A Responsabilidade Sobre Nossos Impulsos (Êx. 21:28-30)
O livro de Êxodo narra não apenas a saída de um povo da escravidão (do Egito), mas também a estruturação de uma nova sociedade baseada em leis morais, civis e cerimoniais. Dentro do decálogo mosaico e das jurisprudências estabelecidas, há um bloco específico de diretrizes que trata da responsabilidade civil sobre os danos causados por animais. É neste contexto que surge uma das mais profundas e atemporais metáforas sobre o comportamento humano e a responsabilidade individual.
"Se um boi chifrar um homem ou uma mulher, fazendo com que morra, o boi será apedrejado e a carne dele não será comida; mas o dono do boi será absolvido. Mas se o boi já antes costumava chifrar, e o seu dono sabia disso e não o prendeu, e o boi matar um homem ou uma mulher, o boi será apedrejado, e também será morto o seu dono." (Êxodo 21:28-30)
O texto bíblico apresenta duas situações jurídicas distintas. Na primeira, ocorre um incidente imprevisível: um animal, sem histórico de violência, ataca alguém por instinto momentâneo. Sob a ótica da terminologia jurídica, isso se assemelha a um evento culposo, no qual não há intenção, premeditação ou negligência prévia por parte do proprietário. O dono do animal é absolvido de culpa, pois o fato fugia totalmente ao seu controle e ao seu conhecimento prévio sobre o temperamento da criatura.
A segunda faceta da lei, contudo, é rigorosa e punitiva. Ela descreve o cenário em que o animal já possuía um histórico claro de comportamento agressivo — um boi que já costumava escornear — e o seu dono detinha plena ciência desse perigo iminente. A tragédia, neste caso, não ocorre por um mero acidente de percurso, mas pela negligência direta do proprietário que não aprisionou o animal. A penalidade transcende a perda do rebanho; a vida do próprio dono é exigida. Isso tipifica um comportamento doloso pela via da omissão, onde a falta de contenção gera consequências fatais para terceiros.
Trazendo essa jurisprudência milenar para a realidade da mente e do comportamento humano, o "boi selvagem" representa os nossos impulsos não domados, inclinações destrutivas, vícios, explosões de ira ou qualquer traço de caráter que possua potencial lesivo. A lição central não reside em culpar o instinto irracional do animal, mas em imputar a devida e severa responsabilidade àquele que detém o poder e a obrigação de contê-lo.
Culpar o instinto do "boi selvagem" pelas tragédias causadas é um ato de delinquência na atitude da responsabilidade. A obrigação de manter a cerca alta e o animal amarrado é inteiramente do dono. Amarre o boi selvagem, custe o que custar.
Ter ciência de que se possui um temperamento explosivo, uma fraqueza específica ou uma inclinação perigosa exige uma postura proativa de contenção e vigilância. Na esfera da responsabilidade pessoal, não se pode transitar livremente com impulsos destrutivos soltos, esperando que eles não causem danos irreparáveis aos que estão ao redor.
Assim como as legislações civis modernas exigem o uso de focinheiras e coleiras curtas para transitar com cães de grande porte ou de raças com instinto de guarda, a vida em sociedade e a maturidade emocional exigem que o indivíduo construa cercas altas ao redor de suas próprias fraquezas. O texto não orienta a matar o animal previamente, pois ele faz parte da posse do indivíduo. Metaforicamente, enquanto houver vida humana, a natureza falha e os impulsos instintivos continuarão existindo. O boi não morre; ele deve, obrigatoriamente, ser restringido, amarrado e dominado por seu proprietário.
O Boi Selvagem Sobrevive à Conversão (Rm. 7)
Uma das maiores ilusões no processo de transformação pessoal e espiritual é a crença de que uma conversão erradica instantaneamente todas as falhas de caráter e os maus hábitos de um indivíduo. A realidade, contudo, é bastante diferente: o "boi selvagem" não morre no momento em que alguém decide mudar de vida ou abraçar a fé. Ele sobrevive à conversão e continua a habitar o interior humano enquanto houver vida.
O apóstolo Paulo, considerado um dos maiores expoentes do cristianismo, abordou essa tensão interna de forma direta e transparente, evidenciando que a luta contra os próprios instintos é contínua e inerente à condição humana.
"Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. [...] Vejo, porém, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros." (Romanos 7:19, 23)
Essa passagem ilustra que mesmo uma mente transformada enfrenta a resistência de inclinações arraigadas. Quando um indivíduo que possuía tendências à ira explosiva, à maledicência, à compulsão ou a qualquer outro comportamento lesivo inicia sua jornada de regeneração, essas inclinações não desaparecem em um passe de mágica. O boi selvagem continua presente, exigindo atenção constante.
O que a verdadeira conversão e o Evangelho oferecem, portanto, não é a aniquilação imediata dos desejos destrutivos, mas sim um novo conjunto de ferramentas de contenção. Metaforicamente, a graça divina não mata o animal indomável; em vez disso, ela fornece cordas mais grossas, madeira resistente e ferramentas adequadas para que o próprio indivíduo construa uma cerca muito mais alta.
A diferença entre a vida pregressa e a vida transformada não é a ausência de conflitos internos, mas a recusa em deixar o boi correr solto. Sempre que a vontade desenfreada tentar romper as barreiras, o indivíduo dotado de consciência utilizará os recursos que recebeu para amarrar novamente o seu instinto. O boi selvagem fará barulho e tentará se soltar, mas a nova estrutura construída com disciplina e fé garantirá que ele não cause mais destruição por onde passar.
Autoconhecimento: O Desafio de Identificar o Próprio Boi
O processo de dominar os próprios impulsos exige, antes de tudo, a capacidade de identificá-los. Para que uma cerca seja construída de forma eficaz e as cordas sejam ajustadas com a firmeza necessária, é imperativo saber exatamente qual é a natureza do "boi selvagem" que habita o interior. Historicamente, teólogos e pensadores afirmam que a plenitude do entendimento humano passa por algumas premissas fundamentais de conhecimento.
"Um homem precisa conhecer quatro coisas essenciais: o seu Deus, a sua Bíblia, a sua época e a si mesmo."
Conhecer a si mesmo é, frequentemente, o passo mais negligenciado dessa jornada. É um traço comum da natureza humana desenvolver uma grande habilidade para observar, analisar e criticar a vida alheia, enquanto se mantém uma perigosa cegueira em relação às próprias falhas. A verdadeira autoanálise exige a coragem de olhar para as próprias deformidades e admitir a existência de inclinações destrutivas, sejam elas a ira, a maledicência, a compulsão, o orgulho ou qualquer outro comportamento lesivo.
Neste cenário de descoberta, a busca por ajuda profissional e aconselhamento é extremamente válida, mas possui limites claros quanto à execução da mudança.
Um psicólogo, psicanalista ou conselheiro pode ser fundamental para ajudá-lo a identificar o seu boi selvagem, mas a atitude de prendê-lo é uma obrigação intransferível e exclusivamente sua.
Ninguém pode amarrar os instintos de outra pessoa. A responsabilidade da contenção não recai sobre o cônjuge, sobre os líderes espirituais ou sobre os terapeutas. A transferência de culpa para terceiros ou para as circunstâncias é apenas uma forma de manter a porteira aberta para que os próprios vícios continuem causando estragos.
Para que esse autoconhecimento seja genuíno, é necessário abandonar o que se pode chamar de "evangelho da vitrine" e abraçar o "evangelho do espelho". A vitrine representa a projeção, a superficialidade, a busca por aprovação social e a manutenção de aparências. O espelho, por outro lado, reflete a realidade nua e crua do caráter.
O profeta Isaías vivenciou essa transição do olhar externo para o interno de maneira profunda. Ao contemplar a glória e a santidade divinas, a sua reação imediata não foi de exaltação própria, mas de um profundo e doloroso reconhecimento de sua própria condição falha e da necessidade de purificação.
"Então disse eu: Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos." (Isaías 6:5)
Somente ao olhar para o espelho da própria consciência e admitir — sem atenuantes — a ferocidade do próprio "boi selvagem", o indivíduo se torna apto a iniciar o processo de domínio próprio. O autoconhecimento é o diagnóstico; a disciplina contínua será o tratamento.
O Verdadeiro Significado da Liberdade e do Domínio Próprio (Pv. 25:28)
A compreensão contemporânea de liberdade frequentemente a confunde com a permissividade absoluta — a ideia superficial de que ser livre é ceder a toda e qualquer vontade. No entanto, sob a ótica da maturidade emocional e da sabedoria espiritual, a verdadeira liberdade assume um contorno completamente diferente e muito mais exigente.
"Nenhum homem é verdadeiramente livre até que se domine."
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Ser livre não significa estar isento de desejos, instintos, tentações ou inclinações falhas. A liberdade genuína reside na capacidade de compreender a própria natureza e ter a autoridade interna para declarar: "Eu tenho vontades, mas não serei dominado por elas". É o exercício consciente de amarrar o boi selvagem, erguer a cerca e ditar os limites, mesmo quando os impulsos internos estribucham e clamam para extravasar.
A literatura sapiencial ilustra com precisão cirúrgica o perigo da ausência desse autocontrole:
"Como cidade derribada, que não tem muralhas, assim é o homem que não tem domínio próprio." (Provérbios 25:28)
Na antiguidade, uma cidade sem muralhas estava vulnerável a qualquer ataque inimigo, saque ou destruição repentina. Da mesma forma, um indivíduo desprovido de domínio próprio é uma presa fácil para os seus próprios instintos e reações. Ter domínio próprio é possuir a plena consciência da existência de um temperamento instável ou de uma fraqueza latente — seja a ira, a compulsão, o orgulho ou a maledicência — e, ainda assim, possuir a firmeza e as "ferramentas" necessárias para não permitir que essa força assuma o comando das ações.
A indignação, por exemplo, é uma emoção natural. Não se trata de anular os sentimentos, de viver como um ser inerte ou de agir de forma apática diante das injustiças. O desafio real é não perder a razão. Quando o indivíduo se conhece a ponto de perceber que um ambiente, uma conversa ou um gatilho específico servirá de estopim para que o "boi selvagem" arrebente as cordas, o domínio próprio se manifesta na atitude sábia e estratégica de recuar.
Retirar-se de uma discussão acalorada ou de uma situação provocativa, mesmo que isso gere um desconforto social momentâneo, não é um ato de fraqueza. Pelo contrário, representa o nível mínimo de consciência necessária para evitar danos irreparáveis. É a prova cabal de que as rédeas estão nas mãos do dono, e não do animal. O domínio próprio ensina que é preferível suportar a frustração passageira de não reagir do que lidar com a tragédia duradoura de soltar um instinto que, inevitavelmente, machucará outras pessoas e destruirá relações.
Parando de Terceirizar a Culpa (Gn. 4:7)
Um dos comportamentos mais recorrentes do ser humano diante de suas próprias falhas é a terceirização da culpa. Quando o "boi selvagem" escapa e causa estragos — seja através de palavras duras, decisões precipitadas, vícios ou atitudes destrutivas —, a tendência imediata é procurar um bode expiatório. Culpa-se a criação, os pais, o ambiente de trabalho estressante, a falta de oportunidades, o temperamento herdado e, até mesmo, influências espirituais. No entanto, o processo de amadurecimento exige o abandono definitivo dessa postura de vitimização.
A narrativa bíblica de Caim e Abel ilustra de maneira cristalina a responsabilidade individual sobre os impulsos mais sombrios da alma. Antes que a tragédia se consumasse, Caim foi advertido sobre o perigo iminente que habitava em seu interior, um "boi selvagem" alimentado pela inveja e pela rejeição.
"Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo." (Gênesis 4:7)
O texto é taxativo: o instinto destrutivo espreita e deseja dominar, mas a obrigação de subjugá-lo pertence única e exclusivamente ao indivíduo. Caim entrou para a história de forma trágica não porque foi tentado, mas porque se recusou a construir a cerca e a amarrar o seu instinto primitivo quando ainda havia tempo. A falta de contenção resultou no primeiro homicídio registrado na humanidade.
Transferir a responsabilidade para fatores externos é uma forma de justificar a própria negligência em lidar com o que precisa ser tratado. Justificar explosões de ira sob a alegação de possuir um temperamento "sanguíneo", ou culpar as circunstâncias por cedências morais e éticas, é afrouxar as cordas que deveriam manter o instinto contido. A liderança espiritual, a terapia ou o aconselhamento podem fornecer as diretrizes, mostrar como o nó deve ser feito e qual a altura ideal da cerca, mas o ato de amarrar é um esforço estritamente pessoal.
Pare de culpar a organização, a instituição, o patrão ou a família quando você sabia que ceder àquele impulso daria um resultado ruim. A responsabilidade de manter o boi amarrado é sua.
A aceitação dessa verdade é o ponto de virada na vida de qualquer pessoa. Enquanto a culpa for do outro, a mudança nunca ocorrerá, pois ninguém pode consertar um problema que se recusa a assumir como próprio. Assumir a autoria dos próprios desejos — mesmo os mais obscuros — e decidir ativamente dominá-los é o caminho incontornável para uma vida verdadeiramente responsável e equilibrada.
A Graça Como Ferramenta de Educação e Controle (Tt. 2:11-12)
A visão popular sobre a graça divina muitas vezes a reduz a um mero perdão incondicional, uma espécie de salvo-conduto que encobre falhas contínuas e irresponsabilidades. Contudo, uma análise mais profunda e madura revela que a graça possui um caráter essencialmente pedagógico. Ela não atua apenas como um agente de salvação, mas como uma força educadora que capacita o indivíduo a exercer o domínio próprio e a manter o seu "boi selvagem" sob rigoroso controle.
O texto bíblico, ao instruir sobre a conduta cristã, apresenta de forma cristalina essa dimensão transformadora e disciplinadora:
"Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente." (Tito 2:11-12)
A palavra "educar", neste contexto, carrega o peso prático de instruir, corrigir, estabelecer limites e estruturar o comportamento. A graça divina atua, metaforicamente, como o fornecimento de cordas mais resistentes, pregos e madeiras para que o indivíduo construa uma cerca cada vez mais alta e intransponível ao redor de seus piores instintos. Quando a vontade desenfreada tenta se manifestar — seja através de vícios, desvios éticos, explosões emocionais ou qualquer outra paixão mundana —, é essa educação da graça que fornece a estrutura moral e a força espiritual para negar o impulso.
É fundamental compreender que a ação da graça não elimina magicamente os desejos da carne. O "boi selvagem" não desaparece; a tentação e a inclinação natural para o erro continuam existindo e exigindo vigilância diária. O verdadeiro poder da mensagem cristã não reside na utopia de erradicar o desejo, mas na concessão de autoridade para não ser subjugado por ele.
"Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça." (Romanos 6:14)
Ter a graça como ferramenta de controle é entender que, embora as fraquezas e os impulsos de outrora ainda tentem se rebelar no interior, eles perdem o direito de ditar as ações. O pecado perde a sua soberania. A pedagogia da graça ensina que é perfeitamente possível sentir o ímpeto da ira, da cobiça ou da retaliação e, ainda assim, escolher de forma consciente e fortalecida manter o instinto amarrado. É essa educação contínua que forja um caráter maduro, capaz de desfrutar da verdadeira liberdade sem se tornar escravo de si mesmo.
Conclusão: O Esforço Diário Para Manter a Cerca Alta
A jornada em busca do autodomínio não se resume a um evento isolado de conscientização ou a um único momento de decisão. Trata-se, fundamentalmente, de uma disciplina contínua e diária. Compreender que o "boi selvagem" — as nossas fraquezas, instintos destrutivos e falhas de caráter — não morre, mas permanece vivo enquanto houver fôlego de vida, é o princípio básico para a manutenção de uma vida equilibrada e responsável.
O apóstolo Paulo, ao instruir sobre a postura adequada para a reflexão pessoal e a comunhão, estabelece uma regra de ouro para a vida em sociedade e para a espiritualidade saudável:
"Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice." (1 Coríntios 11:28)
Esse autoexame constante é a ferramenta que garante que as cordas não estão afrouxando e que a cerca não está cedendo. Avaliar a si mesmo significa ter a coragem de olhar para o próprio interior diariamente e verificar se o instinto está devidamente contido. Além disso, a manutenção dessa estrutura de proteção exige uma análise criteriosa dos ambientes e das companhias. Frequentar lugares ou cultivar amizades que estimulam os piores impulsos é o equivalente a baixar deliberadamente a cerca de contenção, facilitando que o animal selvagem escape e cause destruição.
A verdadeira liberdade, portanto, não é a ausência de amarras, mas a capacidade conquistada de amarrar o próprio "boi". O esforço de utilizar a madeira, os pregos e as cordas fornecidas pela graça divina deve ser renovado a cada manhã. Custa renúncia, custa o abandono da vitimização e exige o sacrifício do próprio ego, mas é o único caminho para não ser feito de refém por si mesmo.
Amarre o seu boi selvagem, custe o que custar. Que a construção dessa cerca seja o seu compromisso inegociável, garantindo que as suas atitudes reflitam não a força bruta dos seus impulsos, mas a firmeza inabalável do seu domínio próprio.
Pr. Adson Belo. Amarre o boi selvagem. Custe o que custar! | Pr. Adson Belo. https://www.youtube.com/watch?v=uDpN8YbDSUo