Mateus Cap. 23
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A Autoridade Pastoral e o Princípio da Submissão Mútua na Igreja
A dinâmica de autoridade dentro da igreja é frequentemente mal compreendida, gerando desequilíbrios que oscilam entre o autoritarismo e a falta de respeito pela liderança. Para compreender a visão bíblica correta, é essencial examinar o texto de Efésios, especificamente o versículo que precede as instruções sobre o casamento.
"Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Deus." (Efésios 5:21)
Muitos ignoram o contexto deste versículo. Embora a Bíblia instrua que as esposas sejam submissas aos seus maridos (v. 22), o versículo 21 estabelece um princípio comunitário: na igreja, como corpo de Cristo, existe um chamado à submissão mútua entre os irmãos. Isso inclui a relação entre o pastor e a congregação.
Infelizmente, o cenário religioso atual apresenta muitos líderes que agem como "reis" de suas congregações. Eles adotam títulos de exclusividade, autodenominando-se "o ungido de Jeová", sugerindo uma casta espiritual superior intocável. Essa postura contradiz o ensino do Apóstolo João, que afirma que todos os cristãos possuem a unção do Santo (1 Jo. 2:20, 27). Embora a Bíblia instrua claramente em Hebreus, 1 Pedro e 1 Timóteo que devemos honrar e respeitar os pastores, esse respeito não deve ser confundido com uma subserviência cega a homens que se isolam em pedestais.
Existem graves problemas quando o pastor prega prosperidade e é o único que prospera, vivendo como um monarca enquanto o rebanho sofre. Líderes que se tornam inacessíveis, que pregam do púlpito mas não se misturam com as "pessoas comuns" da congregação, não refletem o modelo bíblico de pastorado.
A verdadeira autoridade de um pastor não deriva de sua personalidade, de "visões" particulares ou de experiências místicas subjetivas, mas sim de sua fidelidade à gramática da Palavra de Deus.
"Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos." (Mateus 23:8)
A congregação não é uma audiência passiva; ela possui a Bíblia nas mãos. Os membros têm não apenas o direito, mas a responsabilidade de examinar a vida e o ensino de seus líderes à luz das Escrituras. Se um pastor ensina conforme o texto sagrado, ele tem autoridade delegada por Deus. No entanto, se ele se desvia, a igreja — que também é ungida pelo Espírito — tem a autoridade da Palavra para confrontá-lo.
Em última análise, pastores, mestres e evangelistas são, antes de tudo, irmãos. A igreja deve cuidar de seus pastores, observando suas vidas, e os pastores devem pastorear o rebanho, sabendo que também estão sujeitos ao escrutínio das Escrituras e à prestação de contas no corpo de Cristo.
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23. Dízimo e Graça: Da Obrigação Legal à Liberdade de Contribuir (Gn. 14:20; Ml. 3:8-10; 2 Co. 9:7)
A Perspectiva de Jesus: Entre a Prática dos Fariseus e a Essência da Lei
Com a chegada de Jesus, a interpretação da Lei e dos profetas ganha uma nova dimensão, transcendendo a literalidade muitas vezes fria praticada pelas autoridades religiosas da época. Cristo não veio para abolir a Lei, mas para cumpri-la e dar-lhe o seu sentido pleno, muitas vezes confrontando diretamente a hipocrisia dos escribas e fariseus.
Em um dos seus discursos mais contundentes, Jesus aborda a questão do dízimo, não para anulá-lo naquele contexto, mas para reordenar as prioridades espirituais que haviam sido invertidas pela religiosidade da época. Ele aponta para o fato de que os líderes religiosos eram extremamente meticulosos na matemática da entrega, dizimando até mesmo sobre temperos insignificantes, enquanto negligenciavam os pilares fundamentais da vontade de Deus.
"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas." Mt. 23:23
Neste trecho, nota-se que Jesus não proíbe a prática ("não omitir aquelas"), mas deixa claro que a observância externa de um rito, por mais precisa que seja, é vazia se não estiver acompanhada de justiça, misericórdia e fidelidade. A crítica recai sobre a "espiritualidade contábil" que ignora o amor ao próximo.
Para ilustrar ainda mais a diferença entre a obrigação legalista e a postura do coração, Jesus conta a parábola do fariseu e do publicano. Ambos sobem ao templo para orar, mas com atitudes diametralmente opostas. O fariseu, cheio de si, utiliza o dízimo como uma credencial de justiça própria diante de Deus.
"O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo." Lc. 18:11-12
Em contrapartida, o publicano, reconhecendo sua condição de pecador, clama apenas por misericórdia. O veredito de Cristo é revolucionário: quem volta para casa justificado não é aquele que cumpriu a tabela da lei e deu o dízimo, mas aquele que humilhou seu coração.
Isso demonstra que, na perspectiva de Jesus, a obrigação nunca deve se sobrepor ao sentimento genuíno. Ele nunca colocou a regra acima do relacionamento. Embora vivesse em um período de transição — cumprindo a Lei perfeitamente antes da inauguração da Era da Graça na cruz —, seu ensino consistentemente apontava para uma realidade onde o valor da oferta não reside na porcentagem, mas na intenção e na entrega total da vida.
A Distinção Necessária entre Religiosidade e o Reino de Deus
Um dos pontos centrais da narrativa de Lucas é a demarcação clara entre o sistema religioso estabelecido e a realidade do Reino de Deus. Para o observador casual, as duas esferas poderiam parecer idênticas, uma vez que ambas utilizavam as Escrituras, falavam de Deus e frequentavam o Templo. No entanto, Jesus revela que a religiosidade, muitas vezes, atua como um obstáculo à verdadeira fé.
A religião institucional do primeiro século, representada pelos fariseus e saduceus, havia se tornado um sistema de manutenção de poder e satisfação carnal por meio do cumprimento estrito de regras. Havia uma espécie de satisfação egóica na obediência minuciosa a padrões de comportamento que, paradoxalmente, ignoravam os princípios fundamentais de amor, compaixão e misericórdia. Enquanto os religiosos se gloriavam em sua retidão externa, seus corações permaneciam distantes da essência divina.
"Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, a saber: o juízo, a misericórdia e a fé..." (Mt. 23:23)
O Reino de Deus, em contrapartida, é apresentado como um território onde a graça precede o mérito. O embate entre essas duas visões torna-se evidente em episódios como o da cura no sábado. Para os religiosos, a preservação da regra sobre o descanso sabático era mais importante do que a restauração de um homem com a mão ressequida. Jesus, ao curar naquele dia, sublinha que o Reino não é sobre a manutenção de tradições estéreis, mas sobre a libertação e o bem-estar do ser humano sob a vontade de Deus.
- A Religião: Foca no padrão, no modelo de comportamento e na aprovação dos homens. É bélica, busca destruir quem não se enquadra e utiliza o medo como ferramenta de controle.
- O Reino: Foca no caráter, na transformação interior e na submissão amorosa ao Criador. É marcado pela paz, bondade e benignidade.
Essa distinção é crucial para entender a Parábola do Semeador. A religiosidade pode preparar uma "casca" de santidade, mas somente a semente do Reino, quando enraizada em solo fértil, pode produzir frutos que não dependem de pirotecnias ou demonstrações públicas de poder. A religiosidade frequentemente controla a Deus através de agendas e barganhas, enquanto no Reino, o homem reconhece sua condição de servo e se submete à soberania do Senhor.
A incompreensão de Teófilo — e de muitos leitores contemporâneos — reside no fato de que a religião pode existir sem Deus. Ela pode ser uma construção humana para satisfazer necessidades psicológicas e sociais, enquanto o Reino é uma invasão do divino no humano, exigindo não apenas uma mudança de hábitos, mas uma metanoia (mudança de mente) completa.
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A Perspectiva de Jacó Armínio e os Cinco Pontos do Arminianismo
Enquanto o calvinismo se consolidava, surgiu uma voz dissidente dentro da própria igreja reformada holandesa: Jacó Armínio (Jacobus Arminius). Curiosamente, Armínio foi aluno de teólogos calvinistas e iniciou sua carreira defendendo essas doutrinas. No entanto, ao se debruçar sobre as Escrituras para debater contra opositores, ele acabou convencido de que certos pontos do calvinismo rígido estavam equivocados.
Suas ideias foram sistematizadas postumamente por seus seguidores no documento conhecido como Remonstrance (Remonstrância) de 1610. Abaixo, exploramos os cinco pontos do Arminianismo, que funcionam como um contraponto direto aos cinco pontos calvinistas.
1. Graça Preveniente (Prevenient Grace)
O arminianismo concorda com a depravação humana: o homem é pecador e não pode salvar-se sozinho. Contudo, discorda que Deus deixe a humanidade nesse estado de total incapacidade passiva.
A doutrina da Graça Preveniente ensina que Deus libera uma graça que "vem antes" (precede) da salvação, restaurando no homem pecador a capacidade de responder ao chamado de Deus. É como se o "salva-vidas" não apenas tirasse a pessoa da água à força, mas a colocasse em uma posição segura onde ela recupera a consciência e pode escolher segurar a mão do resgatador.
"E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim." (João 12:32)
"Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam." (Atos 17:30)
2. Eleição Condicional (Conditional Election)
Diferente da escolha arbitrária baseada apenas na soberania (calvinismo), o arminianismo defende que a eleição de Deus é baseada na Sua pré-ciência.
Deus, sendo onisciente, sabe desde a eternidade quem irá crer e quem rejeitará o Evangelho. Assim, Ele elege para a salvação aqueles que Ele previu que aceitariam a Cristo livremente através da fé. A condição para a eleição é a fé em Jesus.
"Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo..." (1 Pedro 1:2)
"Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho..." (Romanos 8:29)
3. Expiação Universal (Unlimited Atonement)
Em oposição direta à expiação limitada, Armínio defendia que o sacrifício de Jesus na cruz foi suficiente e intencional para toda a humanidade, e não apenas para os eleitos.
Embora o sacrifício seja suficiente para todos, ele só é eficiente (só salva de fato) aqueles que creem. A morte de Cristo abriu a porta da salvação para o mundo inteiro, tornando a redenção acessível a qualquer um que se arrependa.
"E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo." (1 João 2:2)
"O qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade." (1 Timóteo 2:4)
4. Graça Resistível (Resistible Grace)
Enquanto o calvinista crê que o chamado de Deus é irresistível para os eleitos, o arminiano sustenta que Deus, em Sua soberania, decidiu não violar o livre-arbítrio humano. Portanto, o Espírito Santo convence e chama, mas o ser humano pode, obstinadamente, resistir a esse chamado e rejeitar a salvação.
"Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais." (Atos 7:51)
"Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!" (Mateus 23:37)
5. Possibilidade de Perda da Salvação (Falling from Grace)
Este é o ponto de maior divergência prática. O arminianismo clássico ensina que é possível que um crente verdadeiro, que já experimentou a regeneração, se desvie da fé, deixe de perseverar e, consequentemente, perca a salvação. A segurança da salvação está condicionada à permanência em Cristo.
"Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo... E recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento..." (Hebreus 6:4-6)
"Porque melhor lhes fora não terem conhecido o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado." (2 Pedro 2:21)
Representantes Notáveis:
Historicamente, John Wesley (fundador do Metodismo) foi o grande propagador da teologia arminiana. No cenário contemporâneo, destacam-se o teólogo Roger Olson e a grande maioria das denominações pentecostais, como as Assembleias de Deus.
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