João Cap. 3
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1. O Dilema de Nicodemos: Quando a Religiosidade Não é Suficiente
O registro do encontro entre Jesus e Nicodemos, narrado no terceiro capítulo do Evangelho de João, estabelece um dos diálogos mais profundos e fundamentais de toda a teologia cristã. Este episódio não apresenta apenas um confronto de ideias, mas o colapso de toda a estrutura religiosa humana diante da exigência divina. Para compreender a magnitude do imperativo "nascer de novo", é necessário, primeiramente, entender quem era o homem que recebeu essa mensagem.
As Credenciais de um Líder Religioso
Nicodemos não era um homem comum, tampouco um buscador superficial. Ele representava o pináculo do sucesso religioso, moral e social de sua época. O texto bíblico o descreve com títulos e qualificações que, aos olhos humanos, garantiriam sua entrada imediata no Reino de Deus.
Ele pertencia ao grupo dos fariseus. Embora o termo tenha adquirido uma conotação pejorativa na cultura moderna, historicamente, os fariseus eram os "separados". Eram homens dedicados à pureza, à observância estrita da Lei de Moisés e à preservação da identidade judaica contra a assimilação cultural. Eram ortodoxos em sua teologia e moralistas em sua prática.
Além de fariseu, Nicodemos era um "príncipe dos judeus", o que indica que ele era membro do Sinédrio, a suprema corte de justiça e o conselho governante da nação judaica. Ele detinha poder político e influência social. Jesus, mais adiante no diálogo, refere-se a ele como "o mestre em Israel", utilizando um artigo definido que sugere uma proeminência singular: ele era uma autoridade teológica reconhecida, um doutor da lei respeitado.
Portanto, Nicodemos possuía o pacote completo da religiosidade humana:
- Ortodoxia teológica: Conhecia as Escrituras.
- Moralidade estrita: Vivia uma vida regrada como fariseu.
- Status elevado: Era um líder governamental e eclesiástico.
A Abordagem Racional e a Resposta Radical
Nicodemos procura Jesus à noite. Se esta escolha foi motivada pelo medo de ser visto associado ao profeta de Nazaré ou pela busca de um momento de silêncio para uma conversa profunda, o texto não explicita, mas revela a cautela de um homem que tem muito a perder.
Sua saudação inicial é respeitosa e lógica. Ele reconhece Jesus como um mestre vindo de Deus, baseando sua conclusão na evidência empírica dos milagres:
"Rabi, bem sabemos que és mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele." (João 3:2)
Nicodemos tenta iniciar um debate teológico de alto nível, de mestre para mestre. Ele valida o ministério de Jesus com base no raciocínio lógico: os sinais sobrenaturais atestam a origem divina.
No entanto, a resposta de Jesus é abrupta e desconcertante. Cristo não agradece o elogio, não comenta sobre os milagres e nem sequer responde diretamente à afirmação de Nicodemos. Jesus interrompe o preâmbulo diplomático para atacar a raiz do problema espiritual de seu interlocutor:
"Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus." (João 3:3)
A Insuficiência da Reforma Moral
A declaração de Jesus desmonta a suposição fundamental de Nicodemos e de toda religiosidade humana: a ideia de que o homem pode, por meio de esforço, estudo e moralidade, ascender até Deus.
Jesus deixa claro que o Reino de Deus não é uma questão de aprimoramento, mas de renascimento. Nicodemos provavelmente acreditava que o Messias viria para reformar as instituições, expulsar os romanos e estabelecer o reino para os judeus fiéis como ele. Ele via a si mesmo como alguém que já estava "dentro", talvez precisando apenas de alguns ajustes ou novos ensinamentos.
A resposta de Cristo estabelece uma barreira intransponível para a natureza humana natural. Ele não diz que Nicodemos precisa orar mais, jejuar mais ou dar mais esmolas. Ele afirma que a própria natureza de Nicodemos é inadequada para o Reino.
Isso ilustra a distinção crucial entre religião e cristianismo bíblico:
- A Religião busca reformar o "velho homem". Ela tenta educar a carne, polir o comportamento e melhorar o indivíduo através de regras e ritos.
- O Evangelho declara que o "velho homem" está condenado e morto em delitos e pecados. Não há reforma possível; é necessária uma nova vida.
Para um homem que dedicou sua vida inteira à construção de um currículo de retidão, ouvir que tudo aquilo era insuficiente para sequer "ver" o Reino de Deus foi um choque devastador. Jesus nivelou o fariseu douto ao publicano e à prostituta: todos carecem da mesma transformação radical e sobrenatural. A melhor versão da natureza humana ainda é carne, e a carne não pode herdar o espírito.
2. A Regeneração: O Significado de Nascer de Novo e a Simbologia do Batismo
Enquanto a justificação trata da posição legal do indivíduo diante de Deus (livre de condenação), o segundo benefício da salvação, a Regeneração, lida com a natureza e a vida interior do ser humano. A justificação, por si só, não garante a transformação moral imediata do caráter; é necessário que ocorra um "novo nascimento" para que virtudes espirituais possam ser desenvolvidas.
A necessidade da regeneração decorre da condição decaída da humanidade. Desde o pecado original, a consequência primária para o ser humano foi a morte espiritual. Conforme descrito em Romanos 5:12, a morte passou a todos os homens por meio do pecado. Portanto, natural e espiritualmente, a humanidade encontra-se morta em seus delitos.
"E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados." (Efésios 2:1)
A regeneração é, portanto, o ato de Deus vivificar aquele que estava morto, concedendo-lhe uma nova vida. Esta é a aplicação prática da ressurreição de Cristo na vida do crente: Ele morreu para garantir o perdão, mas ressuscitou para garantir a nossa justificação e vivificação.
O Conceito de "Nascer de Cima" (Anōthen)
O episódio central para a compreensão deste tema é o diálogo entre Jesus e Nicodemos, registrado no Evangelho de João, capítulo 3. Nicodemos, um fariseu e príncipe dos judeus, reconhece Jesus como um mestre vindo de Deus. A resposta de Jesus, contudo, vai direto ao ponto central da existência humana:
"Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus." (João 3:3)
Para compreender a profundidade desta afirmação, é essencial analisar o termo grego utilizado pelo apóstolo João: anōthen. Segundo os léxicos gregos, esta palavra possui um significado que vai além de simplesmente "de novo" ou "novamente"; ela significa literalmente "de cima", "de um lugar mais alto", ou "de Deus".
Portanto, a regeneração não é uma reencarnação, nem apenas uma segunda oportunidade de viver a mesma vida, mas sim a aquisição de uma nova fonte de vida. Enquanto o nascimento biológico provém dos pais terrenos, o novo nascimento provém de Deus. Aquele que é regenerado passa a ter uma origem celestial. Isso explica a ênfase das Escrituras em afirmar que "aquele que é nascido de Deus não vive na prática (continua) do pecado" (1 João 3:9), pois agora possui uma nova natureza que não se entrega à corrupção do mundo.
A Universalidade da Ignorância Espiritual
O Evangelho de João constrói uma narrativa interessante ao contrastar Nicodemos (capítulo 3) com a Mulher Samaritana (capítulo 4). As diferenças são gritantes:
- Ele é homem, judeu, tem nome, tem boa fama, é religioso e procura Jesus à noite.
- Ela é mulher, samaritana, anônima, tem má fama (vários maridos) e encontra Jesus ao meio-dia.
Apesar das disparidades sociais e morais, ambos compartilham uma característica comum: a ignorância espiritual. Nicodemos questiona como um homem velho pode voltar ao ventre materno; a Samaritana questiona como Jesus tiraria água viva sem ter um balde. O ensino bíblico aqui é claro: seja rico ou pobre, religioso ou imoral, todo ser humano sem Cristo é espiritualmente morto e necessita nascer de cima.
A Simbologia do Batismo e o Mar Vermelho
A regeneração e a nova vida são frequentemente associadas ao batismo. Em Marcos 16:16, a fé e o batismo aparecem interligados na promessa de salvação. Para entender a função simbólica do batismo na regeneração, o apóstolo Paulo utiliza a tipologia da travessia do Mar Vermelho em 1 Coríntios 10:2, afirmando que "todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar".
Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado. (Marcos 16:16)
A geografia bíblica do Êxodo revela um detalhe crucial: Israel, ao chegar em Etã, já estava na entrada do deserto e poderia ter seguido viagem. No entanto, Deus ordenou que voltassem e acampassem diante do mar (Êxodo 14). O propósito divino era estratégico. Se o povo entrasse diretamente no deserto, o exército de Faraó poderia persegui-los e alcançá-los.
Ao fazer o povo atravessar o mar, Deus colocou uma barreira intransponível entre Israel e o Egito. O mar que se abriu para o povo de Deus se fechou sobre os egípcios. Assim, a travessia serviu para aniquilar o perseguidor e impedir o retorno à escravidão.
Espiritualmente, o batismo cumpre esse papel. Quando cremos, somos libertos, mas o "mundo" (tipificado pelo Egito e Faraó) tenta nos perseguir. O batismo representa o rompimento definitivo com o velho homem e com o sistema mundano.
"Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo ressuscitou dentre os mortos pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida." (Romanos 6:4)
Assim como o Mar Vermelho separou Israel do Egito, o batismo marca a separação do crente em relação ao mundo, inaugurando uma nova realidade de vida.
Água e Espírito: Os Meios da Regeneração
Jesus afirmou ser necessário nascer "da água e do Espírito" (João 3:5). Teologicamente, estes elementos representam:
- A Água (A Palavra de Deus): A Bíblia refere-se a si mesma como a semente incorruptível que gera vida (1 Pedro 1:23) e como a lavagem da regeneração (Tito 3:5). É a Palavra que instrui e traça o novo caminho.
- O Espírito (O Espírito Santo): É a habitação divina no interior do homem. A carne não pode agradar a Deus, mas o Espírito Santo capacita o crente a viver em santidade e a mortificar as obras da carne.
A regeneração é, portanto, o milagre interior onde a Palavra de Deus e o Espírito Santo produzem uma nova criatura, apta a viver uma vida que agrada ao Criador.
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2. A Regeneração: O Significado de Nascer de Novo e a Simbologia do Batismo
Enquanto a justificação trata da posição legal do indivíduo diante de Deus (livre de condenação), o segundo benefício da salvação, a Regeneração, lida com a natureza e a vida interior do ser humano. A justificação, por si só, não garante a transformação moral imediata do caráter; é necessário que ocorra um "novo nascimento" para que virtudes espirituais possam ser desenvolvidas.
A necessidade da regeneração decorre da condição decaída da humanidade. Desde o pecado original, a consequência primária para o ser humano foi a morte espiritual. Conforme descrito em Romanos 5:12, a morte passou a todos os homens por meio do pecado. Portanto, natural e espiritualmente, a humanidade encontra-se morta em seus delitos.
"E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados." (Efésios 2:1)
A regeneração é, portanto, o ato de Deus vivificar aquele que estava morto, concedendo-lhe uma nova vida. Esta é a aplicação prática da ressurreição de Cristo na vida do crente: Ele morreu para garantir o perdão, mas ressuscitou para garantir a nossa justificação e vivificação.
O Conceito de "Nascer de Cima" (Anōthen)
O episódio central para a compreensão deste tema é o diálogo entre Jesus e Nicodemos, registrado no Evangelho de João, capítulo 3. Nicodemos, um fariseu e príncipe dos judeus, reconhece Jesus como um mestre vindo de Deus. A resposta de Jesus, contudo, vai direto ao ponto central da existência humana:
"Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus." (João 3:3)
Para compreender a profundidade desta afirmação, é essencial analisar o termo grego utilizado pelo apóstolo João: anōthen. Segundo os léxicos gregos, esta palavra possui um significado que vai além de simplesmente "de novo" ou "novamente"; ela significa literalmente "de cima", "de um lugar mais alto", ou "de Deus".
Portanto, a regeneração não é uma reencarnação, nem apenas uma segunda oportunidade de viver a mesma vida, mas sim a aquisição de uma nova fonte de vida. Enquanto o nascimento biológico provém dos pais terrenos, o novo nascimento provém de Deus. Aquele que é regenerado passa a ter uma origem celestial. Isso explica a ênfase das Escrituras em afirmar que "aquele que é nascido de Deus não vive na prática (continua) do pecado" (1 João 3:9), pois agora possui uma nova natureza que não se entrega à corrupção do mundo.
A Universalidade da Ignorância Espiritual
O Evangelho de João constrói uma narrativa interessante ao contrastar Nicodemos (capítulo 3) com a Mulher Samaritana (capítulo 4). As diferenças são gritantes:
- Ele é homem, judeu, tem nome, tem boa fama, é religioso e procura Jesus à noite.
- Ela é mulher, samaritana, anônima, tem má fama (vários maridos) e encontra Jesus ao meio-dia.
Apesar das disparidades sociais e morais, ambos compartilham uma característica comum: a ignorância espiritual. Nicodemos questiona como um homem velho pode voltar ao ventre materno; a Samaritana questiona como Jesus tiraria água viva sem ter um balde. O ensino bíblico aqui é claro: seja rico ou pobre, religioso ou imoral, todo ser humano sem Cristo é espiritualmente morto e necessita nascer de cima.
A Simbologia do Batismo e o Mar Vermelho
A regeneração e a nova vida são frequentemente associadas ao batismo. Em Marcos 16:16, a fé e o batismo aparecem interligados na promessa de salvação. Para entender a função simbólica do batismo na regeneração, o apóstolo Paulo utiliza a tipologia da travessia do Mar Vermelho em 1 Coríntios 10:2, afirmando que "todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar".
Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado. (Marcos 16:16)
A geografia bíblica do Êxodo revela um detalhe crucial: Israel, ao chegar em Etã, já estava na entrada do deserto e poderia ter seguido viagem. No entanto, Deus ordenou que voltassem e acampassem diante do mar (Êxodo 14). O propósito divino era estratégico. Se o povo entrasse diretamente no deserto, o exército de Faraó poderia persegui-los e alcançá-los.
Ao fazer o povo atravessar o mar, Deus colocou uma barreira intransponível entre Israel e o Egito. O mar que se abriu para o povo de Deus se fechou sobre os egípcios. Assim, a travessia serviu para aniquilar o perseguidor e impedir o retorno à escravidão.
Espiritualmente, o batismo cumpre esse papel. Quando cremos, somos libertos, mas o "mundo" (tipificado pelo Egito e Faraó) tenta nos perseguir. O batismo representa o rompimento definitivo com o velho homem e com o sistema mundano.
"Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo ressuscitou dentre os mortos pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida." (Romanos 6:4)
Assim como o Mar Vermelho separou Israel do Egito, o batismo marca a separação do crente em relação ao mundo, inaugurando uma nova realidade de vida.
Água e Espírito: Os Meios da Regeneração
Jesus afirmou ser necessário nascer "da água e do Espírito" (João 3:5). Teologicamente, estes elementos representam:
- A Água (A Palavra de Deus): A Bíblia refere-se a si mesma como a semente incorruptível que gera vida (1 Pedro 1:23) e como a lavagem da regeneração (Tito 3:5). É a Palavra que instrui e traça o novo caminho.
- O Espírito (O Espírito Santo): É a habitação divina no interior do homem. A carne não pode agradar a Deus, mas o Espírito Santo capacita o crente a viver em santidade e a mortificar as obras da carne.
A regeneração é, portanto, o milagre interior onde a Palavra de Deus e o Espírito Santo produzem uma nova criatura, apta a viver uma vida que agrada ao Criador.
2. Uma Exigência Absoluta: A Natureza Indispensável da Regeneração
A confusão de Nicodemos diante da declaração de Jesus revela o abismo entre a mente natural e a realidade espiritual. Ao ouvir sobre a necessidade de nascer de novo, o mestre de Israel recua para o literalismo biológico, questionando a possibilidade de um homem voltar ao ventre materno sendo já velho. No entanto, Jesus não estava propondo um retorno físico, mas apresentando uma exigência absoluta baseada em duas ordens de existência distintas.
Água e Espírito: O Fundamento Profético
Jesus expande sua explicação afirmando:
"Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus." (João 3:5)
Ao longo da história, muitas interpretações surgiram sobre o significado de "nascer da água" — desde o batismo cristão até o líquido amniótico do nascimento físico. Contudo, dado que Jesus estava falando com um "mestre em Israel", a referência mais coerente aponta para as profecias do Antigo Testamento, especificamente Ezequiel 36, um texto que Nicodemos deveria conhecer profundamente.
A profecia de Ezequiel descreve a Nova Aliança com dois elementos centrais:
- A Água (Purificação): "Então espalharei água pura sobre vós, e ficareis purificados..." (Ez. 36:25). Isso representa a limpeza judicial, o perdão dos pecados e a remoção da imundície moral.
- O Espírito (Transformação): "E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo..." (Ez. 36:26-27). Isso aponta para a implantação de uma nova natureza e a habitação do próprio Deus no homem.
Portanto, nascer da água e do Espírito não é um ritual externo, mas uma operação divina de purificação completa do passado e a infusão de uma nova vida para o futuro.
A Lei da Biogênese Espiritual
Jesus fundamenta a necessidade do novo nascimento em uma lei imutável: a distinção de naturezas. Ele declara:
"O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito." (João 3:6)
Aqui reside o argumento fatal contra a salvação por esforço humano. Jesus estabelece que a natureza determina a capacidade.
- O reino mineral não pode, por si só, tornar-se vegetal.
- O reino vegetal não pode transformar-se em animal.
- Da mesma forma, a natureza humana caída ("carne") não possui a capacidade inerente de elevar-se à natureza divina ("espírito").
"Carne", neste contexto bíblico, refere-se à totalidade da natureza humana sem a graça de Deus — não apenas o corpo físico, mas a mente, a vontade e as emoções afetadas pelo pecado. Jesus ensina que a carne pode ser educada, refinada, moralizada e religiosamente instruída, mas continuará sendo carne.
Não se trata de melhorar a lagarta, mas de transformá-la em borboleta. A evolução ou o aprimoramento do "velho homem" não produz um filho de Deus; apenas produz um pecador mais sofisticado. A entrada no Reino de Deus requer uma nova gênese, uma vida que não provém da linhagem de Adão, mas do alto.
O Imperativo: "Importa-vos"
Diante do espanto de Nicodemos, Jesus reforça:
"Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo." (João 3:7)
A palavra traduzida como "necessário" (ou "importa" em algumas versões) denota uma obrigação lógica e absoluta. Não é uma sugestão para uma vida espiritual mais profunda ("seria bom se você nascesse de novo"), mas o pré-requisito único e inegociável.
Se o céu é um lugar de santidade perfeita e comunhão espiritual, um ser que possui apenas a natureza carnal não apenas não pode entrar lá, como também não seria feliz lá. Assim como um peixe precisa da água para viver e um pássaro precisa do ar, o ser humano precisa da vida de Deus (Zoe) para habitar no Reino de Deus. Sem o novo nascimento, o homem está biologicamente vivo, mas espiritualmente morto, incapacitado de perceber ou desfrutar as realidades celestiais.
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3. A Origem Sobrenatural: A Soberania do Espírito e o Mistério do Vento
Nicodemos, ainda preso à lógica humana, depara-se com um dilema mecânico: "Como pode ser isso?". Sua mente busca um método, um passo a passo ritualístico que ele possa realizar para obter esse novo nascimento. Jesus, contudo, retira o controle das mãos do homem e o devolve inteiramente a Deus, utilizando uma das analogias mais belas e poderosas das Escrituras: o vento.
O Jogo de Palavras Divino
No idioma original do Novo Testamento, o grego, existe um jogo de palavras intencional que enriquece profundamente o ensinamento de Jesus. A palavra Pneuma significa tanto "Espírito" quanto "Vento". Quando Jesus fala, Ele traça um paralelo direto entre a ação do vento físico e a operação do Espírito Santo na regeneração humana.
"O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito." (João 3:8)
Esta comparação estabelece princípios fundamentais sobre como ocorre a salvação, destacando a soberania divina em contraste com a impotência humana.
Soberania e Liberdade Absoluta
A primeira característica destacada por Cristo é a autonomia do vento: ele "assopra onde quer". O vento não obedece a decretos imperiais, não respeita fronteiras geográficas e não pode ser controlado pela tecnologia humana. Ele é livre.
Da mesma forma, o Espírito Santo é soberano na obra da regeneração. O novo nascimento não é produzido pela vontade da carne, nem pela vontade do homem, mas de Deus (João 1:13). Não se pode agendar o novo nascimento para uma data específica, nem fabricá-lo através de manipulação emocional ou coerção religiosa. O Espírito regenera quem Ele quer, quando Ele quer. Ele pode soprar sobre um ladrão na cruz nos últimos instantes de vida ou sobre um jovem religioso como Saulo de Tarso no caminho de Damasco.
Isso humilha o orgulho religioso, pois retira do homem o poder de ser o autor de sua própria salvação. A iniciativa é vertical, descendo do céu para a terra.
O Mistério da Origem e do Destino
Jesus prossegue dizendo: "não sabes de onde vem, nem para onde vai". O vento é invisível. Vemos o movimento das folhas, sentimos a brisa na pele ou a força de um vendaval, mas não vemos o vento em si. Sua origem e seu destino final permanecem um mistério para a observação simples.
O novo nascimento opera nessa esfera de mistério. Não podemos colocar o Espírito Santo sob um microscópio para analisar o momento exato em que a vida divina é infundida na alma humana. É uma operação secreta, interior e invisível aos olhos carnais. Muitas vezes, a própria pessoa que está sendo regenerada não compreende plenamente a teologia do que lhe acontece no momento, apenas percebe que algo mudou fundamentalmente dentro dela.
A Evidência Inegável: "Ouves a sua voz"
Embora a origem seja misteriosa e a natureza invisível, a presença do vento é inegável por causa de seus efeitos. "Ouves a sua voz", diz Jesus. Quando o vento sopra, ele produz som e movimento.
Assim é com o nascido do Espírito. Não vemos o Espírito entrar, mas vemos a transformação que Ele causa.
- O homem que antes amava o pecado passa a detestá-lo.
- Aquele que era indiferente a Deus passa a ter fome da Palavra.
- O coração de pedra torna-se um coração de carne.
A regeneração é invisível em sua causa, mas visível em seus efeitos. Se não há movimento, se não há som, se a vida permanece estagnada na mesma direção carnal de sempre, pode-se concluir que o vento não soprou. O novo nascimento não é uma mera mudança de opinião intelectual; é uma força da natureza divina que altera a trajetória de uma vida, tão perceptível quanto uma tempestade que revira uma floresta.
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A Tipologia do Deserto (Números 21)
Jesus refere-se ao momento em que o povo de Israel, peregrinando pelo deserto, murmurou contra Deus e contra Moisés. Como juízo, "serpentes ardentes" foram enviadas, e suas picadas mortais espalharam a morte pelo acampamento. O veneno corria nas veias do povo, assim como o pecado corre na natureza humana.
Diante do clamor por misericórdia, Deus instruiu Moisés a forjar uma serpente de bronze e hasteá-la sobre uma grande vara. A promessa divina era singularmente simples:
"O SENHOR disse a Moisés: — Faça uma serpente e coloque-a sobre uma haste. Quem for mordido e olhar para ela viverá." (Números 21:8)
Jesus apropria-se desta imagem e a aplica a Si mesmo:
"E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado; Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." (João 3:14-15)
A tipologia é rica e precisa. O bronze, nas Escrituras, é frequentemente associado ao juízo de Deus. A serpente representa o próprio pecado e a maldição. Cristo, o Santo de Deus, "fez-se pecado por nós" na cruz (2 Coríntios 5:21). Ele foi levantado no madeiro, atraindo para Si o juízo que era destinado à humanidade, tornando-se o antídoto divino para o veneno da queda.
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