fortalecida manter o instinto amarrado. É essa educação contínua que forja um caráter maduro, capaz de desfrutar da verdadeira liberdade sem se tornar escravo de si mesmo.
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