A Narrativa Histórica: A Dualidade entre Aliança e Rebelião
Ao receber a palavra para sua defesa, Estêvão não responde diretamente às acusações de blasfêmia com negativas simples. Em vez disso, ele inicia uma magistral retrospectiva histórica, dirigindo-se aos acusadores como "irmãos e pais". Essa abordagem demonstra não apenas seu profundo conhecimento da Torá, mas também estabelece uma base comum: todos ali compartilham a mesma herança e a mesma aliança.
No entanto, a narrativa de Estêvão carrega um subtexto teológico perigoso para o Sinédrio. Ele constrói a história de Israel evidenciando um padrão cíclico de comportamento: a iniciativa graciosa de Deus em levantar libertadores e a resposta consistente do povo em rejeitá-los.
A Aliança com Abraão e a Providência sobre José
O discurso começa com Abraão, o pai da fé. Estêvão destaca que o "Deus da glória" apareceu a Abraão ainda na Mesopotâmia, fora da Terra Prometida, sublinhando que a presença de Deus não está confinada a um território geográfico específico. A promessa da terra e a aliança da circuncisão foram dadas antes que houvesse templo ou lei codificada.
A narrativa avança para os doze patriarcas, filhos de Jacó. Aqui, Estêvão introduz o primeiro grande exemplo de rejeição a um escolhido de Deus: José.
"Os patriarcas, invejosos de José, venderam-no para o Egito; mas Deus estava com ele e o livrou de todas as suas aflições..." (Atos 7:9-10)
O ponto central de Estêvão é a ironia divina: os irmãos rejeitaram José, vendendo-o como escravo, mas foi justamente através de José — aquele que eles desprezaram — que Deus proveu sustento e salvação para a família durante a fome. Aquele que foi resistido tornou-se a pedra angular da sobrevivência do povo.
Moisés: O Libertador Rejeitado
A maior parte da argumentação de Estêvão concentra-se na figura de Moisés. A escolha é estratégica, visto que ele fora acusado de blasfemar contra Moisés. Estêvão descreve o nascimento de Moisés em um tempo de opressão, sua educação na sabedoria egípcia e, crucialmente, sua primeira tentativa de defender seus irmãos hebreus.
Quando Moisés tentou intervir em uma briga entre dois israelitas, sua liderança foi questionada imediatamente:
"Mas o que agredia o seu próximo o repeliu, dizendo: Quem te constituiu autoridade e juiz sobre nós?" (Atos 7:27)
Estêvão enfatiza que Moisés foi rejeitado por seu próprio povo antes de fugir para Midiã. Quarenta anos depois, no episódio da sarça ardente, Deus envia esse mesmo homem de volta ao Egito. A retórica de Estêvão torna-se afiada:
O homem que o povo rejeitou ("Quem te constituiu chefe?"), Deus enviou como chefe e libertador.
Moisés operou prodígios e sinais, guiando o povo pelo deserto.
Moisés prometeu que Deus levantaria outro profeta semelhante a ele (uma alusão clara a Cristo).
A Inclinação à Idolatria
Apesar da libertação, a "Igreja no deserto" (a congregação de Israel) não permaneceu fiel. Estêvão recorda que, em seus corações, eles "voltaram para o Egito". A rejeição à liderança visível de Moisés (quando este estava no Monte Sinai) resultou na fabricação do Bezerro de Ouro.
"Fizeram um bezerro naqueles dias, ofereceram sacrifício ao ídolo e se alegravam com a obra das suas mãos. Mas Deus se afastou e os entregou ao culto do exército do céu..." (Atos 7:41-42)
Estêvão conecta esse evento antigo ao exílio na Babilônia, citando os profetas para demonstrar que a idolatria — seja a Moloque ou a outros deuses estelares — foi a causa do juízo divino.
O argumento implícito é devastador: historicamente, os verdadeiros "blasfemadores" contra Moisés e contra Deus não foram os profetas perseguidos, mas os próprios antepassados dos que agora julgavam Estêvão. Havia duas linhagens claras na história de Israel: a linhagem da providência divina (Abraão, José, Moisés) e a linhagem da rebelião (os patriarcas invejosos, os hebreus que rejeitaram Moisés, os adoradores do bezerro). Estêvão estava preparando o terreno para identificar em qual dessas linhagens o Sinédrio se encontrava.
2 E eledisse: Varõesirmãos e pais, ouvi. O Deus da glóriaapareceu a Abraão, nossopai, estando na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã,3 e disse-lhe: Sai da tuaterra e dentre a tuaparentela e dirige-te à terraque eu te mostrar.
15 E Jacódesceu ao Egito e morreu, ele e nossospais;16 e foramtransportadosparaSiquém e depositados na sepulturaqueAbraãocompraraporcertasoma de dinheiroaosfilhos de Hamor, pai de Siquém.
17Aproximando-se, porém, o tempo da promessaqueDeustinhafeito a Abraão, o povocresceu e se multiplicou no Egito;18atéque se levantououtrorei, quenãoconhecia a José.
31Então, Moisés, quandoviuisto, se maravilhou da visão; e, aproximando-se paraobservar, foi-lhedirigida a voz do Senhor,32dizendo: Eu sou o Deus de teuspais, o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó. E Moisés, todotrêmulo, nãoousavaolhar.
35 A esteMoisés, ao qualhaviamnegado, dizendo: Quem te constituiupríncipe e juiz? A esteenviouDeuscomopríncipe e libertador, pelamão do anjoquelheaparecera no sarçal.
38Este é o queesteveentre a congregação no deserto, com o anjoquelhefalava no monteSinai, e comnossospais, o qualrecebeu as palavras de vidapara no-lasdar.
39 Ao qualnossospaisnãoquiseramobedecer, antes o rejeitaram e, em seucoração, se tornaram ao Egito,40dizendo a Arão: Faze-nosdeusesquevãoadiante de nós; porque a esseMoisés, quenostirou da terra do Egito, nãosabemos o quelheaconteceu.
42MasDeus se afastou e os abandonou a queservissem ao exército do céu, comoestáescrito no livrodosprofetas: Porventura, me oferecestesvítimas e sacrifícios no desertoporquarentaanos, ó casa de Israel?
43Antes, tomastes o tabernáculo de Moloque e a estrela do vossodeusRenfã, figurasquevósfizestespara as adorar. Transportar-vos-ei, pois, paraalém de Babilônia.
44Estavaentrenossospais no deserto o tabernáculo do Testemunho (comoordenaraaquelequedisse a Moisésque o fizessesegundo o modeloquetinhavisto),45 o qualnossospais, recebendo-o também, o levaramcomJosué, quandoentraram na possedasnaçõesqueDeuslançouparafora da presença de nossospais, atéaosdias de Davi,46queachougraçadiante de Deus e pediuquepudesseachartabernáculopara o Deus de Jacó.
47 E Salomãolheedificoucasa;48mas o Altíssimonãohabita em templosfeitospormãos de homens, comodiz o profeta:49 O céu é o meutrono, e a terra, o estradodosmeuspés. Quecasa me edificareis, diz o Senhor, ou qual é o lugar do meurepouso?
52 A qualdosprofetasnãoperseguiramvossospais? Atémataram os queanteriormenteanunciaram a vinda do Justo, do qualvósagorafostestraidores e homicidas;53vósquerecebestes a leiporordenaçãodosanjos e não a guardastes.
55Masele, estandocheio do EspíritoSanto e fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus e Jesus, queestava à direita de Deus,56 e disse: Eisquevejo os céusabertos e o Filho do Homem, queestá em pé à mãodireita de Deus.
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A Narrativa Histórica: A Dualidade entre Aliança e Rebelião
Ao receber a palavra para sua defesa, Estêvão não responde diretamente às acusações de blasfêmia com negativas simples. Em vez disso, ele inicia uma magistral retrospectiva histórica, dirigindo-se aos acusadores como "irmãos e pais". Essa abordagem demonstra não apenas seu profundo conhecimento da Torá, mas também estabelece uma base comum: todos ali compartilham a mesma herança e a mesma aliança.
No entanto, a narrativa de Estêvão carrega um subtexto teológico perigoso para o Sinédrio. Ele constrói a história de Israel evidenciando um padrão cíclico de comportamento: a iniciativa graciosa de Deus em levantar libertadores e a resposta consistente do povo em rejeitá-los.
A Aliança com Abraão e a Providência sobre José
O discurso começa com Abraão, o pai da fé. Estêvão destaca que o "Deus da glória" apareceu a Abraão ainda na Mesopotâmia, fora da Terra Prometida, sublinhando que a presença de Deus não está confinada a um território geográfico específico. A promessa da terra e a aliança da circuncisão foram dadas antes que houvesse templo ou lei codificada.
A narrativa avança para os doze patriarcas, filhos de Jacó. Aqui, Estêvão introduz o primeiro grande exemplo de rejeição a um escolhido de Deus: José.
O ponto central de Estêvão é a ironia divina: os irmãos rejeitaram José, vendendo-o como escravo, mas foi justamente através de José — aquele que eles desprezaram — que Deus proveu sustento e salvação para a família durante a fome. Aquele que foi resistido tornou-se a pedra angular da sobrevivência do povo.
Moisés: O Libertador Rejeitado
A maior parte da argumentação de Estêvão concentra-se na figura de Moisés. A escolha é estratégica, visto que ele fora acusado de blasfemar contra Moisés. Estêvão descreve o nascimento de Moisés em um tempo de opressão, sua educação na sabedoria egípcia e, crucialmente, sua primeira tentativa de defender seus irmãos hebreus.
Quando Moisés tentou intervir em uma briga entre dois israelitas, sua liderança foi questionada imediatamente:
Estêvão enfatiza que Moisés foi rejeitado por seu próprio povo antes de fugir para Midiã. Quarenta anos depois, no episódio da sarça ardente, Deus envia esse mesmo homem de volta ao Egito. A retórica de Estêvão torna-se afiada:
A Inclinação à Idolatria
Apesar da libertação, a "Igreja no deserto" (a congregação de Israel) não permaneceu fiel. Estêvão recorda que, em seus corações, eles "voltaram para o Egito". A rejeição à liderança visível de Moisés (quando este estava no Monte Sinai) resultou na fabricação do Bezerro de Ouro.
Estêvão conecta esse evento antigo ao exílio na Babilônia, citando os profetas para demonstrar que a idolatria — seja a Moloque ou a outros deuses estelares — foi a causa do juízo divino.
O argumento implícito é devastador: historicamente, os verdadeiros "blasfemadores" contra Moisés e contra Deus não foram os profetas perseguidos, mas os próprios antepassados dos que agora julgavam Estêvão. Havia duas linhagens claras na história de Israel: a linhagem da providência divina (Abraão, José, Moisés) e a linhagem da rebelião (os patriarcas invejosos, os hebreus que rejeitaram Moisés, os adoradores do bezerro). Estêvão estava preparando o terreno para identificar em qual dessas linhagens o Sinédrio se encontrava.