Atos Cap. 1
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Expectativas Frustradas: O Messias Político versus O Príncipe da Paz
Uma das razões centrais para o "tropeço" mencionado por Jesus reside na dissonância entre a agenda divina e a agenda política humana. No contexto do primeiro século, a Palestina estava sob o jugo de Roma. Havia uma expectativa fervorosa, alimentada tanto pelos zelotes quanto pela população comum, de que o Messias surgiria como um libertador militar. Esperava-se um rei que expulsasse os governadores romanos, destituísse os tetrarcas corruptos como Herodes e restabelecesse a soberania nacional de Israel com "mão de ferro".
É plausível imaginar que, no isolamento de sua cela, João Batista nutrisse esperanças semelhantes. Se o Cordeiro de Deus havia chegado, o passo lógico seguinte, na mente judaica da época, seria o julgamento das nações e a instauração visível do trono de Davi em Jerusalém. A lógica era simples: se Ele tem o poder, por que não derruba os tiranos agora?
Essa mentalidade persistiu até os últimos momentos de Jesus na terra. Mesmo após a ressurreição, conforme registrado no livro de Atos, os discípulos ainda perguntavam:
"Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?" (Atos 1:6)
A resposta de Jesus sempre frustrou esse anseio por domínio territorial imediato. Ele deixa claro que o Seu Reino não opera mediante a imposição de força ou coerção política. Enquanto os homens esperavam um movimento que mudasse a sociedade de fora para dentro — através de decretos, guerras e revoluções —, Jesus inaugurou um movimento de dentro para fora.
O Reino de Deus, de fato, possui profundas implicações sociais, econômicas e políticas. Quando um indivíduo é transformado pelo Evangelho, ele passa a repartir o pão, a buscar a justiça e a amar o próximo, o que inevitavelmente impacta a economia e a sociedade ao seu redor. No entanto, isso não acontece através de um sistema imposto "goela abaixo". O Reino não é estabelecido pela espada de César, mas pela cruz de Cristo.
Aqui reside um contraste fundamental sobre a figura do "herói". A cultura humana tende a exaltar heróis que eliminam seus inimigos, que resolvem problemas através da força bruta e que subjugam os opositores. O herói do Reino, contudo, não é aquele que mata para estabelecer a paz, mas aquele que morre para reconciliar os inimigos.
"O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui." (Jo. 18:36)
Jesus frustra a expectativa de um "messias político" porque Ele não veio para reformar o Império Romano, mas para redimir a humanidade da escravidão do pecado — uma tirania muito mais letal do que a de qualquer imperador terreno. Aceitar essa proposta exige abandonar a idolatria pelo poder temporal e abraçar o caminho do serviço e do sacrifício.
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20. A Conversão Radical de Saulo e a Soberania Divina na Vida de Ananias (Atos 9:10-19)
1. A Continuidade da Narrativa: De Lucas a Atos dos Apóstolos
Para compreender a profundidade dos eventos narrados no livro de Atos, é essencial situar-se na linha do tempo histórica e teológica estabelecida pelo autor, Lucas. O médico e historiador dedicou dois volumes ao seu "caro amigo" Teófilo. O primeiro, o Evangelho de Lucas, detalha a vida de Jesus: seu nascimento milagroso, ministério, ensinamentos sobre o Reino de Deus, oposição enfrentada, crucificação e ressurreição.
O segundo volume, Atos dos Apóstolos, inicia-se exatamente onde o primeiro termina: com Jesus ressurreto subindo aos céus e deixando uma comissão clara aos seus discípulos. A missão era expandir o Evangelho partindo de Jerusalém, passando pela Judeia e Samaria, até os confins da terra.
"Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra." (Atos 1:8)
A narrativa de Atos descreve o nascimento da Igreja através do Pentecostes, onde o Deus que antes habitava entre os homens em carne, agora passa a habitar neles em Espírito. A partir desse ponto, observa-se o desenvolvimento da igreja nascente: a reunião no Pórtico de Salomão, a realização de sinais e maravilhas pelos apóstolos, a instituição dos primeiros diáconos para organização ministerial e a vida comunitária marcada pela singeleza de coração e partilha do pão.
Contudo, o crescimento do Evangelho também atraiu perseguição. O texto bíblico relata o martírio de Estêvão, apedrejado com o consentimento de um jovem chamado Saulo. Após esse evento, a perseguição se intensificou, levando discípulos como Filipe a pregarem em Samaria, rompendo as barreiras geográficas e culturais de Jerusalém. É neste cenário de expansão em meio à hostilidade que a figura de Saulo de Tarso ganha destaque central, sendo peça fundamental na divulgação futura da mensagem cristã, ainda que, inicialmente, sua intenção fosse destruí-la.
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1. (Atos 1:8) O Poder para Ser Testemunha: Do Reino Visto ao Reino Vivido