Lucas Cap. 4
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A segunda tentação relatada por Lucas desloca o foco da necessidade física imediata para a esfera da autoridade e do poder político. O diabo leva Jesus a um lugar elevado e, "mostrando-lhe num momento todos os reinos do mundo", faz a oferta:
"Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue, e a dou a quem eu quiser. Portanto, se prostrado me adorares, toda será tua."
(Lucas 4:6-7)
Essa proposta era profundamente sedutora dentro do contexto da época. O povo de Israel vivia sob ocupação romana e esperava fervorosamente um Messias político, um líder que, conforme a interpretação popular das profecias (como a de Isaías 9), restabeleceria a soberania de Israel e governaria sobre as nações. A oferta de Satanás parecia ser a realização imediata dessa esperança, um atalho para o que muitos consideravam o destino messiânico.
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A resposta de Jesus, no entanto, expõe a armadilha.
Jesus rejeita categoricamente um reino terreno obtido através da submissão a qualquer outra autoridade que não seja Deus.
O reino que Cristo veio estabelecer não era terreno, político ou referente a Roma e César. Essa tentação persiste naquilo que pode ser descrito como a "tentação evangélica" de buscar o poder temporal. A ideia de que a fé deve ser imposta através do governo, de que a igreja deve "ocupar espaços" de poder político, ou a canonização de líderes políticos como "ungidos" para trazer o reino de Deus, reflete essa mesma lógica.
A palavra grega para "dar culto ou prestar culto" (λατρεύω - latreuo) implica um serviço sacerdotal, um ato de sacrifício e obediência exclusiva. Jesus escolhe o caminho do servo, como descrito em Filipenses 2 — esvaziando-se de sua glória divina para obedecer — em vez de aceitar o domínio humano que exigiria a perversão de sua adoração. Ele reafirma que o poder político não é o método nem o objetivo do Reino de Deus.
Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus, que, mesmo existindo na forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus algo que deveria ser retido a qualquer custo. Pelo contrário, ele se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos seres humanos. E, reconhecido em figura humana, ele se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. (Filipenses 2:5-8)
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A terceira tentação, na narrativa de Lucas, ocorre no ponto mais alto do templo em Jerusalém. Nela, o diabo utiliza a própria Escritura para fundamentar sua proposta:
Satanás cita o Salmo 91 (versículos 11 e 12), um texto frequentemente associado à proteção divina. A tentação aqui é a do espetáculo, a de forçar Deus a intervir publicamente para validar a identidade de Jesus. Seria uma prova incontestável de seu status messiânico, realizada diante do centro religioso de Israel.
Porque aos seus anjos
ele dará ordens a seu respeito,
para que guardem você
em todos os seus caminhos.
Eles o sustentarão
nas suas mãos,
para que você não tropece
em alguma pedra. (Salmos 91:11-12)
Essa abordagem reflete uma mentalidade humana comum: a busca por poder espiritual através de "jeitos certos" de orar, jejuar ou louvar, com o objetivo de obrigar Deus a realizar a vontade do indivíduo. É a tentativa de transformar a fé em uma fórmula, onde o ser humano dita a hora, o local e o método, e Deus deve cumprir o prometido.
Jesus, contudo, recusa-se a testar o Pai. Sua resposta vem novamente de Deuteronômio: "Dito está: Não tentarás o Senhor teu Deus" (Lucas 4:12), uma referência direta ao episódio em Massá, onde os israelitas testaram a Deus.
— Não ponham à prova o Senhor, seu Deus, como o fizeram em Massá. (Deuteronômio 6:16)
Jesus expõe a manipulação na citação de Satanás. A promessa do Salmo 91 se aplica àqueles que andam nos caminhos de Deus e tropeçam acidentalmente; não é um salvo-conduto para se jogar deliberadamente do perigo, exigindo uma intervenção milagrosa. A fé que exige provas espetaculares para crer não é confiança, mas uma tentativa de domínio. Jesus opta pela obediência ao invés da demonstração de poder, recusando-se a usar seu relacionamento com o Pai como um espetáculo para validar sua autoridade.
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Observe o contraste: na sinagoga, o reconhecimento da autoridade de Jesus (pelo demônio) é um ato de declaração, mas sem submissão. Na casa de Pedro, a mulher é curada de uma "grande febre" — uma condição opressora que a deixava prostrada e incapaz.
Enquanto o endemoniado, mesmo declarando "Tu és o Santo de Deus", não desejava ter seu caminho mudado, a sogra de Pedro demonstra o oposto. A sua resposta à cura não é uma declaração teológica; é uma ação imediata. O texto diz que ela "levantando-se logo, servia-os."
A autoridade de Jesus, quando verdadeiramente recebida, não resulta apenas em admiração ou em declarações verbais; ela resulta em transformação que leva ao serviço. O endemoniado queria que Jesus fosse embora; a sogra de Pedro O serve.
Muitas vezes, a religião institucional, como a sinagoga daquela época, pode ficar presa em declarações corretas sobre Deus, sem produzir a verdadeira resposta do Reino, que é o serviço nascido da gratidão. A sogra de Pedro, por outro lado, sem fazer nenhuma grande confissão pública, encarna a essência do discipulado: ser liberto por Cristo para servir a Cristo e aos outros.
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Jesus, mais uma vez, silencia a confissão teologicamente correta ("Tu és o Cristo, o Filho de Deus"). Por quê? Porque um dia, o próprio Jesus advertiria sobre aqueles que usam Seu nome, mas não O conhecem. O reconhecimento verbal, mesmo acompanhado de poder, não é garantia de salvação ou intimidade com Deus.
Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.
Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas?
E, então, lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade.
(Mateus 7:21-23, Almeida Revista e Corrigida)
Este é o perigo que Lucas começa a ilustrar em Cafarnaum. O sistema religioso, e até mesmo os demônios, podem identificar o poder de Jesus. Eles podem ver os sinais e até mesmo "usar" o nome d'Ele para validar suas próprias posições. No entanto, o Reino de Deus não se baseia em quem realiza os milagres mais impressionantes ou faz as declarações de fé mais altas.
Os demônios reconhecem Jesus, mas se opõem a Ele. Da mesma forma, muitos podem se apegar aos sinais — às curas, aos exorcismos, às demonstrações de poder — e usá-los para "capitalizar" sua própria autoridade, construindo seus próprios reinos. Eles têm a declaração nos lábios, mas o coração, como o dos fariseus, está longe. Jesus não se impressiona com isso; Ele busca aqueles que dão fruto e praticam a vontade do Pai.
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Depois de um dia de demonstrações inegáveis de poder — ensinando com autoridade, expulsando demônios e curando multidões —, a reação do povo é previsível: eles querem mais daquilo. Eles viram os sinais e queriam manter o realizador de milagres por perto.
Este é um momento decisivo. As pessoas estavam fascinadas pelos sinais (as curas, os exorcismos), mas Jesus declara que Sua missão é algo maior: anunciar o Evangelho do Reino de Deus.
Os sinais não eram o fim em si mesmos; eles eram sinais do Reino. Cada milagre era uma demonstração de como é o Reino de Deus: um lugar onde a doença é curada, os cativos são libertos (dos demônios) e a ordem da criação é restaurada. No entanto, o povo se apegou ao efeito (a cura) e ignorou a causa (o Reino).
Jesus se retira para um lugar deserto. Isso é simbólico. O deserto, na Bíblia, é frequentemente um lugar de provação, mas também de revelação e pureza, longe das estruturas de poder corrompidas (como o Templo e, neste contexto, a sinagoga).
A multidão O segue até o deserto, querendo retê-Lo. Eles preferiam um Cristo que ficasse em Cafarnaum resolvendo seus problemas imediatos. Mas Jesus recusa ser apenas um curandeiro local. Ele afirma que Sua prioridade é a pregação do Reino, pois "para isso fui enviado". Para Jesus, os sinais validavam a mensagem, mas a mensagem era o mais importante.
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Comentários do capítulo
5. As Tentações de Cristo e o Deserto da Vontade Humana (Lucas 4:1-13)